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segunda-feira, 4 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
O Ódio de Margot
Margot tem ódio de Rogério.
Gostaria de odiá-lo sem culpa, mas, como católica praticante, tem certeza que o
ódio que nutre por Rogério vai levá-la inexoravelmente ao inferno. Convicção
que só serve para aumentar seu ódio por ele, o culpado por sua futura danação.
Margot e Rogério são casados. A bem da verdade, hoje são casados só no papel,
pois não exercem as prerrogativas matrimoniais há muitos anos. Não dividem a
mesma cama nem o mesmo sofá. Raramente dividem a mesa, embora compartilhem o
mesmo teto. Margot faz questão de deixar bem explícito seu rancor, como um animal morto no tapete da sala, mas Rogério parece não perceber, ou finge não
perceber. Não discute, não responde os desaforos, dá palpites na roupa dela e nas
conversas que ela tem ao telefone. O que só aumenta o ódio de Margot.
Mas que barbaridade teria
cometido Rogério, que atitude ignóbil justificaria tamanho ressentimento?, decerto
estará pensando a senhorita, a senhora ou o senhor leitor. O grande pecado de Rogério foi ter-se casado com Margot, ou, melhor dizendo, vice-versa. Não
entendeu? Explico.
Margot era noiva de Abelardo. Digo
mais, Margot era louca por Abelardo e em breve casar-se-ia com o objeto de sua
paixão. Abelardo era belo, forte (“um Adônis”, diziam), além de sedutor e atencioso;
tratava-a como princesa e quando a beijava fazia-a agradecer ao Céu por ter nascido mulher. Comentava-se também que
Abelardo não era confiável, para dizer o mínimo. Ou que não valia nada, para
ser mais exato. Margot, de seu lado, fazia-se de desentendida: nunca vira nada
desabonador na conduta de seu noivo e não daria ouvidos a fuxicos de gente
invejosa de sua felicidade. Mas alguém trouxe provas e convenceu a até então feliz
noivinha a dar um flagrante no rapaz. Confrontada com os fatos, Margot, tida
como geniosa, não poderia deixar barato. Abelardo merecia uma lição e ela não
fez por menos: desmanchou o noivado.
Depois ficou esperando pelas
desculpas, ele que se humilhasse a seus pés implorando perdão. Mas o tempo
passava, e nada. Nisso, surge Rogério, colega de trabalho. Margot não era de se
jogar fora, muito pelo contrário, e Rogério começou a cortejá-la
insistentemente, mas foi esnobado pela moça orgulhosa. Um ano se passou,
Rogério ali firme. Até que ela concluiu que talvez não fosse má ideia
começar um namoro só para acender os ciúmes do ex-noivo. Cedeu aos apelos de
Rogério e pensou: agora vai. E nada. Noivar com o outro talvez funcionasse.
Nada ainda. Quando deu por si, estava casada com Rogério.
Bem, dirão vocês, é nisso que dá
o orgulho, ela poderia ter sido feliz ao lado de Abelardo e não foi. Armadilhas
do destino, e a felicidade fugiu-lhe por entre os dedos.
Margot ainda tem notícias de Abelardo. Teria ele se casado e feito outra feliz? Nutriria ainda um secreto amor por Margot? Nada disso. Ele era mesmo um devasso. Teve filhos com mais de uma mulher, mas não se casou com nenhuma. Bebia demais e ainda bebe muito. E fuma. A bebida encharcou sua beleza, que murchou e se esvaiu, diluída em álcool. Está um caco. E pobre.
Margot ainda tem notícias de Abelardo. Teria ele se casado e feito outra feliz? Nutriria ainda um secreto amor por Margot? Nada disso. Ele era mesmo um devasso. Teve filhos com mais de uma mulher, mas não se casou com nenhuma. Bebia demais e ainda bebe muito. E fuma. A bebida encharcou sua beleza, que murchou e se esvaiu, diluída em álcool. Está um caco. E pobre.
Já Rogério, seu
marido, sempre foi fiel. Amealhou um belo patrimônio a custa de muito
trabalho honesto. Margot já pensou em separar-se, mas para isso teria de abrir
mão de sua bela cobertura de frente para o mar. Pior, se depois de separados
Rogério falecesse antes dela (imaginar a morte de Rogério, aliás, é um exercício que a excita
intensamente, mas reforça sua certeza de que irá para os porões de Lúcifer),
perderia a pensão para a sirigaita que certamente ele logo arranjaria. Por
falar nisso, há uns três anos Rogério teve um infarto, mas foi atendido a tempo
e está ótimo, melhor do que antes. Corre na praia diariamente e é tido como um
coroa enxuto.
Mas nada disso vem ao caso, e Margot consome seus dias imaginando formas mais intensas de odiar. Seu ódio adquiriu vida própria, corporificou-se em um mascote gordo, que ela afaga enquanto assiste TV, que ela mima com biscoitos e salgadinhos, que compartilha sua cama e deforma seu colchão. Mais que isso, ele talvez seja o mastro principal do seu circo, em torno do qual ela desempenha sua vida infeliz. Muito complicado, muito desconfortável de mudar. Se o objeto de seu ódio se for antes dela, desconfio, o teto cairá.
Mas nada disso vem ao caso, e Margot consome seus dias imaginando formas mais intensas de odiar. Seu ódio adquiriu vida própria, corporificou-se em um mascote gordo, que ela afaga enquanto assiste TV, que ela mima com biscoitos e salgadinhos, que compartilha sua cama e deforma seu colchão. Mais que isso, ele talvez seja o mastro principal do seu circo, em torno do qual ela desempenha sua vida infeliz. Muito complicado, muito desconfortável de mudar. Se o objeto de seu ódio se for antes dela, desconfio, o teto cairá.
E assim “la nave va”. Eu, daqui, penso nos versos daquela canção: “Meu
amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus”. E que o inferno não é um lugar, é
uma atitude.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Jardim Botânico
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| Hoje pela manhã no JB-RJ. Tamanho A4 |
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| Esta foi feita em tamanho cartão postal |
Manhã de sábado no Jardim Botânico. Muitas grávidas de barriga de fora sendo fotografadas com seus cúmplices. Debutantes de pernas finas equilibrando-se em altíssimas sandálias plataforma contracenavam com saracuras de pernas igualmente. Tucanos fazendo algazarra, tiribas e maritacas fazendo mais algazarra. E crianças. Gringos de todas as latitudes, turistas brasileiros, turistas niteroienses, tudo e todos em caótica harmonia. Os desafios de sempre das aquarelas no JB: simplificar a profusão de planos, de verdes, de luzes.
A de baixo saiu primeiro, em meia hora. A de cima levou pouco mais de uma hora. Usei aquarela em pastilha e um único pincel médio, priorizando a agilidade guerrilheira na pintura au plain air. As sombras da de cima talvez estejam exageradas no azul, mas o resultado me pareceu mais interessante, embora menos natural. Pintar, afinal, não é imitar a realidade. Torço o nariz quando um observador diz; "Está ficando igualzinho!" Pintura, assim como qualquer arte visual (até mesmo a fotografia) há de ser a interpretação da realidade pelo artista. Então, não sei se era assim, mas foi assim que eu senti a paisagem. E o dia está ganho.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Crônicas Brasilienses IV: A Corrida
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| "Uhuuu, vem cá, meu bem..." |
A morte é inescapável. Viver não
só é perigoso, como fatal, já disseram. Tudo bem, a senhora magra que veste
preto vai acabar nos conquistando um dia. Ela não cansa de tentar nos envolver
o quanto antes em seus braços esquálidos e nos beijar a boca com seu hálito de
terra. De minha parte, vou escapulindo enquanto posso. Já a vi de perto umas
três ou quatro vezes, ela valendo-se de enxame de abelha africana, tiroteio na
Praça XV e ressaca em Itacoatiara para tentar me conquistar precocemente. Como
um gato, vou gastando minhas sete vidas e desconversando a dona.
Algumas pessoas, porém, parecem
dizer “vem que eu sou facinho”, e flertam abertamente com a morte. Como bem
observou Leandro Hassum, basta verificar que algo tem tudo para dar errado que
surge logo um corajoso disposto a contrariar as leis da física. Lembrei-me
agora do infeliz padre que se ergueu pelos ares no litoral do Paraná pendurado
em mil bexigas de borracha, daquelas de festa infantil, planejando aterrissar vinte
horas depois em Mato Grosso do Sul. Esqueceu-se de combinar a rota com o vento,
que cismou de soprá-lo em direção contrária, mar adentro ou afora. O
padre (ou o que restou dele) só foi encontrado meses depois por um rebocador no
litoral de Maricá.
Por falta de tempo para me dedicar à tarefa de pesquisa,
deixo aqui uma ideia que pode render uma boa grana a alguém metódico: compilar
exemplos como este e publicá-los em livro, “Duzentas Maneiras Idiotas de Morrer”,
já deixo até o título pronto.
Também eu, que tenho a firme
intenção de morrer de velho, já quase morri de maneira idiota.
Saindo de um compromisso num hospital na cidade satélite de Taguatinga com destino ao Ministério da Saúde em Brasília, peguei o primeiro táxi que se apresentou, um Kadett branco, lembro-me bem. Hora do almoço, dia claro, pegamos a autoestrada que liga Taguatinga à capital federal, uns vinte quilômetros a serem percorridos em pista dupla, a oitenta, cem por hora. Do banco de trás, como faço habitualmente, puxei assunto:
Saindo de um compromisso num hospital na cidade satélite de Taguatinga com destino ao Ministério da Saúde em Brasília, peguei o primeiro táxi que se apresentou, um Kadett branco, lembro-me bem. Hora do almoço, dia claro, pegamos a autoestrada que liga Taguatinga à capital federal, uns vinte quilômetros a serem percorridos em pista dupla, a oitenta, cem por hora. Do banco de trás, como faço habitualmente, puxei assunto:
“Bacana o som do seu carro”.
Engatamos falação sobre autofalantes,
rock’n roll, entradas USB e coisas afins. Num suspiro da conversa, o motorista,
rapaz de uns trinta anos, atravessou a pergunta:
“O Senhor é médico?” Apesar de
ter-me visto saindo de um hospital, eu vestia terno e gravata; fiquei
imaginando como ele teria adivinhado. Confirmei seu palpite.
“O Senhor me desculpe, mas eu
venho tendo uns desmaios de uns tempos para cá, o Senhor tem ideia do que possa
ser?”
Fez-se uma pausa. O velocímetro marcava
cem por hora. Houvesse outro passageiro no táxi eu teria lhe dirigido um
olhar arregalado. Conduzi uma anamnese rápida e sugeri-lhe procurar um neurologista
com urgência, na sua profissão pode ser perigoso. Depois procurei me distrair
do sobressalto com a paisagem sem graça que desfilava rápida pela janela.
Chegando ao Plano Piloto, ele reduziu
a velocidade enquanto descíamos pela passagem subterrânea da rodoviária. Um sinal fechado com vários carros parados à frente era o último
obstáculo entre nós e a Esplanada dos Ministérios. Já tínhamos diminuído
bastante quando senti o motorista aliviar a pressão no pedal do freio. Ainda
imaginei que ele pretendesse trocar para a pista à nossa direita, que tinha
menos carros, mas não. A traseira do carro adiante foi crescendo, crescendo, até que a
atingimos violentamente. Pelo retrovisor interno, olhei nos olhos arregalados do
motorista.
“O que aconteceu, rapaz?”
“Não sei...”
O motorista do carro da frente
desceu, examinou a traseira destruída, as lanternas quebradas e caminhou em
nossa direção com aquela cara misto de raiva e incredulidade. Chegou bem a
tempo de presenciar o início dos espasmos e da salivação. Bem à minha frente, o
corpo do coitado esticava-se em arrancos de cachorro atropelado, diria Nelson Rodrigues, levantando-se
como uma taboa rígida do assento. Ao dar-se conta de que não teria como ressarcir-se
do prejuízo, pelo menos naquelas circunstâncias, o outro motorista deu um
suspiro e foi-se embora, largando pelo asfalto pedaços do que fora seu belo veículo. Desci para socorrer o epilético com a ajuda do motorista de
um Ômega placa branca que havia parado ao nosso lado e assistira tudo. Puxamos o meu motorista já aquietado para o banco do carona. Depois sentei-me ao volante e tentei
ligar o motor, que respondeu. Depois de agradecer a ajuda, dirigi até a emergência
do Hospital de Base de Brasília, onde meu desacordado condutor, agora
passageiro, foi colocado em uma maca e levado para a sala de atendimento. Estacionei
o Kadett, puxei do rádio da cooperativa e comuniquei o acontecido à Central,
dando o nome que constava no crachá afixado no pára-sol e pedindo que avisassem
a família. Depois fui ao posto policial do hospital, onde fiz registro do ocorrido e pedi que cuidassem das chaves e do veículo. Tomadas essas providências,
retornei à sala de emergência. Reencontrei-o bem na hora em que recobrava os
sentidos.
“Tudo bem? Sabe onde você está?
Lembra-se do que aconteceu? Lembra-se de mim?”
Olhar apalermado, ele não se
lembrava de nada.
“Fui eu quem lhe trouxe de táxi até aqui. Vim cobrar a corrida.”
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Crônicas Brasílienses III: Eles Querem é Poder
Falar de Brasília é falar do Poder,
que, por se tratar do deus de muitos, vou grafar aqui com maiúscula. Taí uma
coisa que nunca fez minha cabeça. Não é difícil para mim entender a busca pelo Poder
como meio de obter vantagens financeiras ou mesmo sexuais. Há quem diga,
inclusive, que o homem só corre atrás de vantagens financeiras pensando nas
vantagens sexuais que elas podem render. Por outro lado, uma vez que os homens
não sentem maior atração sexual por mulheres poderosas, muito pelo
contrário (afinal, quem teria o falo?), desconheço as razões pelas quais algumas
delas lutam pelo Poder. Talvez para despertar inveja em outras mulheres, coisa
que, desconfio, dá a muitas mais prazer do que atrair o sexo oposto.
Lembro-me de ter lido na
adolescência, num gibi do Super-Homem, a história de um ladrão que declarava ser o mais bem sucedido e mais inteligente de todos os coleguinhas de profissão. Ninguém acreditava
nele. Suas geniais habilidades criminosas não eram do conhecimento de ninguém:
seus golpes eram tão perfeitos que não eram nem percebidos e, quando eram, ninguém
era capaz de descobrir o culpado. Não
era perseguido pela polícia, não tinha mandado de prisão, seu nome nunca
aparecia nas páginas dos jornais. Então ele tirava vantagem do anonimato e
gastava feliz os seus “ganhos”, pensou você? Claro que não! Passou
deliberadamente a deixar pistas para se tornar conhecido, temido e odiado, mas, finalmente, comentado.
Quando trabalhei em Brasília, à
medida que o Departamento de Saúde Suplementar começou a regulamentar
os planos de saúde, afetando a vida de mais de 40 milhões de brasileiros, os
telejornais, as rádios e a imprensa escrita começaram a assediar o então ministro da saúde José
Serra, o diretor do departamento e, na ausência deles, qualquer
membro comissionado do órgão. A agenda de compromissos públicos,
palestras em congressos, declarações em rádios e até em programas de TV era
cada vez maior, e alguns de nós acabamos sendo designados para representar
nossos superiores em algumas oportunidades. Dar declarações, esclarecimentos
para a imprensa e aparecer na televisão passou a ser corriqueiro. Os famosos quinze
minutos de fama.
Donos e diretores dos planos de
saúde passaram a circular diariamente por nosso único corredor e por nossas
poucas salas no ministério. Eles e seus assessores buscavam, percebi aos
poucos, vínculos de camaradagem e amizade com qualquer um que sentasse atrás de
uma mesa naquele andar. Ofereciam inicialmente pequenos agrados: uma
bandeirinha de mesa do time de coração do incauto, um pacote de castanhas de
caju, uma garrafa de licor de pequi, qualquer lembrancinha típica de seu estado. Coisinhas miúdas,
aparentemente inocentes sinais de amizade. Mas sabiam sentir quando alguém mordia a
isca, geralmente depois de picado pela mosca azul. Não exploravam necessariamente a má fé, mas a
simples e humana vaidade de se sentir bajulado e poderoso, mesmo que em função
de um poderzinho de bosta. Numa troca não explícita, desejavam informações e
facilidades. Um funcionário comissionado, pessoa honesta e bem intencionada, numa
viagem oficial representando o diretor para uma palestra em outro estado,
aceitou que um plano de saúde gentilmente custeasse a passagem e a estadia de
sua esposa. Um misto de vaidade e ingenuidade que lhe custou o cargo.
Outras lições que aprendi por lá
foram as de fidelidade e hierarquia. Eu fora incumbido de ser o interlocutor dos consumidores
de planos de saúde e receptor de suas queixas, que compilava e encaminhava para
o nosso diretor. Passei a tentar convencê-lo de que alguns argumentos dos
consumidores contra as novas regras eram pertinentes. Eventualmente, algumas
dessas queixas foram entendidas como justas e as regras foram alteradas. Nesse ínterim, porém, por mais de uma vez defendi para o público externo a posição oficial do
departamento, da qual discordava internamente. Mas só internamente.
A busca do Poder pelo Poder
realmente é incompreensível para mim. Há até os que perdem dinheiro em troca de
tornar-se poderoso, seja como presidente, diretor, síndico ou suplente de
conselho fiscal de clube de biriba. Um amigo fez questão de “candidatar-se”,
mediante pagamento de determinada quantia, a membro de uma obscura academia brasileira
de medicina ou algo que o valha. Uma instituição de semi-múmias de fardão, sem
nenhum peso científico ou político. Acabou “eleito”. “Comprei um título de
conde”, confidenciou-me.
Gostar de ser bajulado em função do cargo ou título é
como acreditar em juras de paixão eterna saídas da boca de um amor de aluguel. É iludir-se de que
os rapapés e elogios são dirigidos à pessoa e não ao cargo. Tire-se o cargo,
deixe-se a pessoa, sobra o quê? Como dizia uma velha tia: “O homem subiu, todo
mundo viu; o homem caiu, pqp”.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Crônicas Brasilienses II: Uma Força Estranha no Ar
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| O Vale do Amanhecer fica próximo de Brasília. |
Não sei se por conta da profecia do padroeiro Dom Bosco, que
ainda no século 19 sonhou com uma civilização de bem e abundância que brotaria dali
a 120 anos onde hoje está Brasília; não sei se é consequência dos cristais, que
são abundantes no Planalto Central. O fato é que Brasília parece atrair, se não
fatos inexplicáveis, pelo menos pessoas em busca de explicações para o
inexplicável.
Minha passagem profissional por Brasília se deu em um momento
de mudanças em minha vida. Recém-separado, morava sozinho em Niterói, ou
melhor, com a única companhia de meu pastor alemão, Argos. A casa ficava de
segunda a quinta aos cuidados de minha empregada Andreci, supervisão de minha
mãe e vigilância de Argos.
Numa sexta feira, no Rio, eu folheava aleatoriamente alguns volumes
na Livraria da Travessa, a original do centro, em busca de novas leituras.
Acabei lendo um trecho de um livro do Amyr Klink recém lançado sobre sua viagem solitária de
circunavegação do continente Antártico. O trecho que li relatava o incêndio em
seu veleiro causado por um aquecedor defeituoso, por sorte acontecido quando
ele estava na base brasileira na Antártica, o barco ancorado em frente. Com a imediata
atuação da guarnição da base, o incêndio foi rapidamente controlado e os danos
pequenos. Se as coisas acontecessem durante um cochilo em alto mar, talvez o
barco sofresse danos bem mais sérios e o Amyr não pudesse ter contado a história.
Comprei o livro e, retornando a Brasília, falei dele para
meus colegas de Ministério da Saúde. Iracema, uma simpática nordestina de meia
idade, funcionária de carreira do Ministério, que chamava carinhosamente os
colegas de “meu bichinho”, ouviu-me com atenção e disse que soube em primeira
mão da história, pois seu marido, capitão de mar e guerra, era o comandante da base na ocasião.
E que, por acaso, ele acabara de retornar da Antártica depois de uma missão de
seis meses. “Nossa, que coincidência”, eu falei. Falei também que essas
coincidências eram assunto que me interessava muito na época. Talvez pela minha
situação de então, eu estivesse mais atento a eventuais sinais, a alguma sincronicidade
que me indicasse que rumo minha vida tomaria a partir daquela desarrumação
momentânea. Pois Iracema me disse:
“Meu bichinho, meu marido sempre leva muitos livros para ler
na Antártica, e, entre os que ele trouxe de volta, tem um que é justamente
sobre essa tal de sincronicidade.”
Ora que coisa. Vendo meu interesse, ela ficou de me trazer o
livro emprestado.
Mal eu havia chegado ao Ministério na manhã seguinte, recebi
uma ligação de Niterói. Minha mãe me dava conta de que, por causa de uma falha na
bóia da caixa d’água, a empregada havia encontrado a casa inundada naquela manhã. Por sorte, muito por conta da separação recente, minha “decoração” na época era espartana, para
dizer o mínimo, e os prejuízos foram insignificantes. Dadas as orientações e refeito
do susto, fiquei esperando a chegada de Iracema e do livro. Mas Iracema não
apareceu naquele dia. Só depois da hora do almoço fomos comunicados do motivo: um cano havia
rompido em seu apartamento, molhando os tapetes e inundando tudo.
Sincronicidades.
Sincronicidades.
xxxxxxxx
Dr. Ilídio passou a integrar nossa equipe no Departamento de
Saúde Suplementar do Ministério vindo de uma grande operadora de planos de
saúde, de onde acabara de sair por força de aposentadoria. Beirando os setenta,
era inteligente, de pensamento ágil e de extrema simpatia. Com sua figura
elegante, sempre levemente bronzeada e com seu bigode grisalho muito bem aparado,
conquistou a amizade de todos em pouco tempo. Era muito galante com o sexo
oposto e não perdia oportunidade para dirigir-se a toda mulher mais ou menos interessante
pelo predicado de “poderosa, energética e vitaminada”, galanteio que ele despejava
com tal habilidade que sempre arrancava sorrisos de moças e balzaquianas. O
toque de seu celular era um trecho de uma peça de Bach, e o anúncio de sua
caixa postal começava com “Que bom que você ligou; que pena, agora não posso
atender...”. Ficamos amigos. Soube do próprio que mantinha um consultório muito
concorrido, onde políticos influentes e outras personalidades brasilienses
buscavam tratamentos de rejuvenescimento. Não sei se a expressão anti-aging já existia na época, mas ele
certamente foi um precursor.
No aniversário de seus 70 anos, Dr. Ilídio convidou diversos
colegas do Ministério para uma festa ambientada na varanda e nos jardins bem
cuidados de sua elegante casa no Lago Sul. A certa altura, convidou a mim e
mais um ou dois colegas mais chegados para conhecer o interior da casa. Guiou-nos escada acima até seu quarto, um ambiente amplo onde uma estante abrigava diversos livros
religiosos e exotéricos. Ali, ele expunha-nos sua intimidade. Levou-nos a uma
ampla varanda. Sobre uma estrutura de madeira, repousava uma grande caixa. Pela
abertura voltada para diante, podia-se ver que o interior era forrado com uma
folha de metal.
“Aqui, nesta, caixa, eu pratico meditação todas as manhãs”.
“Mas por que na caixa?”, perguntamos.
“As camadas de metal potencializam a energia e auxiliam no
alcance de níveis mais elevados de concentração. Agora à noite, se vocês
olharem com atenção, poderão ver a energia na forma de pequenas fagulhas azuis
ou violeta.” E nos convidou para olhar o interior escuro da caixa. Tentei me
despir de todo o ceticismo e olhei demoradamente dentro da caixa.
“Viu?”
“Acho que vi alguma coisa, sim,” menti.
Um dia, Dr. Ilídio me pegou pelo braço e, reservadamente,
disse que tinha uma revelação crucial a fazer: em duas semanas, uma nave extraterrestre
estaria aterrissando em algum lugar da Chapada dos Veadeiros para resgatar uns
poucos terráqueos escolhidos, pois uma hecatombe era iminente. Eu e meu cão
Argos estávamos formalmente convidados a integrar o grupo dos escolhidos para
dar seguimento à saga da humanidade em algum outro ponto da galáxia. Li em seus
olhos que fazia o convite com a maior seriedade. Fiquei legitimamente honrado
com tamanha consideração. Porém, declinei do convite, não lembro que desculpa
dei. Ele, preocupado, insistiu nos dias seguintes para que mudasse de ideia.
Ao retornar a Brasília depois do fim de semana que a profecia
anunciara como sendo o derradeiro, senti-me um pouco constrangido em encarar Dr.
Ilídio.
“E então, o que (não) houve?” perguntei meio sem jeito. Acho que ele se referiu a um ligeiro engano nos cálculos, e
não se falou mais disso.
Depois que deixei aquele cargo no Ministério, tive alguns
poucos contatos telefônicos com Dr. Ilídio. Esta semana um amigo comum, que
manteve contato mais estreito com ele desde então, comunicou-me de sua partida
para algum plano mais elevado, onde ele já deve estar conquistando a simpatia de todos.
Boa viagem, Dr. Ilídio.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
Um Estranho no Planalto: Crônicas Brasilienses
Meus amigos mais próximos sabem:
eu já tive minha cota de convivência e proximidade com o centro de decisões do
Brasil. Entre 1998 e 2000 trabalhei no Departamento de Saúde Suplementar do Ministério
da Saúde, que logo seria transformado na ANS e transferido para o Rio.
Meu primeiro casamento tinha acabado
de se desfazer quando recebi o convite para integrar a equipe que teria a missão
de regulamentar a recém-promulgada lei dos planos de saúde. Fiquei em dúvida,
mas algumas pessoas me disseram o equivalente a “sua vida já está toda revirada
mesmo, uma revirada a mais não fará diferença”. Tinha sua lógica. Aceitei.
Primeira tarefa: adequar o guarda
roupa. Era (e voltei a ser) daqueles que só vestem terno e gravata em
casamento. Tive que treinar a dar nó em gravata. Passei a ter dois nós (pasmem!) no
meu repertório: o de duas voltas, para gravatas de tecido fino, e o de uma
volta apenas, para tecidos mais encorpados. Tive que comprar alguns ternos e
camisas, além de gravatas e aprender a combiná-los, coisa que fui conseguindo
aos poucos observando homens que me pareceram elegantes e reportagens de moda masculina nas revistas. Acabei concluindo que
gravatas listradas não têm erro: são sempre sóbrias e corretas. Cheguei a ter
uma atração inusitada por elas. Conferia sempre as vitrines e comprava sempre
que descobria uma que me chamasse a atenção. Fazia questão de fazer um nó gordo
e sem pregas, e não descuidava no comprimento exato, apenas tocando o cinto da
calça.
Embarcava, ainda sonolento, no avião das sete da manhã
toda segunda feira no Galeão, onde, invariavelmente embarcava também o ministro da
Fazenda da vez: primeiro o Gustavo Franco e mais tarde, quando FHC abandonou a
âncora cambial em 1999, o Armínio Fraga. Antes das nove eu já estava a postos no Ministério. Voltava de Brasília no voo das seis da
tarde da quinta, na companhia da bancada federal do Rio: Miro Teixeira (um
gentleman com voz de barítono), Jandira Feghali, Fernando Gabeira, Jair
Bolsonaro (que tinha o passatempo de mau gosto de falar mal da ex-mulher para
quem quisesse ou não quisesse ouvir), Francisco Dornelles e o então ainda gordo
Roberto Jefferson, entre outros literalmente menos votados. Este voo ainda hoje é tradicionalmente
conhecido como “esperança de suplente”. E eu lá.
Aluguei uma quitinete na Asa Norte
com a verba da ajuda de custo. A princípio, uma sensação de solidão
angustiante e opressiva, agravada pela secura de final de inverno no Planalto, que deixa os
gramados queimados e o ar difícil de respirar. Mas, aos poucos fui travando amizade
com os muitos colegas em cargos comissionados no mesmo departamento, vivendo
situação de igual solidão. Acabamos por nos mudarmos todos para um mesmo hotel
antiguinho no Setor Hoteleiro Norte e passamos a compartilhar nossas solidões.
Dali, saíamos para caminhadas matinais no Parque da Cidade, tomávamos café e depois rachávamos o taxi até o Ministério. Na época, eram tolerados
táxis piratas na capital, que cobravam menos pela corrida. Logo descobrimos que
não valia a pena a economia. Os carros eram velhos e mal cuidados. Uma vez, o
motorista cheirava tão mal que fomos todos como cachorros, com a cabeça pra
fora da janela e o nariz ao vento, menos o colega que estava no meio no banco
de trás. Coitado.
Havia a “turma do pão de queijo”,
proveniente das alterosas, que esvaziava literalmente as cestas do quitute que
lhes dava o nome no café do hotel. Dessa turma fazia parte o Faustinho, que
ainda viria a ser diretor da ANS. Havia gente de todo o Brasil trabalhando no departamento, bem poucos de Brasília. Esta é, talvez, a característica mais
marcante da cultura brasiliense: quase todos ali são “estrangeiros”, exilados, e a
maioria, mesmo vindo a residir definitivamente em Brasília, sente-se
desterrado. Os sotaques dos quatro cantos do país se misturam nas salas e corredores da Esplanada. Aos poucos fui me tornando expert em adivinhar a origem de meus colegas e aprendendo gírias e expressões de todo o Brasil.
Estava há, talvez, dois meses por
lá quando caíram as primeiras chuvas, um toró no meio da tarde. A vontade que se tem é de
ir para o meio da rua e ficar chutando e chapinhando nas poças d’água. O clima
e o humor das pessoas melhora como que por decreto. Em cinco dias, se tanto, o
verde ressurge vigoroso nos gramados, os pássaros passam a cantar e os carros a
derrapar e a bater. A poeira fina acumulada, quando molhada, vira sabão. Até serem
lavadas pela continuidade das chuvas, as ruas de Brasília se transformam num enorme rinque de patinação para automóveis. Nas “tesourinhas”, tem sempre um ou mais
carros acidentados. As noites ficam frescas, e , ao contrário do Rio, o clima em Brasília é
ameno no verão. No jardim do hotel havia um pé de dama-da-noite que perfumava
as noites de todo o quarteirão em dezembro.
À noite, o programa dependia do
dia da semana. Nas quartas nos reuníamos no restaurante do hotel, que não
funcionava à noite, mas onde os funcionários nos emprestavam pratos, copos e talheres e ligavam a TV pra assistirmos futebol compartilhando pizza acompanhada de cerveja.
Nos demais dias, começamos, aos poucos, a explorar a vida noturna de Brasília.
(continua)
domingo, 6 de janeiro de 2013
Olha o Passarinho!
| Alma-de-gato. |
Da mesma forma, nunca me
conformei em passar uma vida inteira por uma árvore sem saber de que espécie se
trata, ou em escutar o canto de um passarinho sem saber reconhecer quem é o
autor do gorjeio refinado ou do pio repetitivo. Admiro-me quando verifico que a
maioria das pessoas não sabe bem a diferença entre um pardal e um tico-tico ou
não distingue um sabiá de um bem-te-vi. Nem sabe diferenciar uma pata de vaca
de um algodão da praia, árvores corriqueiras nas calçadas e praças da cidade.
Esta curiosidade natural se
acentuou muito quando começamos a frequentar Rio Bonito de Cima, localidade
serrana em Nova Friburgo. Lá, a variedade de pássaros é enorme. Comecei a fotografar
as aves e flores do lugar de modo descompromissado, mas logo me vi compelido a
expandir meus conhecimentos botânicos e ornitológicos. Comprei então os ótimos livros Aves do Brasil, de Dalgas Frisch e os dois volumes de Árvores Brasileiras , de Harri Lorenzi, e passei a exercitar minha atenção em relação ao mundão de
árvores e passarinhos do lugar. Apenas dentro do perímetro do sítio, que tem
apenas um alqueire, já identifiquei e fotografei mais de setenta espécies
diferentes de aves, mas existem muitas mais.
Quando acordo por lá, com as
primeiras luzes da manhã, as aves estão tagarelando no volume máximo. Já da
cama identifico os gritos da saracura, o canto dos sabiás, a gritaria das
tiribas, o trinado da cambaxirra, um duelo de pichanchões. Calço os sapatos e
saio munido de teleobjetiva, caminhando em silêncio com olhos e ouvidos atentos.
Existem duas estratégias básicas: uma é ir atrás do canto mais interessante,
outra é buscar um lugar com boa possibilidade de visitas aladas: um pé de
marianeira ou goiabeira carregadas ou um arbusto florido e esperar para ver o que
aparece. De qualquer forma, a espreita amplia os sentidos e afugenta todos os
pensamentos que não sejam focar o presente. A atenção se volta para o mínimo
ruído, para a menor folha que cai, para o mínimo movimento que ocorra em nosso
campo de visão periférico, mesmo um discreto agitar da folhagem pelo vento. Os
reflexos e instintos ancestrais voltam todos, vindos de partes do cérebro
adormecidas pela civilização. Não em busca de uma refeição ou para não vir a ser transformado em refeição por alguma fera. Apenas em função de uma visão de um pássaro ainda não
visto ou não fotografado. Depois, com sorte, traz-se o objeto da caça capturado
no disco de memória da câmara para soltá-lo no espaço virtual do computador e
da rede. Meus destinos turísticos estão passando a levar em conta novos habitats onde eu possa ampliar as possibilidades de ver e fotografar novas aves.
Estou longe de ser o único a se
maravilhar com os pássaros e querer sistematizar essa paixão. O pioneiro mais
famoso foi John James Audubon, que inspirou a norte-americana Audubon Society . No Brasil temos o site Wikiaves, onde, quem se interessar, pode ver alguns de meus registros fotográficos amadores e muitos outros de grandes fotógrafos de talento, dedicação e equipamentos de primeira
linha. O Brasil tem 1832 espécies diferentes de aves oficialmente registradas. O Wikiaves tem mais
de 12 mil colaboradores, mais de 640 mil registros fotográficos e 38 mil
registros sonoros. Ainda existem 18 aves já observadas mas não fotografadas no
Brasil. Quem se habilita?
Algumas de minhas fotos favoritas:
| Topetinho-vermelho fêmea (que não tem topetinho) em flor de marianeira. |
| Saracura-do-mato |
| Tiê-de-topete |
| Frango-d'água-azul |
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Pagode do Fim do Mundo
Não é falta de assunto, mas como essa poderia ser a última publicação deste Blog, achei oportuno republicar o "Pagode do Fim do Mundo".
Até dia 22, se Deus quiser!
Apareceu-me um anjo num sonho
Até dia 22, se Deus quiser!
Apareceu-me um anjo num sonho
Me disse que o mundo já ia acabar.
Caí da cama num susto medonho
E achei que o melhor era me preparar.
Tomei uma branquinha, beijei a vizinha,
Soltei o cachorro, comi vatapá.
Mandei ver no torresmo, cerveja e picanha.
A consulta com o doutor eu mandei desmarcar.
(Refrão)
Por quê?
Porque vai se acabar!
Porque vai se acabar!
Deixa de ser mesquinho, aproveita o restinho,
E senta pra ver o mundo se acabar.
Pensei em ligar pro patrão e avisar
Mas o tempo era pouco pra tanto, afinal.
Torrei a poupança, gastei em brinquedo,
E fiz pra molecada um segundo Natal.
Falei: não precisa seguir pra escola
Comprei bala, pipoca, doce e guaraná.
Organizei uma pelada na praça
É chutando uma bola que eu vou me esbaldar.
(Refrão)
Depois tomei banho e botei um perfume,
Chamei minha nega pra gente deitar.
Não dormi de touca, eu beijei na boca,
Namoramos como antes de a gente casar.
Quando ela dormiu, levantei de mansinho
E fui para a lage assistir o luar.
Peguei o cavaco e fiz esse pagode,
Se amanhã vai dar bode, hoje eu vou caprichar.
(Refrão)
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Prêmio UFF de Literatura 2012
Leitores do Blog,
O conto aí abaixo, "O Contador de Histórias", recebeu hoje o Prêmio UFF de Literatura 2012. Quero compartilhar minha alegria com vocês, que são meu maior incentivo para continuar escrevendo.
Obrigado pela torcida!
Acesse O Contador de Histórias
O conto aí abaixo, "O Contador de Histórias", recebeu hoje o Prêmio UFF de Literatura 2012. Quero compartilhar minha alegria com vocês, que são meu maior incentivo para continuar escrevendo.
Obrigado pela torcida!
Acesse O Contador de Histórias
domingo, 16 de dezembro de 2012
O Contador de Histórias
Este conto é finalista do Prêmio UFF de Literatura 2012. O resultado sai amanhã, 17 de dezembro.
Seriam
alguns dias de viagem ente Paragominas e Altamira. Bem no início, eu abastecendo
a carreta num posto à beira da estrada, achegou-se o cabra. Cabeça quadrada,
pescoço curto e forte, os cabelos encaracolados escapando por baixo do boné
encardido, a malinha castigada e um jeito que, descrevendo só assim, poderia
servir para qualquer tipo perigoso, assaltante ou mesmo matador, mas tinha um
quê nos olhos escuros que brilhavam um brilho de inocência quase infantil,
contradizendo as rugas precoces na testa e sobressaindo por entre as pálpebras
apertadas e as sobrancelhas grossas que quase se irmanavam acima do nariz.
Anunciou-se Leovaldo, maranhense, com sua licença, vou para a obra da usina
grande, não for incômodo, concederia a gentileza, eu ajudo, amarro a carga se
soltar, sei trocar pneu, já fui ajudante de caminhão. Nessas estradas temos
precisão de confiar e desconfiar, confiando que o Divino ouça nosso rogo para
saber a hora certa de uma coisa e de outra. Confiei: “Sobe aí, homem.” Tinha
muito chão pela frente e eu andava mesmo desassossegado de cismar sozinho tanto
tempo, o pensamento empacado em umas idéias que eu queria não pensar, mas que
me rodeavam a cabeça feito enxame de mosca incomodativa. Uma prosa bem que me
poderia puxar a atenção de dentro e virá-la para o lado de fora.
De
início, asfalto e trânsito livre, tempo bom, conversa leve e pouca, só
amenidades. De meu lado, só queria ouvir. Ele aos poucos foi soltando a
falação. Ganhara semana de licença para o enterro da mãe. Um segundo derrame
depois de ter sido derrubada na cama durante dois anos pelo primeiro. Nesses
dois anos só lhe restara na boca uma palavra, que ela repetia e a ela se
agarrava como única que lhe restara para se dirigir ao mundo: “tatu, tatu, tatu”. Era tatu para toda serventia: obrigado, até
logo, fome, banheiro, saudade, dor. Só os olhos davam sentidos a cada tatu
daqueles. Seis irmãos. O pai deixara a casa, volto pra buscar, as cartas
rareadas e o silêncio. O mais velho foi ainda a São Paulo, cidade muito grande,
engole um homem sem deixar sinal, voltou sem notícia. Não sabe se tem pai
ainda. Falou das cabras, da vez que apanhou de vara porque deixou uma sumir,
era ainda moleque. Só acharam a carcaça três dias depois, os urubus terminando
a faina começada por maracajá ou suçuarana. A roça de feijão e milho tocada
pelos irmãos mais ele, à mercê da dádiva de São José conquistada a custa de muita
reza e ladainha no mês de março.
De
vez em quando ele cansava de falar, me passava a bola, e tu, homem? Eu falava
de estrada, de carga, de caminhão e de patrão, de causos de estrada, deixando
uma cerca bem fincada no rumo da prosa, daí não passe.
Já
na chegada em Marabá, parada para banho e jantar, cerveja dividida, mais histórias,
eu lhe dando linha na pipa. E ela subia alto no céu das lembranças, onde
algumas se desmancham, fiapo de nuvem, e outras são tempestade, ou sol e lua,
sempre lá. Coisas na história de cada um que passam a fazer parte do que se é,
vão moldando esse barro mole, imprimindo cicatrizes, rugas de choro, de dor e
de perplexidade, mas também algumas de riso, de saudades de venturas antigas, o
que também é uma qualidade de dor.
Lá
pelo fim do segundo dia, a carreta sacolejando já no barro, a chuva caía dando
medo que a estação seca se findava, arriscado amolecer o chão e nos prender na
estrada que nem rato engolido no ventre daquela cobra vermelha riscada na mata.
Conseguimos chegar à margem do Tocantins sem precisão de trator de esteira.
Estacionei na fila da balsa e desliguei o motor. Toquei a imagem de Nossa
Senhora colada em cima do painel, agradecido pela bênção. Só mais dois dias,
Mainha, não me falte ainda. Saltamos, ficamos os dois ali, olhando o mundão de
água, apertando os olhos para enxergar o outro lado e a balsa ainda longe.
Acendi um cigarro virando de costas para o vento e estendi um cigarro, depois o
lume para Leovaldo. Ficamos ali, olhando o nada, o pensamento longe, soprando a
fumaça para cima de quando em
quando. Meu parceiro pareceu desassossegado, coçava muito a
barba rala. Reparei uns fios brancos junto às têmporas.
“A
gente cresce achando que na vida as coisas são assim, o certo ali, o errado lá,
o céu em cima e a terra embaixo, onde é água e onde é chão. O que é de Deus e o
que é do cão. Aí a vida vem e embaralha tudo.”
Puxei
o último trago e atirei longe a guimba. O dito prenunciava, na certeza,
confidência de maior importância. Me aprumei em respeito, procurei esvaziamento
de julgar e virei os olhos para Leovaldo.
“Você
já foi casado?” Ele forçava a cerca. Concluiu com acerto sobre meu estado de
homem sem mulher pela falta de aliança, pelo silêncio, pelo celular sempre
desligado. “Digo assim, mesmo sem casar, já teve mulher, já teve casa montada pra
modo de viver com ela, ter filho com ela, criar junto?”
Eu
não disse nada, mas era como se tivesse dito. “Pois é, eu também já tive, ou
tenho, não sei mais. Em
Igarapé Grande , terra de meus pais. A gente se gostava desde
antes de saber o nome do amor. Desde criança. Nunca pensei em outra, não
carecia. E foi para finalmente poder fazer para ela, com ela, um lar, família,
essas coisas, que estudei, fiz supletivo de noite, terminei o segundo grau. Fiz
curso técnico. Comecei na construção civil, me cadastrei para uma vaga na obra da
usina grande. Depois de uns meses me chamaram. Me deu uma alegria misturada com
saudade, mas com fé em ganhar dinheiro, montar casa, me fazer um cabra de
respeito, e não mais um menino aos olhos dela. Quando voltei para enterrar
minha mãe, vinha com uma mistura de sentimento, o luto e uma alegria quase
desrespeitosa, que não combinava com a ocasião. E como foi bom estarmos juntos
de novo, o futuro ali mais perto, quase que dava pra tocar com a mão. Ela
estava carinhosa meio que demais, tive que ralhar pra ela parar com a beijação.
Até no velório ela quis me puxar pros fundos da capela, as comadres reparando.
Dia seguinte me vem o compadre de meu irmão e me diz umas coisas. Que era para
eu abrir o olho, que ficasse por lá ou
levasse Maria da Glória comigo. Que é isso, homem? Me explica, que isso é coisa
séria, que não se pode dizer assim como quem conta uma coisa acontecida nos
antigamente. Exigi nome, dia, detalhe. Agarrei pelo colarinho, quase bati no
cabra enviado do Demo. Tinha um quase sorriso quando me falou, mal conseguia
esconder o gosto que tem um infeliz de ver se quebrar a felicidade alheia.
Saí
desarvorado, sem rumo, até que me vi na casa da minha finada mãezinha. Por obra
do acaso ou de Deus, meu irmão chegou no momento em que eu carregava a garrucha
que fora de meu pai, que encontrei ainda enrolada num pano em cima do armário
do quarto. Eu tinha um gosto de sangue na boca, meus olhos só viam desgraça no
porvir. Não me pergunte quem eu ia matar primeiro, eu só sei que a morte tinha
mando no meu coração. Meu irmão quis saber o que era aquilo, gritava para me
chamar ao juízo, mas eu não ouvia. Ele então se atracou comigo, ‘não quero ver
irmão meu na cadeia’. Caímos os dois e a garrucha disparou. Só então me voltou
a presença e eu parei, meu irmão por cima de mim. A bala furou a camisa dele,
riscou-lhe a pele e foi bater no meio do quadro do Coração de Maria que minha
mãezinha tinha no altar com a vela sempre acesa.”
Um
suor grosso brotava nas têmporas de Leovaldo, o peito arquejando um pouco. Os
olhos perderam-se por um instante, abertos para fora, mas sem visão no
presente. Fiquei ali, mudo, misturando na cabeça a cena contada com cenas de
minha própria lembrança, colocando rostos meus nas personagens dele. Pediu-me outro
cigarro. Deu umas três baforadas, ficou um tempo para se recompor, e continuou.
“Aquilo
me freou os ímpetos, me alargou as vistas, como se me tirassem antolhos. Meu
irmão então me tirou, sem resistência, a garrucha da mão. Eu fiquei ali pelo
chão, tremendo e chorando de soluço que nem criança. Só bem depois me pus de
gatinhas e fui até o altar, sem ousar erguer a vista pro coração furado da
Virgem. Pedi perdão e agradeci pra ela e pra mãezinha, que foram as duas que me
valeram e me livraram de fazer desgraça. Fiquei uns dias atordoado e sem rumo.
Evitei de estar com ela, depois saí escondido da cidade e fui para o rancho de
um primo pensar uns dias. Aí, peguei
minhas tralhas, pus na mala e vim para a estrada, no rumo da usina. Não consigo
parar de pensar. Meus irmãos e primos se dividiram. Uns dizem pra eu esquecer
da Glorinha, que tem muita mulher no mundo. Outros me garantem que foi fraqueza
rápida que ela teve, uns goles a mais de cerveja depois da festa do Santo, que
era um cabra de passagem, foram só uns beijos, e que ela não pára de chorar
desde que eu sumi. Não sei ainda meu rumo. Um homem às vezes descobre que tem
que escolher entre a honra e a felicidade, e que não pode ter as duas. Ainda
não decidi.
Ficamos
ali, olhando o rio e a balsa que surgia agora no horizonte em meio à água do
rio e a água que voltava a cair do céu. Foi ficando tudo misturado no mesmo
cinza: a água, o céu, a outra margem. Tentei engolir o nó que me apertava a
garganta, mas ele ficou ali, teimoso. O desassossego me brotava de novo no
peito, feito tiririca brava que renasce sempre, por mais que a gente arranque. Se
minha mãezinha não tivesse morrido pra me trazer à luz, se eu tivesse tido um
irmão que se atracasse comigo, se a Virgem me valesse na hora que o Tisnado me
fechou o coração. Mas eu só tivera instrução de zelar pela honra.
conto transamazônica prêmio UFF de literatura 2012
conto transamazônica prêmio UFF de literatura 2012
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