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sábado, 26 de julho de 2014

Brasileiro e estrangeiro

Era minha primeira semana no jardim de infância. Eu e meus coleguinhas saíamos de uma atividade qualquer na sala de artes em direção à nossa própria sala, no final de um longo corredor. A professora alertou: “Não quero ninguém correndo. Vamos andando sem fazer barulho para não atrapalhar as outras turmas, crianças!” Foi a senha para que todos disparassem aos gritos pelo corredor. Todos menos um: eu. (Não me perguntem porquê eu não corri também, eu não saberia dizer). Pouco depois, quando estávamos  sentados em nossos lugares, a professora repreendeu a turma e disse: “O único que obedeceu foi o Ralph.” Imediatamente duas dúzias de pares de olhinhos se voltaram fuzilantes contra mim. Revendo a cena hoje, concluo que aquela foi a primeira vez em que me dei conta de que eu estava no lugar errado. Eu não sabia ainda que era um estrangeiro em meu país.

Já escrevi aqui no blog sobre pessoas que já nascem estrangeiras. Existem noruegueses, tchecos e britânicos que, mal desembarcam nas terras de Iracema, se dão conta de que eram exilados sem saber. Imediatamente aprendem a gíria da vez, sentem-se à vontade de chinelos em qualquer ambiente, viram fãs de caipirinha e passam a chamar todo mundo de mermão ou meu rei.

Já outros, nascidos aqui, têm dificuldades em entender os nossos códigos e costumes. Especificamente, me irrita a maneira como lidamos com as regras. Todos, brasileiros ou não, ficamos indignados quando a burocracia emperra quando não se paga propina, irritamo-nos quando vemos pessoas jogarem latas de cerveja da janela de carros caros revoltamo-nos ao vermos outras pessoas furarem filas por serem “amigas do rei”. Mas alguns brasileiros, arriscaria dizer muitos, só manifestam essa indignação quando não são eles próprios a praticarem ou se beneficiarem dessas mesmas práticas que abominam no outro.

O fato é que me foi difícil crescer nessa cultura e me adaptar a seus códigos. Conto aqui umas poucas dentre inúmeras situações que me foram muito didáticas nesse meu esforço de adaptação.

Fiz residência médica no Hospital Central da intimorata corporação Policial Militar do Rio de Janeiro, à qual me adaptei sem nenhuma dificuldade, diga-se de passagem. Morador de Niterói, o deslocamento até o Estácio, endereço do hospital e um dos berços do samba carioca, era feito de ônibus a princípio, e depois num Fiat 147 grená já bem usado, meu primeiro carro. Embora menos frequentes na época, os engarrafamentos na Ponte Rio-Niterói aconteciam de vez em quando, o que provocava ocasionais atrasos e consequentes descontos, além de gerar os temidos ofícios chamados de “Deveis Informar”, nos quais éramos obrigados a justificar as impontualidades. Tudo muito justo, não fosse o fato de que dois de meus colegas, o Fábio* e a Laura*, nunca serem penalizados. Não que eles fossem pontuais, muito pelo contrário. Fábio tinha outro emprego de manhã, no mesmo horário de seu expediente no HCPM, e nunca era visto depois das dez horas. Já a Laura, uma loura esguia de belos olhos verdes, nunca chegava antes das dez. Dizíamos até que a intercessão do expediente dos dois era um conjunto vazio. Achava aquilo muito injusto. Naquela época, em meus esforços de adaptação, já havia começado a fazer terapia. Relatei minha indignação ao terapeuta. “Você dá bom dia ao cabo que registra o ponto?”, perguntou ele. “Sim, claro, sou uma pessoa educada.” “Mas você pergunta sobre os filhos dele? Sabe quantos são? Sabe os nomes dos filhos dele? Sabe para qual time ele torce? Dá bombom para ele na Páscoa?” Não, eu não fazia nada daquilo. Apenas dava bom dia com um sorriso de japonês. A princípio me recusei a aceitar aquilo como um bom conselho (aliás, talvez aquela tenha sido a única vez em que meu analista tenha me dado um conselho assim, tão direto). Foi uma dura lição de como ser brasileiro, mas passei a me esforçar para por em prática aquelas orientações preciosas e óbvias. Óbvias para os brasileiros que, parece, que já nascem com elas impressas no DNA. Uma subespécie de homo sapiens mais bem adaptada às terras de Macunaíma, nosso maior herói. Como disse um repórter esportivo alemão durante a “Copa das Copas”: no Japão, todos são extremamente educados com você, mas os brasileiros são mais, eles são todos legais! Então, estrangeiros, aprendam: no Brasil não é suficiente ser educado, é essencial ser legal. Admiro sinceramente essa simpatia do brasileiro, uma coisa que em mim não é inata e que me esforço para aprender. Não por coincidência, a simpatia e o modo caloroso dos patrícios foram unanimidade entre os estrangeiros que aqui estiveram durante a Copa. É uma das coisas da qual todo brasileiro deve se orgulhar.

Mas, colegas gringos, não confundam ser legal com legalidade, duas coisas bem diferentes, às vezes, infelizmente, contraditórias. Explico. Alguns anos mais tarde eu havia acabado de montar meu próprio consultório médico, e precisava do alvará para poder começar a funcionar e pleitear credenciamento junto aos planos de saúde. Um dos muitos documentos exigidos pela prefeitura para emitir o alvará era o laudo de vistoria do corpo de bombeiros, que, para ser emitido pela também brava corporação dos soldados do fogo, exige uma outra série de documentos. Todos foram diligentemente anexados por mim ao dar entrada no pedido de vistoria. Que não saiu em um mês, nem em dois, nem em três. Deixava eu o quartel dos bombeiros de Niterói pela terceira ou quarta vez, desanimado com mais uma alegação de excesso de serviço, de férias do capitão que faz as vistorias e de outras justificativas dadas pelo sargento do protocolo, quando encontrei um amigo que tinha duas ou três lojas na cidade. Desfiei o meu rosário para ele. “Você vai esperar mais de um ano assim, meu amigo, e não vai conseguir o seu laudo. Vou lhe dar o telefone do capitão Taborda*, que vai resolver rapidinho o seu problema.” Senti um certo mal estar, mas, como estava determinado a destrinchar os costumes brasileiros, acabei cedendo. Confesso que o capitão Taborda, um cara muito simpático, foi eficiente. Em menos de 48 horas ele veio me entregar o laudo da vistoria em mãos. Muito legal o Taborda. Claro, para não fazer desfeita dei um agradinho para ele, como meu amigo brasileiro havia me instruído a fazer.

Só mais uma. Este mês uma paciente de primeira vez se irritou porque já estava havia 40 minutos depois da hora marcada na sala de espera sem ter sido atendida ainda por mim. Confesso que ela estava coberta de razão. Mas acontece que, apesar de não marcar consultas em excesso e, salvo em emergências, não fazer “encaixes” na agenda, às vezes algumas consultas demoram mais do que o previsto e a fila atrasa, o que é sempre lamentável. Pois bem, a paciente se recusou a continuar esperando e se retirou cuspindo marimbondos, com toda razão. Ocorre que o marido dela também estava agendado para uma consulta dali a alguns dias. Ela telefonou na véspera perguntando se poderia entrar junto com ele para ser atendida também. “Mas se a senhora não está marcada, isso vai atrasar as consultas posteriores”, justificou minha secretária. “Mas ninguém precisa saber que eu também vou me consultar”!

Os exemplos poderiam se repetir ao infinito. Este é o modo de ser dos brasileiros, um povo realmente amável e legal naquilo que estas palavras têm de melhor, mas também um povo “cordial”, naquele sentido clássico definido por Sérgio Buarque de Holanda, onde ser cordial significa dar um jeitinho, livrar um amigo das exigências da lei ou da burocracia, furar ou deixar furar uma fila, facilitar as coisas para os amigos em detrimento daqueles que não são “da turma”. O que fatalmente desemboca no suborno, na corrupção, no nepotismo e na “pizza”. Este modo de ser peculiar talvez seja herança dos nossos ancestrais (permito-me aqui a liberdade de me incluir como brasileiro), que omitiam algum ouro dos fiscais da Coroa Portuguesa, para não pagar “o quinto” do que era extraído das Minas Gerais (hoje a “coroa” brasileira fica com 38%, e não há indícios de que uma outra Inconfidência esteja para acontecer); talvez os escravos precisassem enganar feitores e senhores para não morrerem de tanto trabalhar ou para conseguirem alguma carne melhorzinha que miúdos, pés e orelhas para misturarem no feijão. Este é um campo de pesquisa a que inúmeros sociólogos já se dedicaram com afinco sem respostas definitivas. Já pelo lado bom da mesma moeda, não consigo imaginar que um dia os brasileiros sejam capazes de tramar o extermínio dos judeus do país ou de lançarem-se dentro de aviões carregados de explosivos contra navios inimigos.

Eu, de minha parte, estou constrangido, envergonhado mesmo, confessando as vezes em que agi dessa maneira tão “brasileira”, no mau sentido. Não creio que este jeitinho seja o melhor modo de construir um país onde haja felicidade e prosperidade para todos. Sei que muitos brasileiros também pensam assim. Leio diariamente depoimentos e assisto entrevistas de brasileiros sérios (chatos, diriam alguns) que lutam para que passemos a ser um país onde os prazos e os orçamentos sejam cumpridos, onde os criminosos sejam condenados e paguem suas penas até o fim, onde haja menos burocracia e, consequentemente, menos espaço para cobrança de propinas; onde o serviço público seja de qualidade e onde os impostos beneficiem a todos, principalmente os mais necessitados; onde as exigências valham igualmente para todos e onde o cidadão dê o exemplo antes de cobrar do vizinho; onde não se jogue lixo nas ruas, mas também haja coleta de lixo em todas as ruas; onde as leis de trânsito sejam cumpridas e  as estradas sejam bem sinalizadas e pavimentadas. Temos que lutar para sermos mais “japoneses” ou “alemães” no que se refere à civilidade e à eficiência, sem perdermos nossa alegria e cordialidade, no bom sentido. Não é tarefa fácil, mas eu acho possível.

*Os nomes são fictícios


terça-feira, 17 de junho de 2014

Três homens e dois gatos

Three men and two cats, watercolor, acquarella, aquarelle

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Gambiarras Venezianas

Venetian backyards seen from the balcony of a hotel room.

Esta era a vista da sacada do quarto de hotel em Veneza. Acompanhava o som e o odor de peixe sendo frito, criança chorando e alguém cantando em italiano. Aquarela e nanquim.

sábado, 10 de maio de 2014

As meninas roubadas porque liam livros

“E vos é proibido esposardes as mulheres casadas, exceto as escravas que possuís …” *

“E então ele escreveu o documento do casamento com Aisha quando ela era uma menina de seis anos de idade, e consumou o casamento quando ela tinha nove anos.” **

“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticam ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte.” ***

“Quando um homem tomar mulher (...) e contra ela divulgar má fama, dizendo: ‘Tomei esta mulher, e me cheguei a ela, porém não a achei virgem’; Então o pai da moça e sua mãe tomarão os sinais da virgindade da moça, e levá-los-ão aos anciãos da cidade, à porta; (...) Se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra.” ****

Estes são textos considerados sagrados e inspirados por Deus. Que homem, então, se atreveria a contrariar um mandamento divino? Quem os segue à risca, faz bem aos olhos de Deus e garante seu lugar no paraíso. Assim acreditam os radicais religiosos.

Para sua informação: os dois primeiros mandamentos foram copiados do Corão e os dois últimos da Bíblia. Ao autorizar a escravidão e ao determinar ser um direito do dono de escravas possuí-las sexualmente, ao descrever que o próprio Profeta Moisés manteve relações sexuais com uma menina de apenas nove anos de idade, ao prescrever a morte aos homossexuais e às mulheres que se casarem “impuras”, tanto os mandamentos do Corão como a Bíblia são bárbaros nos dias de hoje.

Os textos sagrados do Velho Testamento judaico-cristão foram escritos há mais de dois mil anos e o Corão foi redigido no século VI da era cristã. Há muito tempo, portanto. Eram épocas em que as leis laicas e religiosas eram, frequentemente, a mesma coisa. Os livros do Velho Testamento, assim com as surias do Corão, prescreviam regras de conduta e punições para os que não as seguissem. Muito provavelmente foram um grande avanço numa época de caos social, e devem ter sido responsáveis por reduzirem punições ainda mais bárbaras e trazerem alguma unanimidade em relação ao que era ou não justo. Mas isso foi em outra época e em outro contexto.

O sequestro das jovens estudantes nigerianas por radicais islâmicos me fez tentar imaginar as razões que levam alguns, ainda hoje, a acreditar que estas regras ainda devam ser aplicadas. Do ponto de vista do Corão, os muçulmanos travam o Jihad, uma guerra santa, um esforço para submeter os “infiéis”. Sob este aspecto, as meninas nigerianas seriam prisioneiras de guerra e, ao privá-las de educação, eles estariam cumprindo os desígnios divinos. Como escravidão, sexo com escravas e com meninas impúberes são previstos no Corão, tudo se encaixa e se justifica daquele ponto de vista torto.
Estamos, no entanto, no século XXI. Ao contrário do que imaginam os pessimistas, a civilização evolui. Hoje as leis das sociedades mais modernas são mais compassivas para com o ser humano e tolerantes para com as diferenças; mais protetoras para com os indefesos e menos tolerantes com os que abusam à força de outros seres humanos. Menos bárbaras, portanto. Não admitem o trabalho escravo, o sexo não consensual, e não condenam adúlteros nem homossexuais/homoafetivos.

A separação entre estado e religião, outra característica das sociedades modernas, impede a imposição de leis e princípios religiosos aos que não professam e não concordam com a religião majoritária.

Diga-se de passagem: neste contexto, não vejo sentido lógico quando uma designação cristã, nos dias de hoje, condena o homossexualismo baseado em afirmações da Bíblia. A seguir-se todos os mandamentos bíblicos, estaríamos apedrejando adúlteros, homossexuais e mulheres (só mulheres, vejam só!) que não se casem virgens. Haja pedra!

Como o aperfeiçoamento civilizatório certamente ainda não se completou, fico imaginando que mesmo hoje, muito provavelmente ainda admitimos como normais práticas que vão se revelar bárbaras ou inadmissíveis daqui a alguns séculos. Que práticas seriam estas? Vale alguma reflexão.

Existe uma lei maior que qualquer código penal ou texto sagrado: a lei do amor ao próximo, da tolerância para com as diferenças, da proteção aos vulneráveis. A civilização, em que pesem alguns retrocessos e períodos de trevas, avança nessa direção. Eu, pelo menos, assim vejo e acredito. Enquanto isso, caberia às nações que pertencem à parcela mais esclarecida e civilizada da grande sociedade humana proteger as vítimas do radicalismo e do obscurantismo religioso. Mas como fazer isso sem violar a autonomia das outras nações? Questão difícil, mas que exige reflexão e resposta.

Assista este vídeo, um menino egípcio surpreendentemente lúcido.

*    Alcorão, Sura 2:228
**  Alcorão, Sura 4:24
*** Bíblia, Deuteronômio 22:22
****Bíblia, Deuteronômio 22:13-21

terça-feira, 6 de maio de 2014

O fabuloso Sargento João Cantor

Barcos, reprodução de aquarela de John Singer Sargent
John Singer Sargent é um dos meus dez (talvez cinco) pintores favoritos. Filho de um médico norte-americano, nasceu em Florença em 1856. Estudou pintura na Itália e na França, antes de radicar-se em Londres. Foi o mais celebrado e requisitado retratista de seu tempo. O mais famoso  de seus retratos, o de Madame Gautreau, escandalizou Paris ao retratar a socialite da época com uma alça de vestido displicentemente caída, algo de excessiva conotação erótica para a época.

Além de retratista, foi um exímio aquarelista, rivalizado apenas, a meu ver, pelo espanhol Joaquín Sorolla na excepcional capacidade de reproduzir o efeito da luz solar incidindo em paisagens, modelos, tecidos e construções. Foi daqueles poucos pintores que, na maturidade, nada mais têm a aprender. Não sei o porquê, mas talentos excepcionais como os de Sargent e Sorolla são virtualmente desconhecidos do público leigo.


Uma das melhores e mais tradicionais maneiras de desenvolver a habilidade de alunos aprender a técnica dos grandes mestres, seja de pintura a óleo ou aquarela, é reproduzindo suas obras. Foi o que, reverente e humildemente, busquei aqui. Com a orientação  presencial de Renato Alarcão e espiritual do saudoso mestre das marinhas Roberto Paragó.


Para ver mais obras de Sargent: Acesse este link

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pátria filha

Mais um amigo, como tantos outros fazem ou já fizeram, dá notícias interplanetárias daquele outro mundo, chamado de Primeiro: “Aqui não há bala perdida”, diz ele. “Aqui nem sabem o que é bala perdida. Aqui os primeiromundáqueos passeiam de madrugada pelas ruas desertas sem medo de serem assaltados. Aqui se deixa a chave na ignição enquanto se entra na farmácia para comprar alguma coisa. Aqui as estradas não têm buracos, as escolas públicas ensinam, a saúde pública atende e cura, os políticos são honestos e não têm mordomias, e os que se tornam políticos o fazem apenas pelo desejo de servir à sua comunidade e ao seu país de Primeiromundo. Aqui...”

Leio e ouço tudo com um misto de inveja e humilhação. Meio que como o pai de um vagabundo drogado assiste o filho do vizinho formar-se com louvor e conseguir um belo emprego. Suspiro. Acabei de assistir o noticiário das oito, o que não traz nenhum consolo. Pelo contrário, só serve para acentuar o desconforto. Mentalmente me esforço para esboçar uma reação. Afinal, nas grandes cidades de Primeiromundo há, sim, violência e não se pode dar sopa para ladrão na maior parte delas. Volta e meia por lá um louco entra com fuzil e metralhadora numa escola ou no antigo local de trabalho e mata dezenas sem mais nem menos (parece que nisso já começamos a copiar o Primeiromundo). Outros mantêm mulheres escravizadas e trancafiadas por décadas no porão de casa em vizinhanças abastadas e tranquilas. Não é nenhum paraíso, com certeza. Mas (ai!) sim, lá as pessoas respeitam mais as leis, assassinam menos, assaltam menos, corrompem menos e são menos corrompidas. E, quando o fazem, há muito mais chance de pagarem por seus crimes. Lá o cidadão vê os impostos retornarem em forma de estradas bem sinalizadas e pavimentadas, ruas limpas e seguras, e funcionalismo público funcionando para o público. A burocracia é mínima e qualquer um que queira produzir riqueza e dar empregos é incentivado a isso.

Não há como negar: na zona do Euro, no Canadá, na Austrália, no Japão, na Coréia do Sul e nos Estados Unidos (este com algumas ressalvas) a civilização avançou mais. Há menos improviso e mais previsibilidade. Sei dos que acham essa previsibilidade monótona, um túmulo da criatividade. Sei dos que louvam o jeitinho, a improvisação, o deixar para última hora, o compadrio, a cordialidade malsã que facilita as coisas para os amigos, mas só para os amigos; dos que se regozijam com a intimidade do guardador de carros que, debaixo da placa de proibido estacionar, nos chama de chefia, de amizade ou de mermão, pedindo “deixa solto, dezinho adiantado, que eu já saindo, fica sussa que o guarda tá na minha mão e não multa”. Essa relativização das regras, que nunca deixa de me horrorizar, encanta alguns poucos estrangeiros que, um dia, se descobrem brasileiros que foram entregues pela cegonha em endereço errado. Para mim, não passa de corrupção no varejo, praticada por aqueles mesmos que a execram e condenam nos poderosos. Serão os governantes corruptos que, pelo mau exemplo, autorizam a corrupção miúda ou somos um país de hábitos corrompidos que nascem do povo e alcançam o poder? Talvez as duas coisas? Realmente não sei.

Entendo quem desista do Brasil e parta para Primeiromundo em busca de uma vida melhor para si e seus descendentes. Que, por sua vez, vão nascer ou se naturalizar cidadãos de Primeiromundo e para quem do Brasil restará apenas um sobrenome Silva e nada mais. Me pego às vezes questionando se vale a pena insistir em continuar sendo brasileiro. Nem mesmo sei se meus netos nascerão aqui ou em terras mais gentis.


Mas sei, sim, que quem faz um país é seu povo. Não vejo a pátria como mãe, e sim como filha. Minha pátria cresce ou definha conforme meu trabalho, meu esforço, meu cumprimento ou atropelo das regras e da lei, com minha gentileza e meu cuidado para com ela e para com o povo que, comigo, nela habita. Como uma filha, minha pátria amadurece e desenvolve seu caráter com minhas críticas e minha indignação, com minhas cobranças e minha vigilância. Se ela não é gentil, talvez seja porque, até hoje, dela muito se espere e se tire, e a ela pouco ou nada se dê. O lugar onde o acaso me plantou para tentar fazer um mundo melhor calhou de ser aqui. Outras pátrias que não a minha podem ser mais resolvidas, menos rebeldes e mais gratas. Mas não são a minha Pátria Filha. Posso ser ingênuo, mas não desisto dela.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Os quatro filmes da minha vida

Na minha falta de modéstia, sempre me imaginei numa entrevista, sendo perguntado sobre quais os filmes de que mais gosto. Cansei de esperar, então vou falar mesmo sem ter sido perguntado:

1 – Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa. Eu não tinha 20 anos e não tinha namorada. Estava em cartaz o filminho romântico “Lagoa Azul”, com a ninfeta Brooke Shields. Aos dezenove, éramos todos teens, então não era tecnicamente pedofilia amarmos intensamente Brooke como nós amávamos (éramos apaixonados também por Jodie Foster e, principalmente, por Natasia Kinski. Como a filha do Nosferatu Klaus Kinski podia ser tão diabolicamente linda, meudeusdocéu!). Alguém muito sábio me alertou que a Lagoa não era filme para ser visto sem namorada. Risco de depressão grave.
Natasia Kinski, gatíssima
Quando finalmente me vi namorando, a Lagoa já tinha saído de cartaz. Levei a menina para assistir Derzu. O Cinema 1, que depois virou o falecido Estação Icaraí, superlotado. Só nos restou sentarmos na primeira fila. O filme me agradou tanto que não lembro do que rolou entre mim e a garota durante a sessão. A amizade profunda entre o oficial russo e o caçador siberiano, com sua ética, solidariedade, compreensão e respeito pela natureza despertaram o desejo de descobrir em mim o espírito ancestral que sabe coexistir com tudo que é vivo. As imagens da floresta siberiana e da tundra, na neve do inverno e no calor do verão, as cenas de tensão, como a da súbita tempestade ártica que os surpreende enquanto atravessam um enorme lago gelado, os fantasmas e xamãs da floresta... Inesquecível.

2 – Amarcord (1973), de Federico Fellini. Onírico, doce, fantástico, Amarcord é uma colcha de retalhos de lembranças de Fellini, reais e imaginárias. A vida aparentemente sem graça em uma pequena aldeia italiana à beira-mar vai aos poucos se mostrando lírica em suas pequenas tragédias, nos personagens que vão aos poucos revelando uma humanidade sem qualquer heroísmo ou maldade. A cena do touro branco que surge em meio à névoa, sem uma palavra que atrapalhe a simples imersão no mundo dos sonhos, o cunhado louco que, depois de um tranquilo piquenique em família, sobe até o alto da grande árvore para gritar sem parar “Io voglio uma donna!” Depois de assistir-se Amarcord, sentimo-nos invadidos por amor e compaixão quase infinitos pelo ser humano comum.

3 – Fargo (1987), dos irmãos Coen. Já aqui, a humanidade surge em toda a sua pequenez. Canalhas medíocres, maldades baratas, covardias e desonestidades. Um sequestro desastrado, uma dupla de bandidos formada por um psicopata burro e um joão-ninguém arrogante, unidos pela incompetência. Um mandante covarde tentando aplicar um golpe no sogro avarento. Em meio a tanta sordidez, a policial Marge Gunnarson, grávida de sete meses, é uma ilha de virtude num mar de gelo e egoísmo. Com direito a tiros mal dados, perseguição de carro em meio a uma nevasca, cadáveres triturados numa picadeira de capim tingindo de sangue vivo a neve morta e gelada. Muita ação e humor negro.

4 – O Dia da Marmota, ou Feitiço do Tempo, Groundhog Day (1993) de Harold Ramis. Uma equipe de reportagem, destacada para cobrir o Dia da Marmota na pequena Punxsutawney, fica ilhada na cidade por conta de uma nevasca. Mais que ilhado na cidade, o cético e sarcástico repórter Phill Connors (Bill Murray), fica aprisionado em um dia que se repete exatamente igual a cada amanhecer. Ele só vai se libertar da repetição sem fim se aprender algo. A parábola perfeita do ciclo de nascimento e morte do samsara da filosofia budista. Não vale se suicidar, não vale trapacear, não vale fingir. A única saída é fazer de novo e de novo, até aprender.

Estes são os meus. Quais são os seu quatro favoritos?

(Clique nos links para assistir os trailers)

domingo, 30 de março de 2014

Ah Mueck!

Máscara II, Ron Mueck no MAM - Rio de Janeiro
Sentado próximo à proa, ele está só e está nu. Ele é desproporcionalmente pequeno ou será o barco que é desproporcionalmente grande?  Não há remos, nem leme, nem vela, nem mastro. Ele está à deriva, e os braços cruzados do homem demonstram que ele sabe que não há o que fazer ou como lutar. Seu destino e seu futuro escapam-lhe completamente ao controle. Olho mais uma vez para seu rosto enrugado: um rosto quase familiar, que poderia ser do vizinho ou de um velho professor, talvez de meu avô quando eu era criança. Estou preparado para ver estampado naquele rosto o desespero ou a conformidade. Mas ele me desmente: os olhos estão vivos e atentos, o pescoço um pouco esticado para diante, como que tentando enxergar algo que está mais à frente e que ele não consegue ainda distinguir o que é. Será o fim? Será a esperança?

Já o enorme casal sob o guarda-sol colorido a princípio desperta pena. Eles são velhos. Estão em alguma praia, provavelmente cercados de corpos jovens e firmes como os deles já foram, mas nada indica que algum dia tenham sido belos. Os cabelos dele são ralos e os dela são curtos e grisalhos. Nenhum sinal de vaidade, a não ser as grossas alianças douradas, apertadas demais naqueles dedos nodosos que já foram mais magros um dia. Ele repousa de costas na areia imaginária, a cabeça apoiada nas pernas e nas varizes das pernas da companheira. Lembro-me, como contraponto, de “O Beijo”, de Auguste Rodin, o jovem casal de formas perfeitas que se enlaça em um beijo intenso e sensual, expressão perfeita e ideal do arrebatamento da paixão. Mas, então, percebo que o velho senhor tem um quase imperceptível sorriso no canto dos lábios, que transmite felicidade discreta e convicta, oposta à dos selfies escancarados a que sou submetido diariamente nas páginas das redes sociais. Contorno os dois e descubro que o braço direito do homem, o cotovelo apoiado no chão, segura delicadamente o braço de sua companheira. Procuro os olhos dela: cercados de rugas, eles repousam ternos sobre a face do seu homem. Ele, distraído, não vê, mas talvez possa pressenti-los. Os dois ultrapassaram a juventude e deixaram para trás a paixão, essa bijuteria vistosa. Eles se amam.

E assim vou percorrendo uma a uma as nove esculturas hiper-realistas de Ron Mueck. O realismo técnico, embora impressionante, é acessório. O verdadeiro realismo está na capacidade de cada uma delas transmitir uma humanidade que nos penetra sem pedir licença, como a faca que penetrou o abdome do jovem negro de outra escultura: ele ergue a camiseta ensanguentada e examina aturdido a ferida, sem entender como a vida pode atingi-lo assim, tão profunda e inesperadamente.

Uma hora de pé na fila do lado de fora do MAM, a sala lotada de visitantes, mas vale cada segundo. Vale mais: vale o preço de uma ponte aérea, vale faltar a um dia ao serviço, vale ir sozinho. Só não vale não ir ver Ron Mueck no MAM do Rio.

sábado, 29 de março de 2014

Cinquenta anos atrás, minhas parcas lembranças

Era uma terça feira, 31 de março. Meu pai e meu avô pareciam agitados e não saiam de perto do rádio naquela noite; ele ainda estava ligado quando eu fui colocado para dormir. E o som do rádio já estava no ar quando acordei na manhã de quarta feira. As ruas de Niterói estranhamente desertas: pouquíssimos carros passavam de quando em quando. Nem meu pai nem meu avô foram trabalhar naquele dia. Também não deixaram que eu e minha irmã fôssemos brincar na praça em frente, com fazíamos logo depois de tomarmos nosso café com leite mais pão e manteiga. Se tivéssemos ido, estaríamos sozinhos, pois parecia que todos os pais haviam proibido as crianças de sair de casa. Tanto meu pai como meu avô pareciam preocupados, mas, ao mesmo tempo, aliviados com as notícias que ouviam e eu não conseguia entender. Eu tinha seis anos de idade e o ano era 1964.

Quatro anos depois, meu pai chegou mais cedo do trabalho. Contou que tivera que se abrigar dentro de um prédio na Avenida Rio Branco, centro do Rio, quando tentava alcançar a Praça XV voltando do trabalho. Fugia das bombas de gás lacrimogênio e do cassetete da polícia. Do alto do prédio, contou ter visto a cavalaria avançar contra os estudantes, que lançaram bolas de gude pelo asfalto e conseguiram fazer com que alguns cavalos escorregassem e caíssem. Ele estava assustado, e não estava exatamente satisfeito. Isso em 1968.

A imprensa era censurada, o exército combatia truculenta e ferozmente a oposição, armada ou não. Gritos ecoavam silenciosos pelo subsolo da pátria, enquanto os sequestros e assaltos a bancos praticados pela esquerda clandestina eram anunciados aos quatro ventos. Meu pai e meu avô pareciam não se importar. Nós, que nunca tivéramos carro, tínhamos dois. Entramos de sócios para um clube, e o pão com manteiga passou a alternar-se na mesa com presunto e geleia, novidades na nossa casa. Provamos nossos primeiros iogurtes. Pelo BNH, meu pai deu entrada em um apartamento e deixamos de morar de aluguel.

Quando comecei a cursar medicina, em 1977, estávamos em plena vigência do AI-5. Ernesto Geisel fechou o Congresso no chamado Pacote de Abril, criando, como um Frankenstein, os senadores biônicos. Apesar disso, ele acabara de exonerar o então ministro do exército, o linha dura Sylvio Frota, contrário à abertura política “lenta e gradual” que se iniciava.

Em abril de 1984, eu era já recém-formado e as coisas eram muito difíceis. Todos os ganhos econômicos dos primeiros anos de ditadura escorriam pelo ralo na década perdida. O brasileiro médio já não tolerava mais militares no poder, muito mais pelo sufoco econômico que por “razões ideológicas”, essa coisa de intelectual. Depois da emocionante mobilização nacional pelo “Diretas Já”, a emenda que restabeleceria a democracia integral no Brasil foi rejeitada no Congresso, após uma manobra governista. Depois, com a mudança de lado de José Sarney, Tancredo Neves conseguiu derrotar, mesmo pelo voto indireto, o governista Mário Andreazza. Tancredo decepcionou a nação e cometeu a deselegância de morrer sem exercer a presidência. Eu estava de plantão naquela noite de domingo em que soubemos que seríamos governados por José Sarney. O camaleão diabólico, exímio pulador de muros, desastrado caçador de boi no pasto, manda até hoje.


Em 1989 entrávamos, enfim, no maravilhoso mundo da democracia, essa fada diáfana de asas frágeis que, queríamos acreditar, nos levaria instantaneamente à felicidade, à riqueza e à fraternidade, que decretaria o fim da mesquinhez e da brutalidade. Que instauraria definitivamente e por decreto a ditadura da virtude. Doce ilusão. Com o tempo descobriríamos dolorosamente que a democracia, óbvio, somos nós, os imperfeitos.


O Brasil se dividia então entre Lula e Fernando Collor, na primeira eleição direta para presidente depois da ditadura. Votei em Lula, diga-se de passagem, para não dizerem que nunca. O que ele teria feito caso vencesse então está enterrado para sempre no cemitério das especulações. O confisco da poupança, grande temor dos que rejeitaram Lula, foi feito por Collor.
Era o tiro que não podia errar e errou. Eu, já casado e com minha primeira filha, que era um duro e não tinha poupança alguma, nem lamentei. Enxugou-se atabalhoadamente o serviço público, abriram-se as fronteiras à importação e expôs-se a protegida e defasada indústria nacional à concorrência dos importados. Era o início da modernização econômica. Nosso sonho era simples: ter um carro importado nem que fosse um Lada, ter um telefone em casa e que ele falasse. O resto é história recente.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Chovendo no deserto

Storm over the desert, watercolor after Edgar Payne.

Country roads


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Homo pouco sapiens

Você pagaria por uma bolsa Prada sem etiqueta?
Existe uma lâmpada de filamento incandescente, tipo aquelas comuns com bulbo de vidro que tínhamos até há pouco tempo em nossas casas, que está acesa quase ininterruptamente no Posto Número 6 dos Bombeiros na cidade de Livermore, norte da Califórnia, desde 1901. Foi concebida e fabricada por Adolphe Chaillet, que a batizou de “lâmpada do centenário” (centennial bulb). A fábrica da centennial bulb fechou poucos anos depois de sua fundação, enquanto as lâmpadas incandescentes comuns suas concorrentes, que queimam em média após um ano de uso, continuaram a ser fabricadas por de mais de cem anos, dando emprego a milhares mundo afora, recolhendo muitos milhões em impostos e enriquecendo donos e acionistas da indústria de lâmpadas.

As lâmpadas, assim como quase tudo que a indústria de massa produz e nós compramos, saem de fábrica com o que se chama de “obsolescência programada”, ou seja, são propositalmente projetadas para estragar em curto período de tempo. Da mesma forma, a indústria da moda determina que aquela roupa em estampa floral linda que você comprou neste verão não estará mais em moda no próximo. Não que a roupa que será lançada para o próximo verão vá ser mais bonita, mas há de ser necessariamente diferente. Caso você insista em continuar usando a mesma por dois ou mais anos, há grande chance de você vir a se sentir desconfortável quando todas as suas amigas estiverem usando tecidos com cores fosforescentes, por exemplo, caso a indústria decida que cores fosforescentes passarão a ser o must da próxima temporada primavera-verão.

Assim como a roupa, os carros poderiam ser construídos mais resistentes ao desgaste e à ferrugem. Você pode querer ir contra a corrente, fechar os olhos às mudanças cosméticas e o contínuo acréscimo ano a ano de diversos “pra que isso” nos modelos novos, e manter seu carro em uso por, digamos quinze ou vinte anos. Mas vai então se deparar com o preço absurdo das peças de reposição. Já se calculou que, se alguém resolvesse comprar um automóvel desmontado peça por peça no balcão da concessionária, este custaria 70 vezes mais caro que o carro pronto na loja.

Nossa sociedade industrial está inteiramente apoiada neste mecanismo de produção cada vez maior, com consumo progressivo de matérias primas e de energia, o que tem como consequência mais impacto sobre o meio ambiente. Governantes enchem o peito quando podem anunciar que o PIB (produto interno bruto) cresceu tantos por cento ao fim de cada ano. Todos comemoram, as bolsas de valores sobem, o empresariado fica otimista, os bancos emprestam mais dinheiro e o povo sente-se encorajado a consumir mais e a endividar-se. Caso contrário, se a economia passa um ano produzindo exatamente a mesma quantidade de bens e serviços que havia produzido no ano anterior é um deus-nos-acuda. Num país onde a população esteja em crescimento, entende-se a necessidade de se aumentar a riqueza a ser dividida entre um número crescente de pessoas. Porém, mesmo em países ricos com população rica, estável ou decrescente como Itália e Japão, a estagnação do PIB pode derrubar governos.

Afinal, onde queremos chegar? Enriquecimento crescente e sem limite é um objetivo razoável para atrelarmos nossa sociedade humana? Para atrelar nossa vida particular?

Infelizmente, mesmo as camadas mais pobres e menos esclarecidas acreditam que o caminho é esse. Dentre as muitas motivações atribuídas aos recentes "rolezinhos", uma delas era o desejo dos jovens da periferia de consumir como as pessoas no alto da pirâmide social e ostentar coisas como correntes grossas de prata, bonés, tênis e jeans de grifes caras, muito mais caras do que seria razoável para o orçamento apertado de seus pais. Fiquei chocado assistido mais de uma entrevista desses pais mostrando o guarda roupa recheado de roupas caras de seus pimpolhos, contando com orgulho como eles se sacrificavam em horas extras para poderem proporcionar aos filhos a oportunidade de se destacarem na turma. Vivemos uma cultura de ostentação em todos os níveis sociais, cada classe ostentando como pode, seja com um correntão de prata e um boné de grife, seja com um carro de 220 cavalos que custa centenas de milhares de reais.

Os governos socialistas acreditam que suprindo as necessidades básicas para que o cidadão e as famílias possam viver com dignidade a criminalidade reduz-se necessariamente. Esta crença baseia-se na premissa de que o pobre, como um bom selvagem, pratica o crime unicamente para atingir condições dignas de vida. Não é isso que a prática demonstra, a meu ver. Apesar de nos últimos anos dezenas de milhões de brasileiros terem deixado a pobreza e a miséria, os índices de criminalidade não param de subir, constatação que deve deixar os mentores intelectuais desses governos intrigados, decepcionados e com um mal disfarçado sentimento  de serem vítimas de ingratidão popular. Vide também o exemplo da Venezuela onde, apesar das políticas populistas, a criminalidade ascendeu ao nível mais alto da América Latina. Não acredito que a motivação maior para o crime seja a fugir da pobreza, em especial numa sociedade como a nossa, que dá oportunidades legais para isso. Vivemos em pleno emprego e, apesar das dificuldades, existe mobilidade social no Brasil. Mas o que muitos daqueles que enveredam pelo crime desejam é se destacarem através do consumo e da ostentação. E o crime e a impunidade acenam como um atalho interessante em comparação com o trabalho árduo e o estudo.

Ostentar e utilizar-se de objetos para sinalizar posição elevada na sociedade não é coisa recente. As pirâmides nada mais são do que pedras  colocadas sobre um defunto para que seu corpo não seja devorado por animais carniceiros. Os nobres egípcios queriam que seu monte de pedras fosse mais alto, e mais alto, e mais alto. Deu no que deu. Pura ostentação. Pirâmides são assombrosas de se ver, mas de sentido prático no mínimo discutível.

A indústria sabe muito bem que não compramos apenas o que nos é necessário. Compramos para sinalizar, para passar uma mensagem simbólica sobre quem somos, no que acreditamos, quais são nossos valores, qual nosso poder aquisitivo. Pode-se comprar uma picape “big foot” de consumo escandalosamente antiecológico de combustível, ou mel de agave mexicano mais plâncton enlatado da Antártica. Dois exemplos de coisas pouco práticas, para não dizer irracionais, que são vendidas para pessoas que se dispõem a pagar muito caro para passar sua mensagem aos outros. No caso, mensagens opostas em certo sentido. Um anúncio de um automóvel Jaguar pode aparecer em um veículo de comunicação destinado a pessoas que nunca terão meios para comprar um deles. Mas a ideia por trás daquela foto clean de uma mulher linda diante do carro, coberta de joias caras e fazendo aquele olhar entediado de “eu não sou para o seu bico” é justamente sinalizar que a marca é para poucos. Essa atribuição de exclusividade permite que o automóvel, independente de suas atribuições técnicas objetivas, possa ser vendido com lucro percentualmente muito superior ao obtido pela venda de um modelo popular.

Mesmo os carros populares podem servir como sinalização de status. Há pouco acompanhei o caso de um casal classe C, cujo sonho declarado era construir mais um quarto em sua casinha, para que os dois filhos pudessem deixar de dormir na sala. Um belo dia vieram me contar orgulhosos que tinham acabado de trocar seu carro 1998 por outro com um ano de uso, pagando na troca um valor que teria sido mais que suficiente para ampliar a casa. Não conseguiram entender a minha reação de espanto e decepção.

Há os que argumentam que os itens mais caros são de melhor qualidade. Mas que mulher compraria uma bolsa Prada ou Louis Vuitton, mesmo com um desconto razoável de, digamos, 15 por cento, se ela viesse sem qualquer identificação externa e bem visível da marca?

Todos entendem o quanto de dinheiro custam estes símbolos. Poucos se dão conta do custo do dinheiro gasto. O dinheiro pode ser muito caro. As horas adicionais que trabalhamos para pagar o cartão de crédito, as responsabilidades extras que assumimos no trabalho, os cursos de pós-graduação noturnos a que nos sujeitamos apenas com o intuito de galgar mais um ou dois degraus na carreira, a disponibilidade sete dias por semana para o trabalho, mesmo nas horas que deveríamos dedicar exclusivamente à família, ao convívio social desinteressado e ao ócio criativo têm um valor muito elevado, que talvez não valha o dinheiro que nos dão em troca.

O Lama budista brasileiro Padma Samten gosta de provocar nesta matéria dizendo que se as pessoas trabalhassem trinta por cento menos e gastassem cinquenta por cento menos elas teriam tempo e dinheiro sobrando.

Há alguns anos decidi que já tinha mais do que o suficiente, em termos materiais, para ser feliz. E que se acaso eu não fosse feliz não seriam mais bens materiais que iriam me trazer felicidade. Gosto de sinalizar para mim mesmo e para os outros essa decisão e essa crença. É um exercício de racionalidade no consumo, mas também funciona como uma piada ideológica. Nossa torradeira, uma brava Faet (não estou bem certo, pois a marca impressa já se apagou há muito tempo) tem 29 anos de uso ininterrupto. Recentemente a salvei mais uma vez do lixo trocando o fio fraturado da tomada. Nosso automóvel tem treze anos de idade (doze conosco), e 214 mil Km rodados. Tenho apenas um relógio, um bom modelo suíço, simples e de aço, que fica bem tanto em um casamento como na praia. Meu celular é um minúsculo Nokia todo descascado, que me acompanha há cinco anos, não faz volume no bolso, não quebra quando cai e funciona perfeitamente. Talvez por isso eu possa me permitir não trabalhar a partir de sexta depois do almoço, ter tempo para escrever este artigo, pintar aquarelas e ler boa literatura sem ter que esperar pela aposentadoria. Gosto de trabalhar, mas gosto de fazer muitas outras coisas também.

Não sei o que aconteceria com a economia global se todos decidissem consumir 20 por cento menos de um dia para o outro. A Natureza agradeceria muito. Provavelmente as editoras venderiam mais livros, os cinemas, as praias e os parques teriam sua frequência aumentada. A indústria automobilística, entre outras, sofreria um baque que geraria demissões em massa. Mas talvez isso fosse compensado por um aumento no número de empregos nas atividades de lazer. Não descobri até hoje nenhum estudo sério sobre a matéria e aceito indicações.

Para terminar: Uma manhã dessas atendi Dona Luzia, uma paciente negra e bem humorada em seus setenta e poucos anos. Não lembro bem porque, ela começou a me contar sobre sua infância passada no sítio dos avós, numa aldeia no município fluminense de Silva Jardim. “Minha avó plantava arroz, milho e feijão. Tínhamos horta, criação de galinhas, porcos e duas ou três vaquinhas. Fome, nunca passamos. A criançada não tinha brinquedo, a não ser uma bruxa de pano que vovó fazia e bonecos que inventávamos com sabugo de milho e uns gravetos que espetávamos neles. Brincávamos de pique, de esconde-esconde, pescávamos no rio e subíamos nos pés de fruta com canivete no bolso. Acho que éramos pobres. Mas a gente não sabia disso e era feliz.”

* O livro "Darwin Vai às Compras", de Geoffrey Miller, traz muitos outros insights interessantes sobre as motivações do consumo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pequena crônica de despedida

Em minha caminhada matinal de reconhecimento, identifico no flanco sul da cidade os primeiros sinais das tropas de libertação. Em seu uniforme cinza, avançam furtivamente pela entrada da Guanabara, sitiando e subjugando as tropas vermelhas que por dois meses ocuparam a cidade. Volto para casa e visto-me adequadamente para saudar da calçada, agitando alegremente meu guarda chuva, os libertadores quando eles desfilarem por sob o arco triunfal do sambódromo. Em breve o trovejar da artilharia se fará ouvir e o povo será lavado da poeira e dos incêndios.


Os colaboracionistas, asmáticos, vendedores de picolé e de ar condicionado  choram e rangem os dentes. Compreendo e quase lamento por eles. Mas ciclos são ciclos, e é da natureza dos ciclos que eles se sucedam. Que venham as águas fechar o verão.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ponte Alexandre III, Paris.

(Pont Alexandre III, Pont Alexander III, watercolor, aquarela, aquarelle)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Tem um psicopata a seu lado

Malcom McDowell como o psicopata de "Laranja Mecânica"
A novela “Amor à Vida”, que acabou ontem, tentou incluir na trama diversas questões polêmicas tais como amor homossexual, barriga de aluguel, amor entre palestino e judia, AIDS, mal de Parkinson, sadomasoquismo, amor entre homem jovem e mulher mais velha, entre mulher nova e homem mais velho, autismo e muitos outros, sem conseguir aprofundar a discussão de quase nenhum deles. Mas expôs um tema que é figurinha fácil em qualquer novela que se preze e quase sempre responsável pela trama principal dos roteiros, a meu ver, mais polêmico e perturbador que qualquer outro: o psicopata.

Tínhamos aparentemente dois deles em “Amor à Vida”: Félix e Aline. Quiseram os roteiristas que um deles abandonasse o comportamento psicopata depois de uma overdose de derrotas e outra maior ainda de amor incondicional. Félix, na novela, acabou se regenerando. O que concluir disso? Que um psicopata é capaz de se redimir caso receba, enfim, o amor que não recebeu na infância? Não creio. Pode-se concluir apenas que Félix, afinal, não era um psicopata.

Já a personagem Aline seguiu até o fim o roteiro verossímil do psicopata: era incapaz de amar quem quer que fosse, nem mesmo seu próprio bebê; nunca deixou que qualquer sombra de compaixão a desviasse de seus objetivos mesquinhos; mentiu até o final e jurou inocência diante de todas as evidências em contrário. Aline não se compadece de ninguém porque simplesmente não tem a capacidade de se compadecer. Compaixão é algo que ela simplesmente não consegue entender e, não entendendo, só consegue interpretar como fraqueza.

Li dois livros sobre o assunto: “Sem Consciência – O Mundo Perturbador dos Psicopatas que Vivem Entre Nós”, do psiquiatra forense Robert D. Hare e “Meu Vizinho é um Psicopata”, da psicóloga Martha Stout. O primeiro, por força da profissão do autor, trata do assunto da perspectiva da Justiça, enquanto o segundo aborda a questão do ponto de vista de vítimas de psicopatas deitado(a)s no divã (psicopata não faz terapia, a não ser para enganar a plateia). A leitura de dois livros, claro, não torna ninguém especialista no assunto, mas serviu-me para lançar luz nesta questão sombria e aterradora.

Psicopatia, sociopatia e distúrbio de personalidade psicopática são algumas das designações de uma desordem de personalidade caracterizada em parte por comportamento antissocial recorrente, diminuição da capacidade de empatia ou remorso e baixo controle comportamental ou, alternativamente, dominância desmedida. Dito desta forma, parece tratar-se de uma patologia rara e distante da nossa realidade. Longe de ser assim. Os especialistas estimam que algo em torno de 2% da população exibe traços de personalidade psicopática em maior ou menor grau. Em outras palavras, de cada 50 pessoas que você conhece, uma é psicopata. Pode ser o vizinho, o colega de trabalho, um parente ou até mesmo seu filho. Ou talvez você seja um deles! E não adiantaria negar: psicopatas dificilmente se reconhecem como tal.

Quando falamos de psicopatas, logo pensamos em criminosos, serial killers, tiranos cruéis ou tigres inescrupulosos do mundo empresarial. Fossem apenas esses, não seria tão difícil reconhecê-los. Mas o psicopata pode ser a colega fofoqueira e mentirosa que quer passar a perna na concorrência para subir na carreira, o sócio que trabalha pouco e desvia dinheiro da empresa ou ainda o marmanjo que tem sempre uma desculpa para não parar em emprego e viver eternamente à custa da mulher ou dos pais, sem se incomodar nem um pouco com isso (o psicopata pé rapado e sem ambição).
Mas como identificá-los?

·       Psicopatas são sedutores, simpáticos, bons de conversa, extremamente atenciosos e corteses quando é de seu interesse;

·       Mentem compulsivamente, mesmo quando não há motivo algum para isso, e continuam mentindo quando são desmascarados;

·       Têm apetite sexual exacerbado;

·       Sabem simular emoções quando lhes convém, mas nunca se emocionam efetivamente a não ser quando contrariados, situação em que podem ser tornar violentos e cruéis;

·       Em relação às emoções, agem como atores convincentes, mas, para o olho treinado, eles parecem “conhecer a letra, mas não saber a música” no que se refere a expressar sentimentos;

·       Têm baixa tolerância à frustração;

·       Frequentemente buscam posições de poder para terem ampliada sua capacidade de manipulação;

·       Parecem admiravelmente capazes de manter a calma diante de ameaças que deixariam a maioria em pânico, uma vez que o medo praticamente inexiste em suas mentes;

·       Consequentemente, expõem-se rotineiramente a situações de risco, uma das únicas formas em que conseguem experimentar alguma emoção. Por não terem medo de assumir riscos, podem impressionar legiões de admiradores e seguidores;

·       Tendem a exagerar seus feitos e qualidades e seus currículos são recheados de mentiras que a maioria das pessoas comuns nem sonha em questionar;

·       São incorrigíveis e insensíveis aos apelos alheios.

Enfim, essas características fazem com que deixem um rastro de destruição, prejuízos, frustrações e corações partidos por onde passam. Isso quando não deixam gente literalmente ferida ou morta.

A psicopatia parece estar ligada a um tipo de deficiência cerebral traumática ou herdada, podendo ser ou não desencadeada ou exacerbada por um histórico familiar conturbado. A psicopatia levanta graves questões morais e legais. Do ponto de vista religioso, é perturbador considerar que certas pessoas são, de forma inata, incapazes de desenvolver compaixão e arrependimento. Isso estaria simplesmente além de suas capacidades. Neste caso, de um ponto de vista religioso, como se poderia explicar que um Deus justo criasse pessoas irreversivelmente destinadas ao inferno? Já a nível terreno, do ponto de vista legal, a psicopatia poderia ser considerada um distúrbio mental que privaria um criminoso de distinguir entre o bem e o mal? Sendo assim, poderiam ser considerados inimputáveis? Na verdade, os especialistas afirmam que eles sabem perfeitamente a diferença entre o que é certo e o que é errado. E que eles tomam decisões sobre o que fazer baseados apenas nas possibilidades de serem pegos, não no eventual sofrimento que seus atos possam gerar para terceiros.

Basta assistirmos o noticiário para verificarmos que diariamente alguém sem escrúpulos inventa uma nova fórmula para tirar vantagem de pessoas honestas e crédulas. Diante de um psicopata com uma arma apontada para sua cabeça, é completamente inútil argumentar que você tem filhos pequenos que precisam de você: ele não tem a capacidade de entender sua argumentação nem de se colocar em seu lugar. Um jovem psicopata na família frustra todos os esforços e as melhores intenções de seus pais e parentes de direcioná-lo a um caminho responsável e honesto, deixando-os eternamente se perguntando onde foi que falharam. Uma mulher casada com um psicopata passa anos ou toda uma vida oscilando entre acreditar nas desculpas e nos carinhos que a levam a mais uma vez submeter-se sexualmente ao parceiro ou repudiar o comportamento cruel, promíscuo, mentiroso e violento que tanto a faz sofrer.


O cinema e a literatura estão recheados de psicopatas que nos intrigam e nos perturbam: o cruel Hannibal (Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes”), o sedutor Frank Abagnale Jr. (Leonardo di Caprio em “Prenda-me se for Capaz”), o inescrupuloso Jordan Belfort (novamente di Caprio em “O Lobo de Wall Street”), o inquieto, sedutor e irresponsável Dean Moriarty, de “On the Road”, e tantos outros. Mas não se iluda: se eles foram retratados na arte é porque existem na vida real.

Certa vez uma amiga separada confidenciou-me sua dificuldade em entender o porquê de seu ex usar de todos os subterfúgios possíveis para negligenciar atenção e dinheiro de pensão para os três filhos que ela tivera com ele, por mais que a situação financeira dele fosse confortável. Eu tinha acabado de ler “Meu Vizinho é um Psicopata” e identifiquei imediatamente qual era o problema com o sujeito. Dei-lhe de presente o livro. A leitura levou-a finalmente a desistir de esperar dele aquilo que ele não tinha nem nunca tivera: capacidade de dar amor e empatia aos filhos. Foi uma libertação. Tenho outra amiga que teve por companheiro um homem bonito e sedutor, cuja única estratégia de vida ainda é representar o papel de pobre cachorrinho abandonado para viver na aba de uma companheira crédula, sem nunca ter que pegar no batente. Ele se diz um artista plástico (medíocre) esperando ser finalmente descoberto pelo público e pela crítica. Uma vez um amigo conseguiu que ele expusesse em uma galeria badalada. Para não correr o risco de ter sua estratégia desmascarada, ele sabotou a própria exposição.


Eles (e elas!) estão por aí, dizendo-se seu amigo, que estão apaixonados por você, que têm um excelente negócio a lhe propor, ou simplesmente apontando-lhe uma arma. Não perca tempo argumentando com eles. O melhor é manter-se a uma distância segura.