Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

sábado, 4 de agosto de 2012

Dez Anos de Um Casamento


Em abril de 2002 eu dispunha de dinheiro suficiente para comprar um carro novo e estava disposto a fazê-lo. Estava naquela mesma situação na qual milhões de seres humanos se encontram todos os anos, e o que cada um decide fazer neste momento diz muito sobre a personalidade individual, além do aspecto mais óbvio de seus recursos financeiros. Adquiri na época um Land Rover Defender 110 semi-novo, então com apenas 15.000 km rodados. Estou com o mesmo e único carro desde então, um casamento fiel e monogâmico, e não tenho nenhuma intenção de trocá-lo em futuro visível. Já são mais de dez anos de uma relação prazerosa, e o odômetro está prestes a alcançar 200.000 km. Apesar da saúde invejável, o jipão vai ganhar de presente em breve uma revisão caprichada, com troca do óleo do diferencial e da caixa de marchas, substituição de algumas mangueiras e talvez umas buchas de suspensão. Nada além disso. Em todo este tempo, ele deu pouquíssima oficina e nunca me deixou a pé na rua ou na estrada. Ele já me levou com a família aos Parques Nacionais dos Aparados da Serra (RS), do Descobrimento (BA) e da Serra do Cipó (MG). Não foi ainda à Patagônia, mas é questão de tempo. Hoje fiquei me perguntando por que eu o escolhi e estou há tanto tempo com ele. São muitas respostas.

Eu desejava um carro que pudesse levar a minha família de seis pessoas por qualquer tipo de estrada até os recantos mais difíceis da nossa paisagem. O Defender se encaixava nesse perfil. Isso resume apenas as razões objetivas.

O Defender é um projeto de 1983. Suas linhas, hoje bastante ultrapassadas, são retas e passam longe de qualquer vestígio de aerodinâmica. Ostenta o mesmo jeitão de seu antecedente mais antigo, o Land Rover Série 1, lançado em 1948 na Inglaterra. No entanto, tornou-se um ícone da indústria automobilística, assim como o Fusca, o Citroen 2CV, o Jeep Willys e o Ford ModeloT. É o veículo adotado pelo Exército Brasileiro, pelas forças da Nações Unidas e por muitos exércitos de países europeus. É grande, ruim de jogo, precisa de pelo menos uma manobra adicional de vai-e-vem para encaixar-se em uma vaga, e não cabe em qualquer vaga. A embreagem e o freio são duros e a posição do motorista não é das melhores. O nível de ruído interno beira o ensurdecedor e a vedação de água e poeira é sofrível. Por outro lado, leva sete pessoas, sua suspensão quase indestrutível, seu câmbio e sua direção são surpreendentemente macios e a tração integral nas quatro rodas garante estabilidade invejável nas subidas e descidas de serra. É meu transporte seguro na terra, na lama e no asfalto, muitas vezes com meio metro ou mais de água na rua ou atravessando um riacho. Para ele, não tem tempo ruim nem estrada difícil. Mas, claro, existem muitos outros argumentos além dos aspectos meramente mecânicos.

Dirigir um carro grande deixa o motorista sentindo-se um pouco superior ao restante dos mortais. Existe um prazer egoísta e quase inconfessável ao ver motoristas de carros pequenos emparelharem comigo no sinal e ficarem olhando com o rabo do olho o pneuzão aro 16 e tala 265 batendo quase na altura do vidro do outro carro. Nas bolas divididas do trânsito, em geral o “adversário” recolhe e dá passagem, embora nem sempre. Quando usamos de gentileza e cedemos passagem, parece que estamos dizendo: “eu sou grande e forte, mas mesmo assim serei magnânimo e vou deixar você passar”. Pensamentos ridículos, mas reais.

Quando se dirige um Defender na estrada, acontece uma coisa que, creio, não acontece com nenhum outro carro. Toda vez que dois Defenders cruzam um com o outro, os irmãos se cumprimentam com calorosas piscadas de farol. Notar que isso acontece apenas entre Defenders, e não vale para outros modelos da Land Rover como Discoverys, Freelanders ou Range Rovers, os primos ricos e frescos. Muito menos para Pajeros e cia. Já Toyotas Bandeirantes podem ser dignos de nossa simpatia, até porque muitos donos de Defenders começaram por Bandeirantes, e donos de Bandeirantes não raro sonham em ter um Defender.

Donos de Defenders amam a lama e não têm medo de sujar seus carros, (o que não é o caso para a maioria dos donos de Pajeros e Hilux), muito pelo contrário. Poucas coisas são mais prazerosas que atravessar atoleiros fatais para a maioria dos outros carros acionando quando necessário o câmbio reduzido e a trava do diferencial, o que geralmente é dispensável. Ouvir o ronco do turbo-diesel com seu característico acompanhamento de castanholas empurrando o veículo morro acima e lama adentro, ir escorregando e sacolejando, girando o volante com fúria para a esquerda e para a direita para não sair da estrada deixa a maioria das mulheres no banco do carona dando gritinhos nervosos e a nossa adrenalina em níveis de prazer quase sexual. E depois, o orgulho em desfilar por um ou dois dias ostentando as condecorações de lama pelo asfalto da cidade, antes da necessária lavada. E lavou, novo.

Não troco de carro há dez anos por vária s razões. As versões mais novas do carro, além de muito caras, têm uma série de itens de eletrônica embarcada, como ABS, controle de tração e até sensores que informam a profundidade da água do riacho adiante do pára-choque. Fica um sentimento de que os fabricantes do velho e tosco mastodonte sentiram-se inferiorizados em relação a seus concorrentes mais modernos. Mas aderir a essas modernidades implicaria em deixar de confiar nos instintos e na habilidade do piloto em conduzir o bicho. Meio como se fôssemos Luke Skywalker dispensando o capacete da tecnologia e confiando nos instintos para atacar com sua nave o lado sujo da força. Além do quê, toda essa parafernália eletrônica quando enguiça paralisa o carro e castiga o bolso. A mecânica das versões mais antigas é bem mais simples, fácil e barata de reparar. Existe ainda um ideal romântico, incongruente com o fato de se possuir um carro grande e poluidor. Trocar de carro implica em ativar todas as muitas engrenagens da indústria na produção de um novo veículo, com o conseqüente gasto de energia, consumo de matéria prima, eletricidade, combustível e água em sua fabricação. Penso que não se deveria trocar de carro antes de os custos de manutenção ficarem incompatíveis e os defeitos se tornarem freqüentes. Trocas de carro em intervalos pequenos me parecem mais fruto do desejo de ostentar um carro novo para os outros verem do que de razões mais práticas e objetivas, inclusive financeiras. A indústria automobilística sabe manipular com extrema habilidade esses aspectos inconscientes que movem os seres humanos enquanto consumidores de seus produtos. Mas seria hipocrisia minha não reconhecer a minha própria vulnerabilidade a esses apelos, até pelos muitos aspectos não objetivos que acabei de confessar. Mas gosto de pensar que, pelo menos, tento estar consciente deles.

Assim, vamos mantendo nossa longa relação. Imagino-me até bígamo, tendo um carrinho ágil e econômico para circular na cidade, mas mantendo o Defender para subir a serra e viajar. Espero que ele não seja ciumento.


Fazendo graça: Atenção: Não tente fazer isso se seu carro não for um Defender!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Água, Açúcar e Chicotinho: Cinquenta Tons de Cinza.

O topo da lista de best sellers daqui já está reservado para o maior fenômeno editorial mundial depois das sagas de "Harry Potter" e dos vampiros adolescentes. Será lançado este mês no Brasil "Cinquenta Tons de Cinza", da britânica E. L. James, o primeiro volume da trilogia que já abocanhou sozinha 25% do mercado editorial americano. Trata-se de um thriller adocicado com pitadas generosas de erotismo. A sinopse: Jovem ingênua envolve-se     com homem mais velho, um bilionário atormentado, enigmático e bonitão, que acaba por induzi-la a assinar um contrato no qual a heroína se obriga a entregar sua vida e sua sexualidade a seus caprichos sado-eróticos. Cheira a clichê ? Tudo isso em uma linguagem literária sofrível,  e de um ponto de vista bem mulherzinha, segundo asseguram os críticos de ambos os sexos. Mas quem se importa? As mulheres de todo o mundo estão adorando e seus parceiros estão colhendo os frutos, sem terem que descompensar seu nível glicêmico lendo o livro. Parece que, depois da leitura, as mulheres ficam doidas para reproduzir em casa (ou não) as perversões safadinhas da heroína. No entanto, deixem a insulina à mão: a leitura pode vir a ser bastante instrutiva para os marmanjos. Embora a primeira cena de sexo só aconteça na página 100, aguente firme: talvez venhamos a descobrir um pouco sobre como funciona a fantasia erótica feminina e possamos tirar partido disso, com benefícios práticos para os dois lados da cama. Então você, maridão que anda achando o sexo caseiro desenxabido, que tal encomendar logo a trilogia toda para a patroa? Ou para a "outra", quem sabe? Estão previstas mudanças sensíveis acontecendo entre as quatro paredes do quarto  dos casais brasileiros.

Charge fifty shades of grey, cinquenta sombras de grey





Leia mais sobre o livro:
http://www.intrinseca.com.br/site/2012/06/trilogia-cinquenta-tons-de-cinza-entra-em-pre-venda/

O Banco Verde


terça-feira, 24 de julho de 2012

Semana Sabática na Serra, ou O Sr. "Jenessequá"


Saíra-militar (clique nas fotos para ampliar)

Minha tradicional SSS - semana sabática na serra - ficou reduzida a cinco dias este ano, por conta da perspectiva de uma viagem de duas semanas em setembro próximo. Hay que capitalizar-se... Munido de equipamento de fotografia, artigos medico-científicos, material de aquarela e alguns livros, subi a montanha em direção ao nosso sítio na última quarta-feira. Minha mulher só subiria na sexta à noite, depois do trabalho. “Alguém tem que trabalhar nessa casa, afinal”, diria um amante do lugar comum.

Um dos livros que veio na bagagem foi, por coincidência, “Como Ficar Sozinho”, de Jonathan Frenzen e já estou nas últimas páginas. Havia lido um trecho do livro na revista “Piauí” dedicada à FLIP – Feira Literária Internacional de Parati - e gostei de sua preocupação explícita em se fazer claro para o leitor médio e também pelo seu amor à observação de pássaros. Entrevistado recentemente a caminho de Parati, Frenzen tinha a expectativa de poder se entregar, um pouco que fosse, à observação nossa fauna ornitológica. Espero que tenha conseguido. Estabelecidas essas empatias, entrei semana passada na livraria Gutenberg, em Icaraí, atrás de um de seus livros. Acabei levando dois: além do “Como Ficar Sozinho”, o romance “As Correções” me aguarda na prateleira.

Saí-azul (macho)
 Parênteses: bisbilhotar livrarias é um prazer antigo. Quando trabalhava no Centro do Rio, usava a hora do almoço para , quando tinha tempo, visitar uma exposição no Paço, no CCBB ou no Museu de Belas Artes, ou folhear sem compromisso as novidades na “Livraria da Travessa” original, na Travessa do Ouvidor. Hoje, quando as consultas da manhã não me estrangulam o horário do almoço, escapo para a livraria Gutenberg, em Icaraí. Raramente meu cartão de crédito sai ileso. Como conseqüência, a pilha de livros por ler em minha mesinha de cabeceira deve ter mais de uma dúzia, três ou quatro começados. Tenho o hábito de ler um livro de ficção e outro de não ficção simultaneamente, além da sagrada e prazerosa leitura da National Geographic. Às vezes me questiono se a pilha de livros ainda por ler me causa a angústia obsessiva das tarefas pendentes. Muito pelo contrário. A perspectiva de ter tantas coisas interessantes por ler, saber que tenho tantos bons textos me aguardando, me enche de alegria em antecipação dos prazeres futuros. Me aguardando no momento: “1984” de Orwell (começado), “A Menina de Capuchinho Vermelho e Outros Contos de Meter Medo”, de Angela Carter (quase terminado), o ecológico “A História das Coisas’,de Annie Leonard (começado), “Teorias Selvagens”, da argentina Póla Oloixarac e “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman. Todos terão a sua vez. Preciso dar um tempo nas visitas à Gutenberg. Fecha parênteses.

Vissiá
O livro de Frenzen (”Como Ficar Sozinho”) é uma coleção de ótimos ensaios sobre os mais variados assuntos, sempre de um ângulo subjetivo e emocional, sem, no entanto, deixar de lado a objetividade. Ele percorre assuntos como o mal de Alzheimer, que vitimou seu pai, o crescimento econômico chinês e como ele vem atingindo em cheio as reservas naturais e a vida selvagem, o sistema prisional americano e diversos outros temas. Para cada ensaio, Frenzen se envolve pessoalmente com protagonistas reais, deslocando-se local onde a ação se desenvolve. Independente de seus conceitos antecipados (pré-conceitos) em cada assunto, ele acaba por descobrir no palco de cada tema, personagens reais tentando, cada um à sua maneira, fazer a coisa certa, mesmo nos extremos opostos de cada disputa. Frenzen nunca consegue chegar a conclusões panfletárias, acaba ficando em algum lugar no meio do caminho, atolado e emocionalmente envolvido nos aspectos humanos dos protagonistas.

Num de seus ensaios, Frenzen reflete sobre sua decisão de se tornar escritor, num mundo onde a grande maioria das pessoas parece não ter interesse em dispor de seu escasso e precioso tempo para a leitura de romances. Em tempos de TV, internet e cinema, os livros parecem ter perdido espaço como meio para divulgação de novas idéias ou denúncia de situações relevantes que já não tenham sido expostas pela mídia instantânea, que hoje domina a cena. Acredito, no entanto, que nada supera o livro como instrumento que nos faça mergulhar profundamente nos aspectos da subjetividade, daquilo que nos faz seres humanos únicos e ao mesmo tempo compartilhantes de universalidade humana.

xxxxxxxxxx

Gaturamo-bandeira
Conheço muitas pessoas que ficam apavoradas só de imaginarem-se por cinco ou dez dias longe da Internet, dos Shopping Centers, do sinal de celular e de tudo o mais que compõe o turbilhão das grandes cidades, no qual estamos enfiados até o pescoço na maior parte do tempo. A perspectiva de não ter o tempo constantemente ocupado e a atenção saltando freneticamente de galho em galho daquilo que chamamos de vida moderna deixa muita gente com medo de se ver diante de um não-sei-o-quê, que poderia brotar do fundo de si mesmos.

Eu, por meu lado, preciso dessa pausa, preciso travar contato com o Sr. Jenessequá., fazer as pazes e travar amizade com ele. Acreditem: ele é um cara legal. As conversas que tenho com ele me são essenciais. Ele foi meu único companheiro nesses poucos dias aqui sozinho. Já o tédio, esse não existe por aqui. Na verdade, volto sempre com uma ponta de frustração por não ter dado conta de tudo que me havia proposto a fazer, mas nada que me perturbe. É parte da motivação para próximas vindas à serra. Aquarela, por exemplo, dançou. Estudei medicina, li bastante e, principalmente, fotografei muitos pássaros. Flagrei, pela primeira vez, a saíra militar, o gaturamo bandeira, a fêmea do gaturamo serrador (ou ferro-velho) e o tié de topete, além de mais quatro espécies que ainda vou identificar with a little help from my friends do Wiki-Aves. Ornitologicamente falando, a semana foi perfeita. O Frenzen teria gostado de estar aqui.

xxxxxxxxxxx

Pesquisa informal: Faço a você as perguntas que sempre faço aos meus pacientes que flagro lendo um livro na sala de espera de meu consultório: O que você está lendo atualmente? Quais livros estão aguardando em sua mesinha de cabeceira? Você lê mais de um livro ao mesmo tempo?

segunda-feira, 16 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Tiro no pé





Tudo bem então, vamos deixar as coisas bem claras. Nossa relação não passa de um exercício de narcisismo mal disfarçado. Vai dizer que não percebeu? Isso, dito assim, pode ser um tiro no meu pé. Mas prefiro deixar bem claro que o que me leva a escrever e a pintar não carrega nenhum resquício de altruísmo, muito pelo contrário. Quero mais é que você me curta, me like, me ame e, se possível ligue no dia seguinte deixando um comentariozinho no Face ou no Blog: “Foi bom pra mim também”. Mas afinal, não é isso que estamos todos fazendo? Não é o que você faz quando deixa aquele monte de fotos suas com cara de inteligente e olhar cool, cercado de amigos em lugares bacanas? Fala a verdade! Então, não me critique. É patético, reconheço, mas toda vez que eu posto uma aquarela ou um texto como esse aqui no Blog, eu mal posso conter a ansiedade para verificar quantos acessos teve essa página que vos fala, quantos morderam a isca e se deram o trabalho de ler o que escrevi ou olhar o que aquarelei. Como um adolescente que fica contando quantas ele pegou na balada. Mas, me dê um desconto, não é só isso, só pegação sem sentimento. Na verdade, fico muito grato e envaidecido quando alguém, assim como você está fazendo agora, se dá ao trabalho de ler um texto desse tamanho, nesses tempos de twitter e mensagens de duas linhas, no máximo. Li outro dia que pessoas que lêem romances não passam de um por cento da população. Leitores de crônicas e contos não devem ser mais que três, quatro por cento. Portanto, caro leitor, você é uma pessoa rara!

Num buraco um pouco mais embaixo desse aspecto estritamente numérico, existem duas razões mais profundas para eu (me) expor assim o que penso, o que sinto, a maneira particular como vejo o mundo. Quero, de antemão, me desculpar se vou chover no molhado; não fiz nenhuma pesquisa teórica sobre esse assunto que, decerto, já foi e continuará sendo assunto de zilhões de teses de mestrados e doutorados: O que leva alguém a querer de expressar de modo artístico? Vou responder apenas por mim. Uma razão é a perspectiva de que vamos ficar aqui no mundo por um período bem curtinho, no qual poderemos ou não passar adiante o carma e a carga genética que nos foi confiada para, pouco depois, não sobrar nenhum vestígio de nossa breve e insignificante intervenção no universo das coisas palpáveis. Fazendo arte, seja erguendo pirâmides ou escrevendo poesia na parede do banheiro da escola, tentamos prolongar a marca de nossa passagem por uma, dez ou mil gerações. Uma forma ingênua de nos iludirmos em relação à nossa inescapável impermanência.

E outra, que já sugeri ali acima: trata-se de uma solidão que se quer dividir. Lançamos em forma de arte sondas atmosféricas, batiscafos abissais, naves intergalácticas que buscam aflitas descobrir se na sua galáxia íntima, leitor, no seu outro universo individual, existem solidões, angústias, decepções, espantos, alegrias e felicidades como as que existem do lado de cá desse teclado. Quando o que digo e escrevo faz eco aí do seu lado, é assim como quando a gigantesca nave mãe reproduz o chamado musical no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”: a mensagem é um veemente SIM, eu também sinto isso, eu também tenho a mesma dúvida, o mesmo medo, o mesmo assombro. Então, você e eu nos sentimos um pouco menos sós.

Lembra do filme "Contatos Imediatos"? Veja o trailer:

domingo, 8 de julho de 2012

A Rede Azul

Nossa varanda do sítio sobre o Rio Bonito,  pintada ontem au plein air. - Rio Bonito de Cima, Nova Friburgo, RJ

segunda-feira, 2 de julho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Giverny - Um Estranho no Paraíso

No Museu Orangerie, em Paris, estão expostos grandes painéis de Monet retratando as lendárias ninfeias no lago do jardim de sua propriedade em Giverny. O LÓrangerie, com seus salões ovais construídos exclusivamente para abrigá-los, é chamado de "A Capela Sistina do Impressionismo". O lago, os jardins e todo o belíssimo paisagismo que cerca a residência da família de Claude Monet com sua segunda esposa, Blanche Rochedée, foram projetados e construídos pelo próprio pintor como uma obra de arte em si. Ali Monet aliou seu gosto pessoal com uma forte influência estética dos jardins japoneses. O cenário idílico resultante foi o objeto quase exclusivo da obra do artista em sua maturidade. 


Ir a Giverny e ver-me em meio ao cenário original dos quadros que aprendi a admirar e amar era um sonho que consegui realizar há dois anos. A sensação de ultrapassar o portão e ver-me em meio àqueles quadros vivos e admiravelmente conservados foi indescritível. Depois do transe inicial e de muita baba na gravata, consegui fotografar o que se me apresentava aos olhos. Utilizei uma daquelas fotos para inspirar a aquarela abaixo, tentando usar minha maneira particular de interpretar as mesmas cores, reflexos e luzes que no passado inspiraram Monet a criar suas obras primas. Uma humilde homenagem ao mestre.

Giverny


sábado, 23 de junho de 2012

Ana Cláudia


Páginas arrancadas do diário que eu não escrevi aos 19 anos.

Hoje, ao pegar o ônibus no Centro para Icaraí, encontrei com a Ana Cláudia, uma das meninas mais gatas do colégio. Ela estava sentada e eu de pé. Nunca tinha falado muito com ela, mas, apesar da minha timidez irritante, começamos a conversar. Não sei o que deu em mim hoje, pois, apesar de estar conversando com uma menina linda, não gaguejei e nem fiquei sem saber o que dizer. Acho que ela nem percebeu que eu normalmente não sou assim. Será que estou mudando, finalmente? Ainda tive uma sorte enorme, porque a senhora gorda que estava sentada ao lado dela saltou logo no Ingá. Isso significa que eu pude sentar ao lado dela, nem acreditei. Ela falou que no dia seguinte estaria indo com os pais e os irmãos para Marataízes, que é longe à beça, e eu nem sabia que é uma praia no Espírito Santo. Ela vai passar janeiro e fevereiro lá. Primeiro pensei que era muito azar, logo agora que tínhamos feito um contato tão legal. Falei que eu estava indo passar as férias em Friburgo, mas inventei que talvez eu resolvesse ir acampar em outro lugar. Aí ela falou que seria legal se eu aparecesse em Marataízes. Ela me deu o endereço e o telefone da casa de lá num pedaço de folha do caderno dela.

A essa altura, eu já tinha passado muito do ponto de ônibus perto de minha casa, mas eu menti dizendo que ia até a casa de meu amigo Guilherme lá em São Francisco, onde ela mora também. Saltamos na praia e fomos andando até a casa dela, que eu queria saber onde era. No portão, nos despedimos, eu fingindo que não estava nervoso, mas com meu coração acelerado. Saí dali correndo até a casa do Guilherme, porque eu precisava contar aquilo para alguém. O Álvaro, irmão dele, disse que ele tinha saído não sabia pra onde. Aí eu peguei outro ônibus até em casa. Acho que vou dar um jeito de ir até essa tal de Marataízes.

------- x -------

Decidi ir a Marataízes atrás da Ana Cláudia para conferir qual é. Acho muito difícil que aquela gata, que eu sei que tem um monte de caras dando em cima, queira alguma coisa comigo. Será que ela foi simpática só porque é simpática com todo mundo? Ou será que me achou legal? Só tem um jeito de saber. Então eu telefonei pro Vilaça e contei a história toda. Liguei pra ele porque ele é meu amigo, e porque é um amigo que tem uma barraca de camping e nós já acampamos juntos em Angra dos Reis. Ele topou a idéia, U-HUUUU! Aí eu tive que inventar uma história que tinha sido o Vilaça que tinha me convidado, que ele tinha parentes por lá, pra eu descolar uma grana com minha mãe. Ainda bem que eu ainda não tinha comprado o tênis com o dinheiro que ganhei do meu avô no aniversário.

------- x -------

Procurei no Atlas onde fica Marataízes. Descobri que a cidade mais ou menos grande mais próxima é Cachoeiro do Itapemirim, e que tem um ônibus que sai meia noite de Niterói pra lá.
------- x -------

Agora são três horas da manhã, ainda não chegamos nem a Campos, e nessa poltrona apertada é difícil dormir. O Vilaça trouxe a barraca, mas só trouxe um colchonete. Nem me avisou que só tinha achado um.  Vou ter que dormir no chão. Será que vai valer a pena?

------- x -------

Chegamos a Cachoeiro, terra do rei Roberto Carlos. Esperamos na rodoviária o primeiro ônibus para Marataízes, que só saiu duas horas depois e ainda parou um tempão em outra cidade, Itapemirim (sem Cachoeiro). Saltamos finalmente em Marataízes e saímos perguntando onde tinha um camping. As praias aqui têm areia escura, diferente das de Niterói. Aqui é cheio de condomínios de apartamentos, e os condomínios estão cheios de mineiros. Deu pra saber que eles são mineiros por causa do sotaque e por causa das placas dos carros. De manhã, um monte de mineiros cor de camarão estavam pondo a bagagem nos seus carros e fechando os apartamentos. De tarde, chegou outro lote de mineiros, só que branquelos, descarregando bagagem e ocupando os condomínios outra vez.

Achamos um camping baratinho e armamos a barraca embaixo de uma amendoeira. Vai dar pra tomar banho, tomar um café e partir em busca da Ana Cláudia.

------- x -------

Achamos a casa da Ana Cláudia. Ela tinha acabado de acordar. Acho que a mãe dela ficou com pena de nós e nos chamou para entrar tomar café. Comemos pão de forma e bebemos Nescau. Ela tem dois irmãos mais novos e a mãe dela é muito legal. Depois fomos para a praia. Eu não estava nem acreditando. Ela, de biquíni, é ainda mais perfeita do eu imaginava. Ela falou, e as amigas dela, que eu não lembro o nome, confirmaram que no ano passado ela foi eleita a Garota Verão de Marataízes no concurso do clube da cidade. Deve ter sido barbada! Apesar de termos ficados juntos a manhã toda, não percebi nenhum sinal por parte dela de que poderia rolar alguma coisa. Ou talvez seja a velha timidez que esteja me impedindo de deixar as coisas mais claras.

------- x -------

Eu e Vilaça fomos almoçar num restaurante meio botequim. O Vilaça pediu bife com fritas, e eu pedi um PF porque, senão, o dinheiro não vai dar pra comer até a gente voltar pra Niterói. De tarde voltamos a casa dela e ficamos jogando buraco. A coisa não está evoluindo...

À noite, com a merreca que eu tenho no bolso, não dá pra ficar em bares nem pagar pra entrar em lugar nenhum. Se bem que aqui não tem quase opção. Só deu pra ficar andando pelo calçadão, que foi meio destruído por uma ressaca recente. Querer ganhar uma gata daquela, sem grana e sem carro, precisa de muuuuito charme e bom papo, e eu não tô com essa bola toda. Enchemos o saco de andar à toa e voltamos pro Camping na maior escuridão, que aqui quase não tem iluminação pública. Pra piorar, estava chuviscando, e eu fiquei pensando que amanhã pode amanhecer chovendo. Aí, nem praia vai ter. Eu trouxe o livro “Ilusões” de Richard Bach, aquele mesmo de Fernão Capelo Gaivota. Estou achando um dos livros mais legais que eu já li. É a história de um cara que era um messias, mas que tinha desistido de ensinar coisas pras pessoas, porque elas não queriam mudar, só queriam que ele fizesse milagres e mudasse as coisas pra elas. Mas ele encontrou um cara que queria aprender. Aí ele ensinou a esse cara que ele podia ser tão messias quanto ele. Que qualquer um podia andar na água ou nadar na terra, ou fazer flutuar uma chave de boca de 9/16 polegadas. Ou fazer nuvens desaparecerem! No livro parecia tão fácil, que eu acreditei que era possível. Falei pro Vilaça do livro, e decidimos que as nuvens não estavam mais lá. Fiquei entre o apavorado e maravilhado quando olhei pra cima e vi as nuvens se afastando e as estrelas aparecendo! Daqui pra frente vou acreditar que tudo que eu quero é possível. Na hora de dormir, enrolei a toalha para fazer um travesseiro e deitei. Aí descobri que naquele lugar embaixo da amendoeira, onde armamos a barraca, estava cheio de caroços de amêndoas no meio da grama debaixo do chão da barraca. Vai ser uma noite longa...

------- x -------

Depois de alguns dias, quando só restava grana pra passagem de volta, voltamos pra Niterói. Vilaça acha que eu sou um otário, que eu tinha que ter ido com mais decisão, que depois de toda essa viagem eu tinha que ter dado um cheque mate. Eu não tive coragem de dar porque já sabia, ou achava que sabia, que não ia dar certo. Fiquei pau da vida com ele porque, quando ele viu que eu não me decidia, começou a dar em cima dela. Voltamos quase sem nos falar. Mas não me arrependo de nada. Acho que alarguei meus limites. Às vezes, pode ser mais fácil fazer desaparecer as nuvens do que conquistar uma garota. Ou não.

Comentário atual: Ainda tentei alguma coisa em relação à Ana Cláudia. Fui novamente, depois das férias, até a casa dela, e já tinha outro marmanjo por lá, xavecando ela. Concorrência selvagem! Ela acabou namorando um paulista estudante de medicina da UFF, um semestre mais atrasado que eu. Ele tinha cara de italiano e um carro do ano. Possivelmente tinha também outras qualidades que a minha inveja ocultava completamente, talvez não. Acabaram se casando e eles se mudaram para São Paulo. Uns quinze anos depois (o destino é um brincalhão), ela apareceu uma tarde no meu consultório, uma linda jovem senhora nos seus trinta e poucos.  Ana Cláudia, agora também médica, estava de volta a Niterói, recém separada. Queria sublocar um horário para se estabelecer profissionalmente na cidade. Os horários que ela queria não estavam disponíveis. Nem eu, pois estava casado. Nunca mais a vi nem tive notícias. Até a semana passada quando, pelo Facebook, descobri que está casada de novo e é professora universitária. Continua bonita, trinta anos depois.

sábado, 16 de junho de 2012

O Homenzinho que Vivia num Saquinho de Pipoca


Era uma vez um homenzinho que vivia dentro de um saquinho de pipoca. Um dia, uma fada estava passando por ali e ouviu sua voz bem fraquinha se lamentando:

“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não deveria ser tão pequeno nem morar num saquinho de pipoca. Eu deveria ser do mesmo tamanho dos outros homens e viver numa casa de verdade, isso sim.”

A fada apiedou-se do pobre homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:

“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que vai acontecer.”

Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que havia crescido, que estava do mesmo tamanho dos outros homens e que estava em uma linda casinha numa cidade do interior da Terra das Bandeiras. Ele ficou muito feliz, mas se esqueceu completamente de agradecer à fada.

E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste, pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho e resolveu passar para ver como ele estava. Quando se aproximou da porta da linda casinha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:

“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não deveria ter um nariz tão pequeno nem morar numa casinha. Eu deveria ter um nariz do mesmo tamanho dos outros homens e viver numa bela cobertura na capital, onde eu pudesse conhecer uma boa moça e me casar, isso sim.”

A fada ficou um pouco decepcionada, mas apiedou-se mais uma vez do homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:

“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que vai acontecer.”

Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que seu nariz havia crescido, ficara até bem grande, mas bonito. E que ele estava numa bela cobertura na capital. Passou a desfilar pela capital com seu belo nariz e não tardou a conhecer uma boa moça e se casar com ela. Ele ficou muito, muito feliz, mas se esqueceu de telefonar para a fada agradecendo.

E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste, pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho e resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao hall da cobertura e se preparava para tocar a campainha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:

“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não deveria ser casado com uma mulher comum. Eu deveria estar casado com uma moça muito linda, loura e de cabelos compridos, e que gostasse de fazer muitas brincadeiras na cama, isso sim.”

A fada ficou bem aborrecida, mas apiedou-se mais uma vez do homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:

“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que vai acontecer.”

Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, achou um bilhete da fada, com instruções para que ele fosse até o Brejo das Augustas, pegasse a primeira rã que lhe pulasse aos pés e lhe desse um beijo na boca. E assim ele fez. E a rã se transformou em uma moça muito linda, loura e de cabelos compridos, e que foi logo convidando-o a brincar de pique, esconde-esconde e amarelinha na cama dele. Ele expulsou de casa a mulher antiga, que era boa, e colocou a moça muito linda, loura e de cabelos compridos em seu lugar. Eles se apaixonaram, brincavam todo dia na cama, e ele gostava de desfilar com ela diante dos seus amigos, que agora eram muitos. E dizia para eles: “Vocês nem imaginam onde eu encontrei essa moça muito linda, loura e de cabelos compridos.” Mas ele nem se lembrou de mandar um torpedo para a fada agradecendo.

E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste, pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho e resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao prédio onde ele morava, pediu para subir, mas o porteiro avisou que o homenzinho não gostava de receber qualquer um. Então ela pediu para falar com ele pelo interfone. Escutou a voz do homenzinho se lamentando:

“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não deveria ser casado com uma mulher apenas. Eu deveria ter todas as mulheres que eu quisesse e brincar com várias ao mesmo tempo, isso sim.”

A fada ficou pau da vida, mas resolveu lhe atender o desejo. Então ela disse:

“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que vai acontecer.”

Na hora do jantar, a moça muito linda, loura e de cabelos compridos disse ao homenzinho que tinha escutado toda a conversa dele com a fada pela extensão, e que não permitiria aquilo. Os dois começaram a discutir e o homenzinho disse que assim ela ia acabar sendo devolvida ao Brejo das Augustas. Ela ficou muito zangada e lhe apontou uma arma. Quando o homenzinho acordou na manhã seguinte, descobriu que havia sido dividido em quatro pedaços e que cada pedaço estava dentro de um saquinho de pipoca. Um saquinho havia sido despachado para o Sul, outro para o Norte, outro para o Leste e outro para o Oeste. A fada anda muito ocupada, resolvendo muitos assuntos e não quer mais saber do homenzinho.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Guerrilha no Campo do Medíocre


A arte como um todo sempre se ocupou dos extremos da condição humana: o mal absoluto e o bem absoluto. Da luta entre o lado negro e o lado luminoso da força, entre Deus e o diabo, entre céu e inferno, entre o herói e o vilão, o mocinho e o bandido. Cinema, teatro, literatura, artes plásticas exibem estes extremos da situação humana para deleite das grandes platéias desde sempre. A nós, os reles mortais, caberia o papel de meros espectadores dessas batalhas épicas, torcendo sempre, claro, pela vitória do Bem, o que quase sempre acontece no fim (pelo menos na arte costuma acontecer). Findo o espetáculo, saindo do cinema, do museu ou fechando o livro, retornamos à nossa vida ordinária, raramente fazendo um paralelo entre a obra que nos deleitou e nosso dia a dia.

Há não mais que um par de séculos, porém, a literatura começou a se ocupar não das grandes batalhas entre a luz e as trevas, mas da guerrilha travada na intimidade de cada alma, no corriqueiro, no dia a dia da rotina na aldeia humana. No conto “Bola de Sebo”, Maupassant, retrata até certo ponto essa batalha secreta, surda e sem glória. Nele, aristocratas são forçados a dividir uma carruagem com uma mulher da vida, a heroína Bola de Sebo. Os esnobes abrem mão do preconceito quando a necessidade, ou melhor, a conveniência de matar a fome se faz presente. Aceitam de bom grado e fartam-se com parte do farnel que lhes é generosamente oferecido pela previdente cortesã. Poucos dias depois, sacrificam sem nenhum remorso a dignidade da moça quando a situação exige. Mas ainda ali, os campos ideológicos estão bem delimitados, pois existe por trás da história a crítica social à burguesia.

Assisti pela segunda vez, meio por acaso, ao filme “Queime Depois de Ler”. Nele, os irmãos Coen, dirigem John Malkovich, Brad Pitt e George Clooney, elenco de peso para compor um palco de personagens sem charme, sem glória e de convicções, digamos, flexíveis. A diferença aqui é que não se identifica ninguém por quem torcer nem qualquer motivação ideológica dos autores. Quem foi assistir ao filme esperando que a orquestra de violinos atacasse num crescendo no momento em que o Herói enfrentasse o Mal na batalha final em defesa da honra e da virtude se frustrou. Deveriam ter empregado melhor seu precioso tempo e ido assistir um filme de Mel Gibson. Os irmãos diretores, como já haviam feito em “Fargo” e em “Um Homem Sério”, especializaram-se em retratar de maneira cômica, quase carinhosa, as pequenezas dos medíocres, que somos quase todos nós.

Temos todos empatia imediata pelos heróis. Quando eles aparecem na telona, lotam as grandes salas de projeção e têm garantida a nossa torcida. Um pouco mais difícil é nos identificarmos com os anti-heróis que Joel e Ethan Coen nos apresentam. Eles são parecidos demais conosco em suas covardias e mesquinharias. Mas, no fundo, se abrirmos mão dos julgamentos morais e conseguirmos ter alguma identificação com eles, talvez estejamos conseguindo enxergar nossas próprias limitações com mais objetividade e, até, compaixão. Não é tarefa fácil. Talvez por isso seus filmes sejam exibidos quase sempre nas pequenas salas de filmes cult.

domingo, 13 de maio de 2012

Everest, Culpa e Outras Divagações Dominicais


Li a crítica positiva na Veja – sim caro leitor, sou assinante da Veja; aviso logo de cara para que você, que posta aqueles quadrinhos pré-fabricados contra a revista no seu Facebook interrompa já aqui sua leitura e vá ocupar seu precioso tempo em coisa mais de acordo com suas crenças - sobre o novo livro de Luiz Felipe Pondé. Não sosseguei enquanto não o comprei o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Um Ensaio de Ironia”, recém lançado. Aliás, o fato dele estar encabeçando a lista dos mais vendidos de “não ficção” me dá esperanças de que exista uma parcela significativa de pessoas incomodadas com essa ditadura do politicamente correto, ou “praga do PC” como diz Pondé. Pelo menos na parcela da população que lê e, provavelmente, pensa de forma crítica. Li-o em pouco mais de um dia. Independente de se concordar com seus pontos de vista, Pondé sobressai como excelente frasista. Exemplos? “A Bahia é uma terra devastada pela alegria”; ou “Em mim, o amor é raro como a virtude de uma mulher louca de desejo”. Só pelas contundentes frases de efeito, artigo raro hoje em dia, já vale a leitura.

Pondé é médico nascido numa família de médicos. Numa aula do curso de medicina sobre câncer, perguntou ao professor como se sentiria um paciente diante da certeza da morte. “Meu filho, você está no curso errado, deveria estar cursando filosofia.” Ainda tentou conciliar as coisas direcionando seu curso para a psicanálise. Buscando aperfeiçoamento psicanalítico, enveredou pela Filosofia e nunca mais a largou. No embalo da leitura, assisti alguns vídeos com entrevistas e aulas dadas por ele. Contrariando o meu receio, pareceu-me uma pessoa desprovida de agressividade ou rancor. Apenas um homem honesto consigo mesmo, casado e pai de família, que se diferencia da maioria de nós pela curiosidade e perplexidade diante da fragilidade da condição humana, suas grandezas e misérias e de nossa  pequenez diante da Natureza. Que ousa encarar essa angústia, ao invés de tentar afogá-la com cerveja e churrasco. Coragem para poucos.

xxxxx

Falando em Natureza. Comprei no mesmo dia o livro “Na Natureza Selvagem" – "Into the Wild” , do jornalista Jon Krakauer. O livro, que virou um ótimo filme, narra a saga de Chris MacCandless, rapaz de família rica que, assim que se formou, entregou seu diploma aos pais, vendeu seu carro, doou todo seu dinheiro e sumiu sem destino e sem dar notícias. Seu cadáver decomposto foi localizado por caçadores de alces dois anos depois, dentro de um ônibus abandonado na imensidão erma e gelada do Alasca. Krakauer, jornalista que publica regularmente na National Geographic Magazine, no Washington Post e no New York Times, já havia ganho projeção ao escrever “No Ar Rarefeito”, onde narrou sua experiência pessoal escalando o Everest na temporada mais fatídica daquela montanha, e a mercantilização do alpinismo, onde empresas lideradas por veteranos do Everest se propõem a levar qualquer um que não seja doente ou aleijado ao topo de mundo. Muito mais fascinante do que a análise crítica desse aspecto comercial do alpinismo radical é a tentativa de entender o que leva o ser humano, ou alguns deles, a testar seus limites diante da Natureza desafiando a morte. Existe um aspecto universalmente humano nesse desafio. Não é apenas testar os limites físicos, ou ver a paisagem lá do alto, nem mesmo tentar afirmar-se como mais poderoso e corajoso que a maioria dos mortais. Trata-se da busca de um encontro com uma instância mais profunda de si mesmo que a proximidade da morte proporcionaria. Era isso que buscava MacCandless, é isso que buscam os alpinistas de grandes altitudes, e o jornalista Krakauer identifica em si as sementes da mesma “loucura”.

xxxxx

Ultimamente ouve-se muito sobre a responsabilidade do homem em salvar a Natureza. Depois de “matar” Deus e de tentar ressuscitá-lo, o homem, em arrogância pré-galileica, tem se arvorado como aquele que vai “salvar” ou “destruir” a Natureza. No máximo, estamos tentando prolongar um pouco mais o capítulo, ou melhor, a vírgula que a humanidade representa no grande livro da Natureza. Ela vai continuar existindo depois do homem, depois da vida sobre a Terra, depois que o Sol explodir. Não conosco, mas “sem nosco”. A Natureza não é boa nem má, tanto engorda quanto mata. Tanto fornece água limpa que alivia a sede quanto despeja a enxurrada que arrasa. Câncer é tão natural quanto beija-flor. Mesmo assim, e talvez justamente por sua impessoalidade majestosa, a Natureza é fascinante. Nós apenas tentamos agradar e barganhar com o deus ou os deuses naturais, para que ela nos mostre mais o seu lado favorável que o destrutivo.

xxxxx

Voltando a L. F. Pondé. No livro ele aborda uma questão básica da filosofia: o homem é originalmente bom ou originalmente mau? Para Hobes, o ser humano é essencialmente mau e egoísta, e as coisas só não funcionam pior e conseguimos conviver em razoável harmonia porque a sociedade, em nome da convivência, tolhe e pune os impulsos egoístas individuais. Já para Rousseau, que no momento está ganhando de goleada no meio acadêmico "politicamente correto", o homem é essencialmente bom, mas é corrompido pelo meio, pela Sociedade. Caberia aí também confrontar a visão judaico-cristã do pecado original (nascemos maus) com o conceito budista de que somos essencialmente budas (nascemos bons) e apenas não permitiríamos, ou não saberíamos como fazer com que esse buda se manifeste. Ressalve-se que o budismo estimula (cobra) do indivíduo o esforço inalienável de retirar o entulho que encobriria esse buda original em cada um de nós. A ênfase na culpa pode desanimar e deprimir espíritos menos corajosos (ou com baixa auto-estima, para usar um termo mais em voga). A vertente defendida por Rousseau, por sua vez, pode retirar da esfera do individual a “culpa”, ou a responsabilidade por seus atos e pelo resultado de seus atos. O culpado seria sempre "O Outro": a mãe, o vizinho, o cunhado, a sociedade, o Estado, o "Capitalismo Selvagem" que me impedem de manifestar plenamente o ser virtuoso que eu seria. No entanto, sabemos que só avançam na psicanálise aqueles que têm a coragem de assumir a responsabilidade (culpa) pelo que não vem funcionando bem em suas vidas, independente das circunstâncias mais ou menos favoráveis que cabem a cada um. Colocar a culpa no outro é a desculpa dos que não querem ou não têm coragem moral para mudar. A falta total de culpa gera monstros morais. Ou, no mínimo, gera pessoas preguiçosas, que não arrumam o quarto, deixam o capim crescer no quintal e culpam o chefe por não subirem na carreira.

                                                                                 xxxxx

Ainda sobre a responsabilidade moral. É fácil para nós, dessa distância segura,  jogar pedras naqueles que, pautados pelas questões práticas de sobrevivência própria e de seus familiares, foram colaboradores dos nazistas durante a ocupação da França, ou daqueles que, pelas mesmas razões, fecharam os olhos para o holocausto. Isso quando não denunciaram ativamente judeus escondidos no porão do vizinho na Alemanha do Terceiro Reich. À distância, todos transbordamos das nobres virtudes da coragem e da compaixão. Eu, humildemente, sou perseguido pela dúvida em relação às minhas eventuais qualidades morais. Tenho dúvidas se agiria como colaborador ou se me engajaria na resistência. Estatisticamente apenas, as chances são de que eu seria um colaborador. Esse fantasma (essa culpa), me assombra. Acho mais saudável assim.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ausentes


Quando ela entrou, todo mundo olhou. Todo mundo é modo de dizer. Aqui em São José dos Ausentes, todo mundo em geral não passa de meia dúzia. O campo de futebol, quando não serve de pasto para meia dúzia de ovelhas, só é usado quando vem time de fora. Casados e solteiros não rola. Vivos contra mortos, teriam que convocar o Borja, que tem uma perna mais curta, para completar o time dos que ainda não foram. No caso em questão, todo mundo éramos eu, o Borja e o Palhaço. O Borja nasceu por aqui e, raridade, está aqui até hoje. Talvez por causa da perna mais curta, que o touro imprensou no curral. É o gerente do posto e da lanchonete do posto. E o Palhaço é o frentista. Quando a caravana do circo parou para abastecer, faz uns dez anos, ele, de porre, foi urinar no banheiro dos fundos e dormiu por lá. Foram embora e parece que até hoje não deram falta. Nunca vi ele rir. É o único palhaço de bigodão ruivo que eu conheço. Quanto a mim, não interessa porque eu vim parar aqui. Eu mesmo já quase estava conseguindo esquecer. Até que aquela mulher apareceu para atrapalhar meu esquecimento.

Olhei pela vidraça para ver com que carro ela tinha chegado assim sozinha no meio da noite. Para abastecer, com certeza. Não sei se por causa da neblina ou por causa da lâmpada queimada do poste, não vi carro nenhum. Nem moto, nem caminhão, nem montaria. Nem bicicleta tinha lá fora.

“Banheiro?”, ela disse. O Palhaço esticou o beiço inferior por debaixo do bigode, apontando o corredor do canto. Ficamos os três calados, olhando um para a cara do outro, tentando adivinhar se o outro estava pensando alguma besteira parecida com a que cada um estava pensando.

O toc-toc das botas de salto que ela usava, calça justa de jeans por dentro do cano alto, voltando. Continuei sentado no canto ao lado da geladeira de refrigerantes, com os braços cruzados por baixo do poncho e equilibrando a cadeira nos dois pés de trás, as costas contra a parede. O motor da geladeira é meio barulhento, mas emite um calorzinho bom. Ela sentou-se junto ao balcão e pediu um maço de cigarros para o Borja. Sacou um, pôs na boca e fez aquela cara de “acende o meu fogo”. Ele puxou o isqueiro dos bêbados pelo barbante, levou-o o mais perto que pôde da ponta apagada e apertou três vezes até ele acender. Como o barbante era curto, ela teve que se curvar sobre o balcão. Eu e o Palhaço trocamos um olhar, imaginando o ângulo de visão que o Borja teria dos peitos dela.

“Obrigada”, ela disse depois de uma baforada para o alto.

Fiquei olhando a dona por debaixo da aba do boné. Ela parecia... Mas não podia ser. Ficou ali, sem pressa, fumando e olhando o pôster do Internacional por cima da prateleira de bebidas. Fazia biquinho, soltava a fumaça devagar, com gosto, estufando só um pouquinho as bochechas queimadas de frio, com uns pelinhos louros bem fininhos. De onde eu estava não dava para ver os pelinhos louros, mas dava para imaginar direitinho. Depois amassou a bituca no cinzeiro e levou as mãos à nuca, puxando um rabo de cavalo comprido de dentro do casaco de couro. Soltou os cabelos claros do elástico e eles foram se espalhando, se abrindo à medida que ela balançava a cabeça bem devagar, como as pétalas de uma flor que se abre naqueles filmes em que passam a imagem bem acelerada, para parecer que a flor se abriu assim, na cara da gente. Cabelo lustroso, bonito, parecia anúncio de xampu. Eu já tinha visto cabelos como aqueles, se soltando daquele jeito, há muito tempo atrás. Depois ela pediu um conhaque. “Frio lá fora”, justificou.

A essa altura, eu já estava sentindo umas coisas que há muito tempo não sentia. Fiquei olhando para a dona, até ela sentir aquela sensação na nuca que a gente sente quando estão nos olhando por detrás. Então ela se virou e me viu. Cravou os olhos em mim e eu fiquei firme olhando nos olhos dela. Senti um arrepio que foi das costas até a base da nuca e gotas de suor brotando nas têmporas, por baixo do boné. Instintivamente conferi a pressão que a bainha da faca de caça fazia na minha perna direita, por baixo da calça larga. Sem tirar os olhos de mim ela se levantou e veio para o meu lado.

“Posso?” Arrastou uma cadeira de plástico azul de uma mesa próxima, que tinha uma estampa de uma marca de cerveja no tampo, e sentou-se perto de mim. Levantei um pouco a aba do boné para olhá-la melhor. Devo ter ficado quase um minuto sem piscar.

“Tu continuas bonita, apesar dos anos. Um pouco mais pálida, mas bonita”, falei. E gostosa, pensei.

“E tu ainda sabes como cortejar uma mulher."

“Achei que nunca mais ia te ver, a não ser nos sonhos.”

“Tu sonhas comigo ainda?”

“Só de vez em quando”, menti.

“E essa barba? Usas há muito tempo?”

“Desde que tu te foste.”

“Até que te caiu bem. E esses fios brancos, as ruguinhas no canto dos olhos, te dão um ar maduro, bem charmoso, que tu não tinhas.”

“Ponto para os anos, então. Pelo menos essa vantagem eles trazem.”

Ficamos em silêncio, olhando para os joelhos um do outro por um minuto ou dois.

“Por que resolveste vir atrás de mim agora?”, perguntei erguendo os olhos devagar. "Ou vais dizer que chegaste aqui por acaso, obra do destino?"

“Fiquei te devendo uma explicação.”

“Será que isso é possível, uma explicação?”

“Entenda, tu viajavas muito.”

“Eu já era caminhoneiro quando me conheceste. Ou não era?”

“Eras sim.”

“Tu te lembras daquela coisa de amá-lo e respeitá-lo na saúde e na doença e etc.? E acho que tinha na presença e na ausência também.”

“Não tinha não.”

“Mas devia ter, pombas. Respeitar tinha e tu juraste ali, na frente do padre e de todos, olhando nos meus olhos.”

“Na hora era verdade. Mas a solidão dói. Doía barbaridade. Quando tu voltavas, a dor cessava um pouco. Não de todo, porque já antecipava a próxima partida. E quando tu partias, de novo e de novo, a felicidade ainda persistia por um tempo, por uns dias. E depois a dor, a saudade, o vazio que tu deixavas, aquele vazio imenso latejando. Não era tédio, era dor. Uma dor pedindo por teu abraço, por teus beijos. Eu achei que outro abraço, outro beijo poderia me anestesiar da tua ausência. Pois saiba, então: não podiam. Não puderam.”

“Mas tinha que ser logo com o Jurandir? Meu amigo, meu mecânico, meu companheiro de pescaria? Quando me avisaram do acidente, eu já estava para lá de Belo Horizonte. Não me contaram a princípio que tu não estavas sozinha no carro. Só depois me disseram que ele estava também. E só no velório eu soube que a carreta atingiu nosso carro na saída do Motel Vênus. E eu ainda fiquei quase dois anos pagando por aquele troféu de corno feito de aço retorcido.”

“Eu fechava os olhos e imaginava que eras tu.”

“Perdi a mulher, o mecânico, o companheiro de pescaria, o respeito das pessoas. Tive que passar a levar o caminhão para consertar lá em Bento Gonçalves. E o que eu ganhei em troca?”

“Eu sempre exigia que se apagasse a luz.”

“Um par de chifres e cabelos brancos.”

“Eu nunca deixei de te amar.”

“E por que tu pensas que eu acreditaria em ti agora?”

“Eu não tenho por que mentir. Não agora.”

Ela passou suas mãos por baixo da lã do poncho e segurou meu braço, os dedos finos e frios. Um arrepio me subiu pelo braço até o pescoço, um arrepio bom e quente. Fui aos poucos relaxando a musculatura, como numa rendição. Ela deslizou os dedos até os meus e puxou-me com suavidade, fazendo a cadeira desencostar da parede e os quatro pés pousarem no chão.

“Você não imagina como foi difícil te encontrar aqui. Mas nunca desisti.”

Levantei os olhos até os olhos dela e fiquei olhando aquele azul pálido, as pupilas dilatadas, aquelas gotas que surgiam nos cantos. O compressor da geladeira deu um tranco e parou de fazer barulho. Quis ainda exercer algum direito de vingança, dizer algo que a ferisse profundamente, que nos deixasse quites:

“O Inter também foi campeão mundial de clubes, viu?”

“Eu vi o pôster.”

“Na final, o Ronaldinho estava no outro lado, no Barcelona, e perdeu.”

“É mesmo?” Ela não parecia nem um pouco atingida. Abriu um sorriso. “Seu bobo!” Então me beijou um beijo quente com seus lábios frios, um leve cheiro de terra como perfume. Depois me segurou as duas mãos, ergueu-se e me puxou.

“Tem uma lua linda lá fora. Vem.”

Levantei-me e deixei-me guiar. Senti no rosto o vento gelado quando a porta se abriu. Então olhei para trás, por cima do ombro, para o bigode ruivo do Palhaço. Tentei decorar aquela forma, aquela cor. Seria a última vez que eu o veria.

domingo, 15 de abril de 2012

Oxford Street - London

Rainy Afternoon, Oxford Street - London

domingo, 8 de abril de 2012

A Soma e a Unidade


Não é hora para sentir essas coisas, não ainda. Algo decente dentro de mim deveria impedir esses sentimentos inoportunos, essa luxúria egocêntrica, esse calor onde só deveria haver frio, um frio escuro e quieto. Será que eu não presto? Serei egoísta e insensível? Ingratidão, isso, ingrata é o que eu sou.

Tudo o que vivemos juntos, eu e Fábio, o namoro, o noivado, a paixão, as dificuldades do início do casamento. Às vezes em que gostaríamos de ter jantado fora, de termos viajado, e os dois ali, parceiros, economizando para as prestações do dois quartos na Zona Sul. Ele dando plantões no fim de semana enquanto eu contribuía só com a bolsa do mestrado. Depois, a gravidez da Júlia, depois a da Bianca, o dinheiro parecendo que ia ser curto a vida inteira. E a vida a dois sacrificada, o sexo sacrificado em nome do projeto família. Ele nunca se queixou. Um santo. Realmente, nunca vi queixa, nem em seus olhos, nem nas entrelinhas. Eu não era assim, tão santa.  A duras penas engolia as minhas insatisfações, às vezes engasgava e elas caíam na mesa, injustas, mas vivas e pulsantes. Nem disso ele se queixava. Amava mesmo assim a mim, as meninas, o apartamento pequeno, o projeto que era mais dele do que meu.

As promoções, os progressos financeiros, o posto de major, o primeiro de sua turma a alcançá-lo, eram para o projeto de família, para mim e para as meninas. Enfim, a viagem foi possível: os quatro para a Disney. Os quatro, sempre os quatro. Ele era uma fração do quatro, enquanto eu nunca deixei de ser uma unidade. Nunca tive essa capacidade, esse esvaziamento da individualidade. Eu queria ser apenas eu. Queria ser amada como Paula, como mulher, como amante, não apenas como mãe ou esposa. Difícil admitir tanta ingratidão. A sorte grande, o marido perfeito, bonito, trabalhador e bom pai. O genro que meus pais sonharam. Quando eu chorava baixinho à noite ele acordava perguntado “Que foi meu bem?” e me beijava as lágrimas e me acarinhava o cabelo, e eu chorando aquelas lágrimas injustas e egoístas. Ele poderia ser como a maioria: chegar tarde sem deixar bem claro o por quê, beber com os amigos, voltar cheirando a cerveja e desabar na cama. Eu lhe tiraria os sapatos e maldiria a minha sorte, desejaria com o peito arfante o dia em que ele chegaria sóbrio ou menos bêbado e me possuiria à força. Talvez isso me fizesse infeliz e apaixonada. Mas não fui nem uma coisa nem outra.

E então a apendicite. O diagnóstico protelado. A peritonite. “Cuide bem das meninas”, ele disse ainda. Desde então, quatro meses de vida em turbilhão, no tambor da máquina de lavar. Chorei sim, chorei muito, mas, depois de uma semana, não chorava mais. Sem nenhum esforço, a tristeza secou. “Pelo bem das meninas,” menti, “tenho que ser forte”. Não precisei fazer força, e essa verdade me dá bofetadas na cara. “Nossa, como você é forte, como você está bem!” Será que eles desconfiam que não foi tão difícil como deveria ser?

E agora a vontade de rir, que tenho que modular. Acho graça nas coisas que me contam, quero uma roda com as amigas, quero saber das novidades e da vida alheia. Quero beber e gargalhar como há muito tempo não faço. A pensão integral não deixa que eu perca o sono por causa de dinheiro. E eu sonho. Sonho com Fábio, ele me acaricia os cabelos e beija as minhas lágrimas. Mas quando o sonho me abrasa e desperto ofegante, sonho com alguém que não tem rosto. Quando acordo, só o que quero é descobrir qual é o rosto desse homem que, na noite, me faz mulher.