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sábado, 16 de julho de 2011

A Roda

“Prezado Sr.

Gostaria de relatar-vos recentes ocorrências observadas ao fim da análise dos registros dos sensores de pensamentos do Setor W 37. No exercício de minha função de Supervisor, percebi algumas leves variações de freqüências mentais que, ocasionalmente, fugiam da freqüência padrão, que é sempre caótica. Com efeito, nos últimos ciclos de tempo, observei diversos, embora breves, períodos harmônicos no sub-setor W 37-D. Levei em conta a possibilidade de tratar-se de um artefato no registro dos sensores e então repassei diversas vezes os dados. Pude constatar de forma inequívoca que essas harmonizações obedecem a um padrão que, uma vez compreendido, permitiu-me antecipar com surpreendente confiabilidade novas ocorrências.

Essa observação me causou alarme. Muito embora, como oficial de média patente, meu conhecimento sobre a totalidade do Sistema seja bastante restrita, tenho a nítida compreensão de que uma possível disseminação da harmonização das ondas mentais entre os seres humanos teria conseqüências nefastas para a segurança do mesmo.

Parece-me que a ameaça é ainda mais grave, lamento dizer. Após essas constatações no setor W37, procedi a uma revisão sistemática dos registros de freqüência de todos os demais setores sob minha responsabilidade. Detectei padrões semelhantes, embora ainda bastante sutis, nos Setor W 35, contíguo ao W 37, mas também no W 83 que, como o senhor bem sabe, não guarda nenhuma relação de contigüidade geográfica com os outros dois. Temo que a coisa toda possa vir a fugir do controle.

Em face da inequívoca gravidade dos fatos que ora relato, informo que não dei ciência dos mesmos a nenhum de meus colegas supervisores. Encaminho cópia dos dados compilados para que se proceda a uma reanálise que, certamente, se fará necessária. Entendo que o Controle de Segurança deva dar máxima prioridade à avaliação dessa questão e que providências cabíveis sejam tomadas com a necessária urgência.

Aguardando instruções,

Assinado: Capitão Bzourg
Supervisor dos Setores W, Ala impar.”

O Coronel Panthiakos terminou a exposição em voz alta do relatório, baixando-o em seguida sobre a mesa do General. Retirou lentamente os óculos de leitura da ponta do nariz e dobrou-os, guardando-os em seguida no bolso interno do paletó do uniforme. Tentou adivinhar a impressão que aquelas informações causariam por detrás da face pétrea de seu superior.

O General Paguris lentamente inclinou-se para trás, juntando a ponta dos dedos de ambas as mãos sobre seus lábios finos, os cotovelos apoiados nos braços da poltrona e os olhos estreitos e azuis cravados em algum ponto da parede às costas do Coronel. Após alguns longos segundos de silêncio, piscou duas vezes e ergueu o olhar para seu interlocutor:

“Coronel”, disse em voz grave e pausada, “como Supervisor Geral, o Sr. talvez possa vagamente alcançar o risco que esta merda, que teima em acontecer de tempos em tempos, pode causar ao Sistema como um todo. Na verdade, já estávamos cientes dessas ocorrências no Setor W. Já tivemos ocorrências semelhantes em épocas passadas nas Zonas 17, 41 e 79, mais conhecidas na Terra como Índia, Israel e Tibet. Desde então, aprendemos a valorizar os mais leves indícios de fatos que possam vir a pôr A Roda em perigo. Naqueles episódios, nossa reação foi tardia e levamos séculos terrestres para restabelecer o ciclo ideal d'A Roda, que correu considerável risco de parar de girar permanentemente. Aqueles lamentáveis episódios nos ensinaram a valorizar os menores indícios de oscilação, procedentes ou não, pois sabemos que um em cada quatrocentos episódios pode ser efetivamente perigoso para A Roda. Ao longo do tempo, no entanto, desenvolvemos estratégias que têm se mostrado eficazes em neutralizar essas oscilações. Essas ocorrências mais recentes atingiram nível 2B de alarme. Devemos, pois, aplicar o Protocolo Laranja, aprovado recentemente pelo Conselho.”

O Coronel Panthiakos ouvia e mal disfarçava a excitação e o prazer, antecipando alguma ação, afinal. Depois de tantos anos de treinamento para uma emergência, ele receava que uma situação assim nunca viesse a ocorrer antes que fosse deslocado para a Reserva. Sentiu o coração acelerar-se e o sangue correr mais rápido em suas veias e artérias com a perspectiva.

“Vejamos, Coronel” continuou o General, “quais são nossas metas, estratégias e providências:

Primeiro, devemos oferecer mais recompensas de curtíssimo prazo para aqueles que mais se empenharem nos Ciclotrons. Sabemos que, assim, quase todos os humanos abrem mão de praticar a geração de freqüências harmônicas, pois estarão sempre cansados demais ao fim de cada turno, embora ávidos para voltarem aos Ciclotrons no turno seguinte, e no outro, e no outro, até o fim de suas vidinhas miseráveis, só para conseguirem acumular mais quinquilharias inúteis.

Devemos restringir os contatos interpessoais profundos, oferecendo cada vez mais facilidades para a multiplicação de contatos superficiais e despersonalizados. Estes, sendo assépticos e menos emocionais, são facilmente controláveis via rede Ilusionik. Sabemos dos riscos que a multiplicação de contatos dérmicos e emocionais pode trazer à estabilidade do Sistema. Redobraremos ainda a vigilância para que não venham a ocorrer ajuntamentos de humanos em ambiente de silêncio. Reuniões de multidões, como o Sr. certamente deve ter aprendido na Escola de Oficiais Superiores, não trazem em si nenhum problema intrínseco e podem até ser muito úteis aos nossos objetivos, desde que haja níveis elevados de som e ruídos escolhidos por nós, que provoquem sempre a geração de ondas mentais de padrão desarmônico ou caótico. Assim procedendo, aliviamos as eventuais tensões inquisitivas. O questionamento daquela realidade que criamos para eles é o perigo maior. Poderiam vir a descobrir que não estão em estado parasitário com seus Ciclotrons e que nada os impede, na realidade, de levantarem-se e saírem andando por suas próprias pernas que, embora atrofiadas pelo desuso, poderiam levá-los aonde quisessem. Isso caso seus cérebros subjugados pudessem redescobrir a capacidade de observar seus próprios pensamentos cativos e então decidir pela liberdade de escolher o que pensar. Sabemos o caos que uma situação assim, de pensamentos expontâneos e não previsíveis, fora do padrão circular, poderia trazer. Haveria sérios riscos para a continuidade da geração da energia tão fundamental para a sobrevivência de nossa civilização superior.

O Ministério da Propaganda vem, como sempre, trabalhando duro na manutenção de nossa linha de convencimento sutil e é assim que desejamos resolver o problema. Em último caso, temos os focos harmônicos bem identificados e não teríamos maiores dificuldades em esmagá-los, se necessário. Essa, porém, seria uma estratégia de exceção. Devemos, porém, estar atentos a um perigo potencial: a última coisa de que precisamos são mártires. No passado uma estratégia desastrada aplicada em Jerusalém nos trouxe problemas graves, que levaram milênios para serem neutralizados, como o Sr. bem sabe.”

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cilada: Fui à Passeata

(Essa história eu escrevi em 2006, logo depois de estourar o escândalo do mensalão. O fogo da fervura estava quente na época, depois esfriou. Até hoje não entendo porque as denúncias contra Collor e PC Farias, que eram fichinha perto do que fizeram o PT e Marcos Valério, geraram os caras pintadas e o Impeachment, enquanto o mensalão até hoje não deu em nada.)

Nos meus tempos de estudante, nunca participei de atos públicos nem saí em passeata. Não fui do Diretório, pois achava que ser do Diretório era incompatível com estudar Medicina e que todos do Diretório eram comunistas, maconheiros ou pouco chegados ao estudo, que preferiam dedicar-se às ciências do ping-pong e do totó. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Há pouco tempo, recebi por e-mail um convite para participar de um ato público e passeata de repúdio à corrupção e à impunidade. Já trazia meu protesto solitário no vidro traseiro do carro há alguns meses, e, embora pouco à vontade, senti que não seria coerente se não participasse. Lá fomos nós, eu e minha mulher, domingo à tarde, para a grande manifestação que deveria acontecer na Cinelândia. Parei o carro à distância de alguns quarteirões e seguimos a pé, vestindo preto, como pedia a convocação. De longe avistamos o carro de som, e, em volta, uma multidão de cerca de doze pessoas. Deu vontade de voltar, mas já estávamos ali, fomos ver de perto como as coisas iriam ou não iriam se desenrolar.

Aos poucos percebemos mais pessoas de preto a distâncias variáveis, certamente esperando para decidir se se aproximavam ou não. Cerca de trinta policiais observavam de longe, tranqüilos de que não teriam muito o que fazer. O líder do movimento, um homem de cerca de quarenta anos, cara de pequeno empresário pintada de verde e amarelo, se apresentou e deu as boas vindas. Apresentou alguns dos outros gatos pingados, todos protestadores profissionais, pedindo pela punição dos assassinos de uma adolescente, pelo banimento da raça pitbull e outras causas mais ou menos nobres. Depois ele mandou o carro de som mandar ver. Atacaram com "Eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco azul anil" (que roubada!)

 "Meu amigo, essa não", protestei, "isso é hino da ditadura, essa aí não pode não!"

Não é possível que não soubessem. Mas meu protesto deu certo, não tocaram mais essa.

Um grupo estendeu uma bela faixa com a bandeira do Império, pedindo o fim da República e a restauração da Monarquia. Outros estenderam no chão um rolo de plástico de dois metros de largura por muitos de comprimento, estampado com muitas bandeiras do Brasil (era época de Copa do Mundo). Uma velha senhora trouxe um balde, que enchera de água no Amarelinho, algumas vassouras e uma caixa de sabão em pó. Alguns começaram a enxaguar o Brasil, para alegria da Imprensa, que a essa altura já se fazia presente e disparou as suas câmeras.  Algumas pessoas de preto deixaram as escadas do Municipal e as mesas do Amarelinho e se animaram a participar. Distribuíram adesivos com a palavra "Basta", narizes de palhaço e apitos, que começamos soprar furiosamente.

Apareceram as musas Lúcia Veríssimo e Christiane Torloni, que subiram no carro de som e fizeram discursos. "Parece que colocaram ecstasy no Guandu, ninguém protesta!" Concordei e achei que colocaram também nas Águas de Niterói.

Uma mulher, que se apresentou como empresária em dificuldades, pegou o microfone e disse saber de fonte segura que estava prestes a ser votado no Congresso um Projeto de Lei que estabelecia o confisco de qualquer ganho mensal individual superior a R$ 4.000,00. Alguns crédulos do Apocalipse Now arregalaram o olho. Vão pedir a volta dos Militares, pensei. Roubada!

Agitou-se uma enorme bandeira do Brasil e, depois, aquela pequena e heterogênea multidão, já cerca de quinhentas pessoas, saiu em passeata. A Lúcia Veríssimo acompanhou a pé até o fim, a Christiane eu não vi mais. Contornamos o Passeio e a Praça Paris, congraçando neo-monarquistas, neo-totalitaristas, P-Solistas, pequenos empresários endividados, jovens estudantes de coração puro e revoltados de primeira viagem (nós dois). Até que foi bonito. Viva a liberdade de expressão, esse valor tão caro!

Fomos para casa e ficamos assistindo o Fantástico para ver a repercussão, afinal a Globo também estava lá. Cid Moreira registrou o fato em cerca de sete segundos, uma frase. A Christiane Torloni apareceu em off no alto do carro de som.

Não me arrependo de nada!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Adeus, Dona Stella

Dona Stella no aniversário de cem anos
Dona Stella já tinha 94 anos de idade quando a conheci. Acompanhada de sua filha, adentrou o consultório com passos firmes, os cabelos brancos bem penteados em ondas suaves, que emolduravam um sorriso simpático e firme num rosto maquiado com elegância. Como sempre acontece quando atendo nonagenários, foi uma consulta de mão dupla: busco sempre desvendar os segredos da longevidade saudável. Não é novidade que as pessoas que chegam com saúde aos oitenta dificilmente vão necessitar de internação hospitalar nos anos que ainda têm pela frente. A predisposição genética é importante, mas, no caso de Dona Stella, acrescentava-se a ingestão diárias de várias porções de frutas, intercaladas com visitas freqüentes ao restaurante de comida mineira próximo de sua casa. Rabada, cozido, costela de porco, pastéis e bobó de camarão listavam entre seus quitutes favoritos. O mais significativo, porém, era sua leveza interior e a persistente curiosidade pela vida. Assistia novelas, mas também o noticiário. Tinha opiniões sobre os mais recentes fatos políticos nacionais e internacionais, que ela acompanhava na imprensa escrita e nos telejornais.  Não tinha qualquer queixa da velhice, nem física nem emocional. Ao fim daquela consulta, fiz o que sempre faço com esses veteranos da existência: dei-lhe um beijo onde se misturavam reverência e esperança nada científica de ser contaminado com o vírus da longevidade.

Aos 98, Dona Stella sofreu um AVC logo após o Natal, o que lhe restringiu gravemente os movimentos do lado direito do corpo. Nem isso, porém, lhe abateu o espírito. Continuou alerta, jovial e bem humorada. Uma vez, quando ela andava com dificuldade amparada por uma cuidadora, gingando o corpo para fazer avançar a perna preguiçosa, alguém começou a cantar “Na Boquinha da Garrafa”. A filha gravou a cena na câmara do celular. Dona Stella adorou o filme e pediu que fosse enviado para toda a família e amigos pela internet.

Tive a honra de ser convidado para a festa de seu centésimo aniversário. Na ocasião, os familiares se cotizaram para uma bela celebração com direito a bufê, garçons e discurso da estrela da noite. Guardo com carinho a fotografia em que eu e minha mulher estamos a seu lado – ela, como sempre, sorrindo com elegância. Brinquei na ocasião que, se tivesse sido avisado com antecedência, bancaria a festa, desde que ela usasse uma camiseta com os dizeres “manutenção feita pelo Dr. Ralph”.

Acompanhei a saúde de Dona Stella por treze anos desde aquela primeira consulta, passando a atendê-la em sua residência após o AVC. Sua figura nunca me suscitou pena. Mais que a fragilidade de seu corpo, sobressaía a força serena e altiva de seu espírito, que se conservava firme e jovial. Em todo esse tempo, ela nunca deixou de passar pelo menos uma temporada por ano na casa de sua juventude em Barra do Furado. Teve uma única passagem por hospital quando, durante uma temporada de férias, sofreu dores no peito, o que se revelou depois ser um alarme falso. Nessa internação, quando uma enfermeira lhe pediu que tirasse a dentadura ela protestou: “Que dentadura, minha filha? Estes dentes são meus!”.

Dona Stella tinha um único medo: que um de seus filhos partisse antes dela. Os temores tinham fundamento, pois, afinal, seus filhos aproximavam-se dos oitenta, e nem todos tinham boa saúde.

Então, veio uma gripe forte da qual ela custava a recuperar-se. Chamou a filha com quem morava e, muito séria, pediu o telefone: queria falar com o filho que mora no interior. “Lá vem você com bobagem”, pressentiu a filha. E ela séria: “Você vai me trazer o telefone ou não?” Falou então ao filho mais velho que sabia que sua hora estava próxima, fazendo ele prometer que não deixaria a irmã, que é solteira, desamparada. Que estava serena, sem qualquer medo da passagem que ela sabia próxima.

O quadro clínico, dessa vez, não evoluía bem, e insisti que fosse levada ao hospital. Uma vez internada, ela melhorou um pouco. Numa manhã, convidou a filha para cantarem juntas “lata d’água na cabeça, lá vai Maria...”. Riu um bocado, almoçou bem, pediu sobremesa e depois sorriu demoradamente. Então fechou os olhos e, serena, partiu.

Adeus Dona Stella. Foi um privilégio conhecê-la e conviver com a senhora. Se o céu existe, a senhora está lá.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Politicamente Correto e o Direito de Opinião

Freedom of Speech, por Norman Rckwell
Vejo nos dias de hoje um exagero perigoso do PC - Politicamente Correto. Existe enorme apetite da mídia em divulgar frases infelizes. A exposição ingênua (para não dizer exibicionismo puro e simples) dos anônimos em geral e das celebridades da hora, via Twitter, Facebook, Blogs e outras ferramentas de nossos tempos multiconectados facilita muito o trabalho. Não é à toa: seções tipo "entre aspas" das revistas semanais fazem enorme sucesso.

A bem da verdade,  todos dizemos umas asneiras de vez em quando (embora alguns sejam campeões). Coisas que nos envergonhariam se fossem publicadas: opiniões preconceituosas, frases infelizes, julgamentos tendenciosos ou equivocados. Lementavelmente, asneiras são muito mais fáceis de se ouvir do que frases inteligentes e opiniões relevantes. 

Nesta matéria, existe uma oposição entre dois conceitos de difícil convivência: a liberdade de expressão de um lado, e o combate ao chamado hate speech do outro, a incitação por meios de comunicação do ódio ou da violência contra qualquer grupo racial, étnico, religioso, político ou sexual. Em quase todos os  países, o hate speech é crime. Porém, nos Estados Unidos, a defesa da liberdade de expressão (freedom of speech) é tido como um valor maior do que o combate ao hate speech. A liberdade de expressão é um direito previsto não apenas na constituição norte-americana, mas também na Declaração Universal dos Direitos do Homem, elaborada na ONU e ratificada por quase todos os países (pelo menos no plano teórico). Porém, em muitos lugares e épocas, o livre pensar é só pensar, como disse Millor Fernandes. Mesmo nos Estados Unidos, a guerra fria fez o Macartismo parecer aceitável para a maioria dos americanos, assim como o Onze de Setembro pareceu legitimar a violação da privacidade de cidadãos de origem muçulmana em tempos recentes.

No plano doméstico, por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro ou qualquer outro cidadão brasileiro tem todo o direito de ser contra a união estável entre homossexuais, embora não tenha direito a incitar o ódio ou a discriminação contra homossexuais. Publicar no Twitter "faça um favor a São Paulo: afogue um nordestino no Tietê", como fez uma estudante de direito recentemente, é crime. Mas alguém dizer para seu vizinho "eu não gosta de pretos" (ou negros, ou, na linguagem PC, afro-descendentes) seria crime ou direito sagrado de opinião?

Há o risco do Politicamente Correto ser utilizado para restringir a liberdade de opinar, de questionar e de se manifestar contra o Sistema vigente, seja ele qual for. Citando Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Mais que burra, a unanimidade é a receita infalível para a estagnação e o atraso a longo prazo. Tanto faz se a unanimidade é imposta ou fruto de conformidade espontânea de um povo bovino. Os jovens atuais, que não viveram o regime de exceção, não têm a menor idéia do perigo que isso representa. Há, no Brasil de hoje, um relaxamento natural que pode ser (vem sendo?) utilizado pelo Sistema vigente para abafar qualquer idéia dissonante.

Se devemos nos indignar contra a prisão do Prêmio Nobel da paz Liu Xiaobo e o cerceamento da liberdade do artista plástico Ai Weiwei pelo governo chinês, devemos também defender com ardor o direito de Jair Bolsonaro ser contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo, independente de concordarmos ou não com ele. Vale reler 1984, de Orwell. E já na antiguidade, o poeta romano Juvenal se preocupava: afinal, quem vigia os vigilantes?

domingo, 5 de junho de 2011

Pagode do Fim do Mundo

A proposta era clássica: "O Que Você Faria Se o Mundo Acabasse Amanhã", em forma de poesia. Imaginei como o Dicró, ilustre sambista, pagodeiro na melhor acepção da palavra, resolveria a parada. Humildemente, pedi inspiração aos sambistas vivos e mortos. Saiu o que se segue. Como não tem partitura, tentem imaginar uma mesa de bambas, com cerveja, uma branquinha, violão, cavaquinho, pandeiro e, claro, umas belas mulatas requebrando junto à mesa.
(aceito parceria para a música).

Pagode do Fim do Mundo

Apareceu-me um anjo num sonho
Me disse que o mundo já ia acabar.
Caí da cama num susto medonho
E achei que o melhor era me preparar.
Tomei uma branquinha, beijei a vizinha,
Soltei o cachorro, comi vatapá.
Mandei ver no torresmo, cerveja e picanha.
A consulta com o doutor eu mandei desmarcar.

(Refrão)

Por quê?
Porque vai se acabar!
Porque vai se acabar!
Deixa de ser mesquinho, aproveita o restinho,
E senta pra ver o mundo se acabar.

Pensei em ligar pro patrão e avisar
Mas o tempo era pouco pra tanto, afinal.
Torrei a poupança, gastei em brinquedo,
E fiz pra molecada um segundo Natal.
Falei: não precisa seguir pra escola
Comprei bala, pipoca, doce e guaraná.
Organizei uma pelada na praça
É chutando uma bola que eu vou me esbaldar.

(Refrão)

Depois tomei banho e botei um perfume,
Chamei minha nega pra gente deitar.
Não dormi de touca, eu beijei na boca,
Namoramos como antes de a gente casar.
Quando ela dormiu, levantei de mansinho
E fui pra varanda pra ver o luar.
Peguei o cavaco e fiz esse pagode,
Se amanhã vai dar bode, hoje eu vou caprichar.

(Refrão)

Obs: letra registrada sob nº 22899901d110605h131120_m1 no CCB

domingo, 29 de maio de 2011

A Cigarra, a Formiga e o Fim do Mundo

“O que você faria se soubesse que o mundo vai acabar amanhã?” A pergunta é recorrente na música, na literatura e no imaginário de todos nós. O apocalipse é o capítulo derradeiro da Bíblia (claro, não é o primeiro nem o segundo). A noção da própria finitude nos caracteriza como humanos, e o fim da civilização como a conhecemos, o fim da espécie ou o fim do planeta são formas de pensarmos na finitude humana em termos coletivos. Uma angústia universal.

Viver cada dia como se fosse o último é um chavão idiota que se repete de forma leviana. Precisamos planejar o futuro individual e da sociedade com responsabilidade. Mas também precisamos levar em conta que não teremos saúde ou juventude indefinidamente e um dia desses, que tanto pode ser hoje como daqui a algumas décadas, vamos nos confrontar com a nossa impermanência individual. O quando é que é o problema. Ou a bênção. No entanto, se tivéssemos a data certa em nossa agenda, talvez mudássemos nosso planejamento de curto, médio e longo prazo. Talvez só o de curto prazo fosse suficiente.

Não por acaso, a fábula da cigarra e da formiga é das mais populares. Existem três finais diferentes em circulação. Tem o final piegas e inverossímil em que, depois de ralar o verão inteiro, a formiguinha, generosa, dá abrigo à tiritante vagabunda. E ainda por cima, alma santa, agradece à cigarra pela música que alegrava seus dias de verão, enquanto todas no formigueiro ralavam e suavam se preparando para o inverno. Acredite se quiser, ingênuo leitor. Num segundo final fajuto, que deve ter sido criado por um cunhado invejoso depois de assistir um filme no novo home theater na casa da irmã, a cigarra se torna uma artista famosa, vai para Hollywood e vira celebridade milionária.

No terceiro, que é o original e reflete bem a natureza humana, uma formiga bem nutrida e aquecida em pijamas de flanela, com uma taça de vinho na mão e muito irritada por ter sido interrompida enquanto jantava com a família, manda a cigarra dançar para se aquecer e bate a porta na cara da pobre imprevidente (com inveja e sabor de vingança a lhe escorrer pelo canto das mandíbulas). 

Dependendo das características de sua personalidade, imagino que você, muito antes de cogitar o porquê, tenha se identificado com uma das duas personagens, ao mesmo tempo em que ficou com a incômoda desconfiança de que a outra é que estava certa, afinal. Eu confesso que, quando dei por mim, já me via como uma formiga laboriosa e invejosa das cigarras. Confesso também que, hoje, me sinto vingado: alguns de meus amigos, que aprendiam violão enquanto eu estudava, ficavam cercados de garotas fazendo coro de “Me leva amor, por onde for quero ser seu par...” enquanto eles arranhavam Andança, de Paulinho Tapajós, no violão desafinado. Depois elas ficaram mais pragmáticas e passaram a valorizar uma profissão estável na hora de decidir por um possível parceiro (tem um caldinho amargo me escorrendo do canto da boca agora).

Voltando ao fim do mundo. Comportamo-nos como cigarras ou formigas na medida em que nosso futuro é ou não uma prioridade. Se achamos que vamos viver até os noventa, devemos agir de um jeito. Se, no entanto, cremos que vamos morrer jovens e o inverno não nos alcançará, agimos de outro. Ou, pelo menos, pensamos que deveríamos agir assim ou assado, sem transformar a intenção em ação. É certo que, se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, eu não teria estudado ontem, nem agendado consultas para mês que vem. Talvez tivesse ligado para você, para ouvir sua voz uma última vez, ou ouvido aquele meu CD favorito. Talvez andasse pelado na chuva. Ou talvez fosse arrumar umas gavetas, na tentativa de estabelecer um resto de ordem diante do caos iminente.

A sabedoria estaria em fazer com que a formiga e a cigarra interiores sentassem e chegassem a um acordo justo e favorável para ambas, conciliando a previdência e o Carpe Diem. Só não sei se a reunião seria no escritório ou à beira da piscina.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fogo que arde

Estava no chuveiro (eu penso com mais clareza tomando banho ou fazendo a barba) e me veio uma imagem. Era um dia frio, a água quente era agradável sem, no entanto, arder na minha pele. Sob aquela água que me molhava a cabeça e o corpo, pensei em fogo, em paixão e em amor.

Quem já acendeu uma lareira provavelmente já se valeu de uma daquelas pastilhas de álcool sólido cor de rosa (a cor é bem apropriada) para por fogo na lenha. Facilitam muito as coisas: acendem com facilidade e ardem intensamente por um período curto, que se espera ser suficiente para acender o fogo definitivo. Logo elas se consomem, vão se apagando, e a gente precisa soprar, abanar, mexer uns gravetos e uns pauzinhos para lá e para cá, para que a lenha, aos poucos, comece a crepitar, estalar, chiar e soltar aquele calor intenso que vai se irradiar para aquecer o ambiente. Há, depois, que se cuidar do fogo para que ele não se apague por descuido: acrescentar mais lenha, juntar o carvão que se espalha, abanar mais um pouco para que ele continue a queimar.

Por vezes, a pastilha se extingue sem que a lenha se acenda, e então buscamos outra, às vezes uma terceira. Mas ninguém se aquece com o fogo da pastilha, embora se possa até queimar o dedo com ela. Por outro lado, dá para acender a lenha sem se valer da pastilha de álcool. É preciso técnica mais apurada, um pouco de palha bem seca ou papel, uns gravetinhos finos, outros um pouquinho maiores e, por fim, a lenha. Depois de acesas, não dá para dizer qual fogueira usou álcool e qual não usou no início do processo. Daí que não acho nenhum absurdo o sistema indiano em que os matrimônios são decididos por pais desapaixonados, com base em critérios, digamos assim, técnicos. Nenhum álcool envolvido.

Meus filhos, que estão saindo da adolescência e são jovens adultos, irritam-se e desdenham de minhas opiniões sobre amor e paixão, o que é bem compreensível em função da idade. Mas, no fundo, também me pergunto se não estaria enganado, se estas conclusões valem apenas para mim, não sendo, em absoluto, uma verdade universal. Pode até ser. O fato é que nunca considerei o apaixonar-se como um fim em si. Ansiava, sim, por um amor que me aquecesse, que me fosse confortável, confiável, duradouro e seguro, na medida em que os amores podem ser seguros. Já estive apaixonado algumas vezes, inclusive em algum momento de meus dois casamentos. Assim como fico temeroso de que a lenha da lareira possa não se manter acesa quando o fogo cor de rosa se extingue, temi pela manutenção do amor depois da paixão. Soprei e abanei bastante, e o fogo cresceu e se manteve forte por um bom tempo no primeiro casamento. Persiste intenso no segundo.

Entendo a paixão como uma força natural, poderosa e arrebatadora, nem boa nem má. Compartilha a natureza dos ventos, que tanto podem impelir um barco para o porto seguro como para os recifes e o naufrágio. Não me iludo sobre o poder que uma paixão pode ter no rumo de uma vida, a minha inclusive. Dizia o sábio Santo Ernulfo que ninguém está livre de um mau passo. Então estou alerta, pois que a paixão em si não é o norte para onde aponto o meu barco. Ela pode vir ainda a me arrastar para longe da rota e do rumo. Ao contrário do amor, ela é amoral e não tem nenhum compromisso com minha felicidade. O compromisso único das paixões é com a felicidade das heranças genéticas, sejam elas dos homens, das rãs ou das minhocas. Dirão, revoltados, os românticos e apaixonados de plantão: "Nada disso! A paixão é a expressão máxima da alma humana!" O que você pensa?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Etevaldo

Tavinho chegou um pouco atrasado, trazendo alguém que a turma do chope das quartas feiras não conhecia.

“E aí, galera! Tudo em cima?”

“Fala, Tavinho! Apresenta o amigo aí pra gente.”

O amigo do Tavinho vestia-se de maneira sóbria, uma figura alta e forte, mas tinha um quê de desengonçado e desconfortável, como quem anda com sapato apertado.

“Gente, esse aqui é o Etevaldo”, apresentou Tavinho enquanto puxava mais duas cadeiras para a mesa. “Na verdade o nome dele é outro, difícil de pronunciar, mas podem chamá-lo de Etevaldo.”

“E então, Etevaldo? Estrangeiro?”, atalhou o Gonzaga.

“Mais ou menos.” Etevaldo tinha uma voz muito peculiar e um sotaque carregado que mais tarde alguém definiu como parecendo da Provence, mas com tempero sergipano.

“Etevaldo veio de fora, num programa de intercâmbio, para conhecer nossos costumes. Vai ficar hospedado lá em casa por uns tempos.”

“Intercâmbio?” perguntou o Afonsinho, levantando uma das sobrancelhas enquanto limpava a espuma de chope do bigodão à mexicana.

“É, ele veio para cá e, na troca, eu despachei minha sogra. Mas é só por uns tempos. Daqui a umas semanas ele volta para a terra dele.”

“Mas de onde você vem, Etevaldo?”

“De Grzmaarbz, que vocês aqui na Terra chamam de planeta XZ14-Y da estrela alfa de Antares.”

“Caramba, longe pacas!”

“E o que você está achando aqui da Terra, Tê?”, perguntou já íntimo o Gonzaga.

“Interessante”

“Muito diferente lá do seu planeta?”

“A paisagem sim, mas o resto nem tanto. A gente vai se adaptando.”

Houve um breve silêncio, e uma certa inquietação se infiltrou no clima. O Almeida, que até então permanecera calado e afundado em sua cadeira, debruçou-se sobre a mesa, coçou a barba e, com a ponta do indicador, empurrou os óculos para mais perto dos olhos. Quando o Almeida fazia isso, o pessoal prestava atenção, pois vinha sempre coisa inteligente:

“A sua civilização deve ser bem mais desenvolvida tecnologicamente que a nossa, se não você não estaria aqui, certo?”

“Certíssimo!” Etevaldo tinha acabado de aprender a usar superlativos e não perdia chance de treinar.

“Deve ser uma civilização bem mais antiga que a nossa também, né não?”

“Antiqüíssima!”

“Então, Etevaldo, eu tenho uma curiosidade grande. Me diz aí: lá no seu planeta o bem venceu o mal? Na sua civilização a solidariedade e a compaixão triunfaram sobre o egoísmo individualista? A verdade e a sinceridade prevalecem sobre a mentira e a dissimulação? Ou vocês nunca sofreram essas mazelas?”

Todos os olhos se voltaram para Etevaldo. Houve uma breve pausa, interrompida quando ele emitiu um som que lembrava um pigarro:

“Bem”, e ele piscou duas vezes. “Tem havido progressos. A nossa Assembléia recentemente instalou uma Comissão de Inquérito, e o nosso equivalente do Ministério Público tem feito diversas denúncias.”

Seguiu-se um silêncio incômodo, mas o Afonsinho, sempre ele, aliviou o ambiente. “Ô Carlinhos”, gritou acenando com o indicador levantado, “Traz mais uma rodada pra gente e pro nosso camaradinha aqui.”

domingo, 8 de maio de 2011

Então é sobre amizade

A amizade guarda diversas semelhanças com camaradagem, mas esta é bem mais trivial. Camaradagem é como uma amizade circunstancial: são colegas de trabalho com quem nos damos bem e com quem almoçamos juntos algumas vezes. É algo que ocorre entre médico e paciente, quando uma consulta deixa de ser uma simples prestação de serviços para se tornar um encontro prazeroso entre duas pessoas em lados opostos da mesa e em pontas opostas do estetoscópio. Entre meus camaradas conto o dono da padaria do bairro, o vizinho de muro, o caixa do mercadinho próximo da nossa filial na roça, meu dentista e tantos outros. Não quero aqui desmerecer o valor das camaradagens. Elas aplainam nossas relações diárias, distribuem pequenas gentilezas, sorrisos, algumas piadas, zombarias sobre futebol e outras amenidades. Trazem um toque de personalidade e calor às nossas relações corriqueiras. Em seu conjunto, são valiosas; azeitam e amenizam a rotina, mas não são propriamente amizades.

Existe ainda a “amizades” utilitárias, como aquelas que estabelecemos com o gerente do banco, com nosso advogado, com o fornecedor ou com o cliente do nosso negócio. Temos amizades utilitárias com nossos sócios e com membros de nossa associação profissional. São relações cordiais que se fazem entre pessoas que podem ser mutuamente úteis em algum momento, presente ou futuro. São trocas de gentilezas e tratamentos privilegiados que as partes esperam, de forma mais ou menos consciente, receber em retribuição quando necessário. Incluem-se aí as relações entre aliados políticos e entre pessoas que se auxiliam para atingir um objetivo mutuamente vantajoso. Não raro, uma das partes confunde este tipo de relação com a verdadeira amizade. Quando um dos dois eventualmente deixa de deter a moeda de troca, quando, por exemplo, deixa de ocupar uma posição influente, a relação deixa de ser vantajosa para uma das partes. Então ela perde sua razão de ser e se desfaz. É quando muitas almas ingênuas se decepcionam e se tornam rancorosas, interpretando como ingratidão quando seus antigos “amigos” se afastam ou lhes viram as costas. Confundiram este tipo de relação utilitária com a verdadeira amizade, a bijuteria com a jóia valiosa.

Bem mais simples definir o que a amizade não é do que delimitar seu perímetro, suas fronteiras e sua origem. Não sei dizer se ela surge espontaneamente ou se pode ser plantada e cultivada. Qual seria o momento fatal, o toque de Midas que transforma um companheiro, um parceiro utilitário ou mesmo um completo estranho em um amigo? A mágica pode começar ao se oferecer uma carona, um sorvete ou um abrigo sob um guarda chuva. A descoberta de um interesse comum, uma afinidade em nossas crenças mais profundas e na maneira de ver o mundo. Ou ainda aquele instante em que, encorajados por uma súbita intuição, sentimos confiança para, pela primeira vez, abrirmos nosso coração sem defesas para alguém, pondo a nu nossas vulnerabilidades e incertezas.

Existem os que têm mais facilidade em fazer amigos. Não é sorte. São os que pescam com muitos anzóis, lançando, sem esforço ou premeditação, iscas de gentileza e preocupação sincera com outro, manifestas em forma de sorrisos e pequenas atenções. Estes terão mais amigos que aqueles que se preocupam apenas consigo mesmos, buscando no outro apenas a platéia necessária para falarem de si, nunca interessados em ouvir e entender. Pois que a amizade exige uma via de mão dupla.

Amizades verdadeiras são raras. Não se pautam por vínculos familiares ou matrimoniais. Podemos ou não termos sentimentos de amizade por nosso pai, nossa mãe, filhos ou irmãos. Tem sorte quem tem no marido ou na esposa um parceiro e um amigo, embora isso pareça ocorrer mais como exceção que como regra.

Diante do amigo não precisamos esconder nossas covardias, mesquinharias e obscuridades. Da mesma forma, não julgamos suas fraquezas e baixezas. A proximidade ou mesmo uma simples carta ou e-mail enviados por um amigo nos aquece, nos aconchega e nos anima. Um amigo é um irmão no plano mais elevado Quem tem um único amigo não está só e é mais rico que aquele que tem muitos companheiros, mas nenhum amigo.

Aos velhos amigos que me lêem, próximos ou distantes no tempo e no espaço, abro meu coração em mão dupla. A meus companheiros, ofereço a oportunidade de fazer florescer alguma amizade tardia, mas não menos valiosa.

domingo, 24 de abril de 2011

Uma Carta Para Você

Meu querido amigo, minha querida amiga:

Senti saudades suas e resolvi lhe escrever. Lembra-se de quando tínhamos entre quinze e vinte anos? Meus avós moravam em Nova Friburgo e era para lá que eu ia nas férias, tanto nas de inverno, como nas de verão. As minhas lembranças de adolescência estão quase todas associadas àquela cidade, onde fiz muitas amizades, algumas perdurando até hoje. Lá tinha os amigos residentes, os friburguenses de tempo integral, e amigos veranistas, os friburguenses part time. Estes moravam no Rio, outros em São Paulo ou ainda em Brasília e voltavam para suas cidades ao fim das férias. Nos longos meses em que ficávamos distantes, a saudade era grande, o interurbano caro e a internet e o e mail estavam ainda por ser inventados. Faz tão pouco tempo, uns trinta e poucos anos, e já é difícil imaginar a vida assim, tão desconectada.

A solução eram as cartas. Papel de carta, com ou sem perfume, alguns decorados, que as meninas colecionavam, caligrafias, envelopes, selos, filas na agência dos Correios e a ansiosa espera pelo carteiro. Quem viveu aquela época sabe bem o que significa a letra de “Mr Postman”, que me vem sempre à memória na voz de Karen Carpenter. Cada passagem em branco do carteiro era uma decepção e cada envelope recebido fazia brotar um sorriso e causava taquicardia. Ainda guardo umas duzentas cartas daqueles tempos em velhas caixas de sapato, talvez algumas suas. Revisitá-las no passado já me fez viver uma injusta decepção ao descobrir apenas bobagens adolescentes onde eu imaginava haver filosofia, bom português e revelações psicológicas. Visitas posteriores,  com olhar mais lírico e menos crítico, me encheram de emoção: já fomos tão adolescentes como nossos filhos são hoje. As mesmas inseguranças, as mesmas paixões intensas (a maioria delas não correspondida), as mesmas invejas, dores de cotovelo, planos para a vida adulta. Nossa perspectiva ingênua ou, às vezes, precocemente lúcida de ver o mundo.  Colocávamos no papel nossas almas jovens, otimistas, ansiosas e, muitas vezes, perplexas.

Hoje, em tempos de e-mails, MSN, torpedos, Tweeter, Facebook, Orkut e smartphones que nos mantêm conectados ininterruptamente, o carteiro traz apenas contas a pagar e propaganda. Nunca foi tão fácil alcançar o outro. Meus filhos, até recentemente, mal chegavam em casa corriam para abrir o MSN. Hoje estão conectados onde quer que estejam via celulares com acesso à Internet. Mantêm contato permanente com seus namorados e amigos, reais ou virtuais,  e a conta de telefone agradece o refresco. Tenho meu perfil em um site de relacionamento, mas vejo pouca vantagem nisso. Para os amigos próximos, prefiro ainda o telefone ou o contato cara a cara, se possível em torno de uma mesa, bebericando um café, um chope ou uma garrafa de vinho. Para os distantes, uso o Outlook, essa ferramenta já meio velhinha e sujeita a todo tipo de mau uso. Não vou falar aqui nem de spams nem de correntes, que nunca repasso. Se metade das desgraças que ameaçam cair sobre quem interrompe correntes fosse real, eu e meus entes queridos já teríamos morrido muitas mortes horríveis e eu teria ido à falência dezenas de vezes. Na verdade, quero apenas me ater aqui ao uso que hoje quase todos fazem do e-mail.

Amigo, amiga, pelamordedeus! Não, eu não quero receber nada .pps, aquelas telas bonitinhas com fotos de por do sol, abrindo letrinha por letrinha mensagens edificantes e bem intencionadas ao som de Richard Clayderman. Devem ser criadas e enviadas por quem tem muito tempo livre. Sinto informá-los: deleto todas sem abrir. Também não me mandem denúncias sobre como os norte-americanos já consideram a intervenção militar na Amazônia. Piadas de loura, de bêbado e de português, eu prefiro ouvir de vocês no bar. Piadas grosseiras sobre o presidente da vez ou denúncias sobre o lado podre da oposição, nem no bar, por favor. Alarmes sobre o último golpe do perfume no estacionamento do shopping, sobre roubo de rins de pobres desavisados, sobre o mais recente vírus solto na rede, golpes via celular, códigos mágicos que impedem roubo de senhas, etc, etc, etc, por favor: me poupem, não quero saber de nada disso. Quero sim, saber notícias suas. Pode até me repassar um e-mail que você achou bacana, mas diga-me o que você achou, o que aquilo fez você pensar, fez você sentir. Nada de “D +”, de “Lindooooo” de rsrsrsrsrs ou kkkkkkkkk. Quero saber de você! Duas linhas bastam. Quando receber um e-mail seu, quero ter a mesma sensação que sentia quando recebia aquelas cartas em papel de verdade na adolescência, com ou sem perfume, com ou sem selo. Mande fotos suas e de seus filhos, de seu marido, de sua namorada. Conte-me das férias, dos filhos, do trabalho, dos seus medos, das suas decepções e esperanças, de seus planos e crenças. Comente o que você achou daquele assunto que está na mídia, ao invés de repassar a opinião dos outros. Não me mande crônicas falsas do Jabor nem contos falsos do Veríssimo. Quero as suas crônicas e os seus contos. Eu quero você. Lhe espero.

De seu amigo saudoso

Ralph

domingo, 17 de abril de 2011

A Copa, a Cozinha, o Ipea e o TCU

A coisa começou assim. Aquela tática feminina, feito drible do Neymar: você sabe que vai ser driblado, sabe para que lado vai sair o drible, mas não consegue evitar. Sempre que tínhamos mais de seis à mesa, minha mulher preparava o terreno. Primeiro um suspiro. Depois, em tom de lamento:

“Esta mesa é tão apertada...”

Você finge que não entendeu, continua falando de outra coisa, mas é em vão. O jogo endurece:

“Esta mesa não dá. Assim que puder eu vou querer trocar por uma maior.”

Então você cai na armadilha. Ao invés de continuar ignorando, você resolve argumentar com a razão:

“Mas meu bem, não cabe uma mesa maior nesta cozinha. Só se a pia fosse menor.”

“Então a gente diminui a pia.”

“Mas não vamos achar azulejos iguais para repor os quebrados se mudarmos a pia...”

.Mas quem disse que a lógica e a razão fazem parte das regras do jogo?

“Se nós recebermos visitas aqui, como é que vai caber todo mundo à mesa? E quando vierem os namorados e namoradas das filhas e dos filhos, todos ao mesmo tempo? Vamos fazer escala? E quando vierem os netos? Eu gosto de mesa grande.”

Aos poucos, acabei sendo levado na conversa e eu mesmo comecei a admitir que vínhamos adiando algumas melhorias necessárias no cômodo da casa onde conseguimos congregar a família e compartilhar nosso dia a dia, nossas opiniões, angústias e alegrias. A causa era nobre, e o casamento corria risco.

Assim, fomos à obra. Para evitar problemas com pedreiros, fornecedores, e para aconselhamento na escolha de materiais, chamamos uma amiga arquiteta (recomendo sempre que se chame um bom arquiteto, uma despesa que economiza muitas outras). Discutido e aprovado o projeto, começou a quebradeira. A marretadas, arrancou-se o piso e todos os azulejos. Arrancaram a bancada da pia. Todas as tomadas elétricas mudaram de lugar. O ponto de água na pia também mudou de lugar. Arrancaram a janela. Consegui salvar as portas me acorrentando a elas por dois dias. Estamos comendo na lavanderia há duas semanas. Minhas camisas têm cheiro de alho e a comida tem cheiro de amaciante monbiju, mas tudo bem, é pela família e pelo casamento. Ontem começaram a assentar os primeiros azulejos. Já assentaram cinco. O prazo fatalmente vai estourar e o orçamento de material já estourou. Mas a minha fé na capacidade que os seres humanos têm de esquecer os momentos difíceis quando tudo acaba bem me supre de paciência e otimismo. Antes da Copa deve estar tudo pronto.

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Aqui em casa não tem ingerência do TCU – Tribunal de Contas da União - exigindo que se cumpra o orçamento. Minha mulher já impôs aqui em casa o que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) está propondo agora: que o TCU afrouxe os controles de gastos nas obras para a Copa do Mundo de Futebol e para as Olimpíadas. Que as licitações para reforma dos aeroportos e dos estádios, para a melhoria do transporte público e tudo o mais que for necessário para não fazermos feio quando os ingleses vierem ver, sejam feitas com menos controle, sem essa “frescura” de cumprir orçamentos. Dão a entender que os fiscais do TCU nunca reformaram a cozinha de casa e não sabem como a coisa funciona. Os relatores do Ipea alertam e ameaçam com o não cumprimento dos prazos se estas “providências” não forem tomadas. O filme é velho: os Jogos Pan-Americanos acabaram custando 4 bilhões de reais, dez vezes mais do que o previsto nos orçamentos iniciais.

É tudo o que os empreiteiros querem e os responsáveis pela administração das obras sonham. Afinal, eles também devem estar precisando reformar as cozinhas de suas casas, e, quem sabe, também de seus iates e de seus apês que serão comprados no Upper East Side ou em Paris.

O detalhe é que, na nossa cozinha, eu e minha mulher estamos gastando o nosso dinheiro, meu e dela. Enquanto isso, caro leitor, eles estão gastando o nosso, o meu, o seu e o dos demais contribuintes.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Flor Roxa

Ne me quitte pas! A canção de Jacques Brel todo mundo conhece. Eu, pelo menos, já conhecia. Sabia a tradução do título, adivinhava o sofrimento expresso na letra, mas, como não sei francês, não tinha tido a oportunidade de entender todo o seu significado. Até que meu amigo Sebastião me enviou o link para o YouTube:

Confiram e me digam: não há como não se emocionar, não é não? Quando assisti o pobre Jacques Brel, devastado pela dor da separação, implorar à amada Suzzane Gabrielle uma segunda chance, fui invadido por uma enxurrada de emoções e pensamentos. Meninos, que coisa! Fiquei dividido. Não sabia se dava graças a deus por nunca ter vivido um sofrimento tão avassalador, ou se lamentava ter vivido a vida (até aqui, pelo menos, cruz credo) sem ter compartilhado com muitos de meus semelhantes essa experiência, melhor dizendo, esse transe, essa loucura, essa privação temporária dos sentidos que pode conduzir pessoas do céu ao inferno sem escalas e levar seres humanos tidos como decentes e normais ao suicídio ou ao homicídio.

Pausa para meditação. Quando criança, tive um fox paulistinha, o Nick. Foi meu primeiro cachorro. Sujeitinho muito inteligente, de personalidade forte, arretado e temperamental. Mordeu vários outros cães e algumas mãos e tornozelos humanos, o que nos trouxe muitos constrangimentos e motivou diversas exibições da carteira de vacinação veterinária. Nick viveu celibatário até uma idade relativamente avançada, uns cinco ou seis anos mais ou menos, o que equivaleria a uns quarenta e poucos aniversários humanos. Até que surgiu uma pretendente compatível, que foi-lhe apresentada. Chamava-se Pretinha. Como o primeiro contato entre os dois foi cordial, ela foi deixada por uns dias na casa de meus avós em Friburgo, onde passávamos as férias. O que se seguiu, nas palavras de minha saudosa avozinha, foi uma “pouca vergonha”. Nick não deixava a cadelinha por um minuto, nem de dia, nem de noite, nem para comer, nem para dormir e acho que nem para beber. Depois de três dias ininterruptos de amor apaixonado, tememos pela sobrevivência de nosso cachorrinho, que, no entanto, parecia querer morrer daquilo. Tivemos que, a muito custo, enfrentando protestos ostensivos e tentativas de mordidas, trancá-lo no banheiro da empregada enquanto levávamos embora a exausta Pretinha que, curiosamente, não pareceu se incomodar. Muito pelo contrário, li algum alívio em seus olhinhos pretos e cansados. Depois, liberto da prisão, Nick rodou a casa como louco por muitas horas, até convencer-se de ter sido abandonado. Que terá passado em seu coraçãozinho canino? “Aquela cachorra ingrata me abandonou sem nem se despedir!”? Nunca soubemos. Só no dia seguinte Nick começou a matar a fome de três dias. Aos poucos, abandonou aquele olhar perdido e voltou a ser o cãozinho brincalhão de antes.

Ora, dirão os românticos de plantão, que sacrilégio! Comparar a mais bela e elevada das emoções humanas, a fonte suprema de inspiração das artes com um reles acasalamento canino! Mas será mesmo tão diferente assim? Ver o pobre Brel com cara de cachorro abandonado implorando para ser a sombra do cãozinho da Suzanne me deixa com sérias dúvidas. Para cada canção de felicidade na paixão, existem dez de corações arrasados. Tudo bem, gente, vou ser franco: tenho medo da paixão! Deve ser meio como cocaína: ao experimentar pela primeira vez, ninguém pode garantir que não vai deixar-se arrastar pela sarjeta. Só que, ao contrário da cocaína, a paixão pode agarrar um coração descuidado na primeira esquina, sem dar ao menos uma chance à razão de dar um puxão bem forte na coleira de nosso cachorrinho interior para nos obrigar a seguir em frente.

Novamente os românticos que me lêem devem estar pensando: Coitado, nunca amou na vida. Não é verdade. Já amei muitas vezes, já chorei e sofri com separações e amores não correspondidos. Amo ainda hoje, e o amor que compartilho é parte importante da minha felicidade, embora não seja seu carcereiro. Rezo para nunca querer ser a sombra do cachorro de ninguém. Até aqui, apesar da minha ponta de inveja e alguma curiosidade irresponsável, minhas preces têm sido ouvidas: o cupido continua trancado no banheiro da empregada. Mas, já dizia Santo Ernulfo: Ninguém está livre de um mau passo. Todo cuidado é pouco!

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Escova - Pequena Peça em Dois Atos

Ato 1:
Sala de um apartamento, sol da manhã entrando oblíquo pela janela. Uma mulher nos seus trinta e poucos anos, de vestido leve e sandálias de salto alto, confere os cabelos no espelho da parede. Uma pequena bolsa de viagem está junto à porta de saída. Ele, descalço e de bermudas, chega do interior do apartamento:

“Vevê, você esqueceu a escova.”

“Qual escova, Fê?”

“A de dentes, você esqueceu a escova de dentes na pia do banheiro.”

“Ah, a de dentes. Pode deixar lá.”

“Leva a escova.”

“Pode deixar, eu comprei essa para deixar aqui.”

“Você não entendeu, Vê: eu não quero que você deixe a escova aqui”

“Qual é benzinho? Eu deixei o xampu no banheiro também.”

“O xampu, sem problema.”

“E deixei a calcinha pendurada no box.”

“Calcinha, na boa.”

“Eu não estou te entendendo, Felipe. Está implicando com a minha escova?”

“Olha, Verônica, está sendo difícil dizer isso para você, mas eu não quero que você deixe a escova. Você não acha que a gente deve ir devagar, sem atropelar as coisas? Vamos só deixar acontecer, ou não acontecer, sei lá.”

“Mas o que é que a escova tem a ver com isso?”

“É o valor simbólico da coisa, entende? A gente se conhece há menos de dois meses, acho que nós estamos indo bem, eu gosto de estar com você. Mas está muito cedo para esse lance de escova. Escova de dentes é coisa muito séria.”

“Mas é só uma escova! Você está fazendo esse drama por causa de uma escova de dentes? Eu não acredito que a gente vai estragar esse dia ótimo que nós passamos juntos por causa de uma droga de uma escova de dentes.”

“Mas não é a escova em si, não finge que não sabe do que eu estou falando. Ninguém fala em ‘juntar os pares de meia’ ou ‘juntar os travesseiros’. Escova é uma marcação de território, e eu, no momento, não estou querendo nenhum território marcado aqui em casa, vê se me entende."

"Olha, Felipe, sinceridade, eu estou tentando, mas está me parecendo um absurdo. Não tem essa de "território", é uma escova apenas, para eu não ter que ficar trazendo e levando, esquecendo de trazer."

"Verônica, meu amor: entenda esse gato escaldado. Escova é um pé na porta. Fica ali, sobre a pia, de dentes arreganhados, olhando para mim com aquela cara de cobrança, de exigência, não tem leveza que resista. E só o que cabe agora é leveza, chega de peso. A gente estava conseguindo essa leveza, então não estraga. Vamos viver um dia de cada vez, enquanto estiver bom viver assim, nada de território, por favor."

“Eu sou uma idiota, mesmo. Estava saindo daqui tão feliz, achando que a gente estava se entendendo bem, sei lá.”

“Mas nós estamos bem, só não quero delimitação, cobrança, será que é difícil de entender?"

“Eu acho que você não está querendo me ver mais, é isso, não é?”

“Claro que não é isso, você não está me entendendo.”

“Vou pensar se eu quero voltar a te ver, viu?”

“Para com isso Vê, chorar não vale, é apelação. Eu estou tentando conversar como duas pessoas racionais.”

Ato 2:
Mesa de café da manhã, Felipe lendo o caderno esportivo e Verônica lendo o caderno de decoração. Ela larga o jornal e dá um leve suspiro enquanto brinca com os farelos de pão sobre a toalha.

“Fê...”

“Hmmmmmm”

“Eu estava pensando...”

“Hmmpf”

“A gente tem dois filhos...”

“Sei.”

“A gente mora junto há oito anos.”

“Mora.”

“Mamãe já mora com a gente há dois.”

Ele baixa o jornal: “Você sabe que eu adoro sua mãe. Desembucha logo, vai”

“Pois é. Será que já não estava na hora de eu ter minha escova de dentes na pia?”

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Quatro reais

Laura, uma amiga que mora no Rio, nos liga num domingo e pede a indicação de um bom restaurante de frutos do mar em Niterói. Ela, uma amiga e o marido desta iam atravessar a ponte para um passeio nessa terra, minha e de Araribóia. Pergunto se eles se importariam em ter nossa companhia, seria um bom programa naquela clara manhã de outono. Tudo bem, ótima idéia, e ficamos aguardando que passassem em nossa casa para apresentarmos Jurujuba aos cariocas.

Uma hora mais tarde, chegam Laura, sua amiga Leninha com seu marido, o Fred, e, além dos três, a mãe de Leninha e a filha do casal, de uns dez anos de idade. Apresentações de praxe. Já conhecíamos Leninha da casa da Laura, moça simpática, jeito delicado. Fred pareceu-me econômico nos sorrisos e nas palavras, ar ligeiramente contrariado, ou então era minha imaginação fértil. Primeiras impressões podem ser enganosas, melhor não julgar e dar uma chance ao rapaz. Seguimos de carro pela orla de São Francisco e Charitas, as praias cheias tendo como fundo o Rio visto de longe, paisagem inédita para muitos cariocas. Chegamos ao bairro de pescadores, onde uma providencial vaga na sombra nos aguardava. Depois descobrimos tratar-se da sombra de um pé de jamelão carregado. Se você gosta do carro coberto de manchinhas roxas, tudo bem, nada que uma boa lavada não resolva.

Todos elogiaram a decoração rústica do restaurante, cheia de modelos de traineiras e motivos náuticos, e a vista para a enseada bucólica. Ordenamos uma entrada e as bebidas. Eu e minha mulher pedimos caipirinhas e Fred pediu um chope. Hora de deixar a conversa fluir e conhecermos melhor os amigos de nossa boa amiga. Logo o garçom, um senhor de óculos nos seus sessenta e poucos, traz as bebidas. Aqui, começa a história: Fred diz ao garçom que mudou de idéia, que não vai mais querer o chope, e sim uma cerveja. Uma luz amarela pisca na minha cabeça: aí vem coisa. O garçom, educado, explica o óbvio: poderia trazer a cerveja quando o freguês quisesse, mas o chope, uma vez tirado, não poderia ser devolvido. Fred insiste, deixando o pobre garçom constrangido, e talvez pensando: ”Essa é inédita.” Será que alguém ficou intrigado, ou teria sido só eu? Chegam os tira gosto de frutos do mar para nos distrair enquanto esperamos os pratos principais. Esforço-me em acompanhar a conversa, mas meus sentidos estão definitivamente voltados para o cara. Ele, então, pega um pedaço de limão e o espreme no chope. Lembro-me de que, quando as cervejas mexicanas chegaram ao Brasil, era comum enfiar um pedaço de limão gargalo abaixo naquelas garrafinhas transparentes, mas no chope? Para mim era novidade. Então, depois de um gole, nosso comensal chama o garçom: “Meu amigo, tem umas coisas estranhas no meu chope, acho que o copo estava mal lavado. Dá pra devolver e trazer aquela cerveja e outro copo?”

Não me lembro de mais uma única palavra dita naquela tarde. Minha mulher, que não tinha notado nada, ficou de boca aberta quando, mais tarde, lhe contei o acontecido. Não sei se alguém mais percebeu. Se perceberam, disfarçaram heroicamente, conseguindo impedir que aquela tarde fosse para o ralo. Fiquei com pena da Leninha e da filha dos dois. Não consegui deixar de pensar, de forma preconceituosa, que algumas mulheres, para não ficar a pé, pegam até ônibus errado. Fiquei imaginando o conceito que a sogra teria daquele genro, e na mala sem alça que Laura tinha que aturar de vez em quando para estar com a amiga.

Algumas pessoas me surpreendem, outras me surpreendem muito. Até hoje, quando penso nessa história, fico tentando imaginar as motivações daquele sujeito. Seria algum tipo de jogo que ele gosta de ganhar, algo do tipo “Agora Te Peguei, Seu FDP”, o prazer simples em humilhar alguém que ele nunca tinha visto antes, ou a motivação mesquinha de economizar a merreca do preço do chope, vai saber? Com certeza, uma estratégia bizarra que, ele acredita, vai deixá-lo mais próximo da felicidade. Quem tiver outras hipóteses, por favor, cartas para esta redação.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Olho de Evilásio


Jaciara, o amor de sua vida, prestes a se entregar a outro homem e ele ali, sobre a cômoda, assistindo tudo sem poder piscar.

Uma pedrada numa guerra de estilingues aos nove anos, e o olho esquerdo de Evilásio foi vazado e depois secou. Virou Evilásio, o Caolho. Só quase aos quarenta um oftalmologista o convenceu a usar prótese. Confeccionou-se uma, no mesmo belo tom entre o mel e o verde do olho direito. Sentiu sua confiança avultar-se. Tornou-se mais sociável, mais falante. Os encontros amorosos, até ali raros e frustrantes, tornaram-se mais freqüentes. Então conheceu Jaciara. Apaixonou-se e, contra suas próprias expectativas, foi correspondido pela jovem e bela viúva, apesar dos quase vinte anos que separavam suas idades. O casamento veio rápido, e os filhos, que não tinham vindo no primeiro casamento de Jaciara, também não vieram no segundo. Não pareciam lamentar, pois o amor que tinham um pelo outro como que exigia uma dedicação absoluta, que os dois, no fundo, não ansiavam em dividir com mais ninguém. Por doze anos viveram numa felicidade que parecia irreal.

Até que veio o câncer, que se abateu sobre Evilásio violento e rápido. No leito do hospital seguravam-se as mãos e olhavam-se nos olhos, nutrindo-se um com o olhar do outro, mal acreditando que os dele em breve se fechariam para sempre. Quando finalmente a hora chegou e os enfermeiros vieram com a maca fria buscar o corpo, ela, que chorava no desespero da súbita solidão, os deteve: “Quero o olho de vidro. Quero olhar o olho de meu marido pelo resto de minha vida.”

Assim, o olho de Evilásio foi colocado sobre a cômoda do quarto do casal, em um frasco de cristal cheio de soro fisiológico, que Jaciara trocava diariamente.

Quando chegou ao outro mundo e abriu os olhos para o infinito e a eternidade, Evilásio percebeu que voltara a enxergar com os dois, mas só o direito via as maravilhas do Paraíso: o esquerdo via seu antigo quarto, e, no quarto, via Jaciara. Via-a quando ela se vestia e quando ela se despia, via-a lançar para ele olhares longos, como que sabendo que era observada. Na penumbra da noite, Evilásio via Jaciara chorar baixinho, abraçada ao travesseiro que fora dele.

Mas o tempo tem o poder de aliviar as maiores dores. Num fim de tarde, Evilásio viu Jaciara enfeitar-se e perfumar-se como nunca mais fizera, e depois sair. Com a serenidade que a eternidade confere às almas que mereceram o Paraíso, ele entendeu e esforçou-se por aceitar que o corpo jovem e bem feito de sua viúva mais dia menos dia seria assediado pela ânsia de novos afagos e carícias. Com a alma partida, tentou conformar-se com o inevitável.

Uma noite, ela voltou acompanhada. Coração aos pulos, ele viu Jaciara ser despida e desejou poder fechar aquele olho que penava no mundo dos vivos. Mas então, por cima do abraço do outro, ela mirou fixa e demoradamente o olho do falecido. Depois, num arranco, rechaçou o avanço dos beijos em direção a seus lábios e Evilásio pode vê-la dizer: “Na boca, não!” Ela, então, colocou o despertador entre o frasco de cristal e a cama, obstruindo a visão do olho de Evilásio.

No dia seguinte ela percebeu que o frasco havia transbordado.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Joaquín Sorolla

Retornávamos, o mestre e eu, pela trilha que serpenteia de vertente em vertente das colinas de Peñalara, cada um carregando sua caixa de pintura. Fixado por fora de cada caixa, um apunte a óleo, fruto ainda fresco do trabalho da manhã. Clotilde e Concepción, alguns passos à frente, carregam o cesto de vime coberto com um xale verde bordado, contendo os restos do almoço: queijos, frutas frescas e secas, pão e duas garrafas de vinho tinto que esvaziáramos à sombra de uma oliveira.

O sol forte castiga a relva curta e seca naquele fim de verão, ofuscando a vista e fazendo-nos cerrar os olhos. Então, vindas do norte, lufadas de vento enfunam as saias brancas das mulheres, quase arrancam nossas boinas e levantam a poeira da trilha, exigindo que apertemos ainda mais os olhos. O vento cala os poucos pássaros e domina todos os sentidos. Primeiro quente e seco, depois fresco e úmido, prenunciando a tempestade a caminho.

O mestre então toca meu ombro, como quem diz “acorde!”, mas poderia também significar “sonhe!”. Volto-me para o norte, olhos quase fechados, e vejo um mar de sonho. Os planos de cor se dividem por linhas quase paralelas e horizontais: a relva seca é a praia, as colinas mais e menos distantes se tornam ondas do mar, a água em movimento, subindo e descendo com as sombras das nuvens que avançam pelos vales em nossa direção. A montanha distante que recortava o horizonte vê-se encoberta por vagas de violetas, azuis e cinzas vindas do mar além, como se uma extensão deste avançasse terra adentro.

O mestre então se senta no chão, abre sua caixa e, em vinte minutos, captura em um novo apunte o vento, a água, o sol, o mar, a praia, a relva, a vida toda em movimento. Levanta-se. Em seus olhos sombreados pela pala da boina e no sorriso quase oculto pela barba, vejo um mago satisfeito com seu truque. Apertamos o passo e alcançamos a carroça junto com as primeiras gotas de chuva. Os charutos terão que esperar.

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