Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
sábado, 6 de outubro de 2012
Diários de Viagem: Veneza
Como toda grande cidade
turística, Veneza tem seu lado público e seu lado íntimo. O lado público todos
conhecem, de perto ou de longe: a Praça de São Marcos, com seus pombos e sua
Basílica, a Ponte dos Suspiros, o Palácio Ducalle, as gôndolas e o Grande
Canal. Já o lado íntimo é aquele que os moradores conhecem bem e que o turista observador
tenta descobrir no pouco tempo de que dispõe. Num pequeno punhado de dias,
trava um jogo de sedução, para merecer da cidade a revelação de intimidades,
detalhes e mesmo defeitos que normalmente só se mostram nas relações antigas e
sem pressa.
| (clique na foto para ampliar) |
Veneza não tem árvores.
Melhor dizendo, quase não as tem. Consequentemente, é um grande e monótono
deserto para amantes e observadores de pássaros, uma vez que pássaros precisam
delas para alimento, pouso e abrigo. Não avistei um mísero pardal. A exceção
são os pombos, claro, e uma ou outra gaivota nas grandes rivas que margeiam a laguna. Os pombos são onipresentes. A maior
parte dos possíveis locais de pouso para os incontinentes columbídeos nos
prédios importantes de Veneza são guarnecidos com longos espetos de aço de
ponta afiada. Em meio a toda essa monotonia ornitológica fiz um flagrante
surpreendente: um pombo colorido, em diversos tons de verde, se destacava em
meio às monótonas nuances de preto e branco de seus semelhantes. Intrigado, saí
perguntando a razão daquelas penas tropicais aos demais pombos da praça. Os
pombos arrulhavam com evidente desdém, mas nenhum se dispôs a esclarecer o caso. Uma
gaivota me chamou para um canto da praça e decifrou o mistério: dois anos
antes, num programa de intercâmbio entre as duas cidades carnavalescas, uma
pomba veneziana pousou no Rio de Janeiro. Veio ela, por obra de cupido, a
atrair a simpatia de um papagaio, que se prontificou a apresentar-lhe as muitas
maravilhas cariocas, programa esse que incluía uma passada em seu cafofo com
vista para os Arcos da Lapa. Ah bom.
| (clique na foto para ampliar) |
Observei com atenção as
janelas das casas de Veneza, fotografando muitas, inclusive. Não vi nenhuma que
fosse guarnecida de ripinhas paralelas e inclinadas. As únicas venezianas que
vi nas janelas eram as de carne e osso.
Quase despercebidos em meio
ao mar de turistas, existem os moradores de Veneza. Os números são
massacrantes: mais de 21 milhões de turistas em 2007 para uma população
residente de 60 mil, e que vem reduzindo-se ano a ano. Os preços exorbitantes
dos imóveis vêm afugentando os venezianos da gema, que resistem em casas
herdadas há muitas gerações. Um pequeno estúdio de 36 m2 vale cerca de 260 mil
euros, mais de um milhão de reais.
| (clique na foto para ampliar) |
Talvez a melhor coisa a se
fazer em Veneza seja perder-se no labirinto de ruelas, cruzando canais
secundários e terciários, subindo e descendo as centenas de pontezinhas. Não há
automóveis, não há motocicletas nem mesmo bicicletas. Devem ser proibidas pela
legislação local ou simplesmente os possíveis ciclistas são desencorajados pelo
sobe e desce de degraus a cada ponte. Então, tudo é feito por via aquática. A
ambulância, a viatura dos bombeiros, os taxis, os caminhões de mudança e os que
abastecem de mercadorias o comércio da cidade, tudo existe e funciona em versão
flutuante e motorizada. Afastando-se dos principais pontos turísticos,
reparamos nas donas de casa abastecendo-se em mercearias, mães levando e
trazendo suas crianças das escolas, profissionais indo e voltando do trabalho. As
vielas vão se estreitando e em algumas delas pode-se tocar ao mesmo tempo as
paredes dos dois lados da rua. Uma
charmosa favela medieval. Descobrimos por acaso uma oficina pequena de marcenaria
náutica, onde um artesão dava retoques finais em remos de gôndolas. Fabricava também aquelas
assombrosas obras de design que são as peças maciças de madeira onde os remos
se apoiam.
Não passeamos de gôndola.
Muito caro. Pareceu-me que todas as gôndolas de Veneza haviam sido alugadas por
turistas japoneses.
Ser carteiro em Veneza é uma
proeza. As casas não seguem numeração sequencial ao longo das vias e as vias
têm designações diferentes conforme seu porte. Fondamentas são as ruas que margeiam os canais; rivas são as grandes fondamentas, que geralmente dão para a
laguna; calles são ruas; campo é uma praça e corte é um pátio; rio terra
é um antigo canal aterrado; salizada
é uma rua principal; ruga é uma rua
comercial, enquanto sotoportigo é uma
passagem coberta, por baixo de um imóvel, geralmente ligando duas calles. Vi dois carteiros discutindo
vigorosamente, provavelmente sobre a provável localização de um endereço
postal. Deve ser uma cena comum.
No final de uma tarde,
depois de esperar em vão que a companhia aérea localizasse minha bagagem extraviada
havia já três dias, perguntei ao gerente do hotel onde poderia comprar alguma
roupa para sobreviver até que minha mala fosse entregue (o que só acabou
acontecendo no sexto dia de viagem, quando eu já estava deixando Florença). Ele
indicou-me a área no mapa: um pouco acima da ponte Rialto, na margem oriental
do Grande Canal. Parti do hotel em passo acelerado para o local indicado. Talvez
pelo caminhar decidido, despido da máquina fotográfica e sem mapa na mão,
comecei a ter a ilusão de que era visto pelos passantes como um autêntico veneziano.
Vi-me tentado a acenar aleatoriamente para conhecidos imaginários a destra e a sinistra, gritando alto “Ciao,
Adamo! Ciao, Filomena!” Quando dei por mim, havia
atravessado toda a cidade e estava em algum lugar da margem norte, de frente
para a laguna, num corte tranquilo onde bambini brincavam sob o olhar de suas mamas e nonas. Deliciosamente perdido, quase um anônimo veneziano.
Mais fotos de Veneza:
Mais fotos de Veneza:
| De manhãzinha, a Chiesa di Santa Maria della Salute. |
| Equivalente veneziano do carro estacionado na porta de casa. |
| "Favelão medieval" |
| Sol nascente: sob a arcada do Palazzo Ducalle. (fotógrafos madrugam) |
| Clap, clap clap. As luvarias venezianas são tradicionais. |
| Acrescente barulho de pratos e talheres, um cheirinho de comida na panela e um bebê chorando: também mora gente em Veneza. |
| Pausa para um panini. |
| Numa vitrine, baralho ilustrado por Milo Manara, ícone italiano do quadrinho erótico. |
| Estado atual da obra deste artista depois de mais de um mês trabalhando no registro da fachada de seu próprio estudio em pátio (corte) escondido de Veneza. |
| O Grande Canal, com a Ponte Rialto ao fundo. |
| Sem legenda. |
sábado, 29 de setembro de 2012
Diários de Viagem: 1 - Pincel de Barba
Ia viajar. Achei que era
hora de ter mais um pincel de barba, para deixar na bolsa de viagem e não correr o
risco de me esquecer dele, como já aconteceu. O único que tinha então era o segundo de minha
vida. Pincéis de barba, quando bons, duram muito. O primeiro, me deu meu avô,
assim que surgiram-me os primeiros pelos na cara (lembrei-me agora das vezes em
que, nos últimos de seus 96 anos, barbeei meu avô). Era da marca Batil, que não sei
se existe ainda, e fez-me pensar que todos os pincéis de barba eram assim macios.
Depois de muito uso, já ralo em pelos, pediu descanso e substituição. Custei a encontrar
outro da mesma qualidade, que uso até hoje.
Então, parti para a missão. Aproveito, pensei, e compro também um bom pente
para meu enteado, que iniciou um estágio de Administração em uma multinacional
e passou, pasmem, a sentir necessidade de ajeitar o cabelo no meio do dia. Entrei numa farmácia. Pincel de barba? Ali. Sessão de variedades: bobs de cabelo,
pentes plásticos de tamanhos variados, buchas de banho, pinças, tesouras e alicates de unha pendurados em
um display, embalados individualmente. Só havia um tipo de pincel, made in
China, com cabo de madeira e pelos brancos. Abri a embalagem e testei-o contra
o rosto. Devem ter usado como matéria prima pelos de porco espinho ou
bigode de javali. Perguntei à mocinha se havia pentes de osso. Ela me olhou
como se eu tivesse pedido equipamento para sangria, sanguessugas vivas talvez. Fui a
uma segunda farmácia, uma terceira, umas sete ou oito. O pincel chinês dominou completamente
o mercado (cadê o Cade que não vê isso?) e pentes de osso não existem mais.
Senti-me como um viajante do
tempo em seu próprio tempo. Lembro-me, eu pequeno, de assistir meu pai barbeando-se e engraxando os
sapatos, sempre pretos, diariamente antes de sair para o trabalho. Men stuff, era assim que todo homem
fazia e eu faria também quando me tornasse um homem. Tenho hoje uma caixa com graxa
marrom, preta e incolor, três escovas pequenas para espalhar cada tipo de graxa
e três escovas grandes e macias para dar brilho, além de uma flanela para o capricho. Engraxo meus próprios sapatos e, talvez por isso, eles duram muito. Faço a barba diariamente, fins de semana e férias inclusive, espalhando o creme de barbear com pincel e raspando com lâmina
descartável. Depois, gel facial ou loção pós barba. Tenho dois pentes de osso, um em casa e outro na pasta de couro que levo para o trabalho. Ambos têm, cada um, mais de dez anos de uso: são indestrutíveis. Fiquei a me
sentir um solitário, como alguém que ainda usa máquina de datilografar em tempos de
computadores. Fiz uma pesquisa informal e rápida, nesses tempos de homens de barba eternamente de três dias, que é a que mais coça. Prevalecem a espuma em spray
espalhada com os dedos ou o aparelho elétrico.
Na Itália existem pincéis de
barba bonitos e elegantes, de pelos variados, cada um mais macio que o outro.
Existem pentes de osso também. São vendidos em farmácias (que são muito
diferentes desses supermercados da saúde e da beleza feminina daqui), ou em lojas
que vendem também relógios, prendedores de gravata, charutos e cachimbos. Men stuff. São caros, mas valem o preço.
Trouxe um pincel que o vendedor disse ser de pelos de texugo. Outro pincel, pelo andar da carruagem,
só aos 75, 80 anos de idade, se precisar.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
domingo, 2 de setembro de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
sábado, 4 de agosto de 2012
Dez Anos de Um Casamento
Em abril de 2002 eu
dispunha de dinheiro suficiente para comprar um carro novo e estava disposto a
fazê-lo. Estava naquela mesma situação na qual milhões de seres humanos se
encontram todos os anos, e o que cada um decide fazer neste momento diz muito
sobre a personalidade individual, além do aspecto mais óbvio de seus recursos financeiros. Adquiri na época um Land Rover Defender 110 semi-novo,
então com apenas 15.000 km
rodados. Estou com o mesmo e único carro desde então, um casamento fiel e
monogâmico, e não tenho nenhuma intenção de trocá-lo em futuro visível. Já são
mais de dez anos de uma relação prazerosa, e o odômetro está prestes a alcançar
200.000 km .
Apesar da saúde invejável, o jipão vai ganhar de presente em breve uma revisão
caprichada, com troca do óleo do diferencial e da caixa de marchas, substituição
de algumas mangueiras e talvez umas buchas de suspensão. Nada além disso. Em todo este tempo,
ele deu pouquíssima oficina e nunca me deixou a pé na rua ou na estrada.
Ele já me levou com a família aos Parques Nacionais dos Aparados da Serra (RS), do
Descobrimento (BA) e da Serra do Cipó (MG). Não foi ainda à Patagônia, mas é
questão de tempo. Hoje fiquei me perguntando por que eu o escolhi e estou há
tanto tempo com ele. São muitas respostas.
Eu desejava um carro
que pudesse levar a minha família de seis pessoas por qualquer tipo de estrada
até os recantos mais difíceis da nossa paisagem. O Defender se encaixava nesse
perfil. Isso resume apenas as razões objetivas.
O Defender é um projeto de 1983. Suas linhas, hoje bastante ultrapassadas, são retas e passam longe de qualquer vestígio de aerodinâmica. Ostenta o mesmo jeitão de seu antecedente mais antigo, o Land Rover Série 1, lançado em 1948 na Inglaterra. No entanto, tornou-se um ícone da indústria automobilística, assim como o Fusca, o Citroen 2CV, o Jeep Willys e o Ford ModeloT. É o veículo adotado pelo Exército Brasileiro, pelas forças da Nações Unidas e por muitos exércitos de países europeus. É grande, ruim de jogo, precisa de pelo menos uma manobra adicional de vai-e-vem
para encaixar-se em uma vaga, e não cabe em qualquer vaga. A embreagem e o
freio são duros e a posição do motorista não é das melhores. O nível de ruído
interno beira o ensurdecedor e a vedação de água e poeira é sofrível. Por outro
lado, leva sete pessoas, sua suspensão quase indestrutível, seu câmbio e sua direção são
surpreendentemente macios e a tração integral nas quatro rodas garante
estabilidade invejável nas subidas e descidas de serra. É meu transporte seguro
na terra, na lama e no asfalto, muitas vezes com meio metro ou mais de água na
rua ou atravessando um riacho. Para ele, não tem tempo ruim nem estrada difícil.
Mas, claro, existem muitos outros argumentos além dos aspectos meramente
mecânicos.
Dirigir um carro
grande deixa o motorista sentindo-se um pouco superior ao restante dos mortais.
Existe um prazer egoísta e quase inconfessável ao ver motoristas de carros
pequenos emparelharem comigo no sinal e ficarem olhando com o rabo do olho o
pneuzão aro 16 e tala 265 batendo quase na altura do vidro do outro carro. Nas
bolas divididas do trânsito, em geral o “adversário” recolhe e dá passagem,
embora nem sempre. Quando usamos de gentileza e cedemos passagem, parece que
estamos dizendo: “eu sou grande e forte, mas mesmo assim serei magnânimo e vou deixar
você passar”. Pensamentos ridículos, mas reais.
Quando se dirige um
Defender na estrada, acontece uma coisa que, creio, não acontece com nenhum
outro carro. Toda vez que dois Defenders cruzam um com o outro, os irmãos se cumprimentam com
calorosas piscadas de farol. Notar que isso acontece apenas entre Defenders, e
não vale para outros modelos da Land Rover como Discoverys, Freelanders ou Range Rovers, os primos ricos e frescos.
Muito menos para Pajeros e cia. Já Toyotas Bandeirantes podem ser dignos de
nossa simpatia, até porque muitos donos de Defenders começaram por
Bandeirantes, e donos de Bandeirantes não raro sonham em ter um Defender.
Donos de Defenders
amam a lama e não têm medo de sujar seus carros, (o que não é o caso para a
maioria dos donos de Pajeros e Hilux), muito pelo contrário. Poucas coisas são
mais prazerosas que atravessar atoleiros fatais para a maioria dos outros
carros acionando quando necessário o câmbio reduzido e a trava do diferencial,
o que geralmente é dispensável. Ouvir o ronco do turbo-diesel com seu
característico acompanhamento de castanholas empurrando o veículo morro acima e
lama adentro, ir escorregando e sacolejando, girando o volante com fúria para a
esquerda e para a direita para não sair da estrada deixa a maioria das mulheres
no banco do carona dando gritinhos nervosos e a nossa adrenalina em níveis de
prazer quase sexual. E depois, o orgulho em desfilar por um ou dois dias
ostentando as condecorações de lama pelo asfalto da cidade, antes da necessária
lavada. E lavou, tá novo.
Não troco de carro
há dez anos por vária s razões. As versões mais novas do carro, além de muito
caras, têm uma série de itens de eletrônica embarcada, como ABS, controle de
tração e até sensores que informam a profundidade da água do riacho adiante do
pára-choque. Fica um sentimento de que os fabricantes do velho e tosco
mastodonte sentiram-se inferiorizados em relação a seus concorrentes mais
modernos. Mas aderir a essas modernidades implicaria em deixar de confiar nos
instintos e na habilidade do piloto em conduzir o bicho. Meio como se fôssemos
Luke Skywalker dispensando o capacete da tecnologia e confiando nos instintos
para atacar com sua nave o lado sujo da força. Além do quê, toda essa
parafernália eletrônica quando enguiça paralisa o carro e castiga o bolso. A
mecânica das versões mais antigas é bem mais simples, fácil e barata de
reparar. Existe ainda um ideal romântico, incongruente com o fato de se possuir
um carro grande e poluidor. Trocar de carro implica em ativar todas as muitas
engrenagens da indústria na produção de um novo veículo, com o conseqüente
gasto de energia, consumo de matéria prima, eletricidade, combustível e água em
sua fabricação. Penso que não se deveria trocar de carro antes de os custos de
manutenção ficarem incompatíveis e os defeitos se tornarem freqüentes. Trocas de
carro em intervalos pequenos me parecem mais fruto do desejo de ostentar um
carro novo para os outros verem do que de razões mais práticas e
objetivas, inclusive financeiras. A indústria automobilística sabe manipular
com extrema habilidade esses aspectos inconscientes que movem os seres humanos
enquanto consumidores de seus produtos. Mas seria hipocrisia minha não reconhecer a
minha própria vulnerabilidade a esses apelos, até pelos muitos aspectos não
objetivos que acabei de confessar. Mas gosto de pensar que, pelo menos, tento
estar consciente deles.
Assim, vamos
mantendo nossa longa relação. Imagino-me até bígamo, tendo um carrinho ágil e
econômico para circular na cidade, mas mantendo o Defender para subir a serra e
viajar. Espero que ele não seja ciumento.
A história e a evolução do Defender: http://www.youtube.com/watch?v=8pHDFfyUAII&feature=player_embedded#!
Fazendo graça: Atenção: Não tente fazer isso se seu carro não for um Defender!
terça-feira, 31 de julho de 2012
Água, Açúcar e Chicotinho: Cinquenta Tons de Cinza.
O topo da lista de best sellers daqui já está reservado para o maior fenômeno editorial mundial depois das sagas de "Harry Potter" e dos vampiros adolescentes. Será lançado este mês no Brasil "Cinquenta Tons de Cinza", da britânica E. L. James, o primeiro volume da trilogia que já abocanhou sozinha 25% do mercado editorial americano. Trata-se de um thriller adocicado com pitadas generosas de erotismo. A sinopse: Jovem ingênua envolve-se com homem mais velho, um bilionário atormentado, enigmático e bonitão, que acaba por induzi-la a assinar um contrato no qual a heroína se obriga a entregar sua vida e sua sexualidade a seus caprichos sado-eróticos. Cheira a clichê ? Tudo isso em uma linguagem literária sofrível, e de um ponto de vista bem mulherzinha, segundo asseguram os críticos de ambos os sexos. Mas quem se importa? As mulheres de todo o mundo estão adorando e seus parceiros estão colhendo os frutos, sem terem que descompensar seu nível glicêmico lendo o livro. Parece que, depois da leitura, as mulheres ficam doidas para reproduzir em casa (ou não) as perversões safadinhas da heroína. No entanto, deixem a insulina à mão: a leitura pode vir a ser bastante instrutiva para os marmanjos. Embora a primeira cena de sexo só aconteça na página 100, aguente firme: talvez venhamos a descobrir um pouco sobre como funciona a fantasia erótica feminina e possamos tirar partido disso, com benefícios práticos para os dois lados da cama. Então você, maridão que anda achando o sexo caseiro desenxabido, que tal encomendar logo a trilogia toda para a patroa? Ou para a "outra", quem sabe? Estão previstas mudanças sensíveis acontecendo entre as quatro paredes do quarto dos casais brasileiros.
Charge fifty shades of grey, cinquenta sombras de grey
Charge fifty shades of grey, cinquenta sombras de grey
Leia mais sobre o livro:
http://www.intrinseca.com.br/site/2012/06/trilogia-cinquenta-tons-de-cinza-entra-em-pre-venda/
terça-feira, 24 de julho de 2012
Semana Sabática na Serra, ou O Sr. "Jenessequá"
![]() |
| Saíra-militar (clique nas fotos para ampliar) |
Minha tradicional SSS - semana
sabática na serra - ficou reduzida a cinco dias este ano, por conta da
perspectiva de uma viagem de duas semanas em setembro próximo. Hay que
capitalizar-se... Munido de equipamento de fotografia, artigos
medico-científicos, material de aquarela e alguns livros, subi a montanha em
direção ao nosso sítio na última quarta-feira. Minha mulher só subiria na sexta
à noite, depois do trabalho. “Alguém tem que trabalhar nessa casa, afinal”,
diria um amante do lugar comum.
Um dos livros que veio na bagagem
foi, por coincidência, “Como Ficar Sozinho”, de Jonathan Frenzen e já estou nas
últimas páginas. Havia lido um trecho do livro na revista “Piauí” dedicada à
FLIP – Feira Literária Internacional de Parati - e gostei de sua preocupação
explícita em se fazer claro para o leitor médio e também pelo seu amor à
observação de pássaros. Entrevistado recentemente a caminho de Parati, Frenzen tinha a expectativa de poder se entregar, um pouco que fosse, à observação nossa fauna
ornitológica. Espero que tenha conseguido. Estabelecidas essas empatias, entrei
semana passada na livraria Gutenberg, em Icaraí, atrás de um de seus livros.
Acabei levando dois: além do “Como Ficar Sozinho”, o romance “As Correções” me
aguarda na prateleira.
![]() |
| Saí-azul (macho) |
![]() |
| Vissiá |
O livro de Frenzen (”Como Ficar
Sozinho”) é uma coleção de ótimos ensaios sobre os mais variados assuntos,
sempre de um ângulo subjetivo e emocional, sem, no entanto, deixar de lado a
objetividade. Ele percorre assuntos como o mal de Alzheimer, que vitimou seu
pai, o crescimento econômico chinês e como ele vem atingindo em cheio as
reservas naturais e a vida selvagem, o sistema prisional americano e diversos
outros temas. Para cada ensaio, Frenzen se envolve pessoalmente com
protagonistas reais, deslocando-se local onde a ação se desenvolve.
Independente de seus conceitos antecipados (pré-conceitos) em cada assunto, ele
acaba por descobrir no palco de cada tema, personagens reais tentando, cada um
à sua maneira, fazer a coisa certa, mesmo nos extremos opostos de cada disputa.
Frenzen nunca consegue chegar a conclusões panfletárias, acaba ficando em algum
lugar no meio do caminho, atolado e emocionalmente envolvido nos aspectos
humanos dos protagonistas.
Num de seus ensaios, Frenzen
reflete sobre sua decisão de se tornar escritor, num mundo onde a grande
maioria das pessoas parece não ter interesse em dispor de seu escasso e
precioso tempo para a leitura de romances. Em tempos de TV, internet e cinema,
os livros parecem ter perdido espaço como meio para divulgação de novas idéias
ou denúncia de situações relevantes que já não tenham sido expostas pela mídia
instantânea, que hoje domina a cena. Acredito, no entanto, que nada supera o
livro como instrumento que nos faça mergulhar profundamente nos aspectos da
subjetividade, daquilo que nos faz seres humanos únicos e ao mesmo tempo compartilhantes
de universalidade humana.
xxxxxxxxxx
![]() |
| Gaturamo-bandeira |
Conheço muitas pessoas que ficam
apavoradas só de imaginarem-se por cinco ou dez dias longe da Internet, dos
Shopping Centers, do sinal de celular e de tudo o mais que compõe o turbilhão
das grandes cidades, no qual estamos enfiados até o pescoço na maior parte do
tempo. A perspectiva de não ter o tempo constantemente ocupado e a atenção saltando
freneticamente de galho em galho daquilo que chamamos de vida moderna deixa
muita gente com medo de se ver diante de um não-sei-o-quê, que poderia brotar
do fundo de si mesmos.
Eu, por meu lado, preciso
dessa pausa, preciso travar contato com o Sr. Jenessequá., fazer as pazes e travar
amizade com ele. Acreditem: ele é um cara legal. As conversas que tenho com ele
me são essenciais. Ele foi meu único companheiro nesses poucos dias aqui
sozinho. Já o tédio, esse não existe por aqui. Na verdade, volto sempre com uma
ponta de frustração por não ter dado conta de tudo que me havia proposto a
fazer, mas nada que me perturbe. É parte da motivação para próximas vindas à
serra. Aquarela, por exemplo, dançou. Estudei medicina, li bastante e,
principalmente, fotografei muitos pássaros. Flagrei, pela primeira vez, a saíra
militar, o gaturamo bandeira, a fêmea do gaturamo serrador (ou ferro-velho) e o
tié de topete, além de mais quatro espécies que ainda vou identificar with a
little help from my friends do Wiki-Aves. Ornitologicamente falando, a
semana foi perfeita. O Frenzen teria gostado de estar aqui.
xxxxxxxxxxx
Pesquisa informal: Faço a você as perguntas que sempre
faço aos meus pacientes que flagro lendo um livro na sala de espera de meu consultório:
O que você está lendo atualmente? Quais livros estão aguardando em sua mesinha
de cabeceira? Você lê mais de um livro ao mesmo tempo?
segunda-feira, 16 de julho de 2012
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Tiro no pé
Tudo bem então, vamos deixar as coisas bem claras. Nossa relação não
passa de um exercício de narcisismo mal disfarçado. Vai dizer que não percebeu?
Isso, dito assim, pode ser um tiro no meu pé. Mas prefiro deixar bem claro que
o que me leva a escrever e a pintar não carrega nenhum resquício de altruísmo,
muito pelo contrário. Quero mais é que você me curta, me like, me ame e, se possível ligue no dia seguinte deixando um
comentariozinho no Face ou no Blog: “Foi bom pra mim também”. Mas afinal, não é
isso que estamos todos fazendo? Não é o que você faz quando deixa aquele monte
de fotos suas com cara de inteligente e olhar cool, cercado de amigos em lugares
bacanas? Fala a verdade! Então, não me critique. É patético, reconheço, mas
toda vez que eu posto uma aquarela ou um texto como esse aqui no Blog, eu mal posso
conter a ansiedade para verificar quantos acessos teve essa página que vos
fala, quantos morderam a isca e se deram o trabalho de ler o que escrevi ou
olhar o que aquarelei. Como um adolescente que fica contando quantas ele pegou
na balada. Mas, me dê um desconto, não é só isso, só pegação sem sentimento. Na verdade, fico muito
grato e envaidecido quando alguém, assim como você está fazendo agora, se dá ao
trabalho de ler um texto desse tamanho, nesses tempos de twitter e mensagens de
duas linhas, no máximo. Li outro dia que pessoas que lêem romances não passam de
um por cento da população. Leitores de crônicas e contos não devem ser mais que
três, quatro por cento. Portanto, caro leitor, você é uma pessoa rara!
Num buraco um pouco mais embaixo desse aspecto estritamente numérico,
existem duas razões mais profundas para eu (me) expor assim o que penso, o que
sinto, a maneira particular como vejo o mundo. Quero, de antemão, me desculpar
se vou chover no molhado; não fiz nenhuma pesquisa teórica sobre esse assunto que, decerto, já foi e continuará sendo assunto de zilhões de teses de mestrados e
doutorados: O que leva alguém a querer de expressar de modo artístico? Vou
responder apenas por mim. Uma razão é a perspectiva de que vamos ficar aqui no mundo por um período
bem curtinho, no qual poderemos ou não passar adiante o carma e a carga genética
que nos foi confiada para, pouco depois, não sobrar nenhum vestígio de nossa
breve e insignificante intervenção no universo das coisas palpáveis. Fazendo arte,
seja erguendo pirâmides ou escrevendo poesia na parede do banheiro da escola,
tentamos prolongar a marca de nossa passagem por uma, dez ou mil gerações. Uma forma ingênua de nos iludirmos em
relação à nossa inescapável impermanência.
E outra, que já sugeri ali acima: trata-se de uma solidão que se quer
dividir. Lançamos em forma de arte sondas atmosféricas, batiscafos abissais, naves intergalácticas
que buscam aflitas descobrir se na sua galáxia íntima, leitor, no seu outro
universo individual, existem solidões, angústias, decepções, espantos, alegrias
e felicidades como as que existem do lado de cá desse teclado. Quando o que
digo e escrevo faz eco aí do seu lado, é assim como quando a gigantesca nave
mãe reproduz o chamado musical no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”:
a mensagem é um veemente SIM, eu também sinto isso, eu também tenho a mesma
dúvida, o mesmo medo, o mesmo assombro. Então, você e eu nos sentimos um pouco
menos sós.
Lembra do filme "Contatos Imediatos"? Veja o trailer:
domingo, 8 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Giverny - Um Estranho no Paraíso
No Museu Orangerie, em Paris, estão expostos grandes painéis de Monet retratando as lendárias ninfeias no lago do jardim de sua propriedade em Giverny. O LÓrangerie, com seus salões ovais construídos exclusivamente para abrigá-los, é chamado de "A Capela Sistina do Impressionismo". O lago, os jardins e todo o belíssimo paisagismo que cerca a residência da família de Claude Monet com sua segunda esposa, Blanche Rochedée, foram projetados e construídos pelo próprio pintor como uma obra de arte em si. Ali Monet aliou seu gosto pessoal com uma forte influência estética dos jardins japoneses. O cenário idílico resultante foi o objeto quase exclusivo da obra do artista em sua maturidade.
Ir a Giverny e ver-me em meio ao cenário original dos quadros que aprendi a admirar e amar era um sonho que consegui realizar há dois anos. A sensação de ultrapassar o portão e ver-me em meio àqueles quadros vivos e admiravelmente conservados foi indescritível. Depois do transe inicial e de muita baba na gravata, consegui fotografar o que se me apresentava aos olhos. Utilizei uma daquelas fotos para inspirar a aquarela abaixo, tentando usar minha maneira particular de interpretar as mesmas cores, reflexos e luzes que no passado inspiraram Monet a criar suas obras primas. Uma humilde homenagem ao mestre.
Ir a Giverny e ver-me em meio ao cenário original dos quadros que aprendi a admirar e amar era um sonho que consegui realizar há dois anos. A sensação de ultrapassar o portão e ver-me em meio àqueles quadros vivos e admiravelmente conservados foi indescritível. Depois do transe inicial e de muita baba na gravata, consegui fotografar o que se me apresentava aos olhos. Utilizei uma daquelas fotos para inspirar a aquarela abaixo, tentando usar minha maneira particular de interpretar as mesmas cores, reflexos e luzes que no passado inspiraram Monet a criar suas obras primas. Uma humilde homenagem ao mestre.
domingo, 24 de junho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
Ana Cláudia
Páginas arrancadas do
diário que eu não escrevi aos 19
anos.
Hoje, ao pegar o ônibus no Centro
para Icaraí, encontrei com a Ana Cláudia,
uma das meninas mais gatas do colégio. Ela estava sentada e eu de pé. Nunca
tinha falado muito com ela, mas, apesar da minha timidez irritante, começamos a
conversar. Não sei o que deu em mim hoje, pois, apesar de estar conversando com
uma menina linda, não gaguejei e nem fiquei sem saber o que dizer. Acho que ela
nem percebeu que eu normalmente não sou assim. Será que estou mudando,
finalmente? Ainda tive uma sorte enorme, porque a senhora gorda que estava
sentada ao lado dela saltou logo no Ingá. Isso significa que eu pude sentar ao
lado dela, nem acreditei. Ela falou que no dia seguinte estaria indo com os
pais e os irmãos para Marataízes, que é longe à beça, e eu nem sabia que é uma
praia no Espírito Santo. Ela vai passar janeiro e fevereiro lá. Primeiro pensei
que era muito azar, logo agora que tínhamos feito um contato tão legal. Falei
que eu estava indo passar as férias em Friburgo, mas inventei que talvez eu
resolvesse ir acampar em outro lugar. Aí ela falou que seria legal se eu
aparecesse em
Marataízes. Ela me deu o endereço e o telefone da casa de lá
num pedaço de folha do caderno dela.
A essa altura, eu já tinha
passado muito do ponto de ônibus perto de minha casa, mas eu menti dizendo que
ia até a casa de meu amigo Guilherme lá em São Francisco , onde
ela mora também. Saltamos na praia e fomos andando até a casa dela, que eu
queria saber onde era. No portão, nos despedimos, eu fingindo que não estava
nervoso, mas com meu coração acelerado. Saí dali correndo até a casa do
Guilherme, porque eu precisava contar aquilo para alguém. O Álvaro, irmão dele,
disse que ele tinha saído não sabia pra onde. Aí eu peguei outro ônibus até em casa. Acho que vou dar
um jeito de ir até essa tal de Marataízes.
------- x -------
Decidi ir a Marataízes atrás da Ana Cláudia para conferir qual é.
Acho muito difícil que aquela gata, que eu sei que tem um monte de caras dando
em cima, queira alguma coisa comigo. Será que ela foi simpática só porque é
simpática com todo mundo? Ou será que me achou legal? Só tem um jeito de saber.
Então eu telefonei pro Vilaça e contei a história toda. Liguei pra ele porque
ele é meu amigo, e porque é um amigo que tem uma barraca de camping e nós já
acampamos juntos em Angra dos Reis. Ele topou a idéia, U-HUUUU! Aí eu tive que
inventar uma história que tinha sido o Vilaça que tinha me convidado, que ele
tinha parentes por lá, pra eu descolar uma grana com minha mãe. Ainda bem que
eu ainda não tinha comprado o tênis com o dinheiro que ganhei do meu avô no
aniversário.
------- x -------
Procurei no Atlas onde fica Marataízes.
Descobri que a cidade mais ou menos grande mais próxima é Cachoeiro do Itapemirim,
e que tem um ônibus que sai meia noite de Niterói pra lá.
------- x -------
Agora são três horas da manhã,
ainda não chegamos nem a Campos, e nessa poltrona apertada é difícil dormir. O
Vilaça trouxe a barraca, mas só trouxe um colchonete. Nem me avisou que só
tinha achado um. Vou ter que dormir no
chão. Será que vai valer a pena?
------- x -------
Chegamos a Cachoeiro, terra do
rei Roberto Carlos. Esperamos na rodoviária o primeiro ônibus para Marataízes,
que só saiu duas horas depois e ainda parou um tempão em outra cidade, Itapemirim
(sem Cachoeiro). Saltamos finalmente em Marataízes e saímos perguntando onde
tinha um camping. As praias aqui têm areia escura, diferente das de Niterói.
Aqui é cheio de condomínios de apartamentos, e os condomínios estão cheios de
mineiros. Deu pra saber que eles são mineiros por causa do sotaque e por causa
das placas dos carros. De manhã, um monte de mineiros cor de camarão estavam
pondo a bagagem nos seus carros e fechando os apartamentos. De tarde, chegou
outro lote de mineiros, só que branquelos, descarregando bagagem e ocupando os
condomínios outra vez.
Achamos um camping baratinho e
armamos a barraca embaixo de uma amendoeira. Vai dar pra tomar banho, tomar um
café e partir em busca da Ana Cláudia.
------- x -------
Achamos a casa da Ana Cláudia. Ela tinha acabado de
acordar. Acho que a mãe dela ficou com pena de nós e nos chamou para entrar
tomar café. Comemos pão de forma e bebemos Nescau. Ela tem dois irmãos mais
novos e a mãe dela é muito legal. Depois fomos para a praia. Eu não estava nem
acreditando. Ela, de biquíni, é ainda mais perfeita do eu imaginava. Ela falou,
e as amigas dela, que eu não lembro o nome, confirmaram que no ano passado ela
foi eleita a Garota Verão de Marataízes no concurso do clube da cidade. Deve
ter sido barbada! Apesar de termos ficados juntos a manhã toda, não percebi
nenhum sinal por parte dela de que poderia rolar alguma coisa. Ou talvez seja a
velha timidez que esteja me impedindo de deixar as coisas mais claras.
------- x -------
Eu e Vilaça fomos almoçar num
restaurante meio botequim. O Vilaça pediu bife com fritas, e eu pedi um PF
porque, senão, o dinheiro não vai dar pra comer até a gente voltar pra Niterói.
De tarde voltamos a casa dela e ficamos jogando buraco. A coisa não está
evoluindo...
À noite, com a merreca que eu
tenho no bolso, não dá pra ficar em bares nem pagar pra entrar em lugar nenhum.
Se bem que aqui não tem quase opção. Só deu pra ficar andando pelo calçadão,
que foi meio destruído por uma ressaca recente. Querer ganhar uma gata daquela,
sem grana e sem carro, precisa de muuuuito charme e bom papo, e eu não tô com
essa bola toda. Enchemos o saco de andar à toa e voltamos pro Camping na maior
escuridão, que aqui quase não tem iluminação pública. Pra piorar, estava
chuviscando, e eu fiquei pensando que amanhã pode amanhecer chovendo. Aí, nem
praia vai ter. Eu trouxe o livro “Ilusões” de Richard Bach, aquele mesmo de
Fernão Capelo Gaivota. Estou achando um dos livros mais legais que eu já li. É
a história de um cara que era um messias, mas que tinha desistido de ensinar
coisas pras pessoas, porque elas não queriam mudar, só queriam que ele fizesse
milagres e mudasse as coisas pra elas. Mas ele encontrou um cara que queria
aprender. Aí ele ensinou a esse cara que ele podia ser tão messias quanto ele.
Que qualquer um podia andar na água ou nadar na terra, ou fazer flutuar uma
chave de boca de 9/16 polegadas. Ou fazer nuvens desaparecerem! No livro
parecia tão fácil, que eu acreditei que era possível. Falei pro Vilaça do
livro, e decidimos que as nuvens não estavam mais lá. Fiquei entre o apavorado
e maravilhado quando olhei pra cima e vi as nuvens se afastando e as estrelas
aparecendo! Daqui pra frente vou acreditar que tudo que eu quero é possível. Na
hora de dormir, enrolei a toalha para fazer um travesseiro e deitei. Aí
descobri que naquele lugar embaixo da amendoeira, onde armamos a barraca,
estava cheio de caroços de amêndoas no meio da grama debaixo do chão da
barraca. Vai ser uma noite longa...
------- x -------
Depois de alguns dias, quando só
restava grana pra passagem de volta, voltamos pra Niterói. Vilaça acha que eu
sou um otário, que eu tinha que ter ido com mais decisão, que depois de toda
essa viagem eu tinha que ter dado um cheque mate. Eu não tive coragem de dar
porque já sabia, ou achava que sabia, que não ia dar certo. Fiquei pau da vida
com ele porque, quando ele viu que eu não me decidia, começou a dar em cima
dela. Voltamos quase sem nos falar. Mas não me arrependo de nada. Acho que
alarguei meus limites. Às vezes, pode ser mais fácil fazer desaparecer as
nuvens do que conquistar uma garota. Ou não.
Comentário atual: Ainda tentei alguma coisa em relação à Ana Cláudia. Fui
novamente, depois das férias, até a casa dela, e já tinha outro marmanjo por
lá, xavecando ela. Concorrência selvagem! Ela acabou namorando um paulista
estudante de medicina da UFF, um semestre mais atrasado que eu. Ele tinha cara
de italiano e um carro do ano. Possivelmente tinha também outras qualidades que a minha inveja ocultava completamente, talvez não. Acabaram se casando e eles se mudaram para São Paulo. Uns quinze anos
depois (o destino é um brincalhão), ela apareceu uma tarde no meu consultório,
uma linda jovem senhora nos seus trinta e poucos. Ana Cláudia, agora também médica, estava de
volta a Niterói, recém separada. Queria sublocar um horário para se estabelecer
profissionalmente na cidade. Os horários que ela queria não estavam disponíveis.
Nem eu, pois estava casado. Nunca mais a vi nem tive notícias. Até a semana passada
quando, pelo Facebook, descobri que está casada de novo e é professora
universitária. Continua bonita, trinta anos depois.
sábado, 16 de junho de 2012
O Homenzinho que Vivia num Saquinho de Pipoca
Era uma vez um homenzinho que vivia dentro de um saquinho de pipoca. Um
dia, uma fada estava passando por ali e ouviu sua voz bem fraquinha se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser tão pequeno nem morar num saquinho de pipoca. Eu deveria ser do
mesmo tamanho dos outros homens e viver numa casa de verdade, isso sim.”
A fada apiedou-se do pobre homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo.
Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que havia crescido, que
estava do mesmo tamanho dos outros homens e que estava em uma linda casinha
numa cidade do interior da Terra das Bandeiras. Ele ficou muito feliz, mas se
esqueceu completamente de agradecer à fada.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho
e resolveu passar para ver como ele estava. Quando se aproximou da porta da
linda casinha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ter um nariz tão pequeno nem morar numa casinha. Eu deveria ter um
nariz do mesmo tamanho dos outros homens e viver numa bela cobertura na
capital, onde eu pudesse conhecer uma boa moça e me casar, isso sim.”
A fada ficou um pouco decepcionada, mas apiedou-se mais uma vez do
homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que seu nariz havia
crescido, ficara até bem grande, mas bonito. E que ele estava numa bela
cobertura na capital. Passou a desfilar pela capital com seu belo nariz e não
tardou a conhecer uma boa moça e se casar com ela. Ele ficou muito, muito
feliz, mas se esqueceu de telefonar para a fada agradecendo.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho e
resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao hall da cobertura e
se preparava para tocar a campainha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser casado com uma mulher comum. Eu deveria estar casado com uma moça
muito linda, loura e de cabelos compridos, e que gostasse de fazer muitas
brincadeiras na cama, isso sim.”
A fada ficou bem aborrecida, mas apiedou-se mais uma vez do homenzinho
e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, achou um bilhete da fada, com instruções
para que ele fosse até o Brejo das Augustas, pegasse a primeira rã que lhe pulasse
aos pés e lhe desse um beijo na boca. E assim ele fez. E a rã se transformou em
uma moça muito linda, loura e de cabelos compridos, e que foi logo convidando-o
a brincar de pique, esconde-esconde e amarelinha na cama dele. Ele expulsou de
casa a mulher antiga, que era boa, e colocou a moça muito linda, loura e de
cabelos compridos em seu lugar. Eles se apaixonaram, brincavam todo dia na
cama, e ele gostava de desfilar com ela diante dos seus amigos, que agora eram
muitos. E dizia para eles: “Vocês nem imaginam onde eu encontrei essa moça
muito linda, loura e de cabelos compridos.” Mas ele nem se lembrou de mandar um
torpedo para a fada agradecendo.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho
e resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao prédio onde ele
morava, pediu para subir, mas o porteiro avisou que o homenzinho não gostava de
receber qualquer um. Então ela pediu para falar com ele pelo interfone. Escutou
a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser casado com uma mulher apenas. Eu deveria ter todas as mulheres que
eu quisesse e brincar com várias ao mesmo tempo, isso sim.”
A fada ficou pau da vida, mas resolveu lhe atender o desejo. Então ela
disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Na hora do jantar, a moça muito linda, loura e de cabelos compridos
disse ao homenzinho que tinha escutado toda a conversa dele com a fada pela
extensão, e que não permitiria aquilo. Os dois começaram a discutir e o
homenzinho disse que assim ela ia acabar sendo devolvida ao Brejo das Augustas.
Ela ficou muito zangada e lhe apontou uma arma. Quando o homenzinho acordou na
manhã seguinte, descobriu que havia sido dividido em quatro pedaços e que cada
pedaço estava dentro de um saquinho de pipoca. Um saquinho havia sido
despachado para o Sul, outro para o Norte, outro para o Leste e outro para o
Oeste. A fada anda muito ocupada, resolvendo muitos assuntos e não quer mais
saber do homenzinho.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)





















