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terça-feira, 22 de janeiro de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
Um Estranho no Planalto: Crônicas Brasilienses
Meus amigos mais próximos sabem:
eu já tive minha cota de convivência e proximidade com o centro de decisões do
Brasil. Entre 1998 e 2000 trabalhei no Departamento de Saúde Suplementar do Ministério
da Saúde, que logo seria transformado na ANS e transferido para o Rio.
Meu primeiro casamento tinha acabado
de se desfazer quando recebi o convite para integrar a equipe que teria a missão
de regulamentar a recém-promulgada lei dos planos de saúde. Fiquei em dúvida,
mas algumas pessoas me disseram o equivalente a “sua vida já está toda revirada
mesmo, uma revirada a mais não fará diferença”. Tinha sua lógica. Aceitei.
Primeira tarefa: adequar o guarda
roupa. Era (e voltei a ser) daqueles que só vestem terno e gravata em
casamento. Tive que treinar a dar nó em gravata. Passei a ter dois nós (pasmem!) no
meu repertório: o de duas voltas, para gravatas de tecido fino, e o de uma
volta apenas, para tecidos mais encorpados. Tive que comprar alguns ternos e
camisas, além de gravatas e aprender a combiná-los, coisa que fui conseguindo
aos poucos observando homens que me pareceram elegantes e reportagens de moda masculina nas revistas. Acabei concluindo que
gravatas listradas não têm erro: são sempre sóbrias e corretas. Cheguei a ter
uma atração inusitada por elas. Conferia sempre as vitrines e comprava sempre
que descobria uma que me chamasse a atenção. Fazia questão de fazer um nó gordo
e sem pregas, e não descuidava no comprimento exato, apenas tocando o cinto da
calça.
Embarcava, ainda sonolento, no avião das sete da manhã
toda segunda feira no Galeão, onde, invariavelmente embarcava também o ministro da
Fazenda da vez: primeiro o Gustavo Franco e mais tarde, quando FHC abandonou a
âncora cambial em 1999, o Armínio Fraga. Antes das nove eu já estava a postos no Ministério. Voltava de Brasília no voo das seis da
tarde da quinta, na companhia da bancada federal do Rio: Miro Teixeira (um
gentleman com voz de barítono), Jandira Feghali, Fernando Gabeira, Jair
Bolsonaro (que tinha o passatempo de mau gosto de falar mal da ex-mulher para
quem quisesse ou não quisesse ouvir), Francisco Dornelles e o então ainda gordo
Roberto Jefferson, entre outros literalmente menos votados. Este voo ainda hoje é tradicionalmente
conhecido como “esperança de suplente”. E eu lá.
Aluguei uma quitinete na Asa Norte
com a verba da ajuda de custo. A princípio, uma sensação de solidão
angustiante e opressiva, agravada pela secura de final de inverno no Planalto, que deixa os
gramados queimados e o ar difícil de respirar. Mas, aos poucos fui travando amizade
com os muitos colegas em cargos comissionados no mesmo departamento, vivendo
situação de igual solidão. Acabamos por nos mudarmos todos para um mesmo hotel
antiguinho no Setor Hoteleiro Norte e passamos a compartilhar nossas solidões.
Dali, saíamos para caminhadas matinais no Parque da Cidade, tomávamos café e depois rachávamos o taxi até o Ministério. Na época, eram tolerados
táxis piratas na capital, que cobravam menos pela corrida. Logo descobrimos que
não valia a pena a economia. Os carros eram velhos e mal cuidados. Uma vez, o
motorista cheirava tão mal que fomos todos como cachorros, com a cabeça pra
fora da janela e o nariz ao vento, menos o colega que estava no meio no banco
de trás. Coitado.
Havia a “turma do pão de queijo”,
proveniente das alterosas, que esvaziava literalmente as cestas do quitute que
lhes dava o nome no café do hotel. Dessa turma fazia parte o Faustinho, que
ainda viria a ser diretor da ANS. Havia gente de todo o Brasil trabalhando no departamento, bem poucos de Brasília. Esta é, talvez, a característica mais
marcante da cultura brasiliense: quase todos ali são “estrangeiros”, exilados, e a
maioria, mesmo vindo a residir definitivamente em Brasília, sente-se
desterrado. Os sotaques dos quatro cantos do país se misturam nas salas e corredores da Esplanada. Aos poucos fui me tornando expert em adivinhar a origem de meus colegas e aprendendo gírias e expressões de todo o Brasil.
Estava há, talvez, dois meses por
lá quando caíram as primeiras chuvas, um toró no meio da tarde. A vontade que se tem é de
ir para o meio da rua e ficar chutando e chapinhando nas poças d’água. O clima
e o humor das pessoas melhora como que por decreto. Em cinco dias, se tanto, o
verde ressurge vigoroso nos gramados, os pássaros passam a cantar e os carros a
derrapar e a bater. A poeira fina acumulada, quando molhada, vira sabão. Até serem
lavadas pela continuidade das chuvas, as ruas de Brasília se transformam num enorme rinque de patinação para automóveis. Nas “tesourinhas”, tem sempre um ou mais
carros acidentados. As noites ficam frescas, e , ao contrário do Rio, o clima em Brasília é
ameno no verão. No jardim do hotel havia um pé de dama-da-noite que perfumava
as noites de todo o quarteirão em dezembro.
À noite, o programa dependia do
dia da semana. Nas quartas nos reuníamos no restaurante do hotel, que não
funcionava à noite, mas onde os funcionários nos emprestavam pratos, copos e talheres e ligavam a TV pra assistirmos futebol compartilhando pizza acompanhada de cerveja.
Nos demais dias, começamos, aos poucos, a explorar a vida noturna de Brasília.
(continua)
domingo, 6 de janeiro de 2013
Olha o Passarinho!
| Alma-de-gato. |
Da mesma forma, nunca me
conformei em passar uma vida inteira por uma árvore sem saber de que espécie se
trata, ou em escutar o canto de um passarinho sem saber reconhecer quem é o
autor do gorjeio refinado ou do pio repetitivo. Admiro-me quando verifico que a
maioria das pessoas não sabe bem a diferença entre um pardal e um tico-tico ou
não distingue um sabiá de um bem-te-vi. Nem sabe diferenciar uma pata de vaca
de um algodão da praia, árvores corriqueiras nas calçadas e praças da cidade.
Esta curiosidade natural se
acentuou muito quando começamos a frequentar Rio Bonito de Cima, localidade
serrana em Nova Friburgo. Lá, a variedade de pássaros é enorme. Comecei a fotografar
as aves e flores do lugar de modo descompromissado, mas logo me vi compelido a
expandir meus conhecimentos botânicos e ornitológicos. Comprei então os ótimos livros Aves do Brasil, de Dalgas Frisch e os dois volumes de Árvores Brasileiras , de Harri Lorenzi, e passei a exercitar minha atenção em relação ao mundão de
árvores e passarinhos do lugar. Apenas dentro do perímetro do sítio, que tem
apenas um alqueire, já identifiquei e fotografei mais de setenta espécies
diferentes de aves, mas existem muitas mais.
Quando acordo por lá, com as
primeiras luzes da manhã, as aves estão tagarelando no volume máximo. Já da
cama identifico os gritos da saracura, o canto dos sabiás, a gritaria das
tiribas, o trinado da cambaxirra, um duelo de pichanchões. Calço os sapatos e
saio munido de teleobjetiva, caminhando em silêncio com olhos e ouvidos atentos.
Existem duas estratégias básicas: uma é ir atrás do canto mais interessante,
outra é buscar um lugar com boa possibilidade de visitas aladas: um pé de
marianeira ou goiabeira carregadas ou um arbusto florido e esperar para ver o que
aparece. De qualquer forma, a espreita amplia os sentidos e afugenta todos os
pensamentos que não sejam focar o presente. A atenção se volta para o mínimo
ruído, para a menor folha que cai, para o mínimo movimento que ocorra em nosso
campo de visão periférico, mesmo um discreto agitar da folhagem pelo vento. Os
reflexos e instintos ancestrais voltam todos, vindos de partes do cérebro
adormecidas pela civilização. Não em busca de uma refeição ou para não vir a ser transformado em refeição por alguma fera. Apenas em função de uma visão de um pássaro ainda não
visto ou não fotografado. Depois, com sorte, traz-se o objeto da caça capturado
no disco de memória da câmara para soltá-lo no espaço virtual do computador e
da rede. Meus destinos turísticos estão passando a levar em conta novos habitats onde eu possa ampliar as possibilidades de ver e fotografar novas aves.
Estou longe de ser o único a se
maravilhar com os pássaros e querer sistematizar essa paixão. O pioneiro mais
famoso foi John James Audubon, que inspirou a norte-americana Audubon Society . No Brasil temos o site Wikiaves, onde, quem se interessar, pode ver alguns de meus registros fotográficos amadores e muitos outros de grandes fotógrafos de talento, dedicação e equipamentos de primeira
linha. O Brasil tem 1832 espécies diferentes de aves oficialmente registradas. O Wikiaves tem mais
de 12 mil colaboradores, mais de 640 mil registros fotográficos e 38 mil
registros sonoros. Ainda existem 18 aves já observadas mas não fotografadas no
Brasil. Quem se habilita?
Algumas de minhas fotos favoritas:
| Topetinho-vermelho fêmea (que não tem topetinho) em flor de marianeira. |
| Saracura-do-mato |
| Tiê-de-topete |
| Frango-d'água-azul |
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Pagode do Fim do Mundo
Não é falta de assunto, mas como essa poderia ser a última publicação deste Blog, achei oportuno republicar o "Pagode do Fim do Mundo".
Até dia 22, se Deus quiser!
Apareceu-me um anjo num sonho
Até dia 22, se Deus quiser!
Apareceu-me um anjo num sonho
Me disse que o mundo já ia acabar.
Caí da cama num susto medonho
E achei que o melhor era me preparar.
Tomei uma branquinha, beijei a vizinha,
Soltei o cachorro, comi vatapá.
Mandei ver no torresmo, cerveja e picanha.
A consulta com o doutor eu mandei desmarcar.
(Refrão)
Por quê?
Porque vai se acabar!
Porque vai se acabar!
Deixa de ser mesquinho, aproveita o restinho,
E senta pra ver o mundo se acabar.
Pensei em ligar pro patrão e avisar
Mas o tempo era pouco pra tanto, afinal.
Torrei a poupança, gastei em brinquedo,
E fiz pra molecada um segundo Natal.
Falei: não precisa seguir pra escola
Comprei bala, pipoca, doce e guaraná.
Organizei uma pelada na praça
É chutando uma bola que eu vou me esbaldar.
(Refrão)
Depois tomei banho e botei um perfume,
Chamei minha nega pra gente deitar.
Não dormi de touca, eu beijei na boca,
Namoramos como antes de a gente casar.
Quando ela dormiu, levantei de mansinho
E fui para a lage assistir o luar.
Peguei o cavaco e fiz esse pagode,
Se amanhã vai dar bode, hoje eu vou caprichar.
(Refrão)
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Prêmio UFF de Literatura 2012
Leitores do Blog,
O conto aí abaixo, "O Contador de Histórias", recebeu hoje o Prêmio UFF de Literatura 2012. Quero compartilhar minha alegria com vocês, que são meu maior incentivo para continuar escrevendo.
Obrigado pela torcida!
Acesse O Contador de Histórias
O conto aí abaixo, "O Contador de Histórias", recebeu hoje o Prêmio UFF de Literatura 2012. Quero compartilhar minha alegria com vocês, que são meu maior incentivo para continuar escrevendo.
Obrigado pela torcida!
Acesse O Contador de Histórias
domingo, 16 de dezembro de 2012
O Contador de Histórias
Este conto é finalista do Prêmio UFF de Literatura 2012. O resultado sai amanhã, 17 de dezembro.
Seriam
alguns dias de viagem ente Paragominas e Altamira. Bem no início, eu abastecendo
a carreta num posto à beira da estrada, achegou-se o cabra. Cabeça quadrada,
pescoço curto e forte, os cabelos encaracolados escapando por baixo do boné
encardido, a malinha castigada e um jeito que, descrevendo só assim, poderia
servir para qualquer tipo perigoso, assaltante ou mesmo matador, mas tinha um
quê nos olhos escuros que brilhavam um brilho de inocência quase infantil,
contradizendo as rugas precoces na testa e sobressaindo por entre as pálpebras
apertadas e as sobrancelhas grossas que quase se irmanavam acima do nariz.
Anunciou-se Leovaldo, maranhense, com sua licença, vou para a obra da usina
grande, não for incômodo, concederia a gentileza, eu ajudo, amarro a carga se
soltar, sei trocar pneu, já fui ajudante de caminhão. Nessas estradas temos
precisão de confiar e desconfiar, confiando que o Divino ouça nosso rogo para
saber a hora certa de uma coisa e de outra. Confiei: “Sobe aí, homem.” Tinha
muito chão pela frente e eu andava mesmo desassossegado de cismar sozinho tanto
tempo, o pensamento empacado em umas idéias que eu queria não pensar, mas que
me rodeavam a cabeça feito enxame de mosca incomodativa. Uma prosa bem que me
poderia puxar a atenção de dentro e virá-la para o lado de fora.
De
início, asfalto e trânsito livre, tempo bom, conversa leve e pouca, só
amenidades. De meu lado, só queria ouvir. Ele aos poucos foi soltando a
falação. Ganhara semana de licença para o enterro da mãe. Um segundo derrame
depois de ter sido derrubada na cama durante dois anos pelo primeiro. Nesses
dois anos só lhe restara na boca uma palavra, que ela repetia e a ela se
agarrava como única que lhe restara para se dirigir ao mundo: “tatu, tatu, tatu”. Era tatu para toda serventia: obrigado, até
logo, fome, banheiro, saudade, dor. Só os olhos davam sentidos a cada tatu
daqueles. Seis irmãos. O pai deixara a casa, volto pra buscar, as cartas
rareadas e o silêncio. O mais velho foi ainda a São Paulo, cidade muito grande,
engole um homem sem deixar sinal, voltou sem notícia. Não sabe se tem pai
ainda. Falou das cabras, da vez que apanhou de vara porque deixou uma sumir,
era ainda moleque. Só acharam a carcaça três dias depois, os urubus terminando
a faina começada por maracajá ou suçuarana. A roça de feijão e milho tocada
pelos irmãos mais ele, à mercê da dádiva de São José conquistada a custa de muita
reza e ladainha no mês de março.
De
vez em quando ele cansava de falar, me passava a bola, e tu, homem? Eu falava
de estrada, de carga, de caminhão e de patrão, de causos de estrada, deixando
uma cerca bem fincada no rumo da prosa, daí não passe.
Já
na chegada em Marabá, parada para banho e jantar, cerveja dividida, mais histórias,
eu lhe dando linha na pipa. E ela subia alto no céu das lembranças, onde
algumas se desmancham, fiapo de nuvem, e outras são tempestade, ou sol e lua,
sempre lá. Coisas na história de cada um que passam a fazer parte do que se é,
vão moldando esse barro mole, imprimindo cicatrizes, rugas de choro, de dor e
de perplexidade, mas também algumas de riso, de saudades de venturas antigas, o
que também é uma qualidade de dor.
Lá
pelo fim do segundo dia, a carreta sacolejando já no barro, a chuva caía dando
medo que a estação seca se findava, arriscado amolecer o chão e nos prender na
estrada que nem rato engolido no ventre daquela cobra vermelha riscada na mata.
Conseguimos chegar à margem do Tocantins sem precisão de trator de esteira.
Estacionei na fila da balsa e desliguei o motor. Toquei a imagem de Nossa
Senhora colada em cima do painel, agradecido pela bênção. Só mais dois dias,
Mainha, não me falte ainda. Saltamos, ficamos os dois ali, olhando o mundão de
água, apertando os olhos para enxergar o outro lado e a balsa ainda longe.
Acendi um cigarro virando de costas para o vento e estendi um cigarro, depois o
lume para Leovaldo. Ficamos ali, olhando o nada, o pensamento longe, soprando a
fumaça para cima de quando em
quando. Meu parceiro pareceu desassossegado, coçava muito a
barba rala. Reparei uns fios brancos junto às têmporas.
“A
gente cresce achando que na vida as coisas são assim, o certo ali, o errado lá,
o céu em cima e a terra embaixo, onde é água e onde é chão. O que é de Deus e o
que é do cão. Aí a vida vem e embaralha tudo.”
Puxei
o último trago e atirei longe a guimba. O dito prenunciava, na certeza,
confidência de maior importância. Me aprumei em respeito, procurei esvaziamento
de julgar e virei os olhos para Leovaldo.
“Você
já foi casado?” Ele forçava a cerca. Concluiu com acerto sobre meu estado de
homem sem mulher pela falta de aliança, pelo silêncio, pelo celular sempre
desligado. “Digo assim, mesmo sem casar, já teve mulher, já teve casa montada pra
modo de viver com ela, ter filho com ela, criar junto?”
Eu
não disse nada, mas era como se tivesse dito. “Pois é, eu também já tive, ou
tenho, não sei mais. Em
Igarapé Grande , terra de meus pais. A gente se gostava desde
antes de saber o nome do amor. Desde criança. Nunca pensei em outra, não
carecia. E foi para finalmente poder fazer para ela, com ela, um lar, família,
essas coisas, que estudei, fiz supletivo de noite, terminei o segundo grau. Fiz
curso técnico. Comecei na construção civil, me cadastrei para uma vaga na obra da
usina grande. Depois de uns meses me chamaram. Me deu uma alegria misturada com
saudade, mas com fé em ganhar dinheiro, montar casa, me fazer um cabra de
respeito, e não mais um menino aos olhos dela. Quando voltei para enterrar
minha mãe, vinha com uma mistura de sentimento, o luto e uma alegria quase
desrespeitosa, que não combinava com a ocasião. E como foi bom estarmos juntos
de novo, o futuro ali mais perto, quase que dava pra tocar com a mão. Ela
estava carinhosa meio que demais, tive que ralhar pra ela parar com a beijação.
Até no velório ela quis me puxar pros fundos da capela, as comadres reparando.
Dia seguinte me vem o compadre de meu irmão e me diz umas coisas. Que era para
eu abrir o olho, que ficasse por lá ou
levasse Maria da Glória comigo. Que é isso, homem? Me explica, que isso é coisa
séria, que não se pode dizer assim como quem conta uma coisa acontecida nos
antigamente. Exigi nome, dia, detalhe. Agarrei pelo colarinho, quase bati no
cabra enviado do Demo. Tinha um quase sorriso quando me falou, mal conseguia
esconder o gosto que tem um infeliz de ver se quebrar a felicidade alheia.
Saí
desarvorado, sem rumo, até que me vi na casa da minha finada mãezinha. Por obra
do acaso ou de Deus, meu irmão chegou no momento em que eu carregava a garrucha
que fora de meu pai, que encontrei ainda enrolada num pano em cima do armário
do quarto. Eu tinha um gosto de sangue na boca, meus olhos só viam desgraça no
porvir. Não me pergunte quem eu ia matar primeiro, eu só sei que a morte tinha
mando no meu coração. Meu irmão quis saber o que era aquilo, gritava para me
chamar ao juízo, mas eu não ouvia. Ele então se atracou comigo, ‘não quero ver
irmão meu na cadeia’. Caímos os dois e a garrucha disparou. Só então me voltou
a presença e eu parei, meu irmão por cima de mim. A bala furou a camisa dele,
riscou-lhe a pele e foi bater no meio do quadro do Coração de Maria que minha
mãezinha tinha no altar com a vela sempre acesa.”
Um
suor grosso brotava nas têmporas de Leovaldo, o peito arquejando um pouco. Os
olhos perderam-se por um instante, abertos para fora, mas sem visão no
presente. Fiquei ali, mudo, misturando na cabeça a cena contada com cenas de
minha própria lembrança, colocando rostos meus nas personagens dele. Pediu-me outro
cigarro. Deu umas três baforadas, ficou um tempo para se recompor, e continuou.
“Aquilo
me freou os ímpetos, me alargou as vistas, como se me tirassem antolhos. Meu
irmão então me tirou, sem resistência, a garrucha da mão. Eu fiquei ali pelo
chão, tremendo e chorando de soluço que nem criança. Só bem depois me pus de
gatinhas e fui até o altar, sem ousar erguer a vista pro coração furado da
Virgem. Pedi perdão e agradeci pra ela e pra mãezinha, que foram as duas que me
valeram e me livraram de fazer desgraça. Fiquei uns dias atordoado e sem rumo.
Evitei de estar com ela, depois saí escondido da cidade e fui para o rancho de
um primo pensar uns dias. Aí, peguei
minhas tralhas, pus na mala e vim para a estrada, no rumo da usina. Não consigo
parar de pensar. Meus irmãos e primos se dividiram. Uns dizem pra eu esquecer
da Glorinha, que tem muita mulher no mundo. Outros me garantem que foi fraqueza
rápida que ela teve, uns goles a mais de cerveja depois da festa do Santo, que
era um cabra de passagem, foram só uns beijos, e que ela não pára de chorar
desde que eu sumi. Não sei ainda meu rumo. Um homem às vezes descobre que tem
que escolher entre a honra e a felicidade, e que não pode ter as duas. Ainda
não decidi.
Ficamos
ali, olhando o rio e a balsa que surgia agora no horizonte em meio à água do
rio e a água que voltava a cair do céu. Foi ficando tudo misturado no mesmo
cinza: a água, o céu, a outra margem. Tentei engolir o nó que me apertava a
garganta, mas ele ficou ali, teimoso. O desassossego me brotava de novo no
peito, feito tiririca brava que renasce sempre, por mais que a gente arranque. Se
minha mãezinha não tivesse morrido pra me trazer à luz, se eu tivesse tido um
irmão que se atracasse comigo, se a Virgem me valesse na hora que o Tisnado me
fechou o coração. Mas eu só tivera instrução de zelar pela honra.
conto transamazônica prêmio UFF de literatura 2012
conto transamazônica prêmio UFF de literatura 2012
sábado, 24 de novembro de 2012
Mulheres de Cinza
Vinha eu acompanhando e
saboreando as mudanças sociais dos últimos cinquenta anos no que se refere aos
avanços da posição da mulher na sociedade, acreditando que elas (vocês) vinham
galgando degrau após degrau a escada da igualdade de direitos, quando, de
repente, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza” surge como um fenômeno literário
neste início de milênio. Como assim, senhorita? Como assim, minha senhora?
Há cinquenta e poucos anos,
quando nasci, não existia ainda a pílula anticoncepcional, que veio a
libertar a sexualidade feminina da obrigatoriedade da procriação e desencadeou todo o processo que alterou
completamente o des(equilíbrio) de poder entre os sexos. No Iêmen os pais
continuam vendendo suas filhas de 12 anos em casamento, e no Afeganistão as
adúlteras ainda são apedrejadas. Mas, pelo menos em nosso mundo classe
média-alta ocidental, a situação feminina na sociedade vem evoluindo
aceleradamente, se não na direção à igualdade de papéis (na qual não acredito),
pelo menos na direção da igualdade de direitos (à qual sou plenamente
favorável, e nem poderia deixar de ser). Nossa presidente é mulher e não vejo
nenhuma necessidade de chamá-la de presidenta, pois não será a única nem a
última (acabei de descobrir que o Word não grifou de vermelho a presidenta, o que acaba sendo uma
contradição cromo-político-ortográfica). Temos duas ministras mulheres no STF e
acaba de ser promovida a primeira oficial-general de nossas Forças Armadas. As
mulheres brasileiras têm hoje autonomia sobre a própria natalidade e geram, em
média, menos de dois filhos cada; chefiam sozinhas mais de um terço dos lares e
contribuem financeiramente em três quartos deles. Elas caminham rapidamente em
direção à igualdade salarial e ocupam inúmeros cargos de chefia em todos os escalões.
Fatos.
A dificuldade que muitos homens
esclarecidos demonstram em reconhecer, ou, quem sabe, admitir essas mudanças na
nossa sociedade me causa espanto. Já ouvi homens dizerem, não totalmente como
piada, que, se não fosse pelo órgão sexual, não dariam nem bom dia às mulheres.
Há ainda homens incapazes de se relacionar com uma mulher como apenas dois
seres humanos, sem conotação erótica, como amigos, como companheiros ombro a
ombro no trabalho. Acho isso um espanto. No fundo, enxergo o receio masculino de
que os homens venham a ter seu papel relegado apenas a abrir potes de conserva
e matar baratas.
Eu, particularmente, nunca tive
problemas em ter amizades com mulheres, mas admito que, na minha geração, isso
era uma exceção. E não sei se hoje as coisas estão muito diferentes. Há ainda
quem acredite que homem que é homem tem amigo homem, que mulher em idade
reprodutiva, ou é da família (tabu) ou deve sempre ser olhada como uma
potencial parceira sexual. Não que eu ache que uma amizade intergenérica não
possa nunca vir a assumir tons coloridos. Já cheguei a namorar uma amiga, o que
acabou com a amizade, diga-se de passagem. Tinha e tenho boas, novas e antigas,
amizades com mulheres. Ouvir o ponto de vista feminino sobre determinado
assunto é mais do que apenas a opinião de outra pessoa. Muitas
vezes é como a visão de alguém do outro lado de uma fronteira, de outro planeta
talvez, o que sempre enriquece a conversa e acrescenta ingredientes novos numa
discussão.
E então vem a Sra. E. L. James e
nos apresenta a inocente Anastasia Steele, jovem e inexperiente (nunca tivera
namorado). Uma estudante de Literatura Inglesa completamente iletrada nas artes
do sexo e do amor. A inocente mocinha entrega seu corpo vestido de tênis e
calça jeans aos caprichos sadomasoquistas do misterioso Christian Grey, homem
poderoso e de hábitos sofisticados (além de rico e lindo, claro). Desequilíbrio
maior impossível. Submissão total. Parece que, lá pelo terceiro volume da
trilogia, a mocinha cresce emocionalmente e resgata seu amante-algoz de
sofrimentos íntimos oriundos de seu passado. Mas não é por esse desfecho
edificante, que acaba convergindo para os das novelas de Jane Austen por
caminhos muito (põe muito nisso) distintos, que as mulheres estão lendo o
livro. Claro que não.
As feministas estão possessas.
Andaram até convocando para uma queima pública dos ditos livros diante da editora,
acrescentando mais alguns tons de cinza à trilogia. Particularmente, acho
queimar livro, seja ele qual for, uma prática obscurantista. Mas a bronca delas
é legítima. Como, depois de tantas passeatas, de tantas mártires, de tantos
sutiãs queimados, depois da lei Maria da Penha e da tipificação do assédio
sexual como crime, as maiores beneficiárias das conquistas femininas, as
mulheres letradas e endinheiradas o suficiente para comprarem e lerem um
romance suspiram e gemem imaginando-se na pele da indefesa mocinha voluntariamente
entregue ao macho poderoso e distante emocionalmente? Soa a traição.
Claro, pode ser que as mulheres
estejam apenas se dando o direito de ler um texto picante, que as deixa
excitadas e assumindo isso em público: no metrô, na sala de espera do doutor ou
na praia, e nada além disso. Muito justo, mais um direito conquistado. Mas haverá
algo mais por baixo dessa interpretação simplista? Será que as coisas andaram
rápido demais para elas? Estarão inseguras sem um macho que as respalde na
reunião de condomínio quando o clima esquenta? Não querem tanta igualdade
assim? Não sei a resposta. O que me parece é que, mesmo que hoje elas tenham
conseguido que a sociedade aceite (ou pelo menos admita) que elas troquem
beijos com um desconhecido na balada sem emitir julgamentos de caráter, as mulheres,
ou boa parte delas, não abriram mão do mito do príncipe encantado. Apenas substituíram
o cavalo branco pelo carrão branco do ano. Querem alguém que as proteja, que as
excite, que as trate como rainhas na vida e tenha pegada firme na cama. Alguém
que ganhe tanto ou mais que elas, que assuma as despesas da casa se ela
resolver ficar mais um tempo cuidando do bebê. Alguém que as faça felizes. Não são todas, friso bem, mas acho que ainda é
uma grande parcela. Arrisco dizer que é a maioria. Tudo bem, as coisas caminham
em ritmos diferentes em diferentes partes das sociedades, em diferentes
cabeças. Mas delegar a outro alguém a responsabilidade pela própria felicidade
é e será sempre uma roubada. Seja você homem ou mulher. O que é, para todos os
efeitos práticos, muito diferente de querer compartilhar e multiplicar a
própria felicidade com alguém com qualidades e defeitos.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Svetlana
Mikhail era novo na empresa e
aquela seria a primeira vez em que participaria da Reunião Estratégica, como
representante do Departamento Comercial.
Passara os últimos dias e algumas noites levantando dados, montando
planilhas e criando gráficos para fazer bonito diante dos novos colegas e de
seus superiores. “Só se tem uma oportunidade de causar uma boa primeira
impressão”, a frase clichê ressoava na sua cabeça desde que a data da reunião
fora anunciada. No dia D teve cuidados adicionais ao escolher o que vestiria
depois do banho matinal. Depois de pronto, olhou-se no espelho grande do
banheiro: cabelos alinhados, que mandara cortar estrategicamente uma semana
antes, para que não estivessem nem muito grandes nem com aparência de terem
sido cortados especialmente na véspera. Não era bonito de rosto nem tinha porte
atlético, mas sua altura acima da média e o olhar direto e inteligente, como
ele supunha ter, teriam de ser suficientes para fazer boa figura física diante
da plateia. Plateia essa que não se furtaria ao prazer de emitir julgamentos,
diretos ou velados, sobre aquele novo funcionário de médio escalão da empresa.
As cartas certas para ganhar a oportunidade de uma futura promoção tinham de
ser postas na mesa desde o início do jogo.
Dez da manhã, último andar do
prédio. Na antessala do anfiteatro onde se daria a reunião, funcionários e
gerentes tomavam café, conferiam seus relatórios e conversavam assuntos
aleatórios. Alguns menos precavidos esbravejavam discretamente pelo celular com
alguma secretária ou subalterno, reclamando do atraso na entrega de alguma
pasta ou pen drive. Mikhail
esforçava-se mentalmente para ficar à vontade e participar da conversa, sem
demonstrar o quanto ainda se sentia deslocado. Então a porta do elevador se
abriu, o que, casualmente, atraiu o olhar de Mikhail. Por ela saíram dois
diretores e Svetlana. A xícara que Mikhail segurava ficou suspensa no ar em
algum lugar entre seus lábios e o pires que segurava com a mão esquerda. Uma
mulher esguia, cabelos longos parcialmente presos, vestindo um tailleur grená
atravessou a antessala com passos ao mesmo tempo elegantes e decididos e
dirigiu-se para a primeira fila, cadeira do canto esquerdo, do anfiteatro.
Convocados todos para entrar. Mikhail
apalpou pela décima vez o pen drive
no bolso de cima do paletó e abriu mais uma vez a pasta com os relatórios.
Durante as muitas apresentações, teve dificuldade em se ater aos números e gráficos, seu olhar constantemente escapando para a primeira fila à esquerda.
Durante as muitas apresentações, teve dificuldade em se ater aos números e gráficos, seu olhar constantemente escapando para a primeira fila à esquerda.
“Mulherão, não é não?”
“Como?”
Era o Luiz Cláudio, seu colega de
departamento quem lhe falava ao ouvido.
“Como o quê, cara? Até parece que
você não está olhando.”
“Ah, ela.” Não sabia exatamente por
que, mas se viu tentando fingir um ar blasée e desinteressado. “Quem é?”
“Não conhece ainda? É a Svetlana,
assessora do Departamento Jurídico. Dra.
Svetlana. Ah, se eu não fosse noivo...”
“Ah, sim. Já tinha ouvido falar, não
fui apresentado ainda. Realmente, mulherão.”
Mais tarde, no coffee break, Mikhail avaliava
mentalmente seu desempenho. Passara de forma clara informações relevantes
baseadas nas quais, inclusive, arriscara fazer algumas previsões sobre os rumos
futuros do mercado, fato que atraiu o interesse e algumas perguntas adicionais
de um dos diretores. Mas recriminava-se por ter gaguejado um pouco mais que o
habitual e por quase ter perdido o rumo na exposição de um argumento técnico
particularmente complicado. Enquanto esteve de pé diante de todos, viu seu
olhar ser atraído mais de uma vez para a assessora jurídica. O Mulherão.
Svetlana. Aquele belo par de pernas insinuando-se, esbelto e musculoso, por sob a
pasta de relatórios jurídicos o havia desconcentrado por uma ou duas
vezes. O olhar de Svetlana fitara-o fixamente durante toda a exposição,
certamente em sinal de atenção estritamente profissional. Certamente.
Durante o coffee break, tapinhas estalaram em suas costas. “Gostei de sua exposição. Se bem que você poderia ter
enfatizado mais a questão da margem de lucros, como eu tinha lhe falado.” Era o
Carvalho, seu gerente imediato. “Mas, para primeira vez, até que não foi mal, garoto.”
“Que bom que o senhor gostou.”
Varreu a sala com o olhar em
busca de Luiz Cláudio. Encontrou-o ao celular perto dos banheiros e andou até
lá. Ele fechou o aparelho e sorriu: “Mandou bem, Mika!”
“O Carvalho veio me disser que
‘para primeira vez, até que não foi mal’. Que filho da puta.”
“Relaxa, cara, ele deve estar
temendo uma futura concorrência pelo cargo dele. Vai se acostumando que empresa
grande é assim mesmo. Ninguém tem amizade, só interesse. Menos eu, claro, que
sou seu amigo desinteressado. Para provar, vou te fazer um favor, você vai
ficar me devendo essa. Vem comigo.”
Atravessou o recinto arrastando-o
pelo braço. Quando deu por si, Mikhail estava postado diante dela.
“Doutora, este é o novo membro do
Comercial, não sei se já foram apresentados, meu amigo Mikhail.”
“Muito prazer, Mikhail. Svetlana,
do Jurídico.” Estendeu-lhe a mão muito branca sem deixar de bebericar o suco de
laranja.
“O prazer é meu, Dra.”
“Interessante esse seu nome,
‘Mikhail’, de onde ele saiu?”
“Minha mãe era professora de
dança, dava aulas de balé na escola. É Miguel em russo. O nome veio do
Baryshnikov, imagino eu. Ela era fã de balé clássico.”
“E você, gosta de dança?”
“Mais ou menos. Entendo um
pouquinho, tinha muitos livros sobre balé lá em casa, Lago dos Cisnes na
vitrola no domingo, umas duas idas ao Municipal, essas coisas, mas não passa
disso.”
“Que pena. Eu adoro dança, adoro
balé.”
“Nunca pensou em ser dançarina?”
“Pensei, pensei a sério até,
estudei balé desde a infância. Mas, aos quatorze, rompi um ligamento do
tornozelo, fiquei dois meses engessada e perdi o pique. Acabei advogada.”
“Que pena, a Sra. tem porte de
bailarina.” (Que ridículo eu fui, censurou-se internamente, chamei-a de senhora,
vai pensar que eu a acho velha. E ela deve ter ouvido essa de ‘porte de
bailarina’ milhares de vezes).
“É, as pessoas dizem isso, às
vezes. Mas me chame de Svetlana, OK Mikhail?”
“OK, Svetlana.”
“Bem, a reunião já vai recomeçar.
Melhor entrarmos.”
xxxxxxxxx
Durante uma semana, aquele minuto
de conversa foi passado e repassado na cabeça de Mikhail milhares de vezes.
Como o replay de uma jogada na grande área, que os comentaristas de futebol
discutem exaustivamente tentando decidir se foi ou não foi pênalti. Pênalti que
ele, certamente, havia chutado para fora. Sentia-se um idiota, poderia ter dito
que adorava dança, mas o fato é que seu interesse por balé era mesmo
periférico, quase que apenas cultura geral.
Sonhou inúmeras vezes, durante o
banho ou no metrô, a caminho de casa ou do trabalho, com uma segunda
oportunidade, onde só falaria coisas inteligentes e espirituosas, de deixar com
inveja Humphrey Bogart em Casablanca. Imaginou várias vezes ter visto Svetlana nos
corredores dos shoppings, nos cinemas, correndo no Ibirapuera no domingo de
manhã, mas o fato é que nunca conseguiu vê-la fora do ambiente de trabalho.
Pesquisou, fingindo a maneira
mais desinteressada possível, sobre ela na empresa. Surpreendeu-se em descobrir
que aquela beleza que o arrebatara, aquele rosto de camponesa ucraniana,
aqueles olhos cor de mel ligeiramente melancólicos não eram uma unanimidade
entre seus colegas homens, e que ela frequentemente despertava antipatia entre
as mulheres. Inveja, certamente, ele imaginava. Mas Svetlana realmente não era
do tipo comunicativo no trabalho. Teria um namorado, que ninguém nunca vira nem
sabia quem era, e não parecia receptiva às eventuais cantadas mais ou menos
diretas que, não raro, recebia. Mas, aos poucos, Mikhail foi pensando menos e
menos nela, e começou até a lançar uns olhares gulosos para a Adriana, a estagiária
do Marketing morena e gostosinha.
Fora marcada uma nova reunião
entre todos os departamentos. Naquela manhã, Mikhail surpreendeu-se demorando
mais que o habitual na escolha da melhor combinação entre a camisa e a gravata,
decidindo se iria com o terno claro e sapatos marrons ou com terno escuro e
sapatos pretos. Deu-se conta de que ansiava por uma nova oportunidade de
conversar, um pouco que fosse, com Svetlana. Dessa vez, agiria com mais
segurança, com mais firmeza, com mais pegada.
Cumprimentaram-se quase que
formalmente à entrada da reunião, um mau começo. Dessa vez, Mikhail não havia sido o escalado
para falar em nome do departamento, o próprio Carvalho incumbiu-se da tarefa,
numa apresentação burocrática e sem imaginação. Então, a diretoria convocou
Dra. Svetlana para expor a todos o andamento da disputa judicial sobre a
propriedade de uma marca e sobre a nova política de patentes da empresa. Mikhail
ajeitou-se na poltrona e não perdeu uma palavra da exposição, que ele achou
competente e clara. Houve aplausos entusiasmados e olhares de aprovação dos
diretores.
No intervalo, quando desligava o
celular onde acabara de dar orientações para um dos funcionários de seu
departamento, Mikhail viu-se frente a frente com Svetlana.
“Como vai, Mikhail?”
“Bem, e você?” (‘Você’, boa
garoto, dessa vez não pisou na bola.)
“No próximo fim de semana vai
acontecer o festival de dança de Curitiba, você sabe, não?”
“Sim, claro”, mentiu. “O festival
é ótimo, tem grupos do mundo inteiro”, chutou de forma arriscada, mas certeira.
“Você vai?”
“Ah, acho que não vai dar. Vai
ser o casamento da minha irmã, eu não tenho como faltar.” Isso era verdade, infelizmente.
“Que pena. Pensei que talvez a
gente pudesse se encontrar por lá. Mas eu entendo.”
“Puxa, que pena mesmo.”
“Eu vou todo ano, adoro. Este ano
vem o balé da Ópera de Viena, vão dançar Giselle.”
“Nossa, que ótimo. Giselle é
lindo! É Justamente o nome da minha irmã que vai se casar.”
xxxxxxx
Mikhail chegou a pensar loucuras,
em inventar uma desculpa para não ir ao casamento da irmã, mas ele era padrinho
e teve que admitir que não havia escapatória. Durante as bodas parecia
distante, chegaram a lhe perguntar se estava passando bem. Bebeu mais do que
deveria e saiu antes do fim da festa.
Poucas semanas depois ouviu
boatos na empresa de que Svetlana fora vista mais de uma vez saindo com um dos
diretores, homem bem mais velho do que ela, casado.
Mikhail passou a folhear livros
sobre balé nas livrarias, chegando a comprar alguns. No fim de semana alugava
vídeos do Lago dos Cisnes, do Quebra Nozes e outros. Aos poucos foi tornando-se
mais entendido no assunto. Fez uma assinatura do Teatro Municipal, aonde ia
sozinho. Uma noite viu-se em lágrimas ao fim de uma apresentação de Giselle.
Matriculou-se em um curso de dança de salão. Descobriu que levava jeito para a
coisa. Passou a frequentar gafieiras com seus novos colegas, a convite dos
professores de dança. Uma vez, em viagem de trabalho ao Rio, conheceu Ritinha na Estudantina. Dançaram juntos a noite inteira. Passaram a se falar com
frequência pelo telefone. Em pouco tempo os dois se alternavam nos fins de
semana entre Rio e São Paulo. Ritinha, uma dentista alegre e desinibida, tinha molas nos
quadris e sabia fazê-lo rir. Em pouco mais de um ano estavam casados, tendo ele,
pouco antes, assumido a gerência da filial do Rio.
Porém, nas vezes em que tinha que
participar das reuniões em São Paulo e via Svetlana, ficava mexido. Acabavam
sempre conversando, frequentemente sobre dança. Mikhail contou-lhe que tinha
até ganho um prêmio na Estudantina dançando bolero com Ritinha. Svetlana
pareceu muito entusiasmada com a notícia. “Veja só, quem acabou tornando-se um
bailarino de verdade!”
Quando voltava para o Rio, ficava
como que enfeitiçado, sentindo-se culpado por não conseguir deixar de pensar em
Svetlana. Isso durava uns três ou quatro dias, acabou se acostumando, depois passava
e ele deixava de pensar nela quase que completamente. Às vezes, aos domingos,
colocava um CD de Tchaikovsky para tocar bem alto e ficava olhando o teto por
um longo tempo.
xxxxxxx
Num dia de dezembro, Mikhail
soube da fatalidade. Svetlana, de férias, tinha viajado para Moscou, onde
assistiria o Bolshoi ao vivo, o sonho de toda uma existência. Havia uma
violenta nevasca. O avião da conexão partiu de Paris, mas nunca chegou à
Rússia. O enterro já havia acontecido, mas Mikhail não deixaria de ir à missa
de sétimo dia.
Na igreja ortodoxa, depois da missa,
foi apresentado à mãe da falecida colega. Diante daquela imigrante ucraniana de
pele envelhecida pelo sol tropical e olhos muito azuis agora avermelhados pelas
lágrimas, apresentou-se:
“Sou Mikhail, era colega de sua
filha na empresa. Sinto muitíssimo. Minhas condolências.”
Os olhos sofridos da velha
senhora se acenderam: “Então o senhor é o Mikhail! O “Misha”! Minha filha falava muito do senhor, sempre com muito
carinho.” E segurava com força as mãos de Mikhail entre as suas.
Svetlana...
terça-feira, 23 de outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
sábado, 6 de outubro de 2012
Diários de Viagem: Veneza
Como toda grande cidade
turística, Veneza tem seu lado público e seu lado íntimo. O lado público todos
conhecem, de perto ou de longe: a Praça de São Marcos, com seus pombos e sua
Basílica, a Ponte dos Suspiros, o Palácio Ducalle, as gôndolas e o Grande
Canal. Já o lado íntimo é aquele que os moradores conhecem bem e que o turista observador
tenta descobrir no pouco tempo de que dispõe. Num pequeno punhado de dias,
trava um jogo de sedução, para merecer da cidade a revelação de intimidades,
detalhes e mesmo defeitos que normalmente só se mostram nas relações antigas e
sem pressa.
| (clique na foto para ampliar) |
Veneza não tem árvores.
Melhor dizendo, quase não as tem. Consequentemente, é um grande e monótono
deserto para amantes e observadores de pássaros, uma vez que pássaros precisam
delas para alimento, pouso e abrigo. Não avistei um mísero pardal. A exceção
são os pombos, claro, e uma ou outra gaivota nas grandes rivas que margeiam a laguna. Os pombos são onipresentes. A maior
parte dos possíveis locais de pouso para os incontinentes columbídeos nos
prédios importantes de Veneza são guarnecidos com longos espetos de aço de
ponta afiada. Em meio a toda essa monotonia ornitológica fiz um flagrante
surpreendente: um pombo colorido, em diversos tons de verde, se destacava em
meio às monótonas nuances de preto e branco de seus semelhantes. Intrigado, saí
perguntando a razão daquelas penas tropicais aos demais pombos da praça. Os
pombos arrulhavam com evidente desdém, mas nenhum se dispôs a esclarecer o caso. Uma
gaivota me chamou para um canto da praça e decifrou o mistério: dois anos
antes, num programa de intercâmbio entre as duas cidades carnavalescas, uma
pomba veneziana pousou no Rio de Janeiro. Veio ela, por obra de cupido, a
atrair a simpatia de um papagaio, que se prontificou a apresentar-lhe as muitas
maravilhas cariocas, programa esse que incluía uma passada em seu cafofo com
vista para os Arcos da Lapa. Ah bom.
| (clique na foto para ampliar) |
Observei com atenção as
janelas das casas de Veneza, fotografando muitas, inclusive. Não vi nenhuma que
fosse guarnecida de ripinhas paralelas e inclinadas. As únicas venezianas que
vi nas janelas eram as de carne e osso.
Quase despercebidos em meio
ao mar de turistas, existem os moradores de Veneza. Os números são
massacrantes: mais de 21 milhões de turistas em 2007 para uma população
residente de 60 mil, e que vem reduzindo-se ano a ano. Os preços exorbitantes
dos imóveis vêm afugentando os venezianos da gema, que resistem em casas
herdadas há muitas gerações. Um pequeno estúdio de 36 m2 vale cerca de 260 mil
euros, mais de um milhão de reais.
| (clique na foto para ampliar) |
Talvez a melhor coisa a se
fazer em Veneza seja perder-se no labirinto de ruelas, cruzando canais
secundários e terciários, subindo e descendo as centenas de pontezinhas. Não há
automóveis, não há motocicletas nem mesmo bicicletas. Devem ser proibidas pela
legislação local ou simplesmente os possíveis ciclistas são desencorajados pelo
sobe e desce de degraus a cada ponte. Então, tudo é feito por via aquática. A
ambulância, a viatura dos bombeiros, os taxis, os caminhões de mudança e os que
abastecem de mercadorias o comércio da cidade, tudo existe e funciona em versão
flutuante e motorizada. Afastando-se dos principais pontos turísticos,
reparamos nas donas de casa abastecendo-se em mercearias, mães levando e
trazendo suas crianças das escolas, profissionais indo e voltando do trabalho. As
vielas vão se estreitando e em algumas delas pode-se tocar ao mesmo tempo as
paredes dos dois lados da rua. Uma
charmosa favela medieval. Descobrimos por acaso uma oficina pequena de marcenaria
náutica, onde um artesão dava retoques finais em remos de gôndolas. Fabricava também aquelas
assombrosas obras de design que são as peças maciças de madeira onde os remos
se apoiam.
Não passeamos de gôndola.
Muito caro. Pareceu-me que todas as gôndolas de Veneza haviam sido alugadas por
turistas japoneses.
Ser carteiro em Veneza é uma
proeza. As casas não seguem numeração sequencial ao longo das vias e as vias
têm designações diferentes conforme seu porte. Fondamentas são as ruas que margeiam os canais; rivas são as grandes fondamentas, que geralmente dão para a
laguna; calles são ruas; campo é uma praça e corte é um pátio; rio terra
é um antigo canal aterrado; salizada
é uma rua principal; ruga é uma rua
comercial, enquanto sotoportigo é uma
passagem coberta, por baixo de um imóvel, geralmente ligando duas calles. Vi dois carteiros discutindo
vigorosamente, provavelmente sobre a provável localização de um endereço
postal. Deve ser uma cena comum.
No final de uma tarde,
depois de esperar em vão que a companhia aérea localizasse minha bagagem extraviada
havia já três dias, perguntei ao gerente do hotel onde poderia comprar alguma
roupa para sobreviver até que minha mala fosse entregue (o que só acabou
acontecendo no sexto dia de viagem, quando eu já estava deixando Florença). Ele
indicou-me a área no mapa: um pouco acima da ponte Rialto, na margem oriental
do Grande Canal. Parti do hotel em passo acelerado para o local indicado. Talvez
pelo caminhar decidido, despido da máquina fotográfica e sem mapa na mão,
comecei a ter a ilusão de que era visto pelos passantes como um autêntico veneziano.
Vi-me tentado a acenar aleatoriamente para conhecidos imaginários a destra e a sinistra, gritando alto “Ciao,
Adamo! Ciao, Filomena!” Quando dei por mim, havia
atravessado toda a cidade e estava em algum lugar da margem norte, de frente
para a laguna, num corte tranquilo onde bambini brincavam sob o olhar de suas mamas e nonas. Deliciosamente perdido, quase um anônimo veneziano.
Mais fotos de Veneza:
Mais fotos de Veneza:
| De manhãzinha, a Chiesa di Santa Maria della Salute. |
| Equivalente veneziano do carro estacionado na porta de casa. |
| "Favelão medieval" |
| Sol nascente: sob a arcada do Palazzo Ducalle. (fotógrafos madrugam) |
| Clap, clap clap. As luvarias venezianas são tradicionais. |
| Acrescente barulho de pratos e talheres, um cheirinho de comida na panela e um bebê chorando: também mora gente em Veneza. |
| Pausa para um panini. |
| Numa vitrine, baralho ilustrado por Milo Manara, ícone italiano do quadrinho erótico. |
| Estado atual da obra deste artista depois de mais de um mês trabalhando no registro da fachada de seu próprio estudio em pátio (corte) escondido de Veneza. |
| O Grande Canal, com a Ponte Rialto ao fundo. |
| Sem legenda. |
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