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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Jardim Botânico

Hoje pela manhã no JB-RJ. Tamanho A4
Esta foi feita em tamanho cartão postal

Manhã de sábado no Jardim Botânico. Muitas grávidas de barriga de fora sendo fotografadas com seus cúmplices. Debutantes de pernas finas equilibrando-se em  altíssimas sandálias plataforma contracenavam com saracuras de pernas igualmente. Tucanos fazendo algazarra, tiribas e maritacas fazendo mais algazarra. E crianças. Gringos de todas as latitudes, turistas brasileiros, turistas niteroienses, tudo e todos em caótica harmonia. Os desafios de sempre das aquarelas no JB: simplificar a profusão de planos, de verdes, de luzes. 


A de baixo saiu primeiro, em meia hora. A de cima levou pouco mais de uma hora. Usei aquarela em pastilha e um único pincel médio, priorizando a agilidade guerrilheira na pintura au plain air. As sombras da de cima talvez estejam exageradas no azul, mas o resultado me pareceu mais interessante, embora menos natural. Pintar, afinal, não é imitar a realidade. Torço o nariz quando um observador diz; "Está ficando igualzinho!" Pintura, assim como qualquer arte visual (até mesmo a fotografia) há de ser a interpretação da realidade pelo artista. Então, não sei se era assim, mas foi assim que eu senti a paisagem. E o dia está ganho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crônicas Brasilienses IV: A Corrida

"Uhuuu, vem cá, meu bem..."

A morte é inescapável. Viver não só é perigoso, como fatal, já disseram. Tudo bem, a senhora magra que veste preto vai acabar nos conquistando um dia. Ela não cansa de tentar nos envolver o quanto antes em seus braços esquálidos e nos beijar a boca com seu hálito de terra. De minha parte, vou escapulindo enquanto posso. Já a vi de perto umas três ou quatro vezes, ela valendo-se de enxame de abelha africana, tiroteio na Praça XV e ressaca em Itacoatiara para tentar me conquistar precocemente. Como um gato, vou gastando minhas sete vidas e desconversando a dona.

Algumas pessoas, porém, parecem dizer “vem que eu sou facinho”, e flertam abertamente com a morte. Como bem observou Leandro Hassum, basta verificar que algo tem tudo para dar errado que surge logo um corajoso disposto a contrariar as leis da física. Lembrei-me agora do infeliz padre que se ergueu pelos ares no litoral do Paraná pendurado em mil bexigas de borracha, daquelas de festa infantil, planejando aterrissar vinte horas depois em Mato Grosso do Sul. Esqueceu-se de combinar a rota com o vento, que cismou de soprá-lo em direção contrária, mar adentro ou afora. O padre (ou o que restou dele) só foi encontrado meses depois por um rebocador no litoral de Maricá. 

Por falta de tempo para me dedicar à tarefa de pesquisa, deixo aqui uma ideia que pode render uma boa grana a alguém metódico: compilar exemplos como este e publicá-los em livro, “Duzentas Maneiras Idiotas de Morrer”, já deixo até o título pronto.

Também eu, que tenho a firme intenção de morrer de velho, já quase morri de maneira idiota. 

Saindo de um compromisso num hospital na cidade satélite de Taguatinga com destino ao Ministério da Saúde em Brasília, peguei o primeiro táxi que se apresentou, um Kadett branco, lembro-me bem. Hora do almoço, dia claro, pegamos a autoestrada que liga Taguatinga à capital federal, uns vinte quilômetros a serem percorridos em pista dupla, a oitenta, cem por hora. Do banco de trás, como  faço habitualmente, puxei assunto:

“Bacana o som do seu carro”.

Engatamos falação sobre autofalantes, rock’n roll, entradas USB e coisas afins. Num suspiro da conversa, o motorista, rapaz de uns trinta anos, atravessou a pergunta:

“O Senhor é médico?” Apesar de ter-me visto saindo de um hospital, eu vestia terno e gravata; fiquei imaginando como ele teria adivinhado. Confirmei seu palpite.

“O Senhor me desculpe, mas eu venho tendo uns desmaios de uns tempos para cá, o Senhor tem ideia do que possa ser?”

Fez-se uma pausa. O velocímetro marcava cem por hora. Houvesse outro passageiro no táxi  eu teria lhe dirigido um olhar arregalado. Conduzi uma anamnese rápida e sugeri-lhe procurar um neurologista com urgência, na sua profissão pode ser perigoso. Depois procurei me distrair do sobressalto com a paisagem sem graça que desfilava rápida pela janela.

Chegando ao Plano Piloto, ele reduziu a velocidade enquanto descíamos pela passagem subterrânea da rodoviária. Um sinal fechado com vários carros parados à frente era o último obstáculo entre nós e a Esplanada dos Ministérios. Já tínhamos diminuído bastante quando senti o motorista aliviar a pressão no pedal do freio. Ainda imaginei que ele pretendesse trocar para a pista à nossa direita, que tinha menos carros, mas não. A traseira do carro adiante foi crescendo, crescendo, até que a atingimos violentamente. Pelo retrovisor interno, olhei nos olhos arregalados do motorista.

“O que aconteceu, rapaz?”

“Não sei...”

O motorista do carro da frente desceu, examinou a traseira destruída, as lanternas quebradas e caminhou em nossa direção com aquela cara misto de raiva e incredulidade. Chegou bem a tempo de presenciar o início dos espasmos e da salivação. Bem à minha frente, o corpo do coitado esticava-se em arrancos de cachorro atropelado, diria Nelson Rodrigues, levantando-se como uma taboa rígida do assento. Ao dar-se conta de que não teria como ressarcir-se do prejuízo, pelo menos naquelas circunstâncias, o outro motorista deu um suspiro e foi-se embora, largando pelo asfalto pedaços do que fora seu belo veículo. Desci para socorrer o epilético com a ajuda do motorista de um Ômega placa branca que havia parado ao nosso lado e assistira tudo. Puxamos o meu motorista já aquietado para o banco do carona. Depois sentei-me ao volante e tentei ligar o motor, que respondeu. Depois de agradecer a ajuda, dirigi até a emergência do Hospital de Base de Brasília, onde meu desacordado condutor, agora passageiro, foi colocado em uma maca e levado para a sala de atendimento. Estacionei o Kadett, puxei do rádio da cooperativa e comuniquei o acontecido à Central, dando o nome que constava no crachá afixado no pára-sol e pedindo que avisassem a família. Depois fui ao posto policial do hospital, onde fiz registro do ocorrido e pedi  que cuidassem das chaves e do veículo. Tomadas essas providências, retornei à sala de emergência. Reencontrei-o bem na hora em que recobrava os sentidos.

“Tudo bem? Sabe onde você está? Lembra-se do que aconteceu? Lembra-se de mim?”

Olhar apalermado, ele não se lembrava de nada.

“Fui eu quem lhe trouxe de táxi até aqui. Vim cobrar a corrida.”

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crônicas Brasílienses III: Eles Querem é Poder


Falar de Brasília é falar do Poder, que, por se tratar do deus de muitos, vou grafar aqui com maiúscula. Taí uma coisa que nunca fez minha cabeça. Não é difícil para mim entender a busca pelo Poder como meio de obter vantagens financeiras ou mesmo sexuais. Há quem diga, inclusive, que o homem só corre atrás de vantagens financeiras pensando nas vantagens sexuais que elas podem render. Por outro lado, uma vez que os homens não sentem maior atração sexual por mulheres poderosas, muito pelo contrário (afinal, quem teria o falo?), desconheço as razões pelas quais algumas delas lutam pelo Poder. Talvez para despertar inveja em outras mulheres, coisa que, desconfio, dá a muitas mais prazer do que atrair o sexo oposto.

Lembro-me de ter lido na adolescência, num gibi do Super-Homem, a história de um ladrão que declarava  ser o mais bem sucedido e mais inteligente de todos os coleguinhas de profissão. Ninguém acreditava nele. Suas geniais habilidades criminosas não eram do conhecimento de ninguém: seus golpes eram tão perfeitos que não eram nem percebidos e, quando eram, ninguém era capaz de descobrir o culpado.  Não era perseguido pela polícia, não tinha mandado de prisão, seu nome nunca aparecia nas páginas dos jornais. Então ele tirava vantagem do anonimato e gastava feliz os seus “ganhos”, pensou você? Claro que não! Passou deliberadamente a deixar pistas para se tornar conhecido, temido e odiado, mas, finalmente, comentado.

Quando trabalhei em Brasília, à medida que o Departamento de Saúde Suplementar começou a regulamentar os planos de saúde, afetando a vida de mais de 40 milhões de brasileiros, os telejornais, as rádios e a imprensa escrita começaram a assediar o então ministro da saúde José Serra, o diretor do departamento e, na ausência deles, qualquer membro comissionado do órgão. A agenda de compromissos públicos, palestras em congressos, declarações em rádios e até em programas de TV era cada vez maior, e alguns de nós acabamos sendo designados para representar nossos superiores em algumas oportunidades. Dar declarações, esclarecimentos para a imprensa e aparecer na televisão passou a ser corriqueiro. Os famosos quinze minutos de fama.

Donos e diretores dos planos de saúde passaram a circular diariamente por nosso único corredor e por nossas poucas salas no ministério. Eles e seus assessores buscavam, percebi aos poucos, vínculos de camaradagem e amizade com qualquer um que sentasse atrás de uma mesa naquele andar. Ofereciam inicialmente pequenos agrados: uma bandeirinha de mesa do time de coração do incauto, um pacote de castanhas de caju, uma garrafa de licor de pequi, qualquer lembrancinha típica de seu estado. Coisinhas miúdas, aparentemente inocentes sinais de amizade. Mas sabiam sentir quando alguém mordia a isca, geralmente depois de picado pela mosca azul. Não exploravam necessariamente a má fé, mas a simples e humana vaidade de se sentir bajulado e poderoso, mesmo que em função de um poderzinho de bosta. Numa troca não explícita, desejavam informações e facilidades. Um funcionário comissionado, pessoa honesta e bem intencionada, numa viagem oficial representando o diretor para uma palestra em outro estado, aceitou que um plano de saúde gentilmente custeasse a passagem e a estadia de sua esposa. Um misto de vaidade e ingenuidade que lhe custou o cargo.

Outras lições que aprendi por lá foram as de fidelidade e hierarquia. Eu fora incumbido de ser o interlocutor dos consumidores de planos de saúde e receptor de suas queixas, que compilava e encaminhava para o nosso diretor. Passei a tentar convencê-lo de que alguns argumentos dos consumidores contra as novas regras eram pertinentes. Eventualmente, algumas dessas queixas foram entendidas como justas e as regras foram alteradas. Nesse ínterim, porém, por mais de uma vez defendi para o público externo a posição oficial do departamento, da qual discordava internamente. Mas só internamente.

A busca do Poder pelo Poder realmente é incompreensível para mim. Há até os que perdem dinheiro em troca de tornar-se poderoso, seja como presidente, diretor, síndico ou suplente de conselho fiscal de clube de biriba. Um amigo fez questão de “candidatar-se”, mediante pagamento de determinada quantia, a membro de uma obscura academia brasileira de medicina ou algo que o valha. Uma instituição de semi-múmias de fardão, sem nenhum peso científico ou político. Acabou “eleito”. “Comprei um título de conde”, confidenciou-me. 

Gostar de ser bajulado em função do cargo ou título é como acreditar em juras de paixão eterna saídas da boca de um amor de aluguel. É iludir-se de que os rapapés e elogios são dirigidos à pessoa e não ao cargo. Tire-se o cargo, deixe-se a pessoa, sobra o quê? Como dizia uma velha tia: “O homem subiu, todo mundo viu; o homem caiu, pqp”.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Ranchinho

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Crônicas Brasilienses II: Uma Força Estranha no Ar

O Vale do Amanhecer fica próximo de Brasília.

Não sei se por conta da profecia do padroeiro Dom Bosco, que ainda no século 19 sonhou com uma civilização de bem e abundância que brotaria dali a 120 anos onde hoje está Brasília; não sei se é consequência dos cristais, que são abundantes no Planalto Central. O fato é que Brasília parece atrair, se não fatos inexplicáveis, pelo menos pessoas em busca de explicações para o inexplicável.

Minha passagem profissional por Brasília se deu em um momento de mudanças em minha vida. Recém-separado, morava sozinho em Niterói, ou melhor, com a única companhia de meu pastor alemão, Argos. A casa ficava de segunda a quinta aos cuidados de minha empregada Andreci, supervisão de minha mãe e vigilância de Argos.

Numa sexta feira, no Rio, eu folheava aleatoriamente alguns volumes na Livraria da Travessa, a original do centro, em busca de novas leituras. Acabei lendo um trecho de um livro do Amyr Klink  recém lançado sobre sua viagem solitária de circunavegação do continente Antártico. O trecho que li relatava o incêndio em seu veleiro causado por um aquecedor defeituoso, por sorte acontecido quando ele estava na base brasileira na Antártica, o barco ancorado em frente. Com a imediata atuação da guarnição da base, o incêndio foi rapidamente controlado e os danos pequenos. Se as coisas acontecessem durante um cochilo em alto mar, talvez o barco sofresse danos bem mais sérios e o Amyr não pudesse ter contado a história.

Comprei o livro e, retornando a Brasília, falei dele para meus colegas de Ministério da Saúde. Iracema, uma simpática nordestina de meia idade, funcionária de carreira do Ministério, que chamava carinhosamente os colegas de “meu bichinho”, ouviu-me com atenção e disse que soube em primeira mão da história, pois seu marido, capitão de mar e guerra, era o comandante da base na ocasião. E que, por acaso, ele acabara de retornar da Antártica depois de uma missão de seis meses. “Nossa, que coincidência”, eu falei. Falei também que essas coincidências eram assunto que me interessava muito na época. Talvez pela minha situação de então, eu estivesse mais atento a eventuais sinais, a alguma sincronicidade que me indicasse que rumo minha vida tomaria a partir daquela desarrumação momentânea. Pois Iracema me disse:

“Meu bichinho, meu marido sempre leva muitos livros para ler na Antártica, e, entre os que ele trouxe de volta, tem um que é justamente sobre essa tal de sincronicidade.”

Ora que coisa. Vendo meu interesse, ela ficou de me trazer o livro emprestado.

Mal eu havia chegado ao Ministério na manhã seguinte, recebi uma ligação de Niterói. Minha mãe me dava conta de que, por causa de uma falha na bóia da caixa d’água, a empregada havia encontrado a casa inundada naquela manhã. Por sorte, muito por conta da separação recente, minha “decoração” na época era espartana, para dizer o mínimo, e os prejuízos foram insignificantes. Dadas as orientações e refeito do susto, fiquei esperando a chegada de Iracema e do livro. Mas Iracema não apareceu naquele dia. Só depois da hora do almoço fomos comunicados do motivo: um cano havia rompido em seu apartamento, molhando os tapetes e inundando tudo. 

Sincronicidades.

                                                              xxxxxxxx

Dr. Ilídio passou a integrar nossa equipe no Departamento de Saúde Suplementar do Ministério vindo de uma grande operadora de planos de saúde, de onde acabara de sair por força de aposentadoria. Beirando os setenta, era inteligente, de pensamento ágil e de extrema simpatia. Com sua figura elegante, sempre levemente bronzeada e com seu bigode grisalho muito bem aparado, conquistou a amizade de todos em pouco tempo. Era muito galante com o sexo oposto e não perdia oportunidade para dirigir-se a toda mulher mais ou menos interessante pelo predicado de “poderosa, energética e vitaminada”, galanteio que ele despejava com tal habilidade que sempre arrancava sorrisos de moças e balzaquianas. O toque de seu celular era um trecho de uma peça de Bach, e o anúncio de sua caixa postal começava com “Que bom que você ligou; que pena, agora não posso atender...”. Ficamos amigos. Soube do próprio que mantinha um consultório muito concorrido, onde políticos influentes e outras personalidades brasilienses buscavam tratamentos de rejuvenescimento. Não sei se a expressão anti-aging já existia na época, mas ele certamente foi um precursor.

No aniversário de seus 70 anos, Dr. Ilídio convidou diversos colegas do Ministério para uma festa ambientada na varanda e nos jardins bem cuidados de sua elegante casa no Lago Sul. A certa altura, convidou a mim e mais um ou dois colegas mais chegados para conhecer o interior da casa. Guiou-nos escada acima até seu quarto, um ambiente amplo onde uma estante abrigava diversos livros religiosos e exotéricos. Ali, ele expunha-nos sua intimidade. Levou-nos a uma ampla varanda. Sobre uma estrutura de madeira, repousava uma grande caixa. Pela abertura voltada para diante, podia-se ver que o interior era forrado com uma folha de metal.

“Aqui, nesta, caixa, eu pratico meditação todas as manhãs”.

“Mas por que na caixa?”, perguntamos.

“As camadas de metal potencializam a energia e auxiliam no alcance de níveis mais elevados de concentração. Agora à noite, se vocês olharem com atenção, poderão ver a energia na forma de pequenas fagulhas azuis ou violeta.” E nos convidou para olhar o interior escuro da caixa. Tentei me despir de todo o ceticismo e olhei demoradamente dentro da caixa.

“Viu?”

“Acho que vi alguma coisa, sim,” menti.

Um dia, Dr. Ilídio me pegou pelo braço e, reservadamente, disse que tinha uma revelação crucial a fazer: em duas semanas, uma nave extraterrestre estaria aterrissando em algum lugar da Chapada dos Veadeiros para resgatar uns poucos terráqueos escolhidos, pois uma hecatombe era iminente. Eu e meu cão Argos estávamos formalmente convidados a integrar o grupo dos escolhidos para dar seguimento à saga da humanidade em algum outro ponto da galáxia. Li em seus olhos que fazia o convite com a maior seriedade. Fiquei legitimamente honrado com tamanha consideração. Porém, declinei do convite, não lembro que desculpa dei. Ele, preocupado, insistiu nos dias seguintes para que mudasse de ideia.

Ao retornar a Brasília depois do fim de semana que a profecia anunciara como sendo o derradeiro, senti-me um pouco constrangido em encarar Dr. Ilídio.

“E então, o que (não) houve?” perguntei meio sem jeito. Acho que ele se referiu a um ligeiro engano nos cálculos, e não se falou mais disso.

Depois que deixei aquele cargo no Ministério, tive alguns poucos contatos telefônicos com Dr. Ilídio. Esta semana um amigo comum, que manteve contato mais estreito com ele desde então, comunicou-me de sua partida para algum plano mais elevado, onde ele já deve estar conquistando a simpatia de todos.

Boa viagem, Dr. Ilídio.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tornado!

(aquarela, acquarella, watercolor, hurricane)

domingo, 13 de janeiro de 2013

Um Estranho no Planalto: Crônicas Brasilienses


Meus amigos mais próximos sabem: eu já tive minha cota de convivência e proximidade com o centro de decisões do Brasil. Entre 1998 e 2000 trabalhei no Departamento de Saúde Suplementar do Ministério da Saúde, que logo seria transformado na ANS e transferido para o Rio.

Meu primeiro casamento tinha acabado de se desfazer quando recebi o convite para integrar a equipe que teria a missão de regulamentar a recém-promulgada lei dos planos de saúde. Fiquei em dúvida, mas algumas pessoas me disseram o equivalente a “sua vida já está toda revirada mesmo, uma revirada a mais não fará diferença”. Tinha sua lógica. Aceitei.

Primeira tarefa: adequar o guarda roupa. Era (e voltei a ser) daqueles que só vestem terno e gravata em casamento. Tive que treinar a dar nó em gravata. Passei a ter dois nós (pasmem!) no meu repertório: o de duas voltas, para gravatas de tecido fino, e o de uma volta apenas, para tecidos mais encorpados. Tive que comprar alguns ternos e camisas, além de gravatas e aprender a combiná-los, coisa que fui conseguindo aos poucos observando homens que me pareceram elegantes e reportagens de moda masculina nas revistas. Acabei concluindo que gravatas listradas não têm erro: são sempre sóbrias e corretas. Cheguei a ter uma atração inusitada por elas. Conferia sempre as vitrines e comprava sempre que descobria uma que me chamasse a atenção. Fazia questão de fazer um nó gordo e sem pregas, e não descuidava no comprimento exato, apenas tocando o cinto da calça.

Embarcava, ainda sonolento, no avião das sete da manhã toda segunda feira no Galeão, onde, invariavelmente embarcava também o ministro da Fazenda da vez: primeiro o Gustavo Franco e mais tarde, quando FHC abandonou a âncora cambial em 1999, o Armínio Fraga. Antes das nove eu já estava a postos no Ministério. Voltava de Brasília no voo das seis da tarde da quinta, na companhia da bancada federal do Rio: Miro Teixeira (um gentleman com voz de barítono), Jandira Feghali, Fernando Gabeira, Jair Bolsonaro (que tinha o passatempo de mau gosto de falar mal da ex-mulher para quem quisesse ou não quisesse ouvir), Francisco Dornelles e o então ainda gordo Roberto Jefferson, entre outros literalmente menos votados. Este voo ainda hoje é tradicionalmente conhecido como “esperança de suplente”. E eu lá.

Aluguei uma quitinete na Asa Norte com a verba da ajuda de custo. A princípio, uma sensação de solidão angustiante e opressiva, agravada pela secura de final de inverno no Planalto, que deixa os gramados queimados e o ar difícil de respirar. Mas, aos poucos fui travando amizade com os muitos colegas em cargos comissionados no mesmo departamento, vivendo situação de igual solidão. Acabamos por nos mudarmos todos para um mesmo hotel antiguinho no Setor Hoteleiro Norte e passamos a compartilhar nossas solidões. Dali, saíamos para caminhadas matinais no Parque da Cidade, tomávamos café  e depois rachávamos o taxi até o Ministério. Na época, eram tolerados táxis piratas na capital, que cobravam menos pela corrida. Logo descobrimos que não valia a pena a economia. Os carros eram velhos e mal cuidados. Uma vez, o motorista cheirava tão mal que fomos todos como cachorros, com a cabeça pra fora da janela e o nariz ao vento, menos o colega que estava no meio no banco de trás. Coitado.

Havia a “turma do pão de queijo”, proveniente das alterosas, que esvaziava literalmente as cestas do quitute que lhes dava o nome no café do hotel. Dessa turma fazia parte o Faustinho, que ainda viria a ser diretor da ANS. Havia gente de todo o Brasil trabalhando no departamento, bem poucos de Brasília. Esta é, talvez, a característica mais marcante da cultura brasiliense: quase todos ali são “estrangeiros”, exilados, e a maioria, mesmo vindo a residir definitivamente em Brasília, sente-se desterrado. Os sotaques dos quatro cantos do país se misturam nas salas e corredores da Esplanada. Aos poucos fui me tornando expert em adivinhar a origem de meus colegas e aprendendo gírias e expressões de todo o Brasil.

Estava há, talvez, dois meses por lá quando caíram as primeiras chuvas, um toró no meio da tarde. A vontade que se tem é de ir para o meio da rua e ficar chutando e chapinhando nas poças d’água. O clima e o humor das pessoas melhora como que por decreto. Em cinco dias, se tanto, o verde ressurge vigoroso nos gramados, os pássaros passam a cantar e os carros a derrapar e a bater. A poeira fina acumulada, quando molhada, vira sabão. Até serem lavadas pela continuidade das chuvas, as ruas de Brasília se transformam num enorme rinque de patinação para automóveis. Nas “tesourinhas”, tem sempre um ou mais carros acidentados. As noites ficam frescas, e , ao contrário do Rio, o clima em Brasília é ameno no verão. No jardim do hotel havia um pé de dama-da-noite que perfumava as noites de todo o quarteirão em dezembro.

À noite, o programa dependia do dia da semana. Nas quartas nos reuníamos no restaurante do hotel, que não funcionava à noite, mas onde os funcionários nos emprestavam pratos, copos e talheres e ligavam a TV pra assistirmos futebol compartilhando pizza acompanhada de cerveja. Nos demais dias, começamos, aos poucos, a explorar a vida noturna de Brasília.
(continua)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Olha o Passarinho!


Alma-de-gato.
Não sei quanto a vocês. Trabalhei com uma pessoa que detestava quando o vizinho, o jornaleiro ou o dono da padaria da esquina tentava se tornar um pouco mais íntimo, perguntando-lhe o nome ou puxando conversa. “Odeio intimidades com estranhos”, reclamava. De minha parte, acho ótimo saber o nome do jornaleiro, do ascensorista do consultório, falar sobre nosso Fluminense com o João da loja de ferragens ou sobre jipes e motos com o Fernando da padaria. Em São Francisco, o bairro onde moramos, ainda se preserva o hábito de dar bons dias àquelas pessoas com quem cruzamos na rua a caminho da compra do pão fresco da manhã ou no passeio com o cachorro. Conheço até grande parte dos cães do bairro: o sharpei mal humorado, a bulldog francesa barulhenta, a pitbull histérica, a boxer tímida, o golden retriever boa praça, Rex, o vira-lata rei do pedaço e muitos outros. Conhecer e ser conhecido me dá uma sensação reconfortante de ser alguém, e não mais um rosto anônimo. Isso é muito facilitado pelo fato de São Francisco ser (ainda) um bairro de muitas casas e poucos prédios, portanto com baixa densidade de habitantes e, pelo menos em suas ruas internas, pouco movimento nas ruas.

Da mesma forma, nunca me conformei em passar uma vida inteira por uma árvore sem saber de que espécie se trata, ou em escutar o canto de um passarinho sem saber reconhecer quem é o autor do gorjeio refinado ou do pio repetitivo. Admiro-me quando verifico que a maioria das pessoas não sabe bem a diferença entre um pardal e um tico-tico ou não distingue um sabiá de um bem-te-vi. Nem sabe diferenciar uma pata de vaca de um algodão da praia, árvores corriqueiras nas calçadas e praças da cidade.

Esta curiosidade natural se acentuou muito quando começamos a frequentar Rio Bonito de Cima, localidade serrana em Nova Friburgo. Lá, a variedade de pássaros é enorme. Comecei a fotografar as aves e flores do lugar de modo descompromissado, mas logo me vi compelido a expandir meus conhecimentos botânicos e ornitológicos. Comprei então os  ótimos livros Aves do Brasil, de Dalgas Frisch e os dois volumes de Árvores Brasileiras , de Harri Lorenzi, e passei a exercitar minha atenção em relação ao mundão de árvores e passarinhos do lugar. Apenas dentro do perímetro do sítio, que tem apenas um alqueire, já identifiquei e fotografei mais de setenta espécies diferentes de aves, mas existem muitas mais.

Quando acordo por lá, com as primeiras luzes da manhã, as aves estão tagarelando no volume máximo. Já da cama identifico os gritos da saracura, o canto dos sabiás, a gritaria das tiribas, o trinado da cambaxirra, um duelo de pichanchões. Calço os sapatos e saio munido de teleobjetiva, caminhando em silêncio com olhos e ouvidos atentos. Existem duas estratégias básicas: uma é ir atrás do canto mais interessante, outra é buscar um lugar com boa possibilidade de visitas aladas: um pé de marianeira ou goiabeira carregadas ou um arbusto florido e esperar para ver o que aparece. De qualquer forma, a espreita amplia os sentidos e afugenta todos os pensamentos que não sejam focar o presente. A atenção se volta para o mínimo ruído, para a menor folha que cai, para o mínimo movimento que ocorra em nosso campo de visão periférico, mesmo um discreto agitar da folhagem pelo vento. Os reflexos e instintos ancestrais voltam todos, vindos de partes do cérebro adormecidas pela civilização. Não em busca de uma refeição ou para não vir a ser transformado em refeição por alguma fera. Apenas em função de uma visão de um pássaro ainda não visto ou não fotografado. Depois, com sorte, traz-se o objeto da caça capturado no disco de memória da câmara para soltá-lo no espaço virtual do computador e da rede. Meus destinos turísticos estão passando a levar em conta novos habitats onde eu possa ampliar as possibilidades de ver e fotografar novas aves.

Estou longe de ser o único a se maravilhar com os pássaros e querer sistematizar essa paixão. O pioneiro mais famoso foi  John James Audubon, que inspirou a norte-americana Audubon Society . No Brasil temos o site Wikiaves, onde, quem se interessar, pode ver alguns de meus registros fotográficos amadores e muitos outros de grandes fotógrafos de talento, dedicação e equipamentos de primeira linha. O Brasil tem 1832 espécies diferentes de aves oficialmente registradas. O Wikiaves tem mais de 12 mil colaboradores, mais de 640 mil registros fotográficos e 38 mil registros sonoros. Ainda existem 18 aves já observadas mas não fotografadas no Brasil. Quem se habilita?

Algumas de minhas fotos favoritas:
Topetinho-vermelho fêmea (que não tem topetinho) em flor de marianeira.

Saracura-do-mato

Tiê-de-topete

Frango-d'água-azul

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pagode do Fim do Mundo

Não é falta de assunto, mas como essa poderia ser a última publicação deste Blog, achei oportuno republicar o "Pagode do Fim do Mundo".

Até dia 22, se Deus quiser!









Apareceu-me um anjo num sonho


Me disse que o mundo já ia acabar.

Caí da cama num susto medonho

E achei que o melhor era me preparar.


Tomei uma branquinha, beijei a vizinha,

Soltei o cachorro, comi vatapá.

Mandei ver no torresmo, cerveja e picanha.

A consulta com o doutor eu mandei desmarcar.


(Refrão)

Por quê?

Porque vai se acabar!

Porque vai se acabar!

Deixa de ser mesquinho, aproveita o restinho,

E senta pra ver o mundo se acabar.


Pensei em ligar pro patrão e avisar

Mas o tempo era pouco pra tanto, afinal.

Torrei a poupança, gastei em brinquedo,

E fiz pra molecada um segundo Natal.

Falei: não precisa seguir pra escola

Comprei bala, pipoca, doce e guaraná.

Organizei uma pelada na praça

É chutando uma bola que eu vou me esbaldar.


(Refrão)


Depois tomei banho e botei um perfume,

Chamei minha nega pra gente deitar.

Não dormi de touca, eu beijei na boca,

Namoramos como antes de a gente casar.

Quando ela dormiu, levantei de mansinho

E fui para a lage assistir o luar.

Peguei o cavaco e fiz esse pagode,

Se amanhã vai dar bode, hoje eu vou caprichar.


(Refrão)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Prêmio UFF de Literatura 2012

Leitores do Blog,

O conto aí abaixo, "O Contador de Histórias", recebeu hoje o Prêmio UFF de Literatura 2012. Quero compartilhar minha alegria com vocês, que são meu maior incentivo para continuar escrevendo. 

Obrigado pela torcida!

Acesse O Contador de Histórias

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Contador de Histórias


Este conto é finalista do Prêmio UFF de Literatura 2012. O resultado sai amanhã, 17 de dezembro.

Seriam alguns dias de viagem ente Paragominas e Altamira. Bem no início, eu abastecendo a carreta num posto à beira da estrada, achegou-se o cabra. Cabeça quadrada, pescoço curto e forte, os cabelos encaracolados escapando por baixo do boné encardido, a malinha castigada e um jeito que, descrevendo só assim, poderia servir para qualquer tipo perigoso, assaltante ou mesmo matador, mas tinha um quê nos olhos escuros que brilhavam um brilho de inocência quase infantil, contradizendo as rugas precoces na testa e sobressaindo por entre as pálpebras apertadas e as sobrancelhas grossas que quase se irmanavam acima do nariz. Anunciou-se Leovaldo, maranhense, com sua licença, vou para a obra da usina grande, não for incômodo, concederia a gentileza, eu ajudo, amarro a carga se soltar, sei trocar pneu, já fui ajudante de caminhão. Nessas estradas temos precisão de confiar e desconfiar, confiando que o Divino ouça nosso rogo para saber a hora certa de uma coisa e de outra. Confiei: “Sobe aí, homem.” Tinha muito chão pela frente e eu andava mesmo desassossegado de cismar sozinho tanto tempo, o pensamento empacado em umas idéias que eu queria não pensar, mas que me rodeavam a cabeça feito enxame de mosca incomodativa. Uma prosa bem que me poderia puxar a atenção de dentro e virá-la para o lado de fora.

De início, asfalto e trânsito livre, tempo bom, conversa leve e pouca, só amenidades. De meu lado, só queria ouvir. Ele aos poucos foi soltando a falação. Ganhara semana de licença para o enterro da mãe. Um segundo derrame depois de ter sido derrubada na cama durante dois anos pelo primeiro. Nesses dois anos só lhe restara na boca uma palavra, que ela repetia e a ela se agarrava como única que lhe restara para se dirigir ao mundo: “tatu, tatu, tatu”.  Era tatu para toda serventia: obrigado, até logo, fome, banheiro, saudade, dor. Só os olhos davam sentidos a cada tatu daqueles. Seis irmãos. O pai deixara a casa, volto pra buscar, as cartas rareadas e o silêncio. O mais velho foi ainda a São Paulo, cidade muito grande, engole um homem sem deixar sinal, voltou sem notícia. Não sabe se tem pai ainda. Falou das cabras, da vez que apanhou de vara porque deixou uma sumir, era ainda moleque. Só acharam a carcaça três dias depois, os urubus terminando a faina começada por maracajá ou suçuarana. A roça de feijão e milho tocada pelos irmãos mais ele, à mercê da dádiva de São José conquistada a custa de muita reza e ladainha no mês de março.

De vez em quando ele cansava de falar, me passava a bola, e tu, homem? Eu falava de estrada, de carga, de caminhão e de patrão, de causos de estrada, deixando uma cerca bem fincada no rumo da prosa, daí não passe.

Já na chegada em Marabá, parada para banho e jantar, cerveja dividida, mais histórias, eu lhe dando linha na pipa. E ela subia alto no céu das lembranças, onde algumas se desmancham, fiapo de nuvem, e outras são tempestade, ou sol e lua, sempre lá. Coisas na história de cada um que passam a fazer parte do que se é, vão moldando esse barro mole, imprimindo cicatrizes, rugas de choro, de dor e de perplexidade, mas também algumas de riso, de saudades de venturas antigas, o que também é uma qualidade de dor.

Lá pelo fim do segundo dia, a carreta sacolejando já no barro, a chuva caía dando medo que a estação seca se findava, arriscado amolecer o chão e nos prender na estrada que nem rato engolido no ventre daquela cobra vermelha riscada na mata. Conseguimos chegar à margem do Tocantins sem precisão de trator de esteira. Estacionei na fila da balsa e desliguei o motor. Toquei a imagem de Nossa Senhora colada em cima do painel, agradecido pela bênção. Só mais dois dias, Mainha, não me falte ainda. Saltamos, ficamos os dois ali, olhando o mundão de água, apertando os olhos para enxergar o outro lado e a balsa ainda longe. Acendi um cigarro virando de costas para o vento e estendi um cigarro, depois o lume para Leovaldo. Ficamos ali, olhando o nada, o pensamento longe, soprando a fumaça para cima de quando em quando. Meu parceiro pareceu desassossegado, coçava muito a barba rala. Reparei uns fios brancos junto às têmporas.

“A gente cresce achando que na vida as coisas são assim, o certo ali, o errado lá, o céu em cima e a terra embaixo, onde é água e onde é chão. O que é de Deus e o que é do cão. Aí a vida vem e embaralha tudo.”

Puxei o último trago e atirei longe a guimba. O dito prenunciava, na certeza, confidência de maior importância. Me aprumei em respeito, procurei esvaziamento de julgar e virei os olhos para Leovaldo.

“Você já foi casado?” Ele forçava a cerca. Concluiu com acerto sobre meu estado de homem sem mulher pela falta de aliança, pelo silêncio, pelo celular sempre desligado. “Digo assim, mesmo sem casar, já teve mulher, já teve casa montada pra modo de viver com ela, ter filho com ela, criar junto?”

Eu não disse nada, mas era como se tivesse dito. “Pois é, eu também já tive, ou tenho, não sei mais. Em Igarapé Grande, terra de meus pais. A gente se gostava desde antes de saber o nome do amor. Desde criança. Nunca pensei em outra, não carecia. E foi para finalmente poder fazer para ela, com ela, um lar, família, essas coisas, que estudei, fiz supletivo de noite, terminei o segundo grau. Fiz curso técnico. Comecei na construção civil, me cadastrei para uma vaga na obra da usina grande. Depois de uns meses me chamaram. Me deu uma alegria misturada com saudade, mas com fé em ganhar dinheiro, montar casa, me fazer um cabra de respeito, e não mais um menino aos olhos dela. Quando voltei para enterrar minha mãe, vinha com uma mistura de sentimento, o luto e uma alegria quase desrespeitosa, que não combinava com a ocasião. E como foi bom estarmos juntos de novo, o futuro ali mais perto, quase que dava pra tocar com a mão. Ela estava carinhosa meio que demais, tive que ralhar pra ela parar com a beijação. Até no velório ela quis me puxar pros fundos da capela, as comadres reparando. Dia seguinte me vem o compadre de meu irmão e me diz umas coisas. Que era para eu abrir o olho, que ficasse por  lá ou levasse Maria da Glória comigo. Que é isso, homem? Me explica, que isso é coisa séria, que não se pode dizer assim como quem conta uma coisa acontecida nos antigamente. Exigi nome, dia, detalhe. Agarrei pelo colarinho, quase bati no cabra enviado do Demo. Tinha um quase sorriso quando me falou, mal conseguia esconder o gosto que tem um infeliz de ver se quebrar a felicidade alheia.

Saí desarvorado, sem rumo, até que me vi na casa da minha finada mãezinha. Por obra do acaso ou de Deus, meu irmão chegou no momento em que eu carregava a garrucha que fora de meu pai, que encontrei ainda enrolada num pano em cima do armário do quarto. Eu tinha um gosto de sangue na boca, meus olhos só viam desgraça no porvir. Não me pergunte quem eu ia matar primeiro, eu só sei que a morte tinha mando no meu coração. Meu irmão quis saber o que era aquilo, gritava para me chamar ao juízo, mas eu não ouvia. Ele então se atracou comigo, ‘não quero ver irmão meu na cadeia’. Caímos os dois e a garrucha disparou. Só então me voltou a presença e eu parei, meu irmão por cima de mim. A bala furou a camisa dele, riscou-lhe a pele e foi bater no meio do quadro do Coração de Maria que minha mãezinha tinha no altar com a vela sempre acesa.”

Um suor grosso brotava nas têmporas de Leovaldo, o peito arquejando um pouco. Os olhos perderam-se por um instante, abertos para fora, mas sem visão no presente. Fiquei ali, mudo, misturando na cabeça a cena contada com cenas de minha própria lembrança, colocando rostos meus nas personagens dele. Pediu-me outro cigarro. Deu umas três baforadas, ficou um tempo para se recompor, e continuou.

“Aquilo me freou os ímpetos, me alargou as vistas, como se me tirassem antolhos. Meu irmão então me tirou, sem resistência, a garrucha da mão. Eu fiquei ali pelo chão, tremendo e chorando de soluço que nem criança. Só bem depois me pus de gatinhas e fui até o altar, sem ousar erguer a vista pro coração furado da Virgem. Pedi perdão e agradeci pra ela e pra mãezinha, que foram as duas que me valeram e me livraram de fazer desgraça. Fiquei uns dias atordoado e sem rumo. Evitei de estar com ela, depois saí escondido da cidade e fui para o rancho de um primo pensar uns dias.  Aí, peguei minhas tralhas, pus na mala e vim para a estrada, no rumo da usina. Não consigo parar de pensar. Meus irmãos e primos se dividiram. Uns dizem pra eu esquecer da Glorinha, que tem muita mulher no mundo. Outros me garantem que foi fraqueza rápida que ela teve, uns goles a mais de cerveja depois da festa do Santo, que era um cabra de passagem, foram só uns beijos, e que ela não pára de chorar desde que eu sumi. Não sei ainda meu rumo. Um homem às vezes descobre que tem que escolher entre a honra e a felicidade, e que não pode ter as duas. Ainda não decidi.

Ficamos ali, olhando o rio e a balsa que surgia agora no horizonte em meio à água do rio e a água que voltava a cair do céu. Foi ficando tudo misturado no mesmo cinza: a água, o céu, a outra margem. Tentei engolir o nó que me apertava a garganta, mas ele ficou ali, teimoso. O desassossego me brotava de novo no peito, feito tiririca brava que renasce sempre, por mais que a gente arranque. Se minha mãezinha não tivesse morrido pra me trazer à luz, se eu tivesse tido um irmão que se atracasse comigo, se a Virgem me valesse na hora que o Tisnado me fechou o coração. Mas eu só tivera instrução de zelar pela honra.

conto transamazônica prêmio UFF de literatura 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

Mulheres de Cinza


Vinha eu acompanhando e saboreando as mudanças sociais dos últimos cinquenta anos no que se refere aos avanços da posição da mulher na sociedade, acreditando que elas (vocês) vinham galgando degrau após degrau a escada da igualdade de direitos, quando, de repente, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza” surge como um fenômeno literário neste início de milênio. Como assim, senhorita? Como assim, minha senhora?

Há cinquenta e poucos anos, quando nasci, não existia ainda a pílula anticoncepcional, que veio a libertar a sexualidade feminina da obrigatoriedade da procriação  e desencadeou todo o processo que alterou completamente o des(equilíbrio) de poder entre os sexos. No Iêmen os pais continuam vendendo suas filhas de 12 anos em casamento, e no Afeganistão as adúlteras ainda são apedrejadas. Mas, pelo menos em nosso mundo classe média-alta ocidental, a situação feminina na sociedade vem evoluindo aceleradamente, se não na direção à igualdade de papéis (na qual não acredito), pelo menos na direção da igualdade de direitos (à qual sou plenamente favorável, e nem poderia deixar de ser). Nossa presidente é mulher e não vejo nenhuma necessidade de chamá-la de presidenta, pois não será a única nem a última (acabei de descobrir que o Word não grifou de vermelho a presidenta, o que acaba sendo uma contradição cromo-político-ortográfica). Temos duas ministras mulheres no STF e acaba de ser promovida a primeira oficial-general de nossas Forças Armadas. As mulheres brasileiras têm hoje autonomia sobre a própria natalidade e geram, em média, menos de dois filhos cada; chefiam sozinhas mais de um terço dos lares e contribuem financeiramente em três quartos deles. Elas caminham rapidamente em direção à igualdade salarial e ocupam inúmeros cargos de chefia em todos os escalões. Fatos.

A dificuldade que muitos homens esclarecidos demonstram em reconhecer, ou, quem sabe, admitir essas mudanças na nossa sociedade me causa espanto. Já ouvi homens dizerem, não totalmente como piada, que, se não fosse pelo órgão sexual, não dariam nem bom dia às mulheres. Há ainda homens incapazes de se relacionar com uma mulher como apenas dois seres humanos, sem conotação erótica, como amigos, como companheiros ombro a ombro no trabalho. Acho isso um espanto. No fundo, enxergo o receio masculino de que os homens venham a ter seu papel relegado apenas a abrir potes de conserva e matar baratas.

Eu, particularmente, nunca tive problemas em ter amizades com mulheres, mas admito que, na minha geração, isso era uma exceção. E não sei se hoje as coisas estão muito diferentes. Há ainda quem acredite que homem que é homem tem amigo homem, que mulher em idade reprodutiva, ou é da família (tabu) ou deve sempre ser olhada como uma potencial parceira sexual. Não que eu ache que uma amizade intergenérica não possa nunca vir a assumir tons coloridos. Já cheguei a namorar uma amiga, o que acabou com a amizade, diga-se de passagem. Tinha e tenho boas, novas e antigas, amizades com mulheres. Ouvir o ponto de vista feminino sobre determinado assunto é mais do que apenas a opinião de outra pessoa. Muitas vezes é como a visão de alguém do outro lado de uma fronteira, de outro planeta talvez, o que sempre enriquece a conversa e acrescenta ingredientes novos numa discussão.

E então vem a Sra. E. L. James e nos apresenta a inocente Anastasia Steele, jovem e inexperiente (nunca tivera namorado). Uma estudante de Literatura Inglesa completamente iletrada nas artes do sexo e do amor. A inocente mocinha entrega seu corpo vestido de tênis e calça jeans aos caprichos sadomasoquistas do misterioso Christian Grey, homem poderoso e de hábitos sofisticados (além de rico e lindo, claro). Desequilíbrio maior impossível. Submissão total. Parece que, lá pelo terceiro volume da trilogia, a mocinha cresce emocionalmente e resgata seu amante-algoz de sofrimentos íntimos oriundos de seu passado. Mas não é por esse desfecho edificante, que acaba convergindo para os das novelas de Jane Austen por caminhos muito (põe muito nisso) distintos, que as mulheres estão lendo o livro. Claro que não.

As feministas estão possessas. Andaram até convocando para uma queima pública dos ditos livros diante da editora, acrescentando mais alguns tons de cinza à trilogia. Particularmente, acho queimar livro, seja ele qual for, uma prática obscurantista. Mas a bronca delas é legítima. Como, depois de tantas passeatas, de tantas mártires, de tantos sutiãs queimados, depois da lei Maria da Penha e da tipificação do assédio sexual como crime, as maiores beneficiárias das conquistas femininas, as mulheres letradas e endinheiradas o suficiente para comprarem e lerem um romance suspiram e gemem imaginando-se na pele da indefesa mocinha voluntariamente entregue ao macho poderoso e distante emocionalmente? Soa a traição.

Claro, pode ser que as mulheres estejam apenas se dando o direito de ler um texto picante, que as deixa excitadas e assumindo isso em público: no metrô, na sala de espera do doutor ou na praia, e nada além disso. Muito justo, mais um direito conquistado. Mas haverá algo mais por baixo dessa interpretação simplista? Será que as coisas andaram rápido demais para elas? Estarão inseguras sem um macho que as respalde na reunião de condomínio quando o clima esquenta? Não querem tanta igualdade assim? Não sei a resposta. O que me parece é que, mesmo que hoje elas tenham conseguido que a sociedade aceite (ou pelo menos admita) que elas troquem beijos com um desconhecido na balada sem emitir julgamentos de caráter, as mulheres, ou boa parte delas, não abriram mão do mito do príncipe encantado. Apenas substituíram o cavalo branco pelo carrão branco do ano. Querem alguém que as proteja, que as excite, que as trate como rainhas na vida e tenha pegada firme na cama. Alguém que ganhe tanto ou mais que elas, que assuma as despesas da casa se ela resolver ficar mais um tempo cuidando do bebê. Alguém que as faça felizes. Não são todas, friso bem, mas acho que ainda é uma grande parcela. Arrisco dizer que é a maioria. Tudo bem, as coisas caminham em ritmos diferentes em diferentes partes das sociedades, em diferentes cabeças. Mas delegar a outro alguém a responsabilidade pela própria felicidade é e será sempre uma roubada. Seja você homem ou mulher. O que é, para todos os efeitos práticos, muito diferente de querer compartilhar e multiplicar a própria felicidade com alguém com qualidades e defeitos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Amanhecer em Veneza

Depois da chuva, os primeiros raios de sol iluminam a Chiesa di Sta. Maria della Salute. As gôndolas, ainda cobertas, aguardam seus condutores para mais um dia de trabalho.