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sábado, 23 de junho de 2012

Ana Cláudia


Páginas arrancadas do diário que eu não escrevi aos 19 anos.

Hoje, ao pegar o ônibus no Centro para Icaraí, encontrei com a Ana Cláudia, uma das meninas mais gatas do colégio. Ela estava sentada e eu de pé. Nunca tinha falado muito com ela, mas, apesar da minha timidez irritante, começamos a conversar. Não sei o que deu em mim hoje, pois, apesar de estar conversando com uma menina linda, não gaguejei e nem fiquei sem saber o que dizer. Acho que ela nem percebeu que eu normalmente não sou assim. Será que estou mudando, finalmente? Ainda tive uma sorte enorme, porque a senhora gorda que estava sentada ao lado dela saltou logo no Ingá. Isso significa que eu pude sentar ao lado dela, nem acreditei. Ela falou que no dia seguinte estaria indo com os pais e os irmãos para Marataízes, que é longe à beça, e eu nem sabia que é uma praia no Espírito Santo. Ela vai passar janeiro e fevereiro lá. Primeiro pensei que era muito azar, logo agora que tínhamos feito um contato tão legal. Falei que eu estava indo passar as férias em Friburgo, mas inventei que talvez eu resolvesse ir acampar em outro lugar. Aí ela falou que seria legal se eu aparecesse em Marataízes. Ela me deu o endereço e o telefone da casa de lá num pedaço de folha do caderno dela.

A essa altura, eu já tinha passado muito do ponto de ônibus perto de minha casa, mas eu menti dizendo que ia até a casa de meu amigo Guilherme lá em São Francisco, onde ela mora também. Saltamos na praia e fomos andando até a casa dela, que eu queria saber onde era. No portão, nos despedimos, eu fingindo que não estava nervoso, mas com meu coração acelerado. Saí dali correndo até a casa do Guilherme, porque eu precisava contar aquilo para alguém. O Álvaro, irmão dele, disse que ele tinha saído não sabia pra onde. Aí eu peguei outro ônibus até em casa. Acho que vou dar um jeito de ir até essa tal de Marataízes.

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Decidi ir a Marataízes atrás da Ana Cláudia para conferir qual é. Acho muito difícil que aquela gata, que eu sei que tem um monte de caras dando em cima, queira alguma coisa comigo. Será que ela foi simpática só porque é simpática com todo mundo? Ou será que me achou legal? Só tem um jeito de saber. Então eu telefonei pro Vilaça e contei a história toda. Liguei pra ele porque ele é meu amigo, e porque é um amigo que tem uma barraca de camping e nós já acampamos juntos em Angra dos Reis. Ele topou a idéia, U-HUUUU! Aí eu tive que inventar uma história que tinha sido o Vilaça que tinha me convidado, que ele tinha parentes por lá, pra eu descolar uma grana com minha mãe. Ainda bem que eu ainda não tinha comprado o tênis com o dinheiro que ganhei do meu avô no aniversário.

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Procurei no Atlas onde fica Marataízes. Descobri que a cidade mais ou menos grande mais próxima é Cachoeiro do Itapemirim, e que tem um ônibus que sai meia noite de Niterói pra lá.
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Agora são três horas da manhã, ainda não chegamos nem a Campos, e nessa poltrona apertada é difícil dormir. O Vilaça trouxe a barraca, mas só trouxe um colchonete. Nem me avisou que só tinha achado um.  Vou ter que dormir no chão. Será que vai valer a pena?

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Chegamos a Cachoeiro, terra do rei Roberto Carlos. Esperamos na rodoviária o primeiro ônibus para Marataízes, que só saiu duas horas depois e ainda parou um tempão em outra cidade, Itapemirim (sem Cachoeiro). Saltamos finalmente em Marataízes e saímos perguntando onde tinha um camping. As praias aqui têm areia escura, diferente das de Niterói. Aqui é cheio de condomínios de apartamentos, e os condomínios estão cheios de mineiros. Deu pra saber que eles são mineiros por causa do sotaque e por causa das placas dos carros. De manhã, um monte de mineiros cor de camarão estavam pondo a bagagem nos seus carros e fechando os apartamentos. De tarde, chegou outro lote de mineiros, só que branquelos, descarregando bagagem e ocupando os condomínios outra vez.

Achamos um camping baratinho e armamos a barraca embaixo de uma amendoeira. Vai dar pra tomar banho, tomar um café e partir em busca da Ana Cláudia.

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Achamos a casa da Ana Cláudia. Ela tinha acabado de acordar. Acho que a mãe dela ficou com pena de nós e nos chamou para entrar tomar café. Comemos pão de forma e bebemos Nescau. Ela tem dois irmãos mais novos e a mãe dela é muito legal. Depois fomos para a praia. Eu não estava nem acreditando. Ela, de biquíni, é ainda mais perfeita do eu imaginava. Ela falou, e as amigas dela, que eu não lembro o nome, confirmaram que no ano passado ela foi eleita a Garota Verão de Marataízes no concurso do clube da cidade. Deve ter sido barbada! Apesar de termos ficados juntos a manhã toda, não percebi nenhum sinal por parte dela de que poderia rolar alguma coisa. Ou talvez seja a velha timidez que esteja me impedindo de deixar as coisas mais claras.

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Eu e Vilaça fomos almoçar num restaurante meio botequim. O Vilaça pediu bife com fritas, e eu pedi um PF porque, senão, o dinheiro não vai dar pra comer até a gente voltar pra Niterói. De tarde voltamos a casa dela e ficamos jogando buraco. A coisa não está evoluindo...

À noite, com a merreca que eu tenho no bolso, não dá pra ficar em bares nem pagar pra entrar em lugar nenhum. Se bem que aqui não tem quase opção. Só deu pra ficar andando pelo calçadão, que foi meio destruído por uma ressaca recente. Querer ganhar uma gata daquela, sem grana e sem carro, precisa de muuuuito charme e bom papo, e eu não tô com essa bola toda. Enchemos o saco de andar à toa e voltamos pro Camping na maior escuridão, que aqui quase não tem iluminação pública. Pra piorar, estava chuviscando, e eu fiquei pensando que amanhã pode amanhecer chovendo. Aí, nem praia vai ter. Eu trouxe o livro “Ilusões” de Richard Bach, aquele mesmo de Fernão Capelo Gaivota. Estou achando um dos livros mais legais que eu já li. É a história de um cara que era um messias, mas que tinha desistido de ensinar coisas pras pessoas, porque elas não queriam mudar, só queriam que ele fizesse milagres e mudasse as coisas pra elas. Mas ele encontrou um cara que queria aprender. Aí ele ensinou a esse cara que ele podia ser tão messias quanto ele. Que qualquer um podia andar na água ou nadar na terra, ou fazer flutuar uma chave de boca de 9/16 polegadas. Ou fazer nuvens desaparecerem! No livro parecia tão fácil, que eu acreditei que era possível. Falei pro Vilaça do livro, e decidimos que as nuvens não estavam mais lá. Fiquei entre o apavorado e maravilhado quando olhei pra cima e vi as nuvens se afastando e as estrelas aparecendo! Daqui pra frente vou acreditar que tudo que eu quero é possível. Na hora de dormir, enrolei a toalha para fazer um travesseiro e deitei. Aí descobri que naquele lugar embaixo da amendoeira, onde armamos a barraca, estava cheio de caroços de amêndoas no meio da grama debaixo do chão da barraca. Vai ser uma noite longa...

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Depois de alguns dias, quando só restava grana pra passagem de volta, voltamos pra Niterói. Vilaça acha que eu sou um otário, que eu tinha que ter ido com mais decisão, que depois de toda essa viagem eu tinha que ter dado um cheque mate. Eu não tive coragem de dar porque já sabia, ou achava que sabia, que não ia dar certo. Fiquei pau da vida com ele porque, quando ele viu que eu não me decidia, começou a dar em cima dela. Voltamos quase sem nos falar. Mas não me arrependo de nada. Acho que alarguei meus limites. Às vezes, pode ser mais fácil fazer desaparecer as nuvens do que conquistar uma garota. Ou não.

Comentário atual: Ainda tentei alguma coisa em relação à Ana Cláudia. Fui novamente, depois das férias, até a casa dela, e já tinha outro marmanjo por lá, xavecando ela. Concorrência selvagem! Ela acabou namorando um paulista estudante de medicina da UFF, um semestre mais atrasado que eu. Ele tinha cara de italiano e um carro do ano. Possivelmente tinha também outras qualidades que a minha inveja ocultava completamente, talvez não. Acabaram se casando e eles se mudaram para São Paulo. Uns quinze anos depois (o destino é um brincalhão), ela apareceu uma tarde no meu consultório, uma linda jovem senhora nos seus trinta e poucos.  Ana Cláudia, agora também médica, estava de volta a Niterói, recém separada. Queria sublocar um horário para se estabelecer profissionalmente na cidade. Os horários que ela queria não estavam disponíveis. Nem eu, pois estava casado. Nunca mais a vi nem tive notícias. Até a semana passada quando, pelo Facebook, descobri que está casada de novo e é professora universitária. Continua bonita, trinta anos depois.

6 comentários:

  1. Ahhh, esse danado Sr. Facebook...

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  2. Acredito que sua musa inspiradora,iria gostar de saber do que vcê foi capaz de fazer um dia por ela.

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  3. Esse texto eu já conhecia... acho que há algumas mudanças, mas ficou bom mesmo assim :-)

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  4. Só para dizer que a descricao que o Ralph faz da Ana Claudia, no passado e no presente, nao faz justica a beleza da menina :-)

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  5. Não sei se este texto foi revisitado, mas o seu está um primor. Saudações tricolores.

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    1. Marcelo, o texto original era meu mesmo, que republico agora com pequenas alterações. O nome da menina, por exemplo. ST!

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