Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Empresários e políticos: uma relação financeira

Na esteira da onda de manifestações, há uma semana houve, no bairro de São Francisco onde moro em Niterói, uma convocação para uma manifestação. Seria para a discussão de problemas específicos da localidade. Movimentos assim já acontecerem diversas vezes por aqui e têm obtido resultados práticos. Por exemplo, quando da implantação das UPPs no Rio, houve migração de bandidos para Niterói e São Gonçalo e, como consequência, os índices de criminalidade em nosso bairro haviam subido muito; assaltos a mão armada e roubo a residências tornaram-se comuns, gerando um clima de insegurança entre os moradores de um bairro até então tranquilo. Convocaram-se manifestações, que aconteceram aos domingos de manhã na esquina mais movimentada daqui, e onde todos tinham acesso ao microfone para expor sua visão dos problemas e propor soluções, que foram depois encaminhadas ao comandante do batalhão da PM da cidade. Vem dando certo. O policiamento foi reforçado, viaturas passaram a fazer rondas ostensivas dia e noite e a coisa melhorou sensivelmente.

Na mais recente manifestação, os problemas eram outros. Isoladamente, pareciam não ser grande coisa, mas o todo apontava para um vício grave, que pode ser facilmente transposto para compreender-se o que ocorre no âmbito nacional. Quais eram esses problemas?

1-    A Prefeitura, ou talvez devêssemos dizer o prefeito, tinha acabado de autorizar uma empresa privada, a Niterói Park, a explorar a cobrança de estacionamento no bairro, inclusive na Avenida Rui Barbosa, rua onde se concentra o comércio do bairro, onde estão a padaria, as farmácias, a loja de ferragem e os pequenos supermercados onde os moradores locais se abastecem. Curioso é que o atual prefeito, Rodrigo Neves, antes de assumir havia se posicionado contra a ampliação do estacionamento pago para o bairro (veja aqui http://www.ofluminense.com.br/editorias/cidades/rodrigo-neves-vai-vetar-reajuste-de-rotativo). Mudou de ideia por que?

2-    Na encosta do Parque da Cidade, a área de proteção ambiental que é um dos limites do bairro, começaram obras de um pequeno condomínio de luxo, com abertura de uma rua onde deverão ser construídas algumas residências de alto padrão.

3-    Empresários da construção civil vêm adquirindo casas no miolo do bairro e pondo-as abaixo, preparando-se para a construção de prédios de apartamentos. O que não seria problema, não fosse o fato de que o gabarito local limita a altura dos imóveis a, no máximo, dois andares. Já ocorreu uma intervenção do Ministério Público para interromper obras já iniciadas da construção de um prédio na Rua Coronel João Brandão.

Todas estas ocorrências, que contrariam os interesses dos moradores do bairro, sugerem uma coisa gravíssima: a concessão de benefícios e afrouxamento de regras para empresários que financiaram as campanhas do atual prefeito e alguns vereadores, ou então corrupção direta e simples. A prostituição entre o poder público e o empresariado. Dane-se o povo. Estes fatos dão munição à ideia do voto distrital e da candidatura independente.

Conto essa história para ajudar no entendimento de como funcionam as coisas, começando nos bairros, nos municípios, chegando aos estados e à República. Nojento.

Por aqui, já fizemos passeatas, um abaixo assinado e estamos aguardando o desenrolar dos fatos para novas manifestações.

domingo, 23 de junho de 2013

Da utopia à realidade

Não sou de acreditar em tudo que leio na internet ou no FB. Custei a me manifestar na questão da "importação" de "médicos" "estrangeiros" pelo governo do PT, tudo assim entre aspas mesmo: não é importação e nem são cubanos. São brasileiros convocados entre militantes do PT, em especial no MST; e não são realmente médicos. Leia este link e entenda.

"Todos os bichos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que os outros."
Uma coisa que me foge inteiramente ao entendimento, apesar de meus melhores esforços em tentar compreender outros pontos de vista, é o porquê de tantos brasileiros bem informados e aparentemente inteligentes, inclusive amigos e parentes meus, enxergarem em Cuba qualquer coisa, isso mesmo, qualquer coisa que possa servir de modelo para o Brasil. Concluo que só pode ser uma mistura de desinformação, burrice e ingenuidade. Ou má fé pura e simples. Se é para invejar algum país socialista, eu admito que invejo a Suécia ou a Dinamarca. Mas não Cuba.

Talvez eu mudasse de ideia se alguém fosse capaz de me mostrar uma única história de socialismo totalitário bem sucedido na face do planeta. E não me venham dizer que não dá certo porque a Cuca ou o Bicho Papão Capitalistas não deixam. Se o socialismo totalitário fosse viável, ele já teria inviabilizado o capitalismo, e não o inverso. Na verdade, admito, o comunismo seria excelente se acontecesse em um planeta habitado por seres de espírito muito mais elevado e solidário do que o dos seres humanos de carne e osso. Mas o homem é imperfeito e, como consequência, os ditadores são imperfeitos, os políticos são  imperfeitos e todas as ditaduras são perniciosas. Todos os fãs de Cuba, de Che, de Fidel e do comunismo (não me venham com eufemismos: Cuba é uma ditadura comunista) deveriam perder meia hora e ler aquele livrinho que todos já ouviram falar, mas parece que quase ninguém leu: a "Revolução dos Bichos", de Orwell.

Países só andam para a frente quando seus habitantes são incentivados a, de maneira livre, ética e legal, empreender, progredir, se aperfeiçoar e usufruir da riqueza gerada por  seus próprios esforços. E depois, sob a supervisão de um Estado democrático, contribuir com parte de seus ganhos para o bem estar e a proteção de todos, inclusive provendo condições dignas para os que não são tão bem sucedidos. A lei e o Estado devem tanto permitir que todo e qualquer cidadão tenha a possibilidade de enriquecer quanto preservar a propriedade daqueles que obtêm riqueza. Nem sempre este equilíbrio é fácil. Já a expropriação dos meios de produção por parte do Estado, tanto quanto um Estado que existe apenas para proteger o monopólio das fontes de riqueza para uns poucos, nos dois extremos do espectro esquerda-direita, estão fadados a longo prazo à pobreza.

Quanto ao que vem ocorrendo de forma tão vigorosa no Brasil nesta última semana, não acredito que estejamos presenciando um renascer, uma aurora de uma nova era para nosso país. Eu, em pouco mais de meio século, já presenciei a revolução de 64, o milagre brasileiro, a anistia, a volta do irmão do Henfil, o "Diretas Já", a eleição de Tancredo, a posse de Lula, o "nunca dantes nesse país". Todos eram o início de uma nova era. Os jovens podem (e devem!) ser idealistas e acreditar na utopia. Faz parte. Eu estou ficando velho. Sei que o caminho é longo, cheio de desvios e armadilhas, e que nem sempre se anda para frente. Quero crer, no melhor de minhas esperanças que, se as coisas não desandarem, conseguiremos avançar alguns poucos passos mais na direção do país que sonhamos e nem sei se merecemos. Mas aí me lembro que o José Dirceu surgiu como um desse jovens idealistas que hoje inflamam as nossos melhores sonhos e quase perco as esperanças. Quase.

Se quiserem, tem a versão cinematográfica do livro de Orwell.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Carpas 2

(Koi fish watercolor acquarella) 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Upa, Nenê"

"Day after", de Jan Cleijne


Achei oportuno republicar este conto, uma fantasia que escrevi em novembro de 2011, no auge do movimento Occupy Wall Street. Não que eu acredite que vá ser assim, pelo menos por enquanto. Na verdade, desejo muito um amanhã melhor.

Só me resta essa bateria, então vou resumir o que vi. Cacoete do repórter que fui. Não sei por quanto tempo vou continuar tendo sorte. Os cães estão cada vez mais ferozes e atrevidos. Culpa da fome, acredito. Agora, no inverno, ficam piores. Mas ainda tenho esses mapas do metrô, que me permitem me deslocar pela ilha, pelos túneis que não foram inundados.

Quando eles ocuparam a praça, ninguém deu muita importância. Desocupados, disseram. Bichos-grilo pacifistas, sem-tetos e incompetentes para arrumar trabalho. Pegaram empréstimos para comprar mansões e não puderam arcar com as hipotecas. Vão cansar quando chegar o inverno. Quando chegou o inverno, eles realmente cansaram. De esperar. Um barril de pólvora esperando um fósforo. Aí, aquele negro cego, Josiah Baker, apareceu morto com um tiro na praça. A polícia apresentou um certo Feliciano Martinez como culpado, mas antes que ele pudesse ser ouvido, foi morto por um tiro a queima roupa. Uma tal de Felicity McMurdo, a loura gorda. Garçonete desempregada. Pai dos filhos dela, nunca deu pensão, justificou-se. Era o fósforo. Felicity e Feliciano: os branquelos de um lado, os latinos do outro. Houve gritaria dos moderados, mas não queriam moderação. Só se deram conta do tamanho da coisa quando alguns financistas decapitados foram jogados da ponte do Brooklyn. As cabeças ficaram meses espetadas nas grades da Trinity Church. Depois, os cachorros roeram.

Ela ainda estava lá, na época, a ponte. Upa, nenê. Na primavera de 2031 a esquadra brasileira, ancorada ao largo da foz do Hudson, disparou uns mísseis que a puseram abaixo. Era bonita. Mas os brasileiros não conseguiram resgatar o imperador. Barack III desapareceu sem deixar vestígio. Dizem que existe uma seita no Hawaii que aguarda o seu retorno. Caralhoporra. Sei não.

A China protestou. Com a envergadura moral de serem a maior democracia do mundo, não gostaram do que viram. Boicotaram a gente. Economicamente, quero dizer. Foi pior. A Segunda Guerra de Secessão, ao contrário da primeira, foi vitoriosa, e quiseram restaurar a escravidão. O último presidente, Gonzáles Urrútia, fugiu ninguém sabe para onde, Cuba, talvez. Latinos, negros, chinas, go home, eles disseram. Mas o Nordeste já estava tão decadente que eles nem se deram o trabalho de manter a ocupação. Abriram as portas do Zôo e partiram. Quem acabou jantando os antílopes e as girafas foram os lulus abandonados pelas madames. Upa, caralho.

Acabamos divididos em quatro. A Federação do Sul, a Federação do Sol do Pacífico, do jogo e da maconha, Os Estados Unidos da Chuva e os Territórios Selvagens do Nordeste, que não têm governo central, apesar de dois séculos de brigas e escaramuças. Ninguém quer nem invadir essa merda. Upa, upa.

Os do Sul reativaram os mísseis nucleares. A questão Israel – Palestina foi resolvida. Lá só tem árabe e judeu, os do Sul se deram conta. Bastou um míssel. Hoje não existe nem Israel nem Palestina. Nem Santo Sepulcro. Mas já construíram outro em Orlando. Cem paus pra entrar, duzentos para beijar a cruz. Barato, eu acho. Agora os mísseis estão apontados para o Brasil, a China e a Índia.

Estou ouvindo uns latidos vindos da direção da estação Canal Street. Upa, nenê, caralhoporra, upa upa. Continuo depois.

sábado, 15 de junho de 2013

Um pouco de lenha para manter aceso o fogo do debate

Os avanços em uma sociedade muitas vezes só ocorrem
mediante rupturas mais ou menos traumáticas.
Estamos vivendo um momento que pode vir a se tornar um marco na história do Brasil. Ou não. Tenho dedicado muitas horas nos últimos dias lendo jornais, assistindo vídeos e ouvindo ecos à esquerda e à direita sobre as recentes manifestações deflagradas a partir do anúncio do aumento do preço das passagens de ônibus no Rio e em São Paulo. A princípio, confesso um pouco constrangido, foi-me difícil entender o porquê de tanto barulho por aparentemente tão pouco: jovens, aparentemente universitários de classe média protestando contra um reajuste abaixo do índice de inflação no período.

Logo pareceu claro que o reajuste foi a gota d’água que fez transbordar o pote, a faísca que fez incendiar a palha seca. Se é só isso, fogo de palha, o tempo vai dizer. Eu, particularmente, torço que não.

Não vejo uma manifestação de arruaceiros, muito pelo contrário. Chama muito mais a atenção a disposição da grande maioria dos manifestantes em conduzir os protestos de forma pacífica, embora às vezes a coisa escape do controle, muito mais uma exceção do que a regra. Já a resposta da polícia, que tem o legítimo dever de proteger todos os cidadãos e o patrimônio público e privado, não raro tem agido com violência desproporcional e algumas vezes gratuita. É no mínimo curioso ver o atual partido governista na outra extremidade do cassetete. E é comovente ver os jovens deixando de preocupar-se apenas com suas próprias carreiras para pensarem-se também como atores nos rumos da sociedade brasileira.

Voltando um pouco no tempo, lembrei-me da posse do ex-presidente Lula há dez anos. Confesso meu ceticismo na ocasião, diante daquelas cenas de cores bíblicas que remetiam à entrada de Jesus Cristo em Jerusalém. Estou ficando velho, e só acredito em mudanças depois que elas acontecem. Mas foi comovente ver o quanto de esperança os brasileiros, em especial os mais pobres, depositavam na ascensão ao poder de um homem de origem humilde, nordestino, de pouca cultura, um homem comum do povo, enfim. Alguém que, como nenhum outro antes na história desse país (não resisti) saberia como quebrar o nosso triste histórico de corrupção e incapacidade de governar de forma ética e voltada para os interesses mais amplos do povo brasileiro.

A expansão do programa Bolsa Escola, rebatizado de Bolsa Família, visava ser um paliativo temporário para aliviar a urgência da fome e da miséria, enquanto o Brasil não fosse capaz de atrelar todos ao processo de crescimento e inclusão. A conjuntura econômica global era favorável, a inflação já havia sido debelada em governos anteriores e a estrada parecia plana e asfaltada para um futuro de paz e prosperidade generalizada. Tudo começava bem.

Passados dez anos, deveríamos estar celebrando as copas e as olimpíadas como o coroamento de uma arrancada que deveria ter colocado o país num círculo virtuoso, com assistência médica e educação públicas de qualidade crescente, violência declinante, transporte público eficiente, economia estável e instituições políticas sólidas e respeitáveis, e, quem sabe, corrupção endêmica debelada ou minimizada. Mas não é este o clima que o brasileiro percebe estar respirando hoje. O que era um sentimento vago de desconforto, encontrou nesta “Revolta dos Vinte Centavos” uma forma de se tornar consciente e extravasar para as ruas. Não vejo outra explicação para o que estamos assistindo nos últimos dias.

O Estado é uma entidade a que cada indivíduo aceita ceder uma parte de seus rendimentos e de suas liberdades em troca de uma contrapartida a ser fornecida ao povo: ordem, obrigação de cumprimento de leis e contratos, garantia  de liberdades individuais (dentro de determinados limites decididos democraticamente e impostos pelo Estado), serviços públicos de qualidade e manutenção da segurança, tanto interna como externa. Foi-se o tempo da crença no Direito Divino dos governantes, que sobrevive ainda no Irã e na Coréia do Norte, evocando vagos deuses celestiais ou terrenos. Por exemplo, “A Revolução”, seja ela qual for, que continua a ser amplamente usada como uma entidade que tudo justifica por ditaduras de ambos os lados do espectro.

A certa altura o povo dá-se conta de que vem cedendo muito e recebendo pouco. Aí, o caldo entorna.

A princípio, deu-me a impressão de que faltava aos manifestantes uma consciência mais aguda de contra o que estavam protestando, e talvez falte mesmo. Mas há um sentimento legítimo e generalizado de que as coisas poderiam e deveriam ser diferentes. Senão vejamos: 

Começamos há um ano a perceber de forma mais aguda que os preços estão subindo mais do que admitem os índices de inflação. Este é um incômodo democrático, que atinge tanto o rico que quer trocar seu carro de luxo como a dona de casa pobre que tenta colocar alimentos na mesa da família. Já as causas da inflação são de entendimento menos generalizado. Os gastos públicos explodiram, voltados menos para obras de infraestrutura que permitam ao país crescer a longo prazo e mais para o inchaço da máquina do Estado: temos hoje, por enquanto, 40 ministérios. Ao invés de economizar, o governo decidiu-se por métodos heterodoxos para tentar manter o crescimento: ampliar o consumo e o endividamento das famílias, através de reduções pontuais de impostos em setores específicos como eletrodomésticos e automóveis. Mas o preço dos alimentos disparou e a dona de casa está reclamando. E o PIBinho teimando em não crescer.

Como já foi dito, havia a esperança de que os preparativos para os grandes eventos esportivos não se confirmassem apenas como uma oportunidade para obras faraônicas e superfaturadas a encher o bolso de políticos corruptos e empreiteiros; que houvesse investimentos maciços nos transportes públicos, como ampliação de avenidas, novas linhas de metrôs e BRTs, hospitais e escolas. Enquanto as obras para as olimpíadas de Londres acabaram custando menos que o estimado, por aqui as obras apenas com os estádios já custaram vários bilhões de reais acima do previsto, sem que as obras de entorno, como ampliação dos acessos e estacionamentos, tenham atingido metade do volume previsto. Os estádios agora são privados, o preço dos ingressos estão mais caros que os europeus e só pode comer ou beber nos estádios quem se sujeita a pagar R$ 8,00 por um cachorro quente ou R$ 7,00 por um copo de mate. Levar biscoito de casa é proibido. 

Na área institucional, tivemos grandes alentos com a aprovação da Lei da Ficha Limpa (por sinal, uma iniciativa popular, e não do Estado) e da condenação dos envolvidos com o mensalão. Mas o fato de estarmos ainda por ver pelo menos um dos condenados indo de camburão para dentro de um presídio vai minando o entusiasmo inicial e faz recrudescer o sentimento geral de impunidade. Mais ainda, e isso é altamente saudável, deitou-se por terra a crença ingênua do eleitor de que um partido ou uma pessoa possam estar fora e acima da máxima de que o poder corrompe e corrompe sempre. Pior ainda, a reação do partido governista de enviar para o Congresso as Propostas de Emenda Constitucionais (PECs) 33 e 37, que retiram o poder de investigação do Ministério Público e submetem as decisões do Supremo Tribunal de Justiça à ratificação pelo Congresso ou por referendo popular soou como revanche contra as duas instituições que levaram avante a investigação e julgamento dos mensaleiros.

Ainda há pouco, na cobertura televisiva da abertura da Copa das Confederações, a repórter Sandra Anemberg parecia desconfortável tendo que focar a alegria de nosso povo pacífico e ordeiro vestindo a camisa canarinho a caminho do Estádio Elefante Branco Nacional Mané Garrincha, enquanto dois mil manifestantes que protestavam contra o estouro de mais de 86% nos gastos com sua construção. Dinheiro que deveria ter sido utilizado para fins mais práticos. Logo depois, os manifestantes eram impedidos de se aproximar do estádio às custas de atropelamentos por soldados de moto, tiros de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. A Globo mostrando tudo.

Falando nisso: uma parcela dos brasileiros tem se posicionado contra a grande imprensa, que estaria privilegiando as cenas de vandalismo dos manifestantes em detrimento das cenas de violência da polícia. Não é o que eu tenho visto. A Rede Globo exibiu em horário nobre diversas cenas de violência policial que eu havia visto pouco antes na internet. Acho fundamental alertar para o perigo que é desejar a intervenção nos meios de comunicação. O Equador acaba de aprovar uma lei de mordaça contra a imprensa, na Venezuela todos os jornais de oposição foram fechados ou encampados e, na Argentina, Cristina Kirchner luta contra o Judiciário para tentar fechar o jornal El Clarín, que insiste em denunciar os desmandos e a incompetência da presidente portenha. Por nossas bandas alguns congressistas ligados ao governo e condenados do mensalão tentaram impor um tal de “Conselho Federal de Imprensa”, mas a presidente contrariou-os posicionando-se a favor da liberdade de imprensa e o assunto, pelo menos por ora, foi arquivado. Toda imprensa vive de seus grandes anunciantes mais do que da venda de jornais, isto é fato. Em tese o interesse dos anunciantes poderia ter influência no teor jornalístico da imprensa. Mas uma imprensa imperfeita é melhor que nenhuma imprensa ou uma imprensa tutelada pelo Estado. Então, deve-se estar atento: quem se beneficia desqualificando-se a imprensa?


O brasileiro médio, apesar de ter conseguido equipar sua casinha com eletrodomésticos e ter no bolso um celular pré-pago, sua diariamente por várias horas para ir e voltar ao trabalho, sonha um dia conseguir pagar um plano de saúde e escola particular para seus filhos para não mais depender dos serviços públicos, torce para que eles não se entreguem ao vício do crack, se angustia com a alta dos alimentos e teme ser assaltado e morto por outro brasileiro com menos esperanças do que ele. Vê traída a confiança que depositou nos políticos e começa a entender que, mais do que delegar e confiar, ele mesmo precisa tomar as rédeas do processo se quiser ver um futuro melhor para si e seus filhos e netos. Então talvez seja a hora de nosso povo tão pacífico e ordeiro começar a questionar essas características tão convenientes a quem desmanda. É esperar para ver.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Carpas I

Koi fish, acquarella, aquarelle, watercolor

segunda-feira, 27 de maio de 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mulher com Borogodó




Em crônica recente, Joaquim Ferreira dos Santos sugeriu que Luana Piovani dedicasse um programa do “Super Bonita”, que ela apresenta no canal GNT, às mulheres normais, imperfeitas no que se refere à beleza. Sugestão esta que foi declinada com veemência: "Ninguém vai assistir um programa que incentive a inércia no duvidoso", ela protestou. "Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos porque no planeta que moro, homem tá mais vaidoso que a gente".

Não vou ser hipócrita de fazer aqui apologia da feiura. Concordo com a Luana quando ela diz que todos temos que buscar nossa melhor versão. Mas a comparação com pessoas que nascem com genética privilegiada no que se refere à aparência física pode causar muita frustração aos demais viventes. Não há plástica ou academia que vá me deixar minha melhor versão minimamente comparável com o nível de beleza de um Brad Pitt. O que não faz sentido é imaginarmos que perfeição estética é pré-requisito para a felicidade no amor. Todos conhecemos aquela pessoa linda que não consegue segurar um relacionamento e aquela outra que, apesar de não constar no primeiro time da beleza, tem séquitos de admiradores(as) esperando a fila andar.

A beleza é um abre alas, não resta dúvida. Diante de uma pessoa bonita abrimos, vulneráveis, nossas defesas, às vezes de forma imprudente. A beleza desperta-nos sorrisos e boa vontade. É um bem que, além do óbvio apelo erótico, inconsciente e automaticamente associamos à virtude. Automatismo esse que, muitas vezes, não resiste a dois segundos de razão. Felizmente, amor e felicidade são mais democráticos que a beleza.

Então, o que é que têm algumas pessoas que não são do primeiro time dos belos que as torna capazes de cativar admiradores e apaixonados? Um outro fator, talvez mais intangível que a beleza: o borogodó.

Borogodó faz uma mulher se apaixonar por um homem mais baixo e abrir mão do salto alto pelo resto da vida, e a Carla Bruni está aí que não me deixa mentir. Borogodó nos faz amar a gordinha, a magrela e aquela de nariz cheio de personalidade. E o que, afinal, é esse tal de borogodó? As definições podem ser muito subjetivas e variar de pessoa para pessoa: para uns pode ser tornozelo grosso, para outros a voz meio rouquinha ou um sotaque gaúcho. Para algumas pode ser peito cabeludo ou covinha no queixo. Eu, por exemplo, no que se refere à aparência, curto cabelo comprido e umas outras coisinhas mais, que eu não vou abrir aqui por que não vem ao caso. Mas vamos fugir dos aspectos físicos e nos atermos à atitude e, longe de qualquer rigor cientifico, limitar-nos a dizer aqui o que é que tem a mulher com borogodó na nossa modesta e muito particular opinião. Apesar de que alguns requisitos, penso eu, são universais.

Mulher com borogodó (MCB) é bem humorada. Não tem nada mais anti-borogodó do que mau humor. Por ser bem humorada, o sorriso é estado natural da MCB. Não um sorriso estudado, de miss ou de dançarina de auditório, mas um sorriso que é o transbordamento natural do prazer que a MCB tem em viver.

MCB é feminina, mas não é infantil. É feliz em ser mulher e não inveja nem critica os homens apenas por serem eles homens. Ela agradece a Deus por Ele tê-los posto no mundo, da mesma forma que os homens com borogodó O louvam por ter Ele inventado a mulher.

MCB acredita que estaria melhor com um bom homem a seu lado, mas fica muito bem sozinha. MCB não troca sua solidão pela companhia de um qualquer. MCB não está ali pedindo para ser resgatada da solidão. Ela sabe bem que homem bem resolvido não gosta de bancar o caminhão guincho, daqueles com a frase “eu vou tirar você deste lugar” pintada no para-choque. Quem precisa de guincho é mulher enguiçada, e não MCB.

Na cama, a MCB não fica se comportando como um belo prato a ser desfrutado por um felizardo, nem entra na pista com freio de mão puxado. MCB entra em campo à vontade e se diverte tanto quanto seu parceiro.

MCB olha nos olhos com uma confiança relaxada. Não faz caras, bocas nem gestos estudados, pois confia nos atributos de seu borogodó e não finge ser o que não é. Não obstante, ela tem um jeitinho todo especial de ajeitar os cabelos e de andar com graça mesmo quando está com pressa, que ela exercita distraída e espontaneamente.

MCB sente-se bem vestida para festa, mas muito mais ainda quando está mais à vontade. MCB veste jeans e camisa, calça uma sandália com saltinho, põe um batonzinho e uma lavanda e esbanja borogodó por onde passa.

Mulher bonita a gente sonha ou planeja pegar, mas MCB desperta na gente vontade de namorar, de passear de mão dada, de ver um pôr do sol ou ouvir uma música juntinho. E depois amar.

Então, minhas amigas, permitam-me um humilde conselho. Frequentem a academia, malhem, endureçam o bumbum e a barriguinha para serem seguidas por olhos gulosos pela rua. Mas se quiserem encantar profundamente um homem, exercitem-se também no borogodó.


20.000!

Vinte mil acessos! Obrigado, leitores, vocês são a razão de eu escrever. E, assim como o Rheyner está a caminho dos 1.000 gols, eu quero comemorar os 100.000 em breve com vocês.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Rebanho Listrado

Um rebanho de cardiologistas e uma felina predadora.

Estou na fila de retirada de material de um simpósio médico internacional em São Paulo. Serão dois dias, sábado e domingo, em horário integral, onde eu e outros cardiologistas tentaremos nos inteirar dos mais recentes avanços na fronteira da ciência médica. Quase todos estão aqui graças aos incentivos para educação médica continuada da indústria farmacêutica, o que, em outras palavras, significa que estamos aqui graciosamente. O que não significa que haja muita graça nesta fila de médicos, quase todos veteranos, a julgar pelos abdomes convexos e pelas cabeças grisalhas ou calvas. São poucos os jovens; a indústria farmacêutica tende a investir em cardiologistas com clientela estabelecida e com calos de estetoscópio nos canais auditivos. Os colegas paulistanos são a maioria e fazem questão de confirmar o estereótipo que existe na minha cabeça: branquelos bem barbeados com olhos esverdeados e sobrenomes sempre terminados em “eli”, “ali” ou “ani”. Há alguns de olhos escuros, cabelos castanhos e narizes avantajados, os necessários representantes médicos das tradicionais famílias libanesas cristãs-maronitas da Paulicéia. Independente da origem familiar, uma variação infinita sobre o tema listras-verticais-finas-coloridas-sobre-fundo-branco impera nas camisas de meus colegas, e minha própria não é exceção. Sou uma zebra em uma manada de zebras. Mas cada profissão tem seu código de vestuário, fazer o quê? Fosse um congresso de homeopatas, talvez houvesse alguns de bata de algodão e sandálias sem meia, mas não é o caso. A exceção na fauna cardiológica masculina, se é que poderíamos incluí-lo na categoria, é um rapaz com camisa para fora da calça skinny, jaqueta preta de couro envelhecido e um par de sapatos de verniz de bico finíssimo, capaz de matar formiguinha no canto do consultório. Um metrossexual, para dizer o mínimo, ou um glorioso antílope pastando em meio a nós, zebras sem graça.

Mulheres, há poucas. Cardiologia ainda é uma especialidade de homens, pelo menos na minha geração. Quanta diferença em relação ao congresso de endocrinologia em que me meti há um ano! Senti-me o Marcello Mastroianni no filme “Cidade das Mulheres” de Fellini. As poucas representantes femininas aqui fazem, em sua maioria, o figurino deselegância-discreta, reforçando o mito. Há, no entanto, uma exceção gloriosa na fila: uma bela quarentona e suas pernas perfeitamente torneadas prudentemente envolvidas em  finas meias de nylon, que despontam de sob um vestido curto em padrão de oncinha para equilibrarem-se em saltos altíssimos. Os longos cabelos alisados e alourados à custa de várias centenas de reais emolduram o olhar felino que espreita a nós, o rebanho listrado. Distraio-me observando aquelas pernas, em especial quando a dona, aparentemente sem motivo, debruça-se sobre o balcão de atendimento, revelando alguns centímetros a mais de suas possantes patas traseiras de predadora.

Pego o material quando chega a minha vez. Depois observo as várias rodinhas de médicos sorridentes que se cumprimentam estapeando-se nas costas com variados graus de vigor: ex-professores e seus ex-alunos, ex-colegas de plantão, de faculdade e de residência. Talvez este seja o ponto alto dos congressos e simpósios. Não quero ser uma exceção solitária. Há poucos niteroienses aqui, mas logo avisto um amigo e mais outro e mais outro. Seremos companheiros nos próximos dois dias, trocando impressões técnicas e tentando absorver da melhor maneira possível as novidades que nos serão expostas. Relembraremos velhas histórias, contaremos casos, clínicos e pessoais, dividiremos uma ou duas confidências. À noite, encorajados por um bom vinho, contaremos piadas e daremos risadas à volta de uma mesa de pratos de massa. E assim são os congressos médicos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

“Livre”: Caminho de Santiago é para os fracos (resenha)

Pacific Crest Trail

Estou sentado, aquecido, seguro e confortável lendo um bom livro. A pouca distância de onde estou, não mais que cinco ou seis metros, a mata se inicia e se estende morro acima. Observo a natureza se aproximando menos tímida, quase me aceitando como parte dela. Dois ou três esquilos saltam das árvores até o chão e de volta para as árvores: uma saracura sente-se à vontade para esvoaçar até a bandeja de madeira onde há grãos de milho; sanhaços, tiês, gaturamos, ferro-velhos e sabiás revezam-se devorando bananas espetadas em um galho horizontal da grande árvore que acredito ser um vinhático; meia dúzia de beija-flores esvoaçam ao redor da garrafa-bebedouro pendurada na varanda; escuto tiribas, maritacas e outras aves manifestando-se fora do alcance da vista.

Tenho nas mãos um volume de “Livre”, obra de Charyl Strayed, que comecei a ler há poucos dias. Um daqueles livros que às vezes compro por impulso, sem nenhuma referência anterior que o recomende, ao explorar as bancadas e lançamentos das livrarias. Raramente me arrependo.

A narrativa de Strayed descreve sua caminhada e três meses pela Pacific Crest Trail – PCT (Trilha da Crista do Pacífico), que se estende ao longo de toda costa oeste dos Estados Unidos, desde o México até o Canadá, levando nas costas uma mochila com mais da metade de seu próprio peso. E os motivos dramáticos que a levaram a decidir-se pela aventura aos vinte e poucos anos: a morte prematura por câncer de sua mãe, até então sua referência no mundo, a consequente desagregação do que restou de sua família, a espiral de autodestruição em que mergulhara sua vida; a promiscuidade sexual, o envolvimento com drogas, a destruição da relação que tinha com o homem que a amava. A perspectiva da caminhada solitária surge como a derradeira e desesperada chance de reatar relações amistosas consigo própria.

Na maior parte caminho, nada de albergues, companhia ou constantes referências de civilização. Ursos, cascavéis, nevascas, quedas, avalanches e o fantasma constante do encontro com um puma a obrigam a despir-se dos papéis que até então representara como mulher atraente e a encarar seus aspectos mais essenciais como ser humano. É também um relato de companheirismo, solidariedade e amizade de outros trilheiros, cada um com suas diferentes motivações.

Surpreendentemente bem escrito, a leitura deste livro vai agradar especialmente aqueles, que como eu, têm prazer em relatos de aventura e solidão, como “No Ar Rarefeito”, “Na Natureza Selvagem” e no clássico “Walden, ou A Vida Nos Bosques” de H. J. Thoreau. Emoldurado por uma paisagem grandiosa e intocada, este é um daqueles relatos onde o isolamento e a perspectiva do valor das menores coisas, como a distância até a próxima fonte de água potável ou um lugar firme para apoiar o pé e dar o próximo passo, são capazes de devolver-nos a noção do que é essencial. Causou-me uma vontade de transcender esta relação voyeurística com a natureza e me atracar com ela. Vai que fico velho...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Marinha

Daprès original a óleo de Edward Seago (clique na imagem para ampliar)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Fim de Verão

Baseada em óleo sobre tela de Isaac Levitan (clique na imagem para ampliar)
watercolor

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Neblina

Aquarela pronta (clique na imagem para ampliar)


Esta foi a primeira aguada da aquarela acima. Lots of fun in doing it! Poderia, forçando um pouco a barra, dá-la por acabada e intitular com algo tipo "Winter Landscape, North Dakota".

domingo, 31 de março de 2013

"O Cais"

Aquarela a partir de original a óleo de Edward Seago. Clique na imagem para ampliá-la.
(watercolor, acquarella)

domingo, 24 de março de 2013

Essas Assustadoras Mulheres

Não, ela não morde. Só, talvez, se você pedir.

Eu fui um adolescente tímido. Durante aqueles anos de espinhas e inseguranças, eu passava minhas férias e boa parte dos feriados na casa de meus avós em Nova Friburgo. Lá tinha muitos amigos, alguns moradores da cidade, outros veranistas como eu. Algumas daquelas amizades perduram até hoje. A Serra do Mar é o cenário da maioria de minhas lembranças de juventude, inclusive de meu difícil aprendizado na matéria de relacionamento com o sexo oposto. Frequentemente eu subia e descia a serra de ônibus. Antecipava, em meus devaneios, entre esperançoso e atemorizado, a possibilidade de uma bela garota vir a sentar-se bem a meu lado durante a viagem. Como começar uma conversa? Munia-me sempre de um tubo de drops de hortelã para o dia em que o Acaso me sorrisse. Diria então: “Quer um drops?” Se ela negasse e desviasse o olhar para a paisagem, fim da tentativa e, entre decepcionado e aliviado, eu estaria de volta à minha solidão. Mas, e se ela aceitasse? E se, além de aceitar ela sorrisse para mim, convidando-me para dar continuidade à conversa? Não tinha a menor ideia do que diria depois, e a possibilidade da mudez e do rubor me apavoravam. Para encurtar a angústia do leitor, digo que, para o bem ou para o mal, aquela garota imaginária nunca se sentou ao meu lado naquelas viagens.

E assim era a minha atormentada vida de adolescente tímido. Via, roído de inveja, amigos meus namorarem ou buscarem compromissos efêmeros e menos sérios. Às vezes, as duas coisas simultaneamente. Depois de deixarem as namoradas em casa, muitos iam “à caça de umas frangas”, como dizia um colega de faculdade. A pílula anticoncepcional começava a mudar radicalmente o comportamento sexual, desvinculando o sexo da gravidez e do consequente compromisso. O casamento deixava de ser a única oportunidade de um rapaz ter uma vida sexual regular sem ter que lançar mão das profissionais do ramo. Amor e sexo podiam, enfim, andar de mãos dadas antes das responsabilidades inerentes ao casamento e à reprodução. Os rapazes, entretanto, ainda tinham de deixar suas namoradas em casa antes que as portarias dos prédios fossem trancadas às 22 horas, como ocorria então. Nove e meia da noite era a senha para que as moças de família deixassem apressadas os motéis, e a fila de carros com outros casais que aguardavam nos acessos do lado de fora começasse finalmente a andar. Muita hipocrisia e muita vista grossa por parte dos pais, que ainda faziam (ou fingiam) escândalo quando descobriam uma cartela de pílulas na bolsa da filha, ao mesmo tempo que mal conseguiam disfarçar o orgulho quando um de seus pimpolhos machos “embuchava” uma menina que “não se dera o respeito”.

Os tempos são outros. Os motéis, em sua maioria, fecharam as portas e suas ruínas ao longo das estradas são monumentos à rápida mudança dos costumes. Os namorados hoje dormem misturados aos bichos de pelúcia no quarto das garotas e os pais não se incomodam, contanto que não seja um diferente a cada mês.

Mesmo naquele novo contexto, eu me via obrigado a atender certos códigos de comportamento. A proximidade de uma garota que me despertasse atração física impunha, eu imaginava, o atendimento de expectativas sociais não escritas de desempenhar um papel de sedução erótica para o qual me sentia totalmente inepto. Depois de muito sofrimento, desisti. Aquele tipo de comportamento não era próprio de mim, e eu levei algum tempo para aceitar o que, a princípio, me parecia uma grave deficiência pessoal: a incapacidade de “chavecar” de forma teatral. Imagino que nesse ponto um rapaz que não tenha uma clara e inata atração física pelas mulheres possa cogitar a homossexualidade. Não era o meu caso, felizmente, o que facilitava muito as coisas. Na realidade, só do que eu precisava era de uma nova estratégia. Percebi então que, quando conseguia abstrair o apelo erótico, eu me via capaz de entabular conversa com as garotas. Lembro-me bem de uma ocasião, saindo à noitinha de uma aula de natação no primeiro ano da faculdade, ter embarcado no ônibus que me levaria até em casa com uma colega de piscina com a qual nunca havia conversado. Apesar de ela estar longe de ser feia, as palavras me saíram fáceis e impensadas, e eu desci do ônibus com a nítida impressão de que ela me achara um cara simpático. Foi uma libertação: não era preciso que eu bancasse o macho rude e sexualmente agressivo. Podia ser eu mesmo e estabelecer minha própria tática, que era, basicamente, a ausência de qualquer tática. A proximidade de uma mulher interessante não mais me paralisava. O desfiladeiro para fora do vale da timidez passava pela transparência e por um sincero interesse na totalidade do ser humano que existia dentro de cada mulher atraente, agora não mais ameaçadora. Nunca mais as coisas foram as mesmas. O caminho até o coração e o corpo das garotas se aplainou de forma quase mágica. Vi, surpreso, que aquela atitude nova era capaz de acender interesses até onde eu não tivera intenção de despertá-los, balas perdidas do amor.

Daquelas primeiras aventuras e descobertas, independente do enlevo do apaixonar-se e das pulsões do amor físico, persiste em mim um profundo respeito e uma enorme curiosidade pelo ser do sexo oposto, elas que dividem conosco a experiência humana, mas de um ponto de vista diverso. Como um par de óculos 3D, compreender (na medida em que nos é possível) a experiência feminina pode acrescentar profundidade, uma nova dimensão à nossa visão do mundo. E o que nós, homens, não formos capazes de compreender é a porção de mistério que nos fascina e atrai.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Suffolk Beach

(Clique na imagem para ampliar)

Esta aquarela foi feita a partir de um quadro a óleo de Edward Seago (1910 - 1974), pintor pouco conhecido fora da sua Inglaterra natal, esnobado  pelos críticos de arte, mas sempre um favorito do público britânico, inclusive da família real. Nasceu e viveu em Norwich, região plana à beira mar, cheia de pântanos e canais. Pela própria topografia de sua terra, Seago registrou de forma constante e sensível o céu britânico. O que parece ser uma coisa inescapável  para pintores nascidos em regiões de relevo plano: vide os muitos paisagistas holandeses, em especial Ruisdael.

Dá para notar pelas últimas postagens que estou em uma fase celeste. Pintar o céu é um exercício onde se pode deixar levar pela intuição e pela emoção, deixando a tinta da aquarela se espalhar por amplas áreas do papel, criando por si só texturas e misturas. Mas é obrigatório aprender com os mestres desse metier, e a cópia é um ótimo exercício. Aqui usei azul cobalto, ultramarine, amarelo cromo, amarelo ocre, violeta e terra de sena queimado para tentar repetir o efeito dramático do original. Inversamente à técnica a óleo usada por Seago, comecei pelos claros, que foram cobertos com uma leve aguada amarela e reservados durante a adição das camadas mais escuras.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Kansas' Storm

(clique na imagem para ampliar)
(aquarela, watercolor, acuarela, temprestade)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Cozinha da Roça

Clique na imagem para ampliar

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Ódio de Margot


Margot tem ódio de Rogério. Gostaria de odiá-lo sem culpa, mas, como católica praticante, tem certeza que o ódio que nutre por Rogério vai levá-la inexoravelmente ao inferno. Convicção que só serve para aumentar seu ódio por ele, o culpado por sua futura danação. Margot e Rogério são casados. A bem da verdade, hoje são casados só no papel, pois não exercem as prerrogativas matrimoniais há muitos anos. Não dividem a mesma cama nem o mesmo sofá. Raramente dividem a mesa, embora compartilhem o mesmo teto. Margot faz questão de deixar bem explícito seu rancor, como um animal morto no tapete da sala, mas Rogério parece não perceber, ou finge não perceber. Não discute, não responde os desaforos, dá palpites na roupa dela e nas conversas que ela tem ao telefone. O que só aumenta o ódio de Margot.

Mas que barbaridade teria cometido Rogério, que atitude ignóbil justificaria tamanho ressentimento?, decerto estará pensando a senhorita, a senhora ou o senhor leitor. O grande pecado de Rogério foi ter-se casado com Margot, ou, melhor dizendo, vice-versa. Não entendeu? Explico.

Margot era noiva de Abelardo. Digo mais, Margot era louca por Abelardo e em breve casar-se-ia com o objeto de sua paixão. Abelardo era belo, forte (“um Adônis”, diziam), além de sedutor e atencioso; tratava-a como princesa e quando a beijava fazia-a agradecer ao Céu por ter nascido mulher. Comentava-se também que Abelardo não era confiável, para dizer o mínimo. Ou que não valia nada, para ser mais exato. Margot, de seu lado, fazia-se de desentendida: nunca vira nada desabonador na conduta de seu noivo e não daria ouvidos a fuxicos de gente invejosa de sua felicidade. Mas alguém trouxe provas e convenceu a até então feliz noivinha a dar um flagrante no rapaz. Confrontada com os fatos, Margot, tida como geniosa, não poderia deixar barato. Abelardo merecia uma lição e ela não fez por menos: desmanchou o noivado.

Depois ficou esperando pelas desculpas, ele que se humilhasse a seus pés implorando perdão. Mas o tempo passava, e nada. Nisso, surge Rogério, colega de trabalho. Margot não era de se jogar fora, muito pelo contrário, e Rogério começou a cortejá-la insistentemente, mas foi esnobado pela moça orgulhosa. Um ano se passou, Rogério ali firme. Até que ela concluiu que talvez não fosse má ideia começar um namoro só para acender os ciúmes do ex-noivo. Cedeu aos apelos de Rogério e pensou: agora vai. E nada. Noivar com o outro talvez funcionasse. Nada ainda. Quando deu por si, estava casada com Rogério.

Bem, dirão vocês, é nisso que dá o orgulho, ela poderia ter sido feliz ao lado de Abelardo e não foi. Armadilhas do destino, e a felicidade fugiu-lhe por entre os dedos. 

Margot ainda tem notícias de Abelardo. Teria ele se casado e feito outra feliz? Nutriria ainda um secreto amor por Margot? Nada disso. Ele era mesmo um devasso. Teve filhos com mais de uma mulher, mas não se casou com nenhuma. Bebia demais e ainda bebe muito. E fuma. A bebida encharcou sua beleza, que murchou e se esvaiu, diluída em álcool. Está um caco. E pobre.

Já Rogério, seu marido, sempre foi fiel. Amealhou um belo patrimônio a custa de muito trabalho honesto. Margot já pensou em separar-se, mas para isso teria de abrir mão de sua bela cobertura de frente para o mar. Pior, se depois de separados Rogério falecesse antes dela (imaginar a morte de Rogério, aliás, é um exercício que a excita intensamente, mas reforça sua certeza de que irá para os porões de Lúcifer), perderia a pensão para a sirigaita que certamente ele logo arranjaria. Por falar nisso, há uns três anos Rogério teve um infarto, mas foi atendido a tempo e está ótimo, melhor do que antes. Corre na praia diariamente e é tido como um coroa enxuto.

Mas nada disso vem ao caso, e Margot consome seus dias imaginando formas mais intensas de odiar. Seu ódio adquiriu vida própria, corporificou-se em um mascote gordo, que ela afaga enquanto assiste TV, que ela mima com biscoitos e salgadinhos, que  compartilha sua cama e deforma seu colchão. Mais que isso, ele talvez seja o mastro principal do seu circo, em torno do qual ela desempenha sua vida infeliz. Muito complicado, muito desconfortável de mudar. Se o objeto de seu ódio se for antes dela, desconfio, o teto cairá.

E assim “la nave va”. Eu, daqui, penso nos versos daquela canção: “Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus”. E que o inferno não é um lugar, é uma atitude.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Jardim Botânico

Hoje pela manhã no JB-RJ. Tamanho A4
Esta foi feita em tamanho cartão postal

Manhã de sábado no Jardim Botânico. Muitas grávidas de barriga de fora sendo fotografadas com seus cúmplices. Debutantes de pernas finas equilibrando-se em  altíssimas sandálias plataforma contracenavam com saracuras de pernas igualmente. Tucanos fazendo algazarra, tiribas e maritacas fazendo mais algazarra. E crianças. Gringos de todas as latitudes, turistas brasileiros, turistas niteroienses, tudo e todos em caótica harmonia. Os desafios de sempre das aquarelas no JB: simplificar a profusão de planos, de verdes, de luzes. 


A de baixo saiu primeiro, em meia hora. A de cima levou pouco mais de uma hora. Usei aquarela em pastilha e um único pincel médio, priorizando a agilidade guerrilheira na pintura au plain air. As sombras da de cima talvez estejam exageradas no azul, mas o resultado me pareceu mais interessante, embora menos natural. Pintar, afinal, não é imitar a realidade. Torço o nariz quando um observador diz; "Está ficando igualzinho!" Pintura, assim como qualquer arte visual (até mesmo a fotografia) há de ser a interpretação da realidade pelo artista. Então, não sei se era assim, mas foi assim que eu senti a paisagem. E o dia está ganho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crônicas Brasilienses IV: A Corrida

"Uhuuu, vem cá, meu bem..."

A morte é inescapável. Viver não só é perigoso, como fatal, já disseram. Tudo bem, a senhora magra que veste preto vai acabar nos conquistando um dia. Ela não cansa de tentar nos envolver o quanto antes em seus braços esquálidos e nos beijar a boca com seu hálito de terra. De minha parte, vou escapulindo enquanto posso. Já a vi de perto umas três ou quatro vezes, ela valendo-se de enxame de abelha africana, tiroteio na Praça XV e ressaca em Itacoatiara para tentar me conquistar precocemente. Como um gato, vou gastando minhas sete vidas e desconversando a dona.

Algumas pessoas, porém, parecem dizer “vem que eu sou facinho”, e flertam abertamente com a morte. Como bem observou Leandro Hassum, basta verificar que algo tem tudo para dar errado que surge logo um corajoso disposto a contrariar as leis da física. Lembrei-me agora do infeliz padre que se ergueu pelos ares no litoral do Paraná pendurado em mil bexigas de borracha, daquelas de festa infantil, planejando aterrissar vinte horas depois em Mato Grosso do Sul. Esqueceu-se de combinar a rota com o vento, que cismou de soprá-lo em direção contrária, mar adentro ou afora. O padre (ou o que restou dele) só foi encontrado meses depois por um rebocador no litoral de Maricá. 

Por falta de tempo para me dedicar à tarefa de pesquisa, deixo aqui uma ideia que pode render uma boa grana a alguém metódico: compilar exemplos como este e publicá-los em livro, “Duzentas Maneiras Idiotas de Morrer”, já deixo até o título pronto.

Também eu, que tenho a firme intenção de morrer de velho, já quase morri de maneira idiota. 

Saindo de um compromisso num hospital na cidade satélite de Taguatinga com destino ao Ministério da Saúde em Brasília, peguei o primeiro táxi que se apresentou, um Kadett branco, lembro-me bem. Hora do almoço, dia claro, pegamos a autoestrada que liga Taguatinga à capital federal, uns vinte quilômetros a serem percorridos em pista dupla, a oitenta, cem por hora. Do banco de trás, como  faço habitualmente, puxei assunto:

“Bacana o som do seu carro”.

Engatamos falação sobre autofalantes, rock’n roll, entradas USB e coisas afins. Num suspiro da conversa, o motorista, rapaz de uns trinta anos, atravessou a pergunta:

“O Senhor é médico?” Apesar de ter-me visto saindo de um hospital, eu vestia terno e gravata; fiquei imaginando como ele teria adivinhado. Confirmei seu palpite.

“O Senhor me desculpe, mas eu venho tendo uns desmaios de uns tempos para cá, o Senhor tem ideia do que possa ser?”

Fez-se uma pausa. O velocímetro marcava cem por hora. Houvesse outro passageiro no táxi  eu teria lhe dirigido um olhar arregalado. Conduzi uma anamnese rápida e sugeri-lhe procurar um neurologista com urgência, na sua profissão pode ser perigoso. Depois procurei me distrair do sobressalto com a paisagem sem graça que desfilava rápida pela janela.

Chegando ao Plano Piloto, ele reduziu a velocidade enquanto descíamos pela passagem subterrânea da rodoviária. Um sinal fechado com vários carros parados à frente era o último obstáculo entre nós e a Esplanada dos Ministérios. Já tínhamos diminuído bastante quando senti o motorista aliviar a pressão no pedal do freio. Ainda imaginei que ele pretendesse trocar para a pista à nossa direita, que tinha menos carros, mas não. A traseira do carro adiante foi crescendo, crescendo, até que a atingimos violentamente. Pelo retrovisor interno, olhei nos olhos arregalados do motorista.

“O que aconteceu, rapaz?”

“Não sei...”

O motorista do carro da frente desceu, examinou a traseira destruída, as lanternas quebradas e caminhou em nossa direção com aquela cara misto de raiva e incredulidade. Chegou bem a tempo de presenciar o início dos espasmos e da salivação. Bem à minha frente, o corpo do coitado esticava-se em arrancos de cachorro atropelado, diria Nelson Rodrigues, levantando-se como uma taboa rígida do assento. Ao dar-se conta de que não teria como ressarcir-se do prejuízo, pelo menos naquelas circunstâncias, o outro motorista deu um suspiro e foi-se embora, largando pelo asfalto pedaços do que fora seu belo veículo. Desci para socorrer o epilético com a ajuda do motorista de um Ômega placa branca que havia parado ao nosso lado e assistira tudo. Puxamos o meu motorista já aquietado para o banco do carona. Depois sentei-me ao volante e tentei ligar o motor, que respondeu. Depois de agradecer a ajuda, dirigi até a emergência do Hospital de Base de Brasília, onde meu desacordado condutor, agora passageiro, foi colocado em uma maca e levado para a sala de atendimento. Estacionei o Kadett, puxei do rádio da cooperativa e comuniquei o acontecido à Central, dando o nome que constava no crachá afixado no pára-sol e pedindo que avisassem a família. Depois fui ao posto policial do hospital, onde fiz registro do ocorrido e pedi  que cuidassem das chaves e do veículo. Tomadas essas providências, retornei à sala de emergência. Reencontrei-o bem na hora em que recobrava os sentidos.

“Tudo bem? Sabe onde você está? Lembra-se do que aconteceu? Lembra-se de mim?”

Olhar apalermado, ele não se lembrava de nada.

“Fui eu quem lhe trouxe de táxi até aqui. Vim cobrar a corrida.”

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crônicas Brasílienses III: Eles Querem é Poder


Falar de Brasília é falar do Poder, que, por se tratar do deus de muitos, vou grafar aqui com maiúscula. Taí uma coisa que nunca fez minha cabeça. Não é difícil para mim entender a busca pelo Poder como meio de obter vantagens financeiras ou mesmo sexuais. Há quem diga, inclusive, que o homem só corre atrás de vantagens financeiras pensando nas vantagens sexuais que elas podem render. Por outro lado, uma vez que os homens não sentem maior atração sexual por mulheres poderosas, muito pelo contrário (afinal, quem teria o falo?), desconheço as razões pelas quais algumas delas lutam pelo Poder. Talvez para despertar inveja em outras mulheres, coisa que, desconfio, dá a muitas mais prazer do que atrair o sexo oposto.

Lembro-me de ter lido na adolescência, num gibi do Super-Homem, a história de um ladrão que declarava  ser o mais bem sucedido e mais inteligente de todos os coleguinhas de profissão. Ninguém acreditava nele. Suas geniais habilidades criminosas não eram do conhecimento de ninguém: seus golpes eram tão perfeitos que não eram nem percebidos e, quando eram, ninguém era capaz de descobrir o culpado.  Não era perseguido pela polícia, não tinha mandado de prisão, seu nome nunca aparecia nas páginas dos jornais. Então ele tirava vantagem do anonimato e gastava feliz os seus “ganhos”, pensou você? Claro que não! Passou deliberadamente a deixar pistas para se tornar conhecido, temido e odiado, mas, finalmente, comentado.

Quando trabalhei em Brasília, à medida que o Departamento de Saúde Suplementar começou a regulamentar os planos de saúde, afetando a vida de mais de 40 milhões de brasileiros, os telejornais, as rádios e a imprensa escrita começaram a assediar o então ministro da saúde José Serra, o diretor do departamento e, na ausência deles, qualquer membro comissionado do órgão. A agenda de compromissos públicos, palestras em congressos, declarações em rádios e até em programas de TV era cada vez maior, e alguns de nós acabamos sendo designados para representar nossos superiores em algumas oportunidades. Dar declarações, esclarecimentos para a imprensa e aparecer na televisão passou a ser corriqueiro. Os famosos quinze minutos de fama.

Donos e diretores dos planos de saúde passaram a circular diariamente por nosso único corredor e por nossas poucas salas no ministério. Eles e seus assessores buscavam, percebi aos poucos, vínculos de camaradagem e amizade com qualquer um que sentasse atrás de uma mesa naquele andar. Ofereciam inicialmente pequenos agrados: uma bandeirinha de mesa do time de coração do incauto, um pacote de castanhas de caju, uma garrafa de licor de pequi, qualquer lembrancinha típica de seu estado. Coisinhas miúdas, aparentemente inocentes sinais de amizade. Mas sabiam sentir quando alguém mordia a isca, geralmente depois de picado pela mosca azul. Não exploravam necessariamente a má fé, mas a simples e humana vaidade de se sentir bajulado e poderoso, mesmo que em função de um poderzinho de bosta. Numa troca não explícita, desejavam informações e facilidades. Um funcionário comissionado, pessoa honesta e bem intencionada, numa viagem oficial representando o diretor para uma palestra em outro estado, aceitou que um plano de saúde gentilmente custeasse a passagem e a estadia de sua esposa. Um misto de vaidade e ingenuidade que lhe custou o cargo.

Outras lições que aprendi por lá foram as de fidelidade e hierarquia. Eu fora incumbido de ser o interlocutor dos consumidores de planos de saúde e receptor de suas queixas, que compilava e encaminhava para o nosso diretor. Passei a tentar convencê-lo de que alguns argumentos dos consumidores contra as novas regras eram pertinentes. Eventualmente, algumas dessas queixas foram entendidas como justas e as regras foram alteradas. Nesse ínterim, porém, por mais de uma vez defendi para o público externo a posição oficial do departamento, da qual discordava internamente. Mas só internamente.

A busca do Poder pelo Poder realmente é incompreensível para mim. Há até os que perdem dinheiro em troca de tornar-se poderoso, seja como presidente, diretor, síndico ou suplente de conselho fiscal de clube de biriba. Um amigo fez questão de “candidatar-se”, mediante pagamento de determinada quantia, a membro de uma obscura academia brasileira de medicina ou algo que o valha. Uma instituição de semi-múmias de fardão, sem nenhum peso científico ou político. Acabou “eleito”. “Comprei um título de conde”, confidenciou-me. 

Gostar de ser bajulado em função do cargo ou título é como acreditar em juras de paixão eterna saídas da boca de um amor de aluguel. É iludir-se de que os rapapés e elogios são dirigidos à pessoa e não ao cargo. Tire-se o cargo, deixe-se a pessoa, sobra o quê? Como dizia uma velha tia: “O homem subiu, todo mundo viu; o homem caiu, pqp”.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Ranchinho

Clique na imagem para ampliar