Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

sábado, 24 de novembro de 2012

Mulheres de Cinza


Vinha eu acompanhando e saboreando as mudanças sociais dos últimos cinquenta anos no que se refere aos avanços da posição da mulher na sociedade, acreditando que elas (vocês) vinham galgando degrau após degrau a escada da igualdade de direitos, quando, de repente, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza” surge como um fenômeno literário neste início de milênio. Como assim, senhorita? Como assim, minha senhora?

Há cinquenta e poucos anos, quando nasci, não existia ainda a pílula anticoncepcional, que veio a libertar a sexualidade feminina da obrigatoriedade da procriação  e desencadeou todo o processo que alterou completamente o des(equilíbrio) de poder entre os sexos. No Iêmen os pais continuam vendendo suas filhas de 12 anos em casamento, e no Afeganistão as adúlteras ainda são apedrejadas. Mas, pelo menos em nosso mundo classe média-alta ocidental, a situação feminina na sociedade vem evoluindo aceleradamente, se não na direção à igualdade de papéis (na qual não acredito), pelo menos na direção da igualdade de direitos (à qual sou plenamente favorável, e nem poderia deixar de ser). Nossa presidente é mulher e não vejo nenhuma necessidade de chamá-la de presidenta, pois não será a única nem a última (acabei de descobrir que o Word não grifou de vermelho a presidenta, o que acaba sendo uma contradição cromo-político-ortográfica). Temos duas ministras mulheres no STF e acaba de ser promovida a primeira oficial-general de nossas Forças Armadas. As mulheres brasileiras têm hoje autonomia sobre a própria natalidade e geram, em média, menos de dois filhos cada; chefiam sozinhas mais de um terço dos lares e contribuem financeiramente em três quartos deles. Elas caminham rapidamente em direção à igualdade salarial e ocupam inúmeros cargos de chefia em todos os escalões. Fatos.

A dificuldade que muitos homens esclarecidos demonstram em reconhecer, ou, quem sabe, admitir essas mudanças na nossa sociedade me causa espanto. Já ouvi homens dizerem, não totalmente como piada, que, se não fosse pelo órgão sexual, não dariam nem bom dia às mulheres. Há ainda homens incapazes de se relacionar com uma mulher como apenas dois seres humanos, sem conotação erótica, como amigos, como companheiros ombro a ombro no trabalho. Acho isso um espanto. No fundo, enxergo o receio masculino de que os homens venham a ter seu papel relegado apenas a abrir potes de conserva e matar baratas.

Eu, particularmente, nunca tive problemas em ter amizades com mulheres, mas admito que, na minha geração, isso era uma exceção. E não sei se hoje as coisas estão muito diferentes. Há ainda quem acredite que homem que é homem tem amigo homem, que mulher em idade reprodutiva, ou é da família (tabu) ou deve sempre ser olhada como uma potencial parceira sexual. Não que eu ache que uma amizade intergenérica não possa nunca vir a assumir tons coloridos. Já cheguei a namorar uma amiga, o que acabou com a amizade, diga-se de passagem. Tinha e tenho boas, novas e antigas, amizades com mulheres. Ouvir o ponto de vista feminino sobre determinado assunto é mais do que apenas a opinião de outra pessoa. Muitas vezes é como a visão de alguém do outro lado de uma fronteira, de outro planeta talvez, o que sempre enriquece a conversa e acrescenta ingredientes novos numa discussão.

E então vem a Sra. E. L. James e nos apresenta a inocente Anastasia Steele, jovem e inexperiente (nunca tivera namorado). Uma estudante de Literatura Inglesa completamente iletrada nas artes do sexo e do amor. A inocente mocinha entrega seu corpo vestido de tênis e calça jeans aos caprichos sadomasoquistas do misterioso Christian Grey, homem poderoso e de hábitos sofisticados (além de rico e lindo, claro). Desequilíbrio maior impossível. Submissão total. Parece que, lá pelo terceiro volume da trilogia, a mocinha cresce emocionalmente e resgata seu amante-algoz de sofrimentos íntimos oriundos de seu passado. Mas não é por esse desfecho edificante, que acaba convergindo para os das novelas de Jane Austen por caminhos muito (põe muito nisso) distintos, que as mulheres estão lendo o livro. Claro que não.

As feministas estão possessas. Andaram até convocando para uma queima pública dos ditos livros diante da editora, acrescentando mais alguns tons de cinza à trilogia. Particularmente, acho queimar livro, seja ele qual for, uma prática obscurantista. Mas a bronca delas é legítima. Como, depois de tantas passeatas, de tantas mártires, de tantos sutiãs queimados, depois da lei Maria da Penha e da tipificação do assédio sexual como crime, as maiores beneficiárias das conquistas femininas, as mulheres letradas e endinheiradas o suficiente para comprarem e lerem um romance suspiram e gemem imaginando-se na pele da indefesa mocinha voluntariamente entregue ao macho poderoso e distante emocionalmente? Soa a traição.

Claro, pode ser que as mulheres estejam apenas se dando o direito de ler um texto picante, que as deixa excitadas e assumindo isso em público: no metrô, na sala de espera do doutor ou na praia, e nada além disso. Muito justo, mais um direito conquistado. Mas haverá algo mais por baixo dessa interpretação simplista? Será que as coisas andaram rápido demais para elas? Estarão inseguras sem um macho que as respalde na reunião de condomínio quando o clima esquenta? Não querem tanta igualdade assim? Não sei a resposta. O que me parece é que, mesmo que hoje elas tenham conseguido que a sociedade aceite (ou pelo menos admita) que elas troquem beijos com um desconhecido na balada sem emitir julgamentos de caráter, as mulheres, ou boa parte delas, não abriram mão do mito do príncipe encantado. Apenas substituíram o cavalo branco pelo carrão branco do ano. Querem alguém que as proteja, que as excite, que as trate como rainhas na vida e tenha pegada firme na cama. Alguém que ganhe tanto ou mais que elas, que assuma as despesas da casa se ela resolver ficar mais um tempo cuidando do bebê. Alguém que as faça felizes. Não são todas, friso bem, mas acho que ainda é uma grande parcela. Arrisco dizer que é a maioria. Tudo bem, as coisas caminham em ritmos diferentes em diferentes partes das sociedades, em diferentes cabeças. Mas delegar a outro alguém a responsabilidade pela própria felicidade é e será sempre uma roubada. Seja você homem ou mulher. O que é, para todos os efeitos práticos, muito diferente de querer compartilhar e multiplicar a própria felicidade com alguém com qualidades e defeitos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Amanhecer em Veneza

Depois da chuva, os primeiros raios de sol iluminam a Chiesa di Sta. Maria della Salute. As gôndolas, ainda cobertas, aguardam seus condutores para mais um dia de trabalho.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Svetlana


Mikhail era novo na empresa e aquela seria a primeira vez em que participaria da Reunião Estratégica, como representante do Departamento Comercial.  Passara os últimos dias e algumas noites levantando dados, montando planilhas e criando gráficos para fazer bonito diante dos novos colegas e de seus superiores. “Só se tem uma oportunidade de causar uma boa primeira impressão”, a frase clichê ressoava na sua cabeça desde que a data da reunião fora anunciada. No dia D teve cuidados adicionais ao escolher o que vestiria depois do banho matinal. Depois de pronto, olhou-se no espelho grande do banheiro: cabelos alinhados, que mandara cortar estrategicamente uma semana antes, para que não estivessem nem muito grandes nem com aparência de terem sido cortados especialmente na véspera. Não era bonito de rosto nem tinha porte atlético, mas sua altura acima da média e o olhar direto e inteligente, como ele supunha ter, teriam de ser suficientes para fazer boa figura física diante da plateia. Plateia essa que não se furtaria ao prazer de emitir julgamentos, diretos ou velados, sobre aquele novo funcionário de médio escalão da empresa. As cartas certas para ganhar a oportunidade de uma futura promoção tinham de ser postas na mesa desde o início do jogo.

Dez da manhã, último andar do prédio. Na antessala do anfiteatro onde se daria a reunião, funcionários e gerentes tomavam café, conferiam seus relatórios e conversavam assuntos aleatórios. Alguns menos precavidos esbravejavam discretamente pelo celular com alguma secretária ou subalterno, reclamando do atraso na entrega de alguma pasta ou pen drive. Mikhail esforçava-se mentalmente para ficar à vontade e participar da conversa, sem demonstrar o quanto ainda se sentia deslocado. Então a porta do elevador se abriu, o que, casualmente, atraiu o olhar de Mikhail. Por ela saíram dois diretores e Svetlana. A xícara que Mikhail segurava ficou suspensa no ar em algum lugar entre seus lábios e o pires que segurava com a mão esquerda. Uma mulher esguia, cabelos longos parcialmente presos, vestindo um tailleur grená atravessou a antessala com passos ao mesmo tempo elegantes e decididos e dirigiu-se para a primeira fila, cadeira do canto esquerdo, do anfiteatro.

Convocados todos para entrar. Mikhail apalpou pela décima vez o pen drive no bolso de cima do paletó e abriu mais uma vez a pasta com os relatórios. 

Durante as muitas apresentações, teve dificuldade em se ater aos números e gráficos, seu olhar constantemente escapando para a primeira fila à esquerda.

“Mulherão, não é não?”

“Como?”

Era o Luiz Cláudio, seu colega de departamento quem lhe falava ao ouvido.

“Como o quê, cara? Até parece que você não está olhando.”

“Ah, ela.” Não sabia exatamente por que, mas se viu tentando fingir um ar blasée e desinteressado. “Quem é?”

“Não conhece ainda? É a Svetlana, assessora do Departamento Jurídico. Dra. Svetlana. Ah, se eu não fosse noivo...”

“Ah, sim. Já tinha ouvido falar, não fui apresentado ainda. Realmente, mulherão.”

Mais tarde, no coffee break, Mikhail avaliava mentalmente seu desempenho. Passara de forma clara informações relevantes baseadas nas quais, inclusive, arriscara fazer algumas previsões sobre os rumos futuros do mercado, fato que atraiu o interesse e algumas perguntas adicionais de um dos diretores. Mas recriminava-se por ter gaguejado um pouco mais que o habitual e por quase ter perdido o rumo na exposição de um argumento técnico particularmente complicado. Enquanto esteve de pé diante de todos, viu seu olhar ser atraído mais de uma vez para a assessora jurídica. O Mulherão. Svetlana. Aquele belo par de pernas insinuando-se, esbelto e musculoso, por sob a pasta de relatórios jurídicos o havia desconcentrado por uma ou duas vezes. O olhar de Svetlana fitara-o fixamente durante toda a exposição, certamente em sinal de atenção estritamente profissional. Certamente.

Durante o coffee break, tapinhas estalaram em suas costas. “Gostei de sua exposição. Se bem que você poderia ter enfatizado mais a questão da margem de lucros, como eu tinha lhe falado.” Era o Carvalho, seu gerente imediato. “Mas, para primeira vez, até que não foi mal, garoto.”

“Que bom que o senhor gostou.”

Varreu a sala com o olhar em busca de Luiz Cláudio. Encontrou-o ao celular perto dos banheiros e andou até lá. Ele fechou o aparelho e sorriu: “Mandou bem, Mika!”

“O Carvalho veio me disser que ‘para primeira vez, até que não foi mal’. Que filho da puta.”

“Relaxa, cara, ele deve estar temendo uma futura concorrência pelo cargo dele. Vai se acostumando que empresa grande é assim mesmo. Ninguém tem amizade, só interesse. Menos eu, claro, que sou seu amigo desinteressado. Para provar, vou te fazer um favor, você vai ficar me devendo essa. Vem comigo.”

Atravessou o recinto arrastando-o pelo braço. Quando deu por si, Mikhail estava postado diante dela.

“Doutora, este é o novo membro do Comercial, não sei se já foram apresentados, meu amigo Mikhail.”

“Muito prazer, Mikhail. Svetlana, do Jurídico.” Estendeu-lhe a mão muito branca sem deixar de bebericar o suco de laranja.

“O prazer é meu, Dra.”

“Interessante esse seu nome, ‘Mikhail’, de onde ele saiu?”

“Minha mãe era professora de dança, dava aulas de balé na escola. É Miguel em russo. O nome veio do Baryshnikov, imagino eu. Ela era fã de balé clássico.”

“E você, gosta de dança?”

“Mais ou menos. Entendo um pouquinho, tinha muitos livros sobre balé lá em casa, Lago dos Cisnes na vitrola no domingo, umas duas idas ao Municipal, essas coisas, mas não passa disso.”

“Que pena. Eu adoro dança, adoro balé.”

“Nunca pensou em ser dançarina?”

“Pensei, pensei a sério até, estudei balé desde a infância. Mas, aos quatorze, rompi um ligamento do tornozelo, fiquei dois meses engessada e perdi o pique. Acabei advogada.”

“Que pena, a Sra. tem porte de bailarina.” (Que ridículo eu fui, censurou-se internamente, chamei-a de senhora, vai pensar que eu a acho velha. E ela deve ter ouvido essa de ‘porte de bailarina’ milhares de vezes).

“É, as pessoas dizem isso, às vezes. Mas me chame de Svetlana, OK Mikhail?”

“OK, Svetlana.”

“Bem, a reunião já vai recomeçar. Melhor entrarmos.”

xxxxxxxxx

Durante uma semana, aquele minuto de conversa foi passado e repassado na cabeça de Mikhail milhares de vezes. Como o replay de uma jogada na grande área, que os comentaristas de futebol discutem exaustivamente tentando decidir se foi ou não foi pênalti. Pênalti que ele, certamente, havia chutado para fora. Sentia-se um idiota, poderia ter dito que adorava dança, mas o fato é que seu interesse por balé era mesmo periférico, quase que apenas cultura geral.

Sonhou inúmeras vezes, durante o banho ou no metrô, a caminho de casa ou do trabalho, com uma segunda oportunidade, onde só falaria coisas inteligentes e espirituosas, de deixar com inveja Humphrey Bogart em Casablanca. Imaginou várias vezes ter visto Svetlana nos corredores dos shoppings, nos cinemas, correndo no Ibirapuera no domingo de manhã, mas o fato é que nunca conseguiu vê-la fora do ambiente de trabalho.

Pesquisou, fingindo a maneira mais desinteressada possível, sobre ela na empresa. Surpreendeu-se em descobrir que aquela beleza que o arrebatara, aquele rosto de camponesa ucraniana, aqueles olhos cor de mel ligeiramente melancólicos não eram uma unanimidade entre seus colegas homens, e que ela frequentemente despertava antipatia entre as mulheres. Inveja, certamente, ele imaginava. Mas Svetlana realmente não era do tipo comunicativo no trabalho. Teria um namorado, que ninguém nunca vira nem sabia quem era, e não parecia receptiva às eventuais cantadas mais ou menos diretas que, não raro, recebia. Mas, aos poucos, Mikhail foi pensando menos e menos nela, e começou até a lançar uns olhares gulosos para a Adriana, a estagiária do Marketing morena e gostosinha.

Fora marcada uma nova reunião entre todos os departamentos. Naquela manhã, Mikhail surpreendeu-se demorando mais que o habitual na escolha da melhor combinação entre a camisa e a gravata, decidindo se iria com o terno claro e sapatos marrons ou com terno escuro e sapatos pretos. Deu-se conta de que ansiava por uma nova oportunidade de conversar, um pouco que fosse, com Svetlana. Dessa vez, agiria com mais segurança, com mais firmeza, com mais pegada.

Cumprimentaram-se quase que formalmente à entrada da reunião, um mau começo.  Dessa vez, Mikhail não havia sido o escalado para falar em nome do departamento, o próprio Carvalho incumbiu-se da tarefa, numa apresentação burocrática e sem imaginação. Então, a diretoria convocou Dra. Svetlana para expor a todos o andamento da disputa judicial sobre a propriedade de uma marca e sobre a nova política de patentes da empresa. Mikhail ajeitou-se na poltrona e não perdeu uma palavra da exposição, que ele achou competente e clara. Houve aplausos entusiasmados e olhares de aprovação dos diretores.

No intervalo, quando desligava o celular onde acabara de dar orientações para um dos funcionários de seu departamento, Mikhail viu-se frente a frente com Svetlana.

“Como vai, Mikhail?”

“Bem, e você?” (‘Você’, boa garoto, dessa vez não pisou na bola.)

“No próximo fim de semana vai acontecer o festival de dança de Curitiba, você sabe, não?”
“Sim, claro”, mentiu. “O festival é ótimo, tem grupos do mundo inteiro”, chutou de forma arriscada, mas certeira.

“Você vai?”

“Ah, acho que não vai dar. Vai ser o casamento da minha irmã, eu não tenho como faltar.” Isso era verdade, infelizmente.

“Que pena. Pensei que talvez a gente pudesse se encontrar por lá. Mas eu entendo.”

“Puxa, que pena mesmo.”

“Eu vou todo ano, adoro. Este ano vem o balé da Ópera de Viena, vão dançar Giselle.”

“Nossa, que ótimo. Giselle é lindo! É Justamente o nome da minha irmã que vai se casar.”

xxxxxxx

Mikhail chegou a pensar loucuras, em inventar uma desculpa para não ir ao casamento da irmã, mas ele era padrinho e teve que admitir que não havia escapatória. Durante as bodas parecia distante, chegaram a lhe perguntar se estava passando bem. Bebeu mais do que deveria e saiu antes do fim da festa.

Poucas semanas depois ouviu boatos na empresa de que Svetlana fora vista mais de uma vez saindo com um dos diretores, homem bem mais velho do que ela, casado.

Mikhail passou a folhear livros sobre balé nas livrarias, chegando a comprar alguns. No fim de semana alugava vídeos do Lago dos Cisnes, do Quebra Nozes e outros. Aos poucos foi tornando-se mais entendido no assunto. Fez uma assinatura do Teatro Municipal, aonde ia sozinho. Uma noite viu-se em lágrimas ao fim de uma apresentação de Giselle. Matriculou-se em um curso de dança de salão. Descobriu que levava jeito para a coisa. Passou a frequentar gafieiras com seus novos colegas, a convite dos professores de dança. Uma vez, em viagem de trabalho ao Rio, conheceu Ritinha na Estudantina. Dançaram juntos a noite inteira. Passaram a se falar com frequência pelo telefone. Em pouco tempo os dois se alternavam nos fins de semana entre Rio e São Paulo. Ritinha, uma dentista alegre e desinibida, tinha molas nos quadris e sabia fazê-lo rir. Em pouco mais de um ano estavam casados, tendo ele, pouco antes, assumido a gerência da filial do Rio.

Porém, nas vezes em que tinha que participar das reuniões em São Paulo e via Svetlana, ficava mexido. Acabavam sempre conversando, frequentemente sobre dança. Mikhail contou-lhe que tinha até ganho um prêmio na Estudantina dançando bolero com Ritinha. Svetlana pareceu muito entusiasmada com a notícia. “Veja só, quem acabou tornando-se um bailarino de verdade!”

Quando voltava para o Rio, ficava como que enfeitiçado, sentindo-se culpado por não conseguir deixar de pensar em Svetlana. Isso durava uns três ou quatro dias, acabou se acostumando, depois passava e ele deixava de pensar nela quase que completamente. Às vezes, aos domingos, colocava um CD de Tchaikovsky para tocar bem alto e ficava olhando o teto por um longo tempo.

xxxxxxx

Num dia de dezembro, Mikhail soube da fatalidade. Svetlana, de férias, tinha viajado para Moscou, onde assistiria o Bolshoi ao vivo, o sonho de toda uma existência. Havia uma violenta nevasca. O avião da conexão partiu de Paris, mas nunca chegou à Rússia. O enterro já havia acontecido, mas Mikhail não deixaria de ir à missa de sétimo dia.

Na igreja ortodoxa, depois da missa, foi apresentado à mãe da falecida colega. Diante daquela imigrante ucraniana de pele envelhecida pelo sol tropical e olhos muito azuis agora avermelhados pelas lágrimas, apresentou-se:

“Sou Mikhail, era colega de sua filha na empresa. Sinto muitíssimo. Minhas condolências.”

Os olhos sofridos da velha senhora se acenderam: “Então o senhor é o Mikhail! O “Misha”! Minha filha falava muito do senhor, sempre com muito carinho.” E segurava com força as mãos de Mikhail entre as suas.

Svetlana...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Praia Depois da Chuva

Fiquei frustrado porque, ao escanear a aquarela, perderam-se todas as sutilezas das nuvens e do céu. Mas segue assim mesmo. Se quiserem, vejam ao vivo...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Toscana 3 - À Sombra das Oliveiras

Mesmo que estejamos "Sob o Sol da Toscana", uma sombra às vezes é bem-vinda. Estas oliveiras centenárias fazem parte do cenário atemporal dos arredores da inspiradora Abadia de Sant' Antimo, próxima a Montalcino.

sábado, 6 de outubro de 2012

Diários de Viagem: Veneza


Como toda grande cidade turística, Veneza tem seu lado público e seu lado íntimo. O lado público todos conhecem, de perto ou de longe: a Praça de São Marcos, com seus pombos e sua Basílica, a Ponte dos Suspiros, o Palácio Ducalle, as gôndolas e o Grande Canal. Já o lado íntimo é aquele que os moradores conhecem bem e que o turista observador tenta descobrir no pouco tempo de que dispõe. Num pequeno punhado de dias, trava um jogo de sedução, para merecer da cidade a revelação de intimidades, detalhes e mesmo defeitos que normalmente só se mostram nas relações antigas e sem pressa.

(clique na foto para ampliar)
Veneza não tem árvores. Melhor dizendo, quase não as tem. Consequentemente, é um grande e monótono deserto para amantes e observadores de pássaros, uma vez que pássaros precisam delas para alimento, pouso e abrigo. Não avistei um mísero pardal. A exceção são os pombos, claro, e uma ou outra gaivota nas grandes rivas que margeiam a laguna. Os pombos são onipresentes. A maior parte dos possíveis locais de pouso para os incontinentes columbídeos nos prédios importantes de Veneza são guarnecidos com longos espetos de aço de ponta afiada. Em meio a toda essa monotonia ornitológica fiz um flagrante surpreendente: um pombo colorido, em diversos tons de verde, se destacava em meio às monótonas nuances de preto e branco de seus semelhantes. Intrigado, saí perguntando a razão daquelas penas tropicais aos demais pombos da praça. Os pombos arrulhavam com evidente desdém, mas nenhum se dispôs a esclarecer o caso. Uma gaivota me chamou para um canto da praça e decifrou o mistério: dois anos antes, num programa de intercâmbio entre as duas cidades carnavalescas, uma pomba veneziana pousou no Rio de Janeiro. Veio ela, por obra de cupido, a atrair a simpatia de um papagaio, que se prontificou a apresentar-lhe as muitas maravilhas cariocas, programa esse que incluía uma passada em seu cafofo com vista para os Arcos da Lapa. Ah bom.

(clique na foto para ampliar)
Observei com atenção as janelas das casas de Veneza, fotografando muitas, inclusive. Não vi nenhuma que fosse guarnecida de ripinhas paralelas e inclinadas. As únicas venezianas que vi nas janelas eram as de carne e osso.

Quase despercebidos em meio ao mar de turistas, existem os moradores de Veneza. Os números são massacrantes: mais de 21 milhões de turistas em 2007 para uma população residente de 60 mil, e que vem reduzindo-se ano a ano. Os preços exorbitantes dos imóveis vêm afugentando os venezianos da gema, que resistem em casas herdadas há muitas gerações. Um pequeno estúdio de 36 m2 vale cerca de 260 mil euros, mais de um milhão de reais.

(clique na foto para ampliar)
Talvez a melhor coisa a se fazer em Veneza seja perder-se no labirinto de ruelas, cruzando canais secundários e terciários, subindo e descendo as centenas de pontezinhas. Não há automóveis, não há motocicletas nem mesmo bicicletas. Devem ser proibidas pela legislação local ou simplesmente os possíveis ciclistas são desencorajados pelo sobe e desce de degraus a cada ponte. Então, tudo é feito por via aquática. A ambulância, a viatura dos bombeiros, os taxis, os caminhões de mudança e os que abastecem de mercadorias o comércio da cidade, tudo existe e funciona em versão flutuante e motorizada. Afastando-se dos principais pontos turísticos, reparamos nas donas de casa abastecendo-se em mercearias, mães levando e trazendo suas crianças das escolas, profissionais indo e voltando do trabalho. As vielas vão se estreitando e em algumas delas pode-se tocar ao mesmo tempo as paredes dos dois lados da rua.  Uma charmosa favela medieval. Descobrimos por acaso uma oficina pequena de marcenaria náutica, onde um artesão dava retoques finais em remos de gôndolas. Fabricava também aquelas assombrosas obras de design que são as peças maciças de madeira onde os remos se apoiam.

(clique na foto para ampliar)
Não passeamos de gôndola. Muito caro. Pareceu-me que todas as gôndolas de Veneza haviam sido alugadas por turistas japoneses.

Ser carteiro em Veneza é uma proeza. As casas não seguem numeração sequencial ao longo das vias e as vias têm designações diferentes conforme seu porte. Fondamentas são as ruas que margeiam os canais; rivas são as grandes fondamentas, que geralmente dão para a laguna; calles são ruas; campo é uma praça e corte é um pátio; rio terra é um antigo canal aterrado; salizada é uma rua principal; ruga é uma rua comercial, enquanto sotoportigo é uma passagem coberta, por baixo de um imóvel, geralmente ligando duas calles. Vi dois carteiros discutindo vigorosamente, provavelmente sobre a provável localização de um endereço postal. Deve ser uma cena comum.

No final de uma tarde, depois de esperar em vão que a companhia aérea localizasse minha bagagem extraviada havia já três dias, perguntei ao gerente do hotel onde poderia comprar alguma roupa para sobreviver até que minha mala fosse entregue (o que só acabou acontecendo no sexto dia de viagem, quando eu já estava deixando Florença). Ele indicou-me a área no mapa: um pouco acima da ponte Rialto, na margem oriental do Grande Canal. Parti do hotel em passo acelerado para o local indicado. Talvez pelo caminhar decidido, despido da máquina fotográfica e sem mapa na mão, comecei a ter a ilusão de que era visto pelos passantes como um autêntico veneziano. Vi-me tentado a acenar aleatoriamente para conhecidos imaginários a destra e a sinistra, gritando alto “Ciao, Adamo! Ciao, Filomena!” Quando dei por mim, havia atravessado toda a cidade e estava em algum lugar da margem norte, de frente para a laguna, num corte tranquilo onde bambini brincavam sob o olhar de suas mamas e nonas. Deliciosamente perdido, quase um anônimo veneziano.

Mais fotos de Veneza:


De manhãzinha, a Chiesa di Santa Maria della Salute.

Equivalente veneziano do carro estacionado na porta de casa.

"Favelão medieval"

Sol nascente: sob a arcada do Palazzo Ducalle. (fotógrafos madrugam)

Clap, clap clap. As luvarias venezianas são tradicionais.

Acrescente barulho de pratos e talheres, um cheirinho de comida na panela e um bebê chorando: também mora gente em Veneza.

Pausa para um panini.

Numa vitrine, baralho ilustrado por Milo Manara, ícone italiano do quadrinho erótico.

Estado atual da obra deste artista depois de mais de um mês trabalhando no registro da fachada de seu próprio estudio em pátio (corte) escondido de Veneza.

O Grande Canal, com a Ponte Rialto ao fundo.

Sem legenda.



sábado, 29 de setembro de 2012

Diários de Viagem: 1 - Pincel de Barba


Ia viajar. Achei que era hora de ter mais um pincel de barba, para deixar na bolsa de viagem e não correr o risco de me esquecer dele, como já aconteceu. O único que tinha  então era o segundo de minha vida. Pincéis de barba, quando bons, duram muito. O primeiro, me deu meu avô, assim que surgiram-me os primeiros pelos na cara (lembrei-me agora das vezes em que, nos últimos de seus 96 anos, barbeei meu avô). Era da marca Batil, que não sei se existe ainda, e fez-me pensar que todos os pincéis de barba eram assim macios. Depois de muito uso, já ralo em pelos, pediu descanso e substituição. Custei a encontrar outro da mesma qualidade, que uso até hoje.

Então, parti para a missão. Aproveito, pensei, e compro também um bom pente para meu enteado, que iniciou um estágio de Administração em uma multinacional e passou, pasmem, a sentir necessidade de ajeitar o cabelo no meio do dia. Entrei numa farmácia. Pincel de barba? Ali. Sessão de variedades: bobs de cabelo, pentes plásticos de tamanhos variados, buchas de banho, pinças, tesouras e alicates de unha pendurados em um display, embalados individualmente. Só havia um tipo de pincel, made in China, com cabo de madeira e pelos brancos. Abri a embalagem e testei-o contra o rosto. Devem ter usado como matéria prima pelos de porco espinho ou bigode de javali. Perguntei à mocinha se havia pentes de osso. Ela me olhou como se eu tivesse pedido equipamento para sangria, sanguessugas vivas talvez. Fui a uma segunda farmácia, uma terceira, umas sete ou oito. O pincel chinês dominou completamente o mercado (cadê o Cade que não vê isso?) e pentes de osso não existem mais.

Senti-me como um viajante do tempo em seu próprio tempo. Lembro-me, eu pequeno, de  assistir meu pai barbeando-se e engraxando os sapatos, sempre pretos, diariamente antes de sair para o trabalho. Men stuff, era assim que todo homem fazia e eu faria também quando me tornasse um homem. Tenho hoje uma caixa com graxa marrom, preta e incolor, três escovas pequenas para espalhar cada tipo de graxa e três escovas grandes e macias para dar brilho, além de uma flanela para o capricho. Engraxo meus próprios sapatos e, talvez por isso, eles duram muito. Faço a barba diariamente, fins de semana e férias inclusive, espalhando o creme de barbear com pincel e raspando com lâmina descartável. Depois, gel facial ou loção pós barba. Tenho dois pentes de osso, um em casa e outro na pasta de couro que levo para o trabalho. Ambos têm, cada um, mais de dez anos de uso: são indestrutíveis. Fiquei a me sentir um solitário, como alguém que ainda usa máquina de datilografar em tempos de computadores. Fiz uma pesquisa informal e rápida, nesses tempos de homens de barba eternamente de três dias, que é a que mais coça. Prevalecem a espuma em spray espalhada com os dedos ou o aparelho elétrico.

Na Itália existem pincéis de barba bonitos e elegantes, de pelos variados, cada um mais macio que o outro. Existem pentes de osso também. São vendidos em farmácias (que são muito diferentes desses supermercados da saúde e da beleza feminina daqui), ou em lojas que vendem também relógios, prendedores de gravata, charutos e cachimbos. Men stuff. São caros, mas valem o preço. Trouxe um pincel que o vendedor disse ser de pelos de texugo. Outro pincel, pelo andar da carruagem, só aos 75, 80 anos de idade, se precisar.

Toscana 2


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Toscana 1

A paisagem Toscana nos encantou. A luminosidade e as cores são únicas e o desafio de registrá-las é grande, seja em fotografia, seja em aquarela. Mas não vou fugir da raia. Esta é a primeira tentativa. Talvez na próxima eu tente depois de abrir um chianti.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ilha da Conceição 1

Quinze anos depois, volto a retratar um tema marinho na Ilha da Conceição. Agora sob orientação de Renato Alarcão, vou reciclando os ensinamentos do saudoso mestre Roberto Paragó.

domingo, 2 de setembro de 2012

Os Olhos e Ouvidos da Aldeia

Faltando meia hora para o final de uma aula de aquarela, decidi usar o pouco tempo que restava para copiar essa imagem de uma foto PB. Desenhei direto com o pincel e achei o resultado divertido e despretensioso. Um título alternativo seria "Gossip Girls"

domingo, 19 de agosto de 2012

Igrejinha de São Francisco, Niterói

Nem todos os niteroienses sabem qual é o São Francisco padroeiro do bairro e da igreja. É o Xavier, e não o de Assis. Foi fundada por José de Anchieta em 1572, sendo uma das mais antigas do Brasil.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

sábado, 4 de agosto de 2012

Dez Anos de Um Casamento


Em abril de 2002 eu dispunha de dinheiro suficiente para comprar um carro novo e estava disposto a fazê-lo. Estava naquela mesma situação na qual milhões de seres humanos se encontram todos os anos, e o que cada um decide fazer neste momento diz muito sobre a personalidade individual, além do aspecto mais óbvio de seus recursos financeiros. Adquiri na época um Land Rover Defender 110 semi-novo, então com apenas 15.000 km rodados. Estou com o mesmo e único carro desde então, um casamento fiel e monogâmico, e não tenho nenhuma intenção de trocá-lo em futuro visível. Já são mais de dez anos de uma relação prazerosa, e o odômetro está prestes a alcançar 200.000 km. Apesar da saúde invejável, o jipão vai ganhar de presente em breve uma revisão caprichada, com troca do óleo do diferencial e da caixa de marchas, substituição de algumas mangueiras e talvez umas buchas de suspensão. Nada além disso. Em todo este tempo, ele deu pouquíssima oficina e nunca me deixou a pé na rua ou na estrada. Ele já me levou com a família aos Parques Nacionais dos Aparados da Serra (RS), do Descobrimento (BA) e da Serra do Cipó (MG). Não foi ainda à Patagônia, mas é questão de tempo. Hoje fiquei me perguntando por que eu o escolhi e estou há tanto tempo com ele. São muitas respostas.

Eu desejava um carro que pudesse levar a minha família de seis pessoas por qualquer tipo de estrada até os recantos mais difíceis da nossa paisagem. O Defender se encaixava nesse perfil. Isso resume apenas as razões objetivas.

O Defender é um projeto de 1983. Suas linhas, hoje bastante ultrapassadas, são retas e passam longe de qualquer vestígio de aerodinâmica. Ostenta o mesmo jeitão de seu antecedente mais antigo, o Land Rover Série 1, lançado em 1948 na Inglaterra. No entanto, tornou-se um ícone da indústria automobilística, assim como o Fusca, o Citroen 2CV, o Jeep Willys e o Ford ModeloT. É o veículo adotado pelo Exército Brasileiro, pelas forças da Nações Unidas e por muitos exércitos de países europeus. É grande, ruim de jogo, precisa de pelo menos uma manobra adicional de vai-e-vem para encaixar-se em uma vaga, e não cabe em qualquer vaga. A embreagem e o freio são duros e a posição do motorista não é das melhores. O nível de ruído interno beira o ensurdecedor e a vedação de água e poeira é sofrível. Por outro lado, leva sete pessoas, sua suspensão quase indestrutível, seu câmbio e sua direção são surpreendentemente macios e a tração integral nas quatro rodas garante estabilidade invejável nas subidas e descidas de serra. É meu transporte seguro na terra, na lama e no asfalto, muitas vezes com meio metro ou mais de água na rua ou atravessando um riacho. Para ele, não tem tempo ruim nem estrada difícil. Mas, claro, existem muitos outros argumentos além dos aspectos meramente mecânicos.

Dirigir um carro grande deixa o motorista sentindo-se um pouco superior ao restante dos mortais. Existe um prazer egoísta e quase inconfessável ao ver motoristas de carros pequenos emparelharem comigo no sinal e ficarem olhando com o rabo do olho o pneuzão aro 16 e tala 265 batendo quase na altura do vidro do outro carro. Nas bolas divididas do trânsito, em geral o “adversário” recolhe e dá passagem, embora nem sempre. Quando usamos de gentileza e cedemos passagem, parece que estamos dizendo: “eu sou grande e forte, mas mesmo assim serei magnânimo e vou deixar você passar”. Pensamentos ridículos, mas reais.

Quando se dirige um Defender na estrada, acontece uma coisa que, creio, não acontece com nenhum outro carro. Toda vez que dois Defenders cruzam um com o outro, os irmãos se cumprimentam com calorosas piscadas de farol. Notar que isso acontece apenas entre Defenders, e não vale para outros modelos da Land Rover como Discoverys, Freelanders ou Range Rovers, os primos ricos e frescos. Muito menos para Pajeros e cia. Já Toyotas Bandeirantes podem ser dignos de nossa simpatia, até porque muitos donos de Defenders começaram por Bandeirantes, e donos de Bandeirantes não raro sonham em ter um Defender.

Donos de Defenders amam a lama e não têm medo de sujar seus carros, (o que não é o caso para a maioria dos donos de Pajeros e Hilux), muito pelo contrário. Poucas coisas são mais prazerosas que atravessar atoleiros fatais para a maioria dos outros carros acionando quando necessário o câmbio reduzido e a trava do diferencial, o que geralmente é dispensável. Ouvir o ronco do turbo-diesel com seu característico acompanhamento de castanholas empurrando o veículo morro acima e lama adentro, ir escorregando e sacolejando, girando o volante com fúria para a esquerda e para a direita para não sair da estrada deixa a maioria das mulheres no banco do carona dando gritinhos nervosos e a nossa adrenalina em níveis de prazer quase sexual. E depois, o orgulho em desfilar por um ou dois dias ostentando as condecorações de lama pelo asfalto da cidade, antes da necessária lavada. E lavou, novo.

Não troco de carro há dez anos por vária s razões. As versões mais novas do carro, além de muito caras, têm uma série de itens de eletrônica embarcada, como ABS, controle de tração e até sensores que informam a profundidade da água do riacho adiante do pára-choque. Fica um sentimento de que os fabricantes do velho e tosco mastodonte sentiram-se inferiorizados em relação a seus concorrentes mais modernos. Mas aderir a essas modernidades implicaria em deixar de confiar nos instintos e na habilidade do piloto em conduzir o bicho. Meio como se fôssemos Luke Skywalker dispensando o capacete da tecnologia e confiando nos instintos para atacar com sua nave o lado sujo da força. Além do quê, toda essa parafernália eletrônica quando enguiça paralisa o carro e castiga o bolso. A mecânica das versões mais antigas é bem mais simples, fácil e barata de reparar. Existe ainda um ideal romântico, incongruente com o fato de se possuir um carro grande e poluidor. Trocar de carro implica em ativar todas as muitas engrenagens da indústria na produção de um novo veículo, com o conseqüente gasto de energia, consumo de matéria prima, eletricidade, combustível e água em sua fabricação. Penso que não se deveria trocar de carro antes de os custos de manutenção ficarem incompatíveis e os defeitos se tornarem freqüentes. Trocas de carro em intervalos pequenos me parecem mais fruto do desejo de ostentar um carro novo para os outros verem do que de razões mais práticas e objetivas, inclusive financeiras. A indústria automobilística sabe manipular com extrema habilidade esses aspectos inconscientes que movem os seres humanos enquanto consumidores de seus produtos. Mas seria hipocrisia minha não reconhecer a minha própria vulnerabilidade a esses apelos, até pelos muitos aspectos não objetivos que acabei de confessar. Mas gosto de pensar que, pelo menos, tento estar consciente deles.

Assim, vamos mantendo nossa longa relação. Imagino-me até bígamo, tendo um carrinho ágil e econômico para circular na cidade, mas mantendo o Defender para subir a serra e viajar. Espero que ele não seja ciumento.


Fazendo graça: Atenção: Não tente fazer isso se seu carro não for um Defender!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Água, Açúcar e Chicotinho: Cinquenta Tons de Cinza.

O topo da lista de best sellers daqui já está reservado para o maior fenômeno editorial mundial depois das sagas de "Harry Potter" e dos vampiros adolescentes. Será lançado este mês no Brasil "Cinquenta Tons de Cinza", da britânica E. L. James, o primeiro volume da trilogia que já abocanhou sozinha 25% do mercado editorial americano. Trata-se de um thriller adocicado com pitadas generosas de erotismo. A sinopse: Jovem ingênua envolve-se     com homem mais velho, um bilionário atormentado, enigmático e bonitão, que acaba por induzi-la a assinar um contrato no qual a heroína se obriga a entregar sua vida e sua sexualidade a seus caprichos sado-eróticos. Cheira a clichê ? Tudo isso em uma linguagem literária sofrível,  e de um ponto de vista bem mulherzinha, segundo asseguram os críticos de ambos os sexos. Mas quem se importa? As mulheres de todo o mundo estão adorando e seus parceiros estão colhendo os frutos, sem terem que descompensar seu nível glicêmico lendo o livro. Parece que, depois da leitura, as mulheres ficam doidas para reproduzir em casa (ou não) as perversões safadinhas da heroína. No entanto, deixem a insulina à mão: a leitura pode vir a ser bastante instrutiva para os marmanjos. Embora a primeira cena de sexo só aconteça na página 100, aguente firme: talvez venhamos a descobrir um pouco sobre como funciona a fantasia erótica feminina e possamos tirar partido disso, com benefícios práticos para os dois lados da cama. Então você, maridão que anda achando o sexo caseiro desenxabido, que tal encomendar logo a trilogia toda para a patroa? Ou para a "outra", quem sabe? Estão previstas mudanças sensíveis acontecendo entre as quatro paredes do quarto  dos casais brasileiros.

Charge fifty shades of grey, cinquenta sombras de grey





Leia mais sobre o livro:
http://www.intrinseca.com.br/site/2012/06/trilogia-cinquenta-tons-de-cinza-entra-em-pre-venda/

O Banco Verde


terça-feira, 24 de julho de 2012

Semana Sabática na Serra, ou O Sr. "Jenessequá"


Saíra-militar (clique nas fotos para ampliar)

Minha tradicional SSS - semana sabática na serra - ficou reduzida a cinco dias este ano, por conta da perspectiva de uma viagem de duas semanas em setembro próximo. Hay que capitalizar-se... Munido de equipamento de fotografia, artigos medico-científicos, material de aquarela e alguns livros, subi a montanha em direção ao nosso sítio na última quarta-feira. Minha mulher só subiria na sexta à noite, depois do trabalho. “Alguém tem que trabalhar nessa casa, afinal”, diria um amante do lugar comum.

Um dos livros que veio na bagagem foi, por coincidência, “Como Ficar Sozinho”, de Jonathan Frenzen e já estou nas últimas páginas. Havia lido um trecho do livro na revista “Piauí” dedicada à FLIP – Feira Literária Internacional de Parati - e gostei de sua preocupação explícita em se fazer claro para o leitor médio e também pelo seu amor à observação de pássaros. Entrevistado recentemente a caminho de Parati, Frenzen tinha a expectativa de poder se entregar, um pouco que fosse, à observação nossa fauna ornitológica. Espero que tenha conseguido. Estabelecidas essas empatias, entrei semana passada na livraria Gutenberg, em Icaraí, atrás de um de seus livros. Acabei levando dois: além do “Como Ficar Sozinho”, o romance “As Correções” me aguarda na prateleira.

Saí-azul (macho)
 Parênteses: bisbilhotar livrarias é um prazer antigo. Quando trabalhava no Centro do Rio, usava a hora do almoço para , quando tinha tempo, visitar uma exposição no Paço, no CCBB ou no Museu de Belas Artes, ou folhear sem compromisso as novidades na “Livraria da Travessa” original, na Travessa do Ouvidor. Hoje, quando as consultas da manhã não me estrangulam o horário do almoço, escapo para a livraria Gutenberg, em Icaraí. Raramente meu cartão de crédito sai ileso. Como conseqüência, a pilha de livros por ler em minha mesinha de cabeceira deve ter mais de uma dúzia, três ou quatro começados. Tenho o hábito de ler um livro de ficção e outro de não ficção simultaneamente, além da sagrada e prazerosa leitura da National Geographic. Às vezes me questiono se a pilha de livros ainda por ler me causa a angústia obsessiva das tarefas pendentes. Muito pelo contrário. A perspectiva de ter tantas coisas interessantes por ler, saber que tenho tantos bons textos me aguardando, me enche de alegria em antecipação dos prazeres futuros. Me aguardando no momento: “1984” de Orwell (começado), “A Menina de Capuchinho Vermelho e Outros Contos de Meter Medo”, de Angela Carter (quase terminado), o ecológico “A História das Coisas’,de Annie Leonard (começado), “Teorias Selvagens”, da argentina Póla Oloixarac e “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman. Todos terão a sua vez. Preciso dar um tempo nas visitas à Gutenberg. Fecha parênteses.

Vissiá
O livro de Frenzen (”Como Ficar Sozinho”) é uma coleção de ótimos ensaios sobre os mais variados assuntos, sempre de um ângulo subjetivo e emocional, sem, no entanto, deixar de lado a objetividade. Ele percorre assuntos como o mal de Alzheimer, que vitimou seu pai, o crescimento econômico chinês e como ele vem atingindo em cheio as reservas naturais e a vida selvagem, o sistema prisional americano e diversos outros temas. Para cada ensaio, Frenzen se envolve pessoalmente com protagonistas reais, deslocando-se local onde a ação se desenvolve. Independente de seus conceitos antecipados (pré-conceitos) em cada assunto, ele acaba por descobrir no palco de cada tema, personagens reais tentando, cada um à sua maneira, fazer a coisa certa, mesmo nos extremos opostos de cada disputa. Frenzen nunca consegue chegar a conclusões panfletárias, acaba ficando em algum lugar no meio do caminho, atolado e emocionalmente envolvido nos aspectos humanos dos protagonistas.

Num de seus ensaios, Frenzen reflete sobre sua decisão de se tornar escritor, num mundo onde a grande maioria das pessoas parece não ter interesse em dispor de seu escasso e precioso tempo para a leitura de romances. Em tempos de TV, internet e cinema, os livros parecem ter perdido espaço como meio para divulgação de novas idéias ou denúncia de situações relevantes que já não tenham sido expostas pela mídia instantânea, que hoje domina a cena. Acredito, no entanto, que nada supera o livro como instrumento que nos faça mergulhar profundamente nos aspectos da subjetividade, daquilo que nos faz seres humanos únicos e ao mesmo tempo compartilhantes de universalidade humana.

xxxxxxxxxx

Gaturamo-bandeira
Conheço muitas pessoas que ficam apavoradas só de imaginarem-se por cinco ou dez dias longe da Internet, dos Shopping Centers, do sinal de celular e de tudo o mais que compõe o turbilhão das grandes cidades, no qual estamos enfiados até o pescoço na maior parte do tempo. A perspectiva de não ter o tempo constantemente ocupado e a atenção saltando freneticamente de galho em galho daquilo que chamamos de vida moderna deixa muita gente com medo de se ver diante de um não-sei-o-quê, que poderia brotar do fundo de si mesmos.

Eu, por meu lado, preciso dessa pausa, preciso travar contato com o Sr. Jenessequá., fazer as pazes e travar amizade com ele. Acreditem: ele é um cara legal. As conversas que tenho com ele me são essenciais. Ele foi meu único companheiro nesses poucos dias aqui sozinho. Já o tédio, esse não existe por aqui. Na verdade, volto sempre com uma ponta de frustração por não ter dado conta de tudo que me havia proposto a fazer, mas nada que me perturbe. É parte da motivação para próximas vindas à serra. Aquarela, por exemplo, dançou. Estudei medicina, li bastante e, principalmente, fotografei muitos pássaros. Flagrei, pela primeira vez, a saíra militar, o gaturamo bandeira, a fêmea do gaturamo serrador (ou ferro-velho) e o tié de topete, além de mais quatro espécies que ainda vou identificar with a little help from my friends do Wiki-Aves. Ornitologicamente falando, a semana foi perfeita. O Frenzen teria gostado de estar aqui.

xxxxxxxxxxx

Pesquisa informal: Faço a você as perguntas que sempre faço aos meus pacientes que flagro lendo um livro na sala de espera de meu consultório: O que você está lendo atualmente? Quais livros estão aguardando em sua mesinha de cabeceira? Você lê mais de um livro ao mesmo tempo?