Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.
terça-feira, 31 de julho de 2012
terça-feira, 24 de julho de 2012
Semana Sabática na Serra, ou O Sr. "Jenessequá"
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| Saíra-militar (clique nas fotos para ampliar) |
Minha tradicional SSS - semana
sabática na serra - ficou reduzida a cinco dias este ano, por conta da
perspectiva de uma viagem de duas semanas em setembro próximo. Hay que
capitalizar-se... Munido de equipamento de fotografia, artigos
medico-científicos, material de aquarela e alguns livros, subi a montanha em
direção ao nosso sítio na última quarta-feira. Minha mulher só subiria na sexta
à noite, depois do trabalho. “Alguém tem que trabalhar nessa casa, afinal”,
diria um amante do lugar comum.
Um dos livros que veio na bagagem
foi, por coincidência, “Como Ficar Sozinho”, de Jonathan Frenzen e já estou nas
últimas páginas. Havia lido um trecho do livro na revista “Piauí” dedicada à
FLIP – Feira Literária Internacional de Parati - e gostei de sua preocupação
explícita em se fazer claro para o leitor médio e também pelo seu amor à
observação de pássaros. Entrevistado recentemente a caminho de Parati, Frenzen tinha a expectativa de poder se entregar, um pouco que fosse, à observação nossa fauna
ornitológica. Espero que tenha conseguido. Estabelecidas essas empatias, entrei
semana passada na livraria Gutenberg, em Icaraí, atrás de um de seus livros.
Acabei levando dois: além do “Como Ficar Sozinho”, o romance “As Correções” me
aguarda na prateleira.
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| Saí-azul (macho) |
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| Vissiá |
O livro de Frenzen (”Como Ficar
Sozinho”) é uma coleção de ótimos ensaios sobre os mais variados assuntos,
sempre de um ângulo subjetivo e emocional, sem, no entanto, deixar de lado a
objetividade. Ele percorre assuntos como o mal de Alzheimer, que vitimou seu
pai, o crescimento econômico chinês e como ele vem atingindo em cheio as
reservas naturais e a vida selvagem, o sistema prisional americano e diversos
outros temas. Para cada ensaio, Frenzen se envolve pessoalmente com
protagonistas reais, deslocando-se local onde a ação se desenvolve.
Independente de seus conceitos antecipados (pré-conceitos) em cada assunto, ele
acaba por descobrir no palco de cada tema, personagens reais tentando, cada um
à sua maneira, fazer a coisa certa, mesmo nos extremos opostos de cada disputa.
Frenzen nunca consegue chegar a conclusões panfletárias, acaba ficando em algum
lugar no meio do caminho, atolado e emocionalmente envolvido nos aspectos
humanos dos protagonistas.
Num de seus ensaios, Frenzen
reflete sobre sua decisão de se tornar escritor, num mundo onde a grande
maioria das pessoas parece não ter interesse em dispor de seu escasso e
precioso tempo para a leitura de romances. Em tempos de TV, internet e cinema,
os livros parecem ter perdido espaço como meio para divulgação de novas idéias
ou denúncia de situações relevantes que já não tenham sido expostas pela mídia
instantânea, que hoje domina a cena. Acredito, no entanto, que nada supera o
livro como instrumento que nos faça mergulhar profundamente nos aspectos da
subjetividade, daquilo que nos faz seres humanos únicos e ao mesmo tempo compartilhantes
de universalidade humana.
xxxxxxxxxx
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| Gaturamo-bandeira |
Conheço muitas pessoas que ficam
apavoradas só de imaginarem-se por cinco ou dez dias longe da Internet, dos
Shopping Centers, do sinal de celular e de tudo o mais que compõe o turbilhão
das grandes cidades, no qual estamos enfiados até o pescoço na maior parte do
tempo. A perspectiva de não ter o tempo constantemente ocupado e a atenção saltando
freneticamente de galho em galho daquilo que chamamos de vida moderna deixa
muita gente com medo de se ver diante de um não-sei-o-quê, que poderia brotar
do fundo de si mesmos.
Eu, por meu lado, preciso
dessa pausa, preciso travar contato com o Sr. Jenessequá., fazer as pazes e travar
amizade com ele. Acreditem: ele é um cara legal. As conversas que tenho com ele
me são essenciais. Ele foi meu único companheiro nesses poucos dias aqui
sozinho. Já o tédio, esse não existe por aqui. Na verdade, volto sempre com uma
ponta de frustração por não ter dado conta de tudo que me havia proposto a
fazer, mas nada que me perturbe. É parte da motivação para próximas vindas à
serra. Aquarela, por exemplo, dançou. Estudei medicina, li bastante e,
principalmente, fotografei muitos pássaros. Flagrei, pela primeira vez, a saíra
militar, o gaturamo bandeira, a fêmea do gaturamo serrador (ou ferro-velho) e o
tié de topete, além de mais quatro espécies que ainda vou identificar with a
little help from my friends do Wiki-Aves. Ornitologicamente falando, a
semana foi perfeita. O Frenzen teria gostado de estar aqui.
xxxxxxxxxxx
Pesquisa informal: Faço a você as perguntas que sempre
faço aos meus pacientes que flagro lendo um livro na sala de espera de meu consultório:
O que você está lendo atualmente? Quais livros estão aguardando em sua mesinha
de cabeceira? Você lê mais de um livro ao mesmo tempo?
segunda-feira, 16 de julho de 2012
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Tiro no pé
Tudo bem então, vamos deixar as coisas bem claras. Nossa relação não
passa de um exercício de narcisismo mal disfarçado. Vai dizer que não percebeu?
Isso, dito assim, pode ser um tiro no meu pé. Mas prefiro deixar bem claro que
o que me leva a escrever e a pintar não carrega nenhum resquício de altruísmo,
muito pelo contrário. Quero mais é que você me curta, me like, me ame e, se possível ligue no dia seguinte deixando um
comentariozinho no Face ou no Blog: “Foi bom pra mim também”. Mas afinal, não é
isso que estamos todos fazendo? Não é o que você faz quando deixa aquele monte
de fotos suas com cara de inteligente e olhar cool, cercado de amigos em lugares
bacanas? Fala a verdade! Então, não me critique. É patético, reconheço, mas
toda vez que eu posto uma aquarela ou um texto como esse aqui no Blog, eu mal posso
conter a ansiedade para verificar quantos acessos teve essa página que vos
fala, quantos morderam a isca e se deram o trabalho de ler o que escrevi ou
olhar o que aquarelei. Como um adolescente que fica contando quantas ele pegou
na balada. Mas, me dê um desconto, não é só isso, só pegação sem sentimento. Na verdade, fico muito
grato e envaidecido quando alguém, assim como você está fazendo agora, se dá ao
trabalho de ler um texto desse tamanho, nesses tempos de twitter e mensagens de
duas linhas, no máximo. Li outro dia que pessoas que lêem romances não passam de
um por cento da população. Leitores de crônicas e contos não devem ser mais que
três, quatro por cento. Portanto, caro leitor, você é uma pessoa rara!
Num buraco um pouco mais embaixo desse aspecto estritamente numérico,
existem duas razões mais profundas para eu (me) expor assim o que penso, o que
sinto, a maneira particular como vejo o mundo. Quero, de antemão, me desculpar
se vou chover no molhado; não fiz nenhuma pesquisa teórica sobre esse assunto que, decerto, já foi e continuará sendo assunto de zilhões de teses de mestrados e
doutorados: O que leva alguém a querer de expressar de modo artístico? Vou
responder apenas por mim. Uma razão é a perspectiva de que vamos ficar aqui no mundo por um período
bem curtinho, no qual poderemos ou não passar adiante o carma e a carga genética
que nos foi confiada para, pouco depois, não sobrar nenhum vestígio de nossa
breve e insignificante intervenção no universo das coisas palpáveis. Fazendo arte,
seja erguendo pirâmides ou escrevendo poesia na parede do banheiro da escola,
tentamos prolongar a marca de nossa passagem por uma, dez ou mil gerações. Uma forma ingênua de nos iludirmos em
relação à nossa inescapável impermanência.
E outra, que já sugeri ali acima: trata-se de uma solidão que se quer
dividir. Lançamos em forma de arte sondas atmosféricas, batiscafos abissais, naves intergalácticas
que buscam aflitas descobrir se na sua galáxia íntima, leitor, no seu outro
universo individual, existem solidões, angústias, decepções, espantos, alegrias
e felicidades como as que existem do lado de cá desse teclado. Quando o que
digo e escrevo faz eco aí do seu lado, é assim como quando a gigantesca nave
mãe reproduz o chamado musical no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”:
a mensagem é um veemente SIM, eu também sinto isso, eu também tenho a mesma
dúvida, o mesmo medo, o mesmo assombro. Então, você e eu nos sentimos um pouco
menos sós.
Lembra do filme "Contatos Imediatos"? Veja o trailer:
domingo, 8 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Giverny - Um Estranho no Paraíso
No Museu Orangerie, em Paris, estão expostos grandes painéis de Monet retratando as lendárias ninfeias no lago do jardim de sua propriedade em Giverny. O LÓrangerie, com seus salões ovais construídos exclusivamente para abrigá-los, é chamado de "A Capela Sistina do Impressionismo". O lago, os jardins e todo o belíssimo paisagismo que cerca a residência da família de Claude Monet com sua segunda esposa, Blanche Rochedée, foram projetados e construídos pelo próprio pintor como uma obra de arte em si. Ali Monet aliou seu gosto pessoal com uma forte influência estética dos jardins japoneses. O cenário idílico resultante foi o objeto quase exclusivo da obra do artista em sua maturidade.
Ir a Giverny e ver-me em meio ao cenário original dos quadros que aprendi a admirar e amar era um sonho que consegui realizar há dois anos. A sensação de ultrapassar o portão e ver-me em meio àqueles quadros vivos e admiravelmente conservados foi indescritível. Depois do transe inicial e de muita baba na gravata, consegui fotografar o que se me apresentava aos olhos. Utilizei uma daquelas fotos para inspirar a aquarela abaixo, tentando usar minha maneira particular de interpretar as mesmas cores, reflexos e luzes que no passado inspiraram Monet a criar suas obras primas. Uma humilde homenagem ao mestre.
Ir a Giverny e ver-me em meio ao cenário original dos quadros que aprendi a admirar e amar era um sonho que consegui realizar há dois anos. A sensação de ultrapassar o portão e ver-me em meio àqueles quadros vivos e admiravelmente conservados foi indescritível. Depois do transe inicial e de muita baba na gravata, consegui fotografar o que se me apresentava aos olhos. Utilizei uma daquelas fotos para inspirar a aquarela abaixo, tentando usar minha maneira particular de interpretar as mesmas cores, reflexos e luzes que no passado inspiraram Monet a criar suas obras primas. Uma humilde homenagem ao mestre.
domingo, 24 de junho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
Ana Cláudia
Páginas arrancadas do
diário que eu não escrevi aos 19
anos.
Hoje, ao pegar o ônibus no Centro
para Icaraí, encontrei com a Ana Cláudia,
uma das meninas mais gatas do colégio. Ela estava sentada e eu de pé. Nunca
tinha falado muito com ela, mas, apesar da minha timidez irritante, começamos a
conversar. Não sei o que deu em mim hoje, pois, apesar de estar conversando com
uma menina linda, não gaguejei e nem fiquei sem saber o que dizer. Acho que ela
nem percebeu que eu normalmente não sou assim. Será que estou mudando,
finalmente? Ainda tive uma sorte enorme, porque a senhora gorda que estava
sentada ao lado dela saltou logo no Ingá. Isso significa que eu pude sentar ao
lado dela, nem acreditei. Ela falou que no dia seguinte estaria indo com os
pais e os irmãos para Marataízes, que é longe à beça, e eu nem sabia que é uma
praia no Espírito Santo. Ela vai passar janeiro e fevereiro lá. Primeiro pensei
que era muito azar, logo agora que tínhamos feito um contato tão legal. Falei
que eu estava indo passar as férias em Friburgo, mas inventei que talvez eu
resolvesse ir acampar em outro lugar. Aí ela falou que seria legal se eu
aparecesse em
Marataízes. Ela me deu o endereço e o telefone da casa de lá
num pedaço de folha do caderno dela.
A essa altura, eu já tinha
passado muito do ponto de ônibus perto de minha casa, mas eu menti dizendo que
ia até a casa de meu amigo Guilherme lá em São Francisco , onde
ela mora também. Saltamos na praia e fomos andando até a casa dela, que eu
queria saber onde era. No portão, nos despedimos, eu fingindo que não estava
nervoso, mas com meu coração acelerado. Saí dali correndo até a casa do
Guilherme, porque eu precisava contar aquilo para alguém. O Álvaro, irmão dele,
disse que ele tinha saído não sabia pra onde. Aí eu peguei outro ônibus até em casa. Acho que vou dar
um jeito de ir até essa tal de Marataízes.
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Decidi ir a Marataízes atrás da Ana Cláudia para conferir qual é.
Acho muito difícil que aquela gata, que eu sei que tem um monte de caras dando
em cima, queira alguma coisa comigo. Será que ela foi simpática só porque é
simpática com todo mundo? Ou será que me achou legal? Só tem um jeito de saber.
Então eu telefonei pro Vilaça e contei a história toda. Liguei pra ele porque
ele é meu amigo, e porque é um amigo que tem uma barraca de camping e nós já
acampamos juntos em Angra dos Reis. Ele topou a idéia, U-HUUUU! Aí eu tive que
inventar uma história que tinha sido o Vilaça que tinha me convidado, que ele
tinha parentes por lá, pra eu descolar uma grana com minha mãe. Ainda bem que
eu ainda não tinha comprado o tênis com o dinheiro que ganhei do meu avô no
aniversário.
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Procurei no Atlas onde fica Marataízes.
Descobri que a cidade mais ou menos grande mais próxima é Cachoeiro do Itapemirim,
e que tem um ônibus que sai meia noite de Niterói pra lá.
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Agora são três horas da manhã,
ainda não chegamos nem a Campos, e nessa poltrona apertada é difícil dormir. O
Vilaça trouxe a barraca, mas só trouxe um colchonete. Nem me avisou que só
tinha achado um. Vou ter que dormir no
chão. Será que vai valer a pena?
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Chegamos a Cachoeiro, terra do
rei Roberto Carlos. Esperamos na rodoviária o primeiro ônibus para Marataízes,
que só saiu duas horas depois e ainda parou um tempão em outra cidade, Itapemirim
(sem Cachoeiro). Saltamos finalmente em Marataízes e saímos perguntando onde
tinha um camping. As praias aqui têm areia escura, diferente das de Niterói.
Aqui é cheio de condomínios de apartamentos, e os condomínios estão cheios de
mineiros. Deu pra saber que eles são mineiros por causa do sotaque e por causa
das placas dos carros. De manhã, um monte de mineiros cor de camarão estavam
pondo a bagagem nos seus carros e fechando os apartamentos. De tarde, chegou
outro lote de mineiros, só que branquelos, descarregando bagagem e ocupando os
condomínios outra vez.
Achamos um camping baratinho e
armamos a barraca embaixo de uma amendoeira. Vai dar pra tomar banho, tomar um
café e partir em busca da Ana Cláudia.
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Achamos a casa da Ana Cláudia. Ela tinha acabado de
acordar. Acho que a mãe dela ficou com pena de nós e nos chamou para entrar
tomar café. Comemos pão de forma e bebemos Nescau. Ela tem dois irmãos mais
novos e a mãe dela é muito legal. Depois fomos para a praia. Eu não estava nem
acreditando. Ela, de biquíni, é ainda mais perfeita do eu imaginava. Ela falou,
e as amigas dela, que eu não lembro o nome, confirmaram que no ano passado ela
foi eleita a Garota Verão de Marataízes no concurso do clube da cidade. Deve
ter sido barbada! Apesar de termos ficados juntos a manhã toda, não percebi
nenhum sinal por parte dela de que poderia rolar alguma coisa. Ou talvez seja a
velha timidez que esteja me impedindo de deixar as coisas mais claras.
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Eu e Vilaça fomos almoçar num
restaurante meio botequim. O Vilaça pediu bife com fritas, e eu pedi um PF
porque, senão, o dinheiro não vai dar pra comer até a gente voltar pra Niterói.
De tarde voltamos a casa dela e ficamos jogando buraco. A coisa não está
evoluindo...
À noite, com a merreca que eu
tenho no bolso, não dá pra ficar em bares nem pagar pra entrar em lugar nenhum.
Se bem que aqui não tem quase opção. Só deu pra ficar andando pelo calçadão,
que foi meio destruído por uma ressaca recente. Querer ganhar uma gata daquela,
sem grana e sem carro, precisa de muuuuito charme e bom papo, e eu não tô com
essa bola toda. Enchemos o saco de andar à toa e voltamos pro Camping na maior
escuridão, que aqui quase não tem iluminação pública. Pra piorar, estava
chuviscando, e eu fiquei pensando que amanhã pode amanhecer chovendo. Aí, nem
praia vai ter. Eu trouxe o livro “Ilusões” de Richard Bach, aquele mesmo de
Fernão Capelo Gaivota. Estou achando um dos livros mais legais que eu já li. É
a história de um cara que era um messias, mas que tinha desistido de ensinar
coisas pras pessoas, porque elas não queriam mudar, só queriam que ele fizesse
milagres e mudasse as coisas pra elas. Mas ele encontrou um cara que queria
aprender. Aí ele ensinou a esse cara que ele podia ser tão messias quanto ele.
Que qualquer um podia andar na água ou nadar na terra, ou fazer flutuar uma
chave de boca de 9/16 polegadas. Ou fazer nuvens desaparecerem! No livro
parecia tão fácil, que eu acreditei que era possível. Falei pro Vilaça do
livro, e decidimos que as nuvens não estavam mais lá. Fiquei entre o apavorado
e maravilhado quando olhei pra cima e vi as nuvens se afastando e as estrelas
aparecendo! Daqui pra frente vou acreditar que tudo que eu quero é possível. Na
hora de dormir, enrolei a toalha para fazer um travesseiro e deitei. Aí
descobri que naquele lugar embaixo da amendoeira, onde armamos a barraca,
estava cheio de caroços de amêndoas no meio da grama debaixo do chão da
barraca. Vai ser uma noite longa...
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Depois de alguns dias, quando só
restava grana pra passagem de volta, voltamos pra Niterói. Vilaça acha que eu
sou um otário, que eu tinha que ter ido com mais decisão, que depois de toda
essa viagem eu tinha que ter dado um cheque mate. Eu não tive coragem de dar
porque já sabia, ou achava que sabia, que não ia dar certo. Fiquei pau da vida
com ele porque, quando ele viu que eu não me decidia, começou a dar em cima
dela. Voltamos quase sem nos falar. Mas não me arrependo de nada. Acho que
alarguei meus limites. Às vezes, pode ser mais fácil fazer desaparecer as
nuvens do que conquistar uma garota. Ou não.
Comentário atual: Ainda tentei alguma coisa em relação à Ana Cláudia. Fui
novamente, depois das férias, até a casa dela, e já tinha outro marmanjo por
lá, xavecando ela. Concorrência selvagem! Ela acabou namorando um paulista
estudante de medicina da UFF, um semestre mais atrasado que eu. Ele tinha cara
de italiano e um carro do ano. Possivelmente tinha também outras qualidades que a minha inveja ocultava completamente, talvez não. Acabaram se casando e eles se mudaram para São Paulo. Uns quinze anos
depois (o destino é um brincalhão), ela apareceu uma tarde no meu consultório,
uma linda jovem senhora nos seus trinta e poucos. Ana Cláudia, agora também médica, estava de
volta a Niterói, recém separada. Queria sublocar um horário para se estabelecer
profissionalmente na cidade. Os horários que ela queria não estavam disponíveis.
Nem eu, pois estava casado. Nunca mais a vi nem tive notícias. Até a semana passada
quando, pelo Facebook, descobri que está casada de novo e é professora
universitária. Continua bonita, trinta anos depois.
sábado, 16 de junho de 2012
O Homenzinho que Vivia num Saquinho de Pipoca
Era uma vez um homenzinho que vivia dentro de um saquinho de pipoca. Um
dia, uma fada estava passando por ali e ouviu sua voz bem fraquinha se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser tão pequeno nem morar num saquinho de pipoca. Eu deveria ser do
mesmo tamanho dos outros homens e viver numa casa de verdade, isso sim.”
A fada apiedou-se do pobre homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo.
Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que havia crescido, que
estava do mesmo tamanho dos outros homens e que estava em uma linda casinha
numa cidade do interior da Terra das Bandeiras. Ele ficou muito feliz, mas se
esqueceu completamente de agradecer à fada.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho
e resolveu passar para ver como ele estava. Quando se aproximou da porta da
linda casinha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ter um nariz tão pequeno nem morar numa casinha. Eu deveria ter um
nariz do mesmo tamanho dos outros homens e viver numa bela cobertura na
capital, onde eu pudesse conhecer uma boa moça e me casar, isso sim.”
A fada ficou um pouco decepcionada, mas apiedou-se mais uma vez do
homenzinho e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, ele viu que seu nariz havia
crescido, ficara até bem grande, mas bonito. E que ele estava numa bela
cobertura na capital. Passou a desfilar pela capital com seu belo nariz e não
tardou a conhecer uma boa moça e se casar com ela. Ele ficou muito, muito
feliz, mas se esqueceu de telefonar para a fada agradecendo.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho e
resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao hall da cobertura e
se preparava para tocar a campainha, escutou a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser casado com uma mulher comum. Eu deveria estar casado com uma moça
muito linda, loura e de cabelos compridos, e que gostasse de fazer muitas
brincadeiras na cama, isso sim.”
A fada ficou bem aborrecida, mas apiedou-se mais uma vez do homenzinho
e resolveu atender-lhe o desejo. Então ela disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Quando chegou a noite, o homenzinho virou-se na cama três vezes e
adormeceu. Na manhã seguinte, quando acordou, achou um bilhete da fada, com instruções
para que ele fosse até o Brejo das Augustas, pegasse a primeira rã que lhe pulasse
aos pés e lhe desse um beijo na boca. E assim ele fez. E a rã se transformou em
uma moça muito linda, loura e de cabelos compridos, e que foi logo convidando-o
a brincar de pique, esconde-esconde e amarelinha na cama dele. Ele expulsou de
casa a mulher antiga, que era boa, e colocou a moça muito linda, loura e de
cabelos compridos em seu lugar. Eles se apaixonaram, brincavam todo dia na
cama, e ele gostava de desfilar com ela diante dos seus amigos, que agora eram
muitos. E dizia para eles: “Vocês nem imaginam onde eu encontrei essa moça
muito linda, loura e de cabelos compridos.” Mas ele nem se lembrou de mandar um
torpedo para a fada agradecendo.
E a fada foi para o Sul e para o Norte, e para o Leste e para o Oeste,
pois ela tinha muitos assuntos a resolver. Um dia ela se lembrou do homenzinho
e resolver passar para ver como ele estava. Quando chegou ao prédio onde ele
morava, pediu para subir, mas o porteiro avisou que o homenzinho não gostava de
receber qualquer um. Então ela pediu para falar com ele pelo interfone. Escutou
a voz do homenzinho se lamentando:
“Que tristeza, que tristeza, tristeza”, o homenzinho dizia. “Eu não
deveria ser casado com uma mulher apenas. Eu deveria ter todas as mulheres que
eu quisesse e brincar com várias ao mesmo tempo, isso sim.”
A fada ficou pau da vida, mas resolveu lhe atender o desejo. Então ela
disse:
“Esta noite, antes de dormir, vire-se na cama três vezes e veja o que
vai acontecer.”
Na hora do jantar, a moça muito linda, loura e de cabelos compridos
disse ao homenzinho que tinha escutado toda a conversa dele com a fada pela
extensão, e que não permitiria aquilo. Os dois começaram a discutir e o
homenzinho disse que assim ela ia acabar sendo devolvida ao Brejo das Augustas.
Ela ficou muito zangada e lhe apontou uma arma. Quando o homenzinho acordou na
manhã seguinte, descobriu que havia sido dividido em quatro pedaços e que cada
pedaço estava dentro de um saquinho de pipoca. Um saquinho havia sido
despachado para o Sul, outro para o Norte, outro para o Leste e outro para o
Oeste. A fada anda muito ocupada, resolvendo muitos assuntos e não quer mais
saber do homenzinho.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A Guerrilha no Campo do Medíocre
A arte como um todo
sempre se ocupou dos extremos da condição humana: o mal absoluto e o bem
absoluto. Da luta entre o lado negro e o lado luminoso da força, entre Deus e o
diabo, entre céu e inferno, entre o herói e o vilão, o mocinho e o bandido.
Cinema, teatro, literatura, artes plásticas exibem estes extremos da situação
humana para deleite das grandes platéias desde sempre. A nós, os reles mortais,
caberia o papel de meros espectadores dessas batalhas épicas, torcendo sempre,
claro, pela vitória do Bem, o que quase sempre acontece no fim (pelo menos na
arte costuma acontecer). Findo o espetáculo, saindo do cinema, do museu ou
fechando o livro, retornamos à nossa vida ordinária, raramente fazendo um
paralelo entre a obra que nos deleitou e nosso dia a dia.
Há não mais que um
par de séculos, porém, a literatura começou a se ocupar não das grandes
batalhas entre a luz e as trevas, mas da guerrilha travada na intimidade de
cada alma, no corriqueiro, no dia a dia da rotina na aldeia humana. No conto “Bola
de Sebo”, Maupassant, retrata até certo ponto essa batalha secreta, surda e sem
glória. Nele, aristocratas são forçados a dividir uma carruagem com uma mulher
da vida, a heroína Bola de Sebo. Os esnobes abrem mão do preconceito quando a
necessidade, ou melhor, a conveniência de matar a fome se faz presente. Aceitam
de bom grado e fartam-se com parte do farnel que lhes é generosamente oferecido
pela previdente cortesã. Poucos dias depois, sacrificam sem nenhum remorso a
dignidade da moça quando a situação exige. Mas ainda ali, os campos ideológicos
estão bem delimitados, pois existe por trás da história a crítica social à
burguesia.
Assisti pela segunda
vez, meio por acaso, ao filme “Queime Depois de Ler”. Nele, os irmãos Coen,
dirigem John Malkovich, Brad Pitt e George Clooney, elenco de peso para compor
um palco de personagens sem charme, sem glória e de convicções, digamos,
flexíveis. A diferença aqui é que não se identifica ninguém por quem torcer nem
qualquer motivação ideológica dos autores. Quem foi assistir ao filme esperando
que a orquestra de violinos atacasse num crescendo no momento em que o Herói enfrentasse
o Mal na batalha final em defesa da honra e da virtude se frustrou. Deveriam
ter empregado melhor seu precioso tempo e ido assistir um filme de Mel Gibson.
Os irmãos diretores, como já haviam feito em “Fargo” e em “Um Homem Sério”, especializaram-se
em retratar de maneira cômica, quase carinhosa, as pequenezas dos medíocres,
que somos quase todos nós.
Temos todos empatia
imediata pelos heróis. Quando eles aparecem na telona, lotam as grandes salas
de projeção e têm garantida a nossa torcida. Um pouco mais difícil é nos
identificarmos com os anti-heróis que Joel e Ethan Coen nos apresentam. Eles
são parecidos demais conosco em suas covardias e mesquinharias. Mas, no fundo,
se abrirmos mão dos julgamentos morais e conseguirmos ter alguma identificação
com eles, talvez estejamos conseguindo enxergar nossas próprias limitações com
mais objetividade e, até, compaixão. Não é tarefa fácil. Talvez por isso seus
filmes sejam exibidos quase sempre nas pequenas salas de filmes cult.
Veja o clip do filme: http://www.youtube.com/watch?v=SUR_Wz3sFl0
domingo, 13 de maio de 2012
Everest, Culpa e Outras Divagações Dominicais
Li
a crítica positiva na Veja – sim caro leitor, sou assinante da Veja; aviso
logo de cara para que você, que posta aqueles quadrinhos pré-fabricados contra a revista no seu Facebook interrompa já aqui sua leitura e vá ocupar seu precioso tempo em coisa mais de acordo com suas crenças - sobre o novo livro de Luiz
Felipe Pondé. Não sosseguei enquanto não o comprei o “Guia
Politicamente Incorreto da Filosofia – Um Ensaio de Ironia”, recém lançado.
Aliás, o fato dele estar encabeçando a lista dos mais vendidos de “não ficção” me dá
esperanças de que exista uma parcela significativa de pessoas incomodadas com
essa ditadura do politicamente correto, ou “praga do PC” como diz Pondé. Pelo menos na parcela da população que lê e,
provavelmente, pensa de forma crítica. Li-o em pouco mais de um dia. Independente de se
concordar com seus pontos de vista, Pondé sobressai como excelente frasista.
Exemplos? “A Bahia é uma terra devastada pela alegria”; ou “Em mim, o amor é
raro como a virtude de uma mulher louca de desejo”. Só pelas contundentes frases de efeito, artigo raro hoje em dia, já vale a leitura.
Pondé
é médico nascido numa família de médicos. Numa aula do curso de medicina sobre
câncer, perguntou ao professor como se sentiria um paciente diante da certeza
da morte. “Meu filho, você está no curso errado, deveria estar cursando
filosofia.” Ainda tentou conciliar as coisas direcionando seu curso para a
psicanálise. Buscando aperfeiçoamento psicanalítico, enveredou pela Filosofia e nunca
mais a largou. No embalo da leitura, assisti alguns vídeos com entrevistas e aulas dadas por ele.
Contrariando o meu receio, pareceu-me uma pessoa desprovida de
agressividade ou rancor. Apenas um homem honesto consigo mesmo, casado e pai de família, que se diferencia da
maioria de nós pela curiosidade e perplexidade diante da fragilidade da condição
humana, suas grandezas e misérias e de nossa pequenez diante da Natureza. Que ousa encarar essa angústia, ao invés de tentar afogá-la com cerveja
e churrasco. Coragem para poucos.
xxxxx
Falando
em Natureza. Comprei
no mesmo dia o livro “Na Natureza Selvagem" – "Into the Wild” , do jornalista Jon Krakauer. O livro, que virou um ótimo filme, narra a saga de Chris MacCandless, rapaz de família rica que, assim que
se formou, entregou seu diploma aos pais, vendeu seu carro, doou todo seu
dinheiro e sumiu sem destino e sem dar notícias. Seu cadáver
decomposto foi localizado por caçadores de alces dois anos depois, dentro de um
ônibus abandonado na imensidão erma e gelada do Alasca. Krakauer, jornalista
que publica regularmente na National Geographic Magazine, no Washington Post e no New York
Times, já havia ganho projeção ao escrever “No Ar Rarefeito”, onde narrou sua
experiência pessoal escalando o Everest na temporada mais fatídica daquela montanha, e a mercantilização do alpinismo, onde empresas lideradas por veteranos do Everest se propõem a levar qualquer um que não seja doente ou aleijado
ao topo de mundo. Muito mais fascinante do que a análise crítica desse aspecto comercial do alpinismo radical é a
tentativa de entender o que leva o ser humano, ou alguns deles, a testar
seus limites diante da Natureza desafiando a morte. Existe um aspecto
universalmente humano nesse desafio. Não é apenas testar os limites físicos, ou
ver a paisagem lá do alto, nem mesmo tentar afirmar-se como mais poderoso e
corajoso que a maioria dos mortais. Trata-se da busca de um encontro com
uma instância mais profunda de si mesmo que a proximidade da morte
proporcionaria. Era isso que buscava MacCandless, é isso que buscam os
alpinistas de grandes altitudes, e o jornalista Krakauer identifica em si as
sementes da mesma “loucura”.
xxxxx
Ultimamente ouve-se muito sobre a responsabilidade do homem em salvar a Natureza. Depois
de “matar” Deus e de tentar ressuscitá-lo, o homem, em arrogância
pré-galileica, tem se arvorado como aquele que vai “salvar” ou “destruir” a
Natureza. No máximo, estamos tentando prolongar um
pouco mais o capítulo, ou melhor, a vírgula que a humanidade representa no
grande livro da Natureza. Ela vai continuar existindo depois do homem,
depois da vida sobre a Terra, depois que o Sol explodir. Não conosco, mas “sem
nosco”. A Natureza não é boa nem má, tanto engorda quanto mata. Tanto fornece
água limpa que alivia a sede quanto despeja a enxurrada que arrasa. Câncer é tão
natural quanto beija-flor. Mesmo assim, e talvez justamente por sua
impessoalidade majestosa, a Natureza é fascinante. Nós apenas tentamos agradar e barganhar
com o deus ou os deuses naturais, para que ela nos mostre mais o seu lado
favorável que o destrutivo.
xxxxx
Voltando
a L. F. Pondé. No livro ele aborda uma questão básica da filosofia: o homem é
originalmente bom ou originalmente mau? Para Hobes, o ser humano é
essencialmente mau e egoísta, e as coisas só não funcionam pior e conseguimos conviver em
razoável harmonia porque a sociedade, em nome da convivência, tolhe e pune os
impulsos egoístas individuais. Já para Rousseau, que no momento está ganhando de goleada no
meio acadêmico "politicamente correto", o homem é essencialmente bom, mas é corrompido pelo
meio, pela Sociedade. Caberia aí também confrontar a visão
judaico-cristã do pecado original (nascemos maus) com o conceito budista de que
somos essencialmente budas (nascemos bons) e apenas não permitiríamos, ou não
saberíamos como fazer com que esse buda se manifeste. Ressalve-se que o budismo estimula (cobra) do indivíduo o esforço inalienável de retirar o entulho que encobriria esse buda original em cada um de nós. A ênfase na culpa pode
desanimar e deprimir espíritos menos corajosos (ou com baixa auto-estima, para
usar um termo mais em voga). A vertente defendida por Rousseau, por sua vez,
pode retirar da esfera do individual a “culpa”, ou a responsabilidade por seus
atos e pelo resultado de seus atos. O culpado seria sempre "O Outro": a mãe, o
vizinho, o cunhado, a sociedade, o Estado, o "Capitalismo Selvagem" que me impedem de manifestar plenamente o ser
virtuoso que eu seria. No entanto, sabemos que só avançam na psicanálise
aqueles que têm a coragem de assumir a responsabilidade (culpa) pelo que não
vem funcionando bem em suas vidas, independente das circunstâncias mais ou menos favoráveis que cabem a cada um. Colocar a culpa no outro é a desculpa dos
que não querem ou não têm coragem moral para mudar. A falta total de culpa gera
monstros morais. Ou, no mínimo, gera pessoas preguiçosas, que não arrumam o quarto, deixam o capim crescer no quintal e
culpam o chefe por não subirem na carreira.
xxxxx
Ainda
sobre a responsabilidade moral. É fácil para nós, dessa distância segura, jogar pedras naqueles que,
pautados pelas questões práticas de sobrevivência própria e de seus familiares,
foram colaboradores dos nazistas durante a ocupação da França, ou daqueles que,
pelas mesmas razões, fecharam os olhos para o holocausto. Isso quando não denunciaram ativamente judeus escondidos no porão do vizinho na Alemanha do Terceiro
Reich. À distância, todos transbordamos das nobres virtudes da coragem e da compaixão. Eu, humildemente, sou perseguido pela dúvida em relação às minhas eventuais qualidades morais. Tenho dúvidas se agiria como colaborador ou se me engajaria na resistência. Estatisticamente apenas, as chances são de que eu seria um colaborador. Esse fantasma (essa culpa), me assombra. Acho mais saudável assim.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Ausentes
Quando ela entrou, todo mundo
olhou. Todo mundo é modo de dizer. Aqui em São José dos Ausentes, todo mundo em geral não
passa de meia dúzia. O campo de futebol, quando não serve de pasto para meia
dúzia de ovelhas, só é usado quando vem time de fora. Casados e solteiros não
rola. Vivos contra mortos, teriam que convocar o Borja, que tem uma perna mais
curta, para completar o time dos que ainda não foram. No caso em questão, todo
mundo éramos eu, o Borja e o Palhaço. O Borja nasceu por aqui e, raridade, está
aqui até hoje. Talvez por causa da perna mais curta, que o touro imprensou no
curral. É o gerente do posto e da lanchonete do posto. E o Palhaço é o
frentista. Quando a caravana do circo parou para abastecer, faz uns dez anos,
ele, de porre, foi urinar no banheiro dos fundos e dormiu por lá. Foram embora
e parece que até hoje não deram falta. Nunca vi ele rir. É o único palhaço de
bigodão ruivo que eu conheço. Quanto a mim, não interessa porque eu vim parar
aqui. Eu mesmo já quase estava conseguindo esquecer. Até que aquela mulher
apareceu para atrapalhar meu esquecimento.
Olhei pela vidraça para ver com
que carro ela tinha chegado assim sozinha no meio da noite. Para abastecer, com
certeza. Não sei se por causa da neblina ou por causa da lâmpada queimada do
poste, não vi carro nenhum. Nem moto, nem caminhão, nem montaria. Nem bicicleta
tinha lá fora.
“Banheiro?”, ela disse. O Palhaço
esticou o beiço inferior por debaixo do bigode, apontando o corredor do canto.
Ficamos os três calados, olhando um para a cara do outro, tentando adivinhar se
o outro estava pensando alguma besteira parecida com a que cada um estava
pensando.
O toc-toc das botas de salto que
ela usava, calça justa de jeans por dentro do cano alto, voltando. Continuei
sentado no canto ao lado da geladeira de refrigerantes, com os braços cruzados
por baixo do poncho e equilibrando a cadeira nos dois pés de trás, as costas
contra a parede. O motor da geladeira é meio barulhento, mas emite um
calorzinho bom. Ela sentou-se junto ao balcão e pediu um maço de cigarros para o Borja. Sacou um, pôs na
boca e fez aquela cara de “acende o meu fogo”. Ele puxou o isqueiro dos bêbados
pelo barbante, levou-o o mais perto que pôde da ponta apagada e apertou três
vezes até ele acender. Como o barbante era curto, ela teve que se curvar sobre
o balcão. Eu e o Palhaço trocamos um olhar, imaginando o ângulo de visão que o
Borja teria dos peitos dela.
“Obrigada”, ela disse depois de
uma baforada para o alto.
Fiquei olhando a dona por debaixo
da aba do boné. Ela parecia... Mas não podia ser. Ficou ali, sem pressa,
fumando e olhando o pôster do Internacional por cima da prateleira de bebidas.
Fazia biquinho, soltava a fumaça devagar, com gosto, estufando só um pouquinho
as bochechas queimadas de frio, com uns pelinhos louros bem fininhos. De onde
eu estava não dava para ver os pelinhos louros, mas dava para imaginar
direitinho. Depois amassou a bituca no cinzeiro e levou as mãos à nuca, puxando
um rabo de cavalo comprido de dentro do casaco de couro. Soltou os cabelos
claros do elástico e eles foram se espalhando, se abrindo à medida que ela
balançava a cabeça bem devagar, como as pétalas de uma flor que se abre
naqueles filmes em que passam a imagem bem acelerada, para parecer que a flor
se abriu assim, na cara da gente. Cabelo lustroso, bonito, parecia anúncio de
xampu. Eu já tinha visto cabelos como aqueles, se soltando daquele jeito, há
muito tempo atrás. Depois ela pediu um conhaque. “Frio lá fora”, justificou.
A essa altura, eu já estava
sentindo umas coisas que há muito tempo não sentia. Fiquei olhando para a dona,
até ela sentir aquela sensação na nuca que a gente sente quando estão nos olhando
por detrás. Então ela se virou e me viu. Cravou os olhos em mim e eu fiquei
firme olhando nos olhos dela. Senti um arrepio que foi das costas até a base da
nuca e gotas de suor brotando nas têmporas, por baixo do boné. Instintivamente
conferi a pressão que a bainha da faca de caça fazia na minha perna direita,
por baixo da calça larga. Sem tirar os olhos de mim ela se levantou e veio para
o meu lado.
“Posso?” Arrastou uma cadeira de
plástico azul de uma mesa próxima, que tinha uma estampa de uma marca de
cerveja no tampo, e sentou-se perto de mim. Levantei um pouco a aba do boné
para olhá-la melhor. Devo ter ficado quase um minuto sem piscar.
“Tu continuas bonita, apesar dos
anos. Um pouco mais pálida, mas bonita”, falei. E gostosa, pensei.
“E tu ainda sabes como cortejar
uma mulher."
“Achei que nunca mais ia te ver,
a não ser nos sonhos.”
“Tu sonhas comigo ainda?”
“Só de vez em quando”, menti.
“E essa barba? Usas há muito
tempo?”
“Desde que tu te foste.”
“Até que te caiu bem. E esses
fios brancos, as ruguinhas no canto dos olhos, te dão um ar maduro, bem
charmoso, que tu não tinhas.”
“Ponto para os anos, então. Pelo
menos essa vantagem eles trazem.”
Ficamos em silêncio, olhando para
os joelhos um do outro por um minuto ou dois.
“Por que resolveste vir atrás de
mim agora?”, perguntei erguendo os olhos devagar. "Ou vais dizer que chegaste aqui por acaso, obra do destino?"
“Fiquei te devendo uma
explicação.”
“Será que isso é possível, uma
explicação?”
“Entenda, tu viajavas muito.”
“Eu já era caminhoneiro quando me
conheceste. Ou não era?”
“Eras sim.”
“Tu te lembras daquela coisa de
amá-lo e respeitá-lo na saúde e na doença e etc.? E acho que tinha na presença
e na ausência também.”
“Não tinha não.”
“Mas devia ter, pombas. Respeitar
tinha e tu juraste ali, na frente do padre e de todos, olhando nos meus olhos.”
“Na hora era verdade. Mas a
solidão dói. Doía barbaridade. Quando tu voltavas, a dor cessava um pouco. Não
de todo, porque já antecipava a próxima partida. E quando tu partias, de novo e
de novo, a felicidade ainda persistia por um tempo, por uns dias. E depois a
dor, a saudade, o vazio que tu deixavas, aquele vazio imenso latejando. Não era
tédio, era dor. Uma dor pedindo por teu abraço, por teus beijos. Eu achei que
outro abraço, outro beijo poderia me anestesiar da tua ausência. Pois saiba,
então: não podiam. Não puderam.”
“Mas tinha que ser logo com o
Jurandir? Meu amigo, meu mecânico, meu companheiro de pescaria? Quando me
avisaram do acidente, eu já estava para lá de Belo Horizonte. Não me contaram a
princípio que tu não estavas sozinha no carro. Só depois me disseram que ele
estava também. E só no velório eu soube que a carreta atingiu nosso carro na
saída do Motel Vênus. E eu ainda fiquei quase dois anos pagando por aquele
troféu de corno feito de aço retorcido.”
“Eu fechava os olhos e imaginava
que eras tu.”
“Perdi a mulher, o mecânico, o
companheiro de pescaria, o respeito das pessoas. Tive que passar a levar o
caminhão para consertar lá em Bento Gonçalves. E o que eu ganhei em troca?”
“Eu sempre exigia que se apagasse
a luz.”
“Um par de chifres e cabelos
brancos.”
“Eu nunca deixei de te amar.”
“E por que tu pensas que eu
acreditaria em ti agora?”
“Eu não tenho por que mentir. Não
agora.”
Ela passou suas mãos por baixo da
lã do poncho e segurou meu braço, os dedos finos e frios. Um arrepio me subiu
pelo braço até o pescoço, um arrepio bom e quente. Fui aos poucos relaxando a
musculatura, como numa rendição. Ela deslizou os dedos até os meus e puxou-me
com suavidade, fazendo a cadeira desencostar da parede e os quatro pés pousarem
no chão.
“Você não imagina como foi
difícil te encontrar aqui. Mas nunca desisti.”
Levantei os olhos até os olhos
dela e fiquei olhando aquele azul pálido, as pupilas dilatadas, aquelas gotas que
surgiam nos cantos. O compressor da geladeira deu um tranco e parou de fazer
barulho. Quis ainda exercer algum direito de vingança, dizer algo que a ferisse
profundamente, que nos deixasse quites:
“O Inter também foi campeão
mundial de clubes, viu?”
“Eu vi o pôster.”
“Na final, o Ronaldinho estava no
outro lado, no Barcelona, e perdeu.”
“É mesmo?” Ela não parecia nem um
pouco atingida. Abriu um sorriso. “Seu bobo!” Então me beijou um beijo quente
com seus lábios frios, um leve cheiro de terra como perfume. Depois me segurou
as duas mãos, ergueu-se e me puxou.
“Tem uma lua linda lá fora. Vem.”
Levantei-me e deixei-me guiar.
Senti no rosto o vento gelado quando a porta se abriu. Então olhei para trás,
por cima do ombro, para o bigode ruivo do Palhaço. Tentei decorar aquela forma,
aquela cor. Seria a última vez que eu o veria.
domingo, 15 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
A Soma e a Unidade
Não é hora para sentir essas coisas, não ainda. Algo decente dentro de mim deveria impedir esses sentimentos inoportunos, essa luxúria egocêntrica, esse calor onde só deveria haver frio, um frio escuro e quieto. Será que eu não presto? Serei egoísta e insensível? Ingratidão, isso, ingrata é o que eu sou.
Tudo o que vivemos juntos, eu e Fábio, o namoro, o noivado, a paixão, as dificuldades do início do casamento. Às vezes em que gostaríamos de ter jantado fora, de termos viajado, e os dois ali, parceiros, economizando para as prestações do dois quartos na Zona Sul. Ele dando plantões no fim de semana enquanto eu contribuía só com a bolsa do mestrado. Depois, a gravidez da Júlia, depois a da Bianca, o dinheiro parecendo que ia ser curto a vida inteira. E a vida a dois sacrificada, o sexo sacrificado em nome do projeto família. Ele nunca se queixou. Um santo. Realmente, nunca vi queixa, nem em seus olhos, nem nas entrelinhas. Eu não era assim, tão santa. A duras penas engolia as minhas insatisfações, às vezes engasgava e elas caíam na mesa, injustas, mas vivas e pulsantes. Nem disso ele se queixava. Amava mesmo assim a mim, as meninas, o apartamento pequeno, o projeto que era mais dele do que meu.
As promoções, os progressos financeiros, o posto de major, o primeiro de sua turma a alcançá-lo, eram para o projeto de família, para mim e para as meninas. Enfim, a viagem foi possível: os quatro para a Disney. Os quatro, sempre os quatro. Ele era uma fração do quatro, enquanto eu nunca deixei de ser uma unidade. Nunca tive essa capacidade, esse esvaziamento da individualidade. Eu queria ser apenas eu. Queria ser amada como Paula, como mulher, como amante, não apenas como mãe ou esposa. Difícil admitir tanta ingratidão. A sorte grande, o marido perfeito, bonito, trabalhador e bom pai. O genro que meus pais sonharam. Quando eu chorava baixinho à noite ele acordava perguntado “Que foi meu bem?” e me beijava as lágrimas e me acarinhava o cabelo, e eu chorando aquelas lágrimas injustas e egoístas. Ele poderia ser como a maioria: chegar tarde sem deixar bem claro o por quê, beber com os amigos, voltar cheirando a cerveja e desabar na cama. Eu lhe tiraria os sapatos e maldiria a minha sorte, desejaria com o peito arfante o dia em que ele chegaria sóbrio ou menos bêbado e me possuiria à força. Talvez isso me fizesse infeliz e apaixonada. Mas não fui nem uma coisa nem outra.
E então a apendicite. O diagnóstico protelado. A peritonite. “Cuide bem das meninas”, ele disse ainda. Desde então, quatro meses de vida em turbilhão, no tambor da máquina de lavar. Chorei sim, chorei muito, mas, depois de uma semana, não chorava mais. Sem nenhum esforço, a tristeza secou. “Pelo bem das meninas,” menti, “tenho que ser forte”. Não precisei fazer força, e essa verdade me dá bofetadas na cara. “Nossa, como você é forte, como você está bem!” Será que eles desconfiam que não foi tão difícil como deveria ser?
E agora a vontade de rir, que tenho que modular. Acho graça nas coisas que me contam, quero uma roda com as amigas, quero saber das novidades e da vida alheia. Quero beber e gargalhar como há muito tempo não faço. A pensão integral não deixa que eu perca o sono por causa de dinheiro. E eu sonho. Sonho com Fábio, ele me acaricia os cabelos e beija as minhas lágrimas. Mas quando o sonho me abrasa e desperto ofegante, sonho com alguém que não tem rosto. Quando acordo, só o que quero é descobrir qual é o rosto desse homem que, na noite, me faz mulher.
sábado, 24 de março de 2012
Decidir com o coração?
Rogério ultimamente vem gastando bem mais do que deve ou pode. A fatura de seu cartão de crédito vinha sendo quitada integralmente a cada mês, mas já faz mais de ano que parte da dívida é sistematicamente rolada para o mês seguinte. Rogério tem economias aplicadas em caderneta de poupança em volume suficiente para quitar o total de seu débito com o cartão, que vem se avolumando como bola de neve. Apesar de suas aplicações renderem pouco mais de 0,5% ao mês e os juros cobrados pelo cartão serem superiores a 6% em igual período, ele se recusa a tocar no dinheiro que guarda para o futuro dos filhos ou para um imprevisto. “As economias são sagradas e nelas eu só mexo em último caso”, diz seguro e orgulhoso. Antes do fim do ano a dívida do cartão vai ultrapassar o valor das economias, mas Rogério parece não se dar conta disso.
xxxxxxxx
Sabrina é uma mulher alta, de porte elegante e rosto bonito. Nasceu em uma pequena cidade do interior, mas foi completar os estudos na capital e acabou por tornar-se uma profissional bem sucedida, já tendo trabalhado para multinacionais em Porto Alegre e Curitiba. Apesar de, por um determinado tempo, ter priorizado a carreira, diz que nunca deixou de ser romântica. Pouco depois dos trinta reparou que quase todas as suas amigas estavam casadas e ela ainda solteira. Não que tivesse dificuldades em conseguir encontros e namoros: atraente como é isso nunca foi problema. Então, movida por um sutil desespero, ela decidiu que já era hora de arranjar alguém para casar. Talvez fosse essa urgência que transparecesse em seus relacionamentos a partir daí, talvez os homens se sentissem pressionados a assumir compromisso mais sério, o fato é que ela, paradoxalmente, passou a ter dificuldade em levar a duração de qualquer relacionamento além de uns poucos encontros. Num fim de dezembro, numa visita aos pais em sua cidadezinha natal, soube que Eric, uns dez anos mais velho que ela e antigo namorado de juventude, havia se divorciado. Deu um jeito de encontrá-lo em uma festa e abanar aquele fogo antigo. Para encurtar a história, em seis meses estavam morando juntos. A carreira? Ela pediu demissão de seu emprego em Curitiba e, com indicação de amigos, conseguiu uma colocação na prefeitura local. O salário? Bem menos da metade do que recebia antes. Valeu a pena? Essa resposta é um pouco mais complicada. A princípio sentia-se radiante em poder ir às festas e apresentar Eric como “meu marido”. Tinha o lar que sempre sonhou, gostava de limpar e enfeitar a casa e cuidar do marido. Só faltavam os filhos, um que fosse, para sua felicidade ser completa. Aí as coisas começaram a desandar. No primeiro casamento, Eric não tivera filhos. A princípio dizia a Sabrina que era melhor ficarem um tempo só os dois. Depois de alguns anos, como Sabrina insistisse no assunto, confessou que não tinha nenhuma intenção de deixar descendência. Disse e tomou providências. Temeroso de que a mulher deixasse de usar métodos anticoncepcionais, passou ele mesmo a tomar esse cuidado. Com o tempo, radicalizou: passou a evitar qualquer contato sexual. Infeliz e chorosa, Sabrina desabafava com os amigos. Esses eram unânimes: “Largue o Eric e procure outra pessoa.” Passados nove anos, Sabrina continua casada e infeliz. Não tem qualquer filho que a prenda a seu relacionamento atual. Sente raiva de Eric. Tanta raiva que, talvez por vingança, tem mantido um caso extraconjugal com um homem casado. Já passou dos quarenta, e a maternidade vai se tornando um sonho difícil de realizar.
xxxxxxxx
Pedro Paulo, pouco depois de formar-se em engenharia, fundou com dois colegas de faculdade uma pequena indústria. Investiram no negócio as economias próprias e dos familiares. Fabricavam artigos eletromecânicos inovadores. Depois de muito esforço e dedicação, conseguiram seu espaço no mercado. Na época, trinta e poucos anos atrás, havia pouca concorrência estrangeira, e os produtos eram duráveis e confiáveis. O negócio deslanchou e ficaram quase ricos. Davam a suas famílias vidas bastante confortáveis e sentiam-se orgulhosos de seu empreendimento. Os anos se passaram e o mercado mudou. Duas multinacionais instalaram-se quase simultaneamente no país e passaram a produzir equipamentos para o mesmo fim. Não eram tão duráveis e confiáveis, mas utilizavam componentes eletrônicos chineses e eram vendidos por menos da metade do preço da concorrência. A indústria de Pedro Paulo começou a perder mercado. Reuniram-se os sócios e os filhos dos sócios, já adultos, para decidirem que rumo tomar. Poderiam tomar empréstimos para diversificar e modernizar sua linha de produtos. Poderiam vender a indústria enquanto ela valia alguma coisa, e havia pelo menos um interessado. Ou poderiam deixar a coisa como estava e aguardar os acontecimentos. As duas primeiras opções implicariam em desapegarem-se do passado, fazer sacrifícios e buscar novas perspectivas, talvez até em outro campo de negócios. Luiz Carlos, um dos fundadores, era favorável a tomarem empréstimos para investimentos, mas foi voto vencido. Os empréstimos acabaram sendo tomados, mas usados apenas para quitar dívidas com fornecedores. Luiz Carlos acabou vendendo sua parte aos outros sócios e, usando seus conhecimentos no mercado, abriu uma distribuidora. Vai muito bem, obrigado. Pedro Paulo e o outro sócio remanescente têm fortes ligações afetivas com a empresa, com os antigos funcionários, com o galpão da fábrica, com suas rotinas de trinta anos. Estão naufragando lenta e inexoravelmente agarrados ao passado.
xxxxxxxx
Em uma crônica anterior* rendi homenagens aos nossos antepassados, ilustres desconhecidos que, baseados na avaliação lúcida e objetiva da realidade, tiveram o discernimento e a coragem de tomar a decisão acertada na hora devida. A eles devemos a nossa existência. A eles devemos a sobrevivência da espécie humana. Eles souberam usar adequadamente sua maior vantagem evolutiva, a inteligência e a capacidade de, racionalmente, prever os lances seguintes de cada possibilidade. Desvencilharam-se de seus condicionamentos e de seus medos para nos trazerem até este ponto em que estamos. Ainda existem hoje seres humanos com essa capacidade e deveríamos nos esforçar para sermos um deles. A felicidade e talvez a sobrevivência nossa e de nossos eventuais descendentes dependem disso. E, no entanto, fico abismado com a quantidade de pessoas que fecham os olhos ao óbvio e, guiadas pelas emoções, deixam de tomar tempestivamente a decisão correta. De minha parte, procuro guardar a emoção para os momentos de bonança. Para, apaixonadamente, acarinhar minha mulher e meus filhos e torcer por meu time de coração. Já na hora crucial da decisão, quero estar de posse de minha inteligência e racionalidade.
segunda-feira, 19 de março de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
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