Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

domingo, 29 de maio de 2011

A Cigarra, a Formiga e o Fim do Mundo

“O que você faria se soubesse que o mundo vai acabar amanhã?” A pergunta é recorrente na música, na literatura e no imaginário de todos nós. O apocalipse é o capítulo derradeiro da Bíblia (claro, não é o primeiro nem o segundo). A noção da própria finitude nos caracteriza como humanos, e o fim da civilização como a conhecemos, o fim da espécie ou o fim do planeta são formas de pensarmos na finitude humana em termos coletivos. Uma angústia universal.

Viver cada dia como se fosse o último é um chavão idiota que se repete de forma leviana. Precisamos planejar o futuro individual e da sociedade com responsabilidade. Mas também precisamos levar em conta que não teremos saúde ou juventude indefinidamente e um dia desses, que tanto pode ser hoje como daqui a algumas décadas, vamos nos confrontar com a nossa impermanência individual. O quando é que é o problema. Ou a bênção. No entanto, se tivéssemos a data certa em nossa agenda, talvez mudássemos nosso planejamento de curto, médio e longo prazo. Talvez só o de curto prazo fosse suficiente.

Não por acaso, a fábula da cigarra e da formiga é das mais populares. Existem três finais diferentes em circulação. Tem o final piegas e inverossímil em que, depois de ralar o verão inteiro, a formiguinha, generosa, dá abrigo à tiritante vagabunda. E ainda por cima, alma santa, agradece à cigarra pela música que alegrava seus dias de verão, enquanto todas no formigueiro ralavam e suavam se preparando para o inverno. Acredite se quiser, ingênuo leitor. Num segundo final fajuto, que deve ter sido criado por um cunhado invejoso depois de assistir um filme no novo home theater na casa da irmã, a cigarra se torna uma artista famosa, vai para Hollywood e vira celebridade milionária.

No terceiro, que é o original e reflete bem a natureza humana, uma formiga bem nutrida e aquecida em pijamas de flanela, com uma taça de vinho na mão e muito irritada por ter sido interrompida enquanto jantava com a família, manda a cigarra dançar para se aquecer e bate a porta na cara da pobre imprevidente (com inveja e sabor de vingança a lhe escorrer pelo canto das mandíbulas). 

Dependendo das características de sua personalidade, imagino que você, muito antes de cogitar o porquê, tenha se identificado com uma das duas personagens, ao mesmo tempo em que ficou com a incômoda desconfiança de que a outra é que estava certa, afinal. Eu confesso que, quando dei por mim, já me via como uma formiga laboriosa e invejosa das cigarras. Confesso também que, hoje, me sinto vingado: alguns de meus amigos, que aprendiam violão enquanto eu estudava, ficavam cercados de garotas fazendo coro de “Me leva amor, por onde for quero ser seu par...” enquanto eles arranhavam Andança, de Paulinho Tapajós, no violão desafinado. Depois elas ficaram mais pragmáticas e passaram a valorizar uma profissão estável na hora de decidir por um possível parceiro (tem um caldinho amargo me escorrendo do canto da boca agora).

Voltando ao fim do mundo. Comportamo-nos como cigarras ou formigas na medida em que nosso futuro é ou não uma prioridade. Se achamos que vamos viver até os noventa, devemos agir de um jeito. Se, no entanto, cremos que vamos morrer jovens e o inverno não nos alcançará, agimos de outro. Ou, pelo menos, pensamos que deveríamos agir assim ou assado, sem transformar a intenção em ação. É certo que, se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, eu não teria estudado ontem, nem agendado consultas para mês que vem. Talvez tivesse ligado para você, para ouvir sua voz uma última vez, ou ouvido aquele meu CD favorito. Talvez andasse pelado na chuva. Ou talvez fosse arrumar umas gavetas, na tentativa de estabelecer um resto de ordem diante do caos iminente.

A sabedoria estaria em fazer com que a formiga e a cigarra interiores sentassem e chegassem a um acordo justo e favorável para ambas, conciliando a previdência e o Carpe Diem. Só não sei se a reunião seria no escritório ou à beira da piscina.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fogo que arde

Estava no chuveiro (eu penso com mais clareza tomando banho ou fazendo a barba) e me veio uma imagem. Era um dia frio, a água quente era agradável sem, no entanto, arder na minha pele. Sob aquela água que me molhava a cabeça e o corpo, pensei em fogo, em paixão e em amor.

Quem já acendeu uma lareira provavelmente já se valeu de uma daquelas pastilhas de álcool sólido cor de rosa (a cor é bem apropriada) para por fogo na lenha. Facilitam muito as coisas: acendem com facilidade e ardem intensamente por um período curto, que se espera ser suficiente para acender o fogo definitivo. Logo elas se consomem, vão se apagando, e a gente precisa soprar, abanar, mexer uns gravetos e uns pauzinhos para lá e para cá, para que a lenha, aos poucos, comece a crepitar, estalar, chiar e soltar aquele calor intenso que vai se irradiar para aquecer o ambiente. Há, depois, que se cuidar do fogo para que ele não se apague por descuido: acrescentar mais lenha, juntar o carvão que se espalha, abanar mais um pouco para que ele continue a queimar.

Por vezes, a pastilha se extingue sem que a lenha se acenda, e então buscamos outra, às vezes uma terceira. Mas ninguém se aquece com o fogo da pastilha, embora se possa até queimar o dedo com ela. Por outro lado, dá para acender a lenha sem se valer da pastilha de álcool. É preciso técnica mais apurada, um pouco de palha bem seca ou papel, uns gravetinhos finos, outros um pouquinho maiores e, por fim, a lenha. Depois de acesas, não dá para dizer qual fogueira usou álcool e qual não usou no início do processo. Daí que não acho nenhum absurdo o sistema indiano em que os matrimônios são decididos por pais desapaixonados, com base em critérios, digamos assim, técnicos. Nenhum álcool envolvido.

Meus filhos, que estão saindo da adolescência e são jovens adultos, irritam-se e desdenham de minhas opiniões sobre amor e paixão, o que é bem compreensível em função da idade. Mas, no fundo, também me pergunto se não estaria enganado, se estas conclusões valem apenas para mim, não sendo, em absoluto, uma verdade universal. Pode até ser. O fato é que nunca considerei o apaixonar-se como um fim em si. Ansiava, sim, por um amor que me aquecesse, que me fosse confortável, confiável, duradouro e seguro, na medida em que os amores podem ser seguros. Já estive apaixonado algumas vezes, inclusive em algum momento de meus dois casamentos. Assim como fico temeroso de que a lenha da lareira possa não se manter acesa quando o fogo cor de rosa se extingue, temi pela manutenção do amor depois da paixão. Soprei e abanei bastante, e o fogo cresceu e se manteve forte por um bom tempo no primeiro casamento. Persiste intenso no segundo.

Entendo a paixão como uma força natural, poderosa e arrebatadora, nem boa nem má. Compartilha a natureza dos ventos, que tanto podem impelir um barco para o porto seguro como para os recifes e o naufrágio. Não me iludo sobre o poder que uma paixão pode ter no rumo de uma vida, a minha inclusive. Dizia o sábio Santo Ernulfo que ninguém está livre de um mau passo. Então estou alerta, pois que a paixão em si não é o norte para onde aponto o meu barco. Ela pode vir ainda a me arrastar para longe da rota e do rumo. Ao contrário do amor, ela é amoral e não tem nenhum compromisso com minha felicidade. O compromisso único das paixões é com a felicidade das heranças genéticas, sejam elas dos homens, das rãs ou das minhocas. Dirão, revoltados, os românticos e apaixonados de plantão: "Nada disso! A paixão é a expressão máxima da alma humana!" O que você pensa?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Etevaldo

Tavinho chegou um pouco atrasado, trazendo alguém que a turma do chope das quartas feiras não conhecia.

“E aí, galera! Tudo em cima?”

“Fala, Tavinho! Apresenta o amigo aí pra gente.”

O amigo do Tavinho vestia-se de maneira sóbria, uma figura alta e forte, mas tinha um quê de desengonçado e desconfortável, como quem anda com sapato apertado.

“Gente, esse aqui é o Etevaldo”, apresentou Tavinho enquanto puxava mais duas cadeiras para a mesa. “Na verdade o nome dele é outro, difícil de pronunciar, mas podem chamá-lo de Etevaldo.”

“E então, Etevaldo? Estrangeiro?”, atalhou o Gonzaga.

“Mais ou menos.” Etevaldo tinha uma voz muito peculiar e um sotaque carregado que mais tarde alguém definiu como parecendo da Provence, mas com tempero sergipano.

“Etevaldo veio de fora, num programa de intercâmbio, para conhecer nossos costumes. Vai ficar hospedado lá em casa por uns tempos.”

“Intercâmbio?” perguntou o Afonsinho, levantando uma das sobrancelhas enquanto limpava a espuma de chope do bigodão à mexicana.

“É, ele veio para cá e, na troca, eu despachei minha sogra. Mas é só por uns tempos. Daqui a umas semanas ele volta para a terra dele.”

“Mas de onde você vem, Etevaldo?”

“De Grzmaarbz, que vocês aqui na Terra chamam de planeta XZ14-Y da estrela alfa de Antares.”

“Caramba, longe pacas!”

“E o que você está achando aqui da Terra, Tê?”, perguntou já íntimo o Gonzaga.

“Interessante”

“Muito diferente lá do seu planeta?”

“A paisagem sim, mas o resto nem tanto. A gente vai se adaptando.”

Houve um breve silêncio, e uma certa inquietação se infiltrou no clima. O Almeida, que até então permanecera calado e afundado em sua cadeira, debruçou-se sobre a mesa, coçou a barba e, com a ponta do indicador, empurrou os óculos para mais perto dos olhos. Quando o Almeida fazia isso, o pessoal prestava atenção, pois vinha sempre coisa inteligente:

“A sua civilização deve ser bem mais desenvolvida tecnologicamente que a nossa, se não você não estaria aqui, certo?”

“Certíssimo!” Etevaldo tinha acabado de aprender a usar superlativos e não perdia chance de treinar.

“Deve ser uma civilização bem mais antiga que a nossa também, né não?”

“Antiqüíssima!”

“Então, Etevaldo, eu tenho uma curiosidade grande. Me diz aí: lá no seu planeta o bem venceu o mal? Na sua civilização a solidariedade e a compaixão triunfaram sobre o egoísmo individualista? A verdade e a sinceridade prevalecem sobre a mentira e a dissimulação? Ou vocês nunca sofreram essas mazelas?”

Todos os olhos se voltaram para Etevaldo. Houve uma breve pausa, interrompida quando ele emitiu um som que lembrava um pigarro:

“Bem”, e ele piscou duas vezes. “Tem havido progressos. A nossa Assembléia recentemente instalou uma Comissão de Inquérito, e o nosso equivalente do Ministério Público tem feito diversas denúncias.”

Seguiu-se um silêncio incômodo, mas o Afonsinho, sempre ele, aliviou o ambiente. “Ô Carlinhos”, gritou acenando com o indicador levantado, “Traz mais uma rodada pra gente e pro nosso camaradinha aqui.”

domingo, 8 de maio de 2011

Então é sobre amizade

A amizade guarda diversas semelhanças com camaradagem, mas esta é bem mais trivial. Camaradagem é como uma amizade circunstancial: são colegas de trabalho com quem nos damos bem e com quem almoçamos juntos algumas vezes. É algo que ocorre entre médico e paciente, quando uma consulta deixa de ser uma simples prestação de serviços para se tornar um encontro prazeroso entre duas pessoas em lados opostos da mesa e em pontas opostas do estetoscópio. Entre meus camaradas conto o dono da padaria do bairro, o vizinho de muro, o caixa do mercadinho próximo da nossa filial na roça, meu dentista e tantos outros. Não quero aqui desmerecer o valor das camaradagens. Elas aplainam nossas relações diárias, distribuem pequenas gentilezas, sorrisos, algumas piadas, zombarias sobre futebol e outras amenidades. Trazem um toque de personalidade e calor às nossas relações corriqueiras. Em seu conjunto, são valiosas; azeitam e amenizam a rotina, mas não são propriamente amizades.

Existe ainda a “amizades” utilitárias, como aquelas que estabelecemos com o gerente do banco, com nosso advogado, com o fornecedor ou com o cliente do nosso negócio. Temos amizades utilitárias com nossos sócios e com membros de nossa associação profissional. São relações cordiais que se fazem entre pessoas que podem ser mutuamente úteis em algum momento, presente ou futuro. São trocas de gentilezas e tratamentos privilegiados que as partes esperam, de forma mais ou menos consciente, receber em retribuição quando necessário. Incluem-se aí as relações entre aliados políticos e entre pessoas que se auxiliam para atingir um objetivo mutuamente vantajoso. Não raro, uma das partes confunde este tipo de relação com a verdadeira amizade. Quando um dos dois eventualmente deixa de deter a moeda de troca, quando, por exemplo, deixa de ocupar uma posição influente, a relação deixa de ser vantajosa para uma das partes. Então ela perde sua razão de ser e se desfaz. É quando muitas almas ingênuas se decepcionam e se tornam rancorosas, interpretando como ingratidão quando seus antigos “amigos” se afastam ou lhes viram as costas. Confundiram este tipo de relação utilitária com a verdadeira amizade, a bijuteria com a jóia valiosa.

Bem mais simples definir o que a amizade não é do que delimitar seu perímetro, suas fronteiras e sua origem. Não sei dizer se ela surge espontaneamente ou se pode ser plantada e cultivada. Qual seria o momento fatal, o toque de Midas que transforma um companheiro, um parceiro utilitário ou mesmo um completo estranho em um amigo? A mágica pode começar ao se oferecer uma carona, um sorvete ou um abrigo sob um guarda chuva. A descoberta de um interesse comum, uma afinidade em nossas crenças mais profundas e na maneira de ver o mundo. Ou ainda aquele instante em que, encorajados por uma súbita intuição, sentimos confiança para, pela primeira vez, abrirmos nosso coração sem defesas para alguém, pondo a nu nossas vulnerabilidades e incertezas.

Existem os que têm mais facilidade em fazer amigos. Não é sorte. São os que pescam com muitos anzóis, lançando, sem esforço ou premeditação, iscas de gentileza e preocupação sincera com outro, manifestas em forma de sorrisos e pequenas atenções. Estes terão mais amigos que aqueles que se preocupam apenas consigo mesmos, buscando no outro apenas a platéia necessária para falarem de si, nunca interessados em ouvir e entender. Pois que a amizade exige uma via de mão dupla.

Amizades verdadeiras são raras. Não se pautam por vínculos familiares ou matrimoniais. Podemos ou não termos sentimentos de amizade por nosso pai, nossa mãe, filhos ou irmãos. Tem sorte quem tem no marido ou na esposa um parceiro e um amigo, embora isso pareça ocorrer mais como exceção que como regra.

Diante do amigo não precisamos esconder nossas covardias, mesquinharias e obscuridades. Da mesma forma, não julgamos suas fraquezas e baixezas. A proximidade ou mesmo uma simples carta ou e-mail enviados por um amigo nos aquece, nos aconchega e nos anima. Um amigo é um irmão no plano mais elevado Quem tem um único amigo não está só e é mais rico que aquele que tem muitos companheiros, mas nenhum amigo.

Aos velhos amigos que me lêem, próximos ou distantes no tempo e no espaço, abro meu coração em mão dupla. A meus companheiros, ofereço a oportunidade de fazer florescer alguma amizade tardia, mas não menos valiosa.

domingo, 24 de abril de 2011

Uma Carta Para Você

Meu querido amigo, minha querida amiga:

Senti saudades suas e resolvi lhe escrever. Lembra-se de quando tínhamos entre quinze e vinte anos? Meus avós moravam em Nova Friburgo e era para lá que eu ia nas férias, tanto nas de inverno, como nas de verão. As minhas lembranças de adolescência estão quase todas associadas àquela cidade, onde fiz muitas amizades, algumas perdurando até hoje. Lá tinha os amigos residentes, os friburguenses de tempo integral, e amigos veranistas, os friburguenses part time. Estes moravam no Rio, outros em São Paulo ou ainda em Brasília e voltavam para suas cidades ao fim das férias. Nos longos meses em que ficávamos distantes, a saudade era grande, o interurbano caro e a internet e o e mail estavam ainda por ser inventados. Faz tão pouco tempo, uns trinta e poucos anos, e já é difícil imaginar a vida assim, tão desconectada.

A solução eram as cartas. Papel de carta, com ou sem perfume, alguns decorados, que as meninas colecionavam, caligrafias, envelopes, selos, filas na agência dos Correios e a ansiosa espera pelo carteiro. Quem viveu aquela época sabe bem o que significa a letra de “Mr Postman”, que me vem sempre à memória na voz de Karen Carpenter. Cada passagem em branco do carteiro era uma decepção e cada envelope recebido fazia brotar um sorriso e causava taquicardia. Ainda guardo umas duzentas cartas daqueles tempos em velhas caixas de sapato, talvez algumas suas. Revisitá-las no passado já me fez viver uma injusta decepção ao descobrir apenas bobagens adolescentes onde eu imaginava haver filosofia, bom português e revelações psicológicas. Visitas posteriores,  com olhar mais lírico e menos crítico, me encheram de emoção: já fomos tão adolescentes como nossos filhos são hoje. As mesmas inseguranças, as mesmas paixões intensas (a maioria delas não correspondida), as mesmas invejas, dores de cotovelo, planos para a vida adulta. Nossa perspectiva ingênua ou, às vezes, precocemente lúcida de ver o mundo.  Colocávamos no papel nossas almas jovens, otimistas, ansiosas e, muitas vezes, perplexas.

Hoje, em tempos de e-mails, MSN, torpedos, Tweeter, Facebook, Orkut e smartphones que nos mantêm conectados ininterruptamente, o carteiro traz apenas contas a pagar e propaganda. Nunca foi tão fácil alcançar o outro. Meus filhos, até recentemente, mal chegavam em casa corriam para abrir o MSN. Hoje estão conectados onde quer que estejam via celulares com acesso à Internet. Mantêm contato permanente com seus namorados e amigos, reais ou virtuais,  e a conta de telefone agradece o refresco. Tenho meu perfil em um site de relacionamento, mas vejo pouca vantagem nisso. Para os amigos próximos, prefiro ainda o telefone ou o contato cara a cara, se possível em torno de uma mesa, bebericando um café, um chope ou uma garrafa de vinho. Para os distantes, uso o Outlook, essa ferramenta já meio velhinha e sujeita a todo tipo de mau uso. Não vou falar aqui nem de spams nem de correntes, que nunca repasso. Se metade das desgraças que ameaçam cair sobre quem interrompe correntes fosse real, eu e meus entes queridos já teríamos morrido muitas mortes horríveis e eu teria ido à falência dezenas de vezes. Na verdade, quero apenas me ater aqui ao uso que hoje quase todos fazem do e-mail.

Amigo, amiga, pelamordedeus! Não, eu não quero receber nada .pps, aquelas telas bonitinhas com fotos de por do sol, abrindo letrinha por letrinha mensagens edificantes e bem intencionadas ao som de Richard Clayderman. Devem ser criadas e enviadas por quem tem muito tempo livre. Sinto informá-los: deleto todas sem abrir. Também não me mandem denúncias sobre como os norte-americanos já consideram a intervenção militar na Amazônia. Piadas de loura, de bêbado e de português, eu prefiro ouvir de vocês no bar. Piadas grosseiras sobre o presidente da vez ou denúncias sobre o lado podre da oposição, nem no bar, por favor. Alarmes sobre o último golpe do perfume no estacionamento do shopping, sobre roubo de rins de pobres desavisados, sobre o mais recente vírus solto na rede, golpes via celular, códigos mágicos que impedem roubo de senhas, etc, etc, etc, por favor: me poupem, não quero saber de nada disso. Quero sim, saber notícias suas. Pode até me repassar um e-mail que você achou bacana, mas diga-me o que você achou, o que aquilo fez você pensar, fez você sentir. Nada de “D +”, de “Lindooooo” de rsrsrsrsrs ou kkkkkkkkk. Quero saber de você! Duas linhas bastam. Quando receber um e-mail seu, quero ter a mesma sensação que sentia quando recebia aquelas cartas em papel de verdade na adolescência, com ou sem perfume, com ou sem selo. Mande fotos suas e de seus filhos, de seu marido, de sua namorada. Conte-me das férias, dos filhos, do trabalho, dos seus medos, das suas decepções e esperanças, de seus planos e crenças. Comente o que você achou daquele assunto que está na mídia, ao invés de repassar a opinião dos outros. Não me mande crônicas falsas do Jabor nem contos falsos do Veríssimo. Quero as suas crônicas e os seus contos. Eu quero você. Lhe espero.

De seu amigo saudoso

Ralph

domingo, 17 de abril de 2011

A Copa, a Cozinha, o Ipea e o TCU

A coisa começou assim. Aquela tática feminina, feito drible do Neymar: você sabe que vai ser driblado, sabe para que lado vai sair o drible, mas não consegue evitar. Sempre que tínhamos mais de seis à mesa, minha mulher preparava o terreno. Primeiro um suspiro. Depois, em tom de lamento:

“Esta mesa é tão apertada...”

Você finge que não entendeu, continua falando de outra coisa, mas é em vão. O jogo endurece:

“Esta mesa não dá. Assim que puder eu vou querer trocar por uma maior.”

Então você cai na armadilha. Ao invés de continuar ignorando, você resolve argumentar com a razão:

“Mas meu bem, não cabe uma mesa maior nesta cozinha. Só se a pia fosse menor.”

“Então a gente diminui a pia.”

“Mas não vamos achar azulejos iguais para repor os quebrados se mudarmos a pia...”

.Mas quem disse que a lógica e a razão fazem parte das regras do jogo?

“Se nós recebermos visitas aqui, como é que vai caber todo mundo à mesa? E quando vierem os namorados e namoradas das filhas e dos filhos, todos ao mesmo tempo? Vamos fazer escala? E quando vierem os netos? Eu gosto de mesa grande.”

Aos poucos, acabei sendo levado na conversa e eu mesmo comecei a admitir que vínhamos adiando algumas melhorias necessárias no cômodo da casa onde conseguimos congregar a família e compartilhar nosso dia a dia, nossas opiniões, angústias e alegrias. A causa era nobre, e o casamento corria risco.

Assim, fomos à obra. Para evitar problemas com pedreiros, fornecedores, e para aconselhamento na escolha de materiais, chamamos uma amiga arquiteta (recomendo sempre que se chame um bom arquiteto, uma despesa que economiza muitas outras). Discutido e aprovado o projeto, começou a quebradeira. A marretadas, arrancou-se o piso e todos os azulejos. Arrancaram a bancada da pia. Todas as tomadas elétricas mudaram de lugar. O ponto de água na pia também mudou de lugar. Arrancaram a janela. Consegui salvar as portas me acorrentando a elas por dois dias. Estamos comendo na lavanderia há duas semanas. Minhas camisas têm cheiro de alho e a comida tem cheiro de amaciante monbiju, mas tudo bem, é pela família e pelo casamento. Ontem começaram a assentar os primeiros azulejos. Já assentaram cinco. O prazo fatalmente vai estourar e o orçamento de material já estourou. Mas a minha fé na capacidade que os seres humanos têm de esquecer os momentos difíceis quando tudo acaba bem me supre de paciência e otimismo. Antes da Copa deve estar tudo pronto.

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Aqui em casa não tem ingerência do TCU – Tribunal de Contas da União - exigindo que se cumpra o orçamento. Minha mulher já impôs aqui em casa o que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) está propondo agora: que o TCU afrouxe os controles de gastos nas obras para a Copa do Mundo de Futebol e para as Olimpíadas. Que as licitações para reforma dos aeroportos e dos estádios, para a melhoria do transporte público e tudo o mais que for necessário para não fazermos feio quando os ingleses vierem ver, sejam feitas com menos controle, sem essa “frescura” de cumprir orçamentos. Dão a entender que os fiscais do TCU nunca reformaram a cozinha de casa e não sabem como a coisa funciona. Os relatores do Ipea alertam e ameaçam com o não cumprimento dos prazos se estas “providências” não forem tomadas. O filme é velho: os Jogos Pan-Americanos acabaram custando 4 bilhões de reais, dez vezes mais do que o previsto nos orçamentos iniciais.

É tudo o que os empreiteiros querem e os responsáveis pela administração das obras sonham. Afinal, eles também devem estar precisando reformar as cozinhas de suas casas, e, quem sabe, também de seus iates e de seus apês que serão comprados no Upper East Side ou em Paris.

O detalhe é que, na nossa cozinha, eu e minha mulher estamos gastando o nosso dinheiro, meu e dela. Enquanto isso, caro leitor, eles estão gastando o nosso, o meu, o seu e o dos demais contribuintes.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Flor Roxa

Ne me quitte pas! A canção de Jacques Brel todo mundo conhece. Eu, pelo menos, já conhecia. Sabia a tradução do título, adivinhava o sofrimento expresso na letra, mas, como não sei francês, não tinha tido a oportunidade de entender todo o seu significado. Até que meu amigo Sebastião me enviou o link para o YouTube:

Confiram e me digam: não há como não se emocionar, não é não? Quando assisti o pobre Jacques Brel, devastado pela dor da separação, implorar à amada Suzzane Gabrielle uma segunda chance, fui invadido por uma enxurrada de emoções e pensamentos. Meninos, que coisa! Fiquei dividido. Não sabia se dava graças a deus por nunca ter vivido um sofrimento tão avassalador, ou se lamentava ter vivido a vida (até aqui, pelo menos, cruz credo) sem ter compartilhado com muitos de meus semelhantes essa experiência, melhor dizendo, esse transe, essa loucura, essa privação temporária dos sentidos que pode conduzir pessoas do céu ao inferno sem escalas e levar seres humanos tidos como decentes e normais ao suicídio ou ao homicídio.

Pausa para meditação. Quando criança, tive um fox paulistinha, o Nick. Foi meu primeiro cachorro. Sujeitinho muito inteligente, de personalidade forte, arretado e temperamental. Mordeu vários outros cães e algumas mãos e tornozelos humanos, o que nos trouxe muitos constrangimentos e motivou diversas exibições da carteira de vacinação veterinária. Nick viveu celibatário até uma idade relativamente avançada, uns cinco ou seis anos mais ou menos, o que equivaleria a uns quarenta e poucos aniversários humanos. Até que surgiu uma pretendente compatível, que foi-lhe apresentada. Chamava-se Pretinha. Como o primeiro contato entre os dois foi cordial, ela foi deixada por uns dias na casa de meus avós em Friburgo, onde passávamos as férias. O que se seguiu, nas palavras de minha saudosa avozinha, foi uma “pouca vergonha”. Nick não deixava a cadelinha por um minuto, nem de dia, nem de noite, nem para comer, nem para dormir e acho que nem para beber. Depois de três dias ininterruptos de amor apaixonado, tememos pela sobrevivência de nosso cachorrinho, que, no entanto, parecia querer morrer daquilo. Tivemos que, a muito custo, enfrentando protestos ostensivos e tentativas de mordidas, trancá-lo no banheiro da empregada enquanto levávamos embora a exausta Pretinha que, curiosamente, não pareceu se incomodar. Muito pelo contrário, li algum alívio em seus olhinhos pretos e cansados. Depois, liberto da prisão, Nick rodou a casa como louco por muitas horas, até convencer-se de ter sido abandonado. Que terá passado em seu coraçãozinho canino? “Aquela cachorra ingrata me abandonou sem nem se despedir!”? Nunca soubemos. Só no dia seguinte Nick começou a matar a fome de três dias. Aos poucos, abandonou aquele olhar perdido e voltou a ser o cãozinho brincalhão de antes.

Ora, dirão os românticos de plantão, que sacrilégio! Comparar a mais bela e elevada das emoções humanas, a fonte suprema de inspiração das artes com um reles acasalamento canino! Mas será mesmo tão diferente assim? Ver o pobre Brel com cara de cachorro abandonado implorando para ser a sombra do cãozinho da Suzanne me deixa com sérias dúvidas. Para cada canção de felicidade na paixão, existem dez de corações arrasados. Tudo bem, gente, vou ser franco: tenho medo da paixão! Deve ser meio como cocaína: ao experimentar pela primeira vez, ninguém pode garantir que não vai deixar-se arrastar pela sarjeta. Só que, ao contrário da cocaína, a paixão pode agarrar um coração descuidado na primeira esquina, sem dar ao menos uma chance à razão de dar um puxão bem forte na coleira de nosso cachorrinho interior para nos obrigar a seguir em frente.

Novamente os românticos que me lêem devem estar pensando: Coitado, nunca amou na vida. Não é verdade. Já amei muitas vezes, já chorei e sofri com separações e amores não correspondidos. Amo ainda hoje, e o amor que compartilho é parte importante da minha felicidade, embora não seja seu carcereiro. Rezo para nunca querer ser a sombra do cachorro de ninguém. Até aqui, apesar da minha ponta de inveja e alguma curiosidade irresponsável, minhas preces têm sido ouvidas: o cupido continua trancado no banheiro da empregada. Mas, já dizia Santo Ernulfo: Ninguém está livre de um mau passo. Todo cuidado é pouco!

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Escova - Pequena Peça em Dois Atos

Ato 1:
Sala de um apartamento, sol da manhã entrando oblíquo pela janela. Uma mulher nos seus trinta e poucos anos, de vestido leve e sandálias de salto alto, confere os cabelos no espelho da parede. Uma pequena bolsa de viagem está junto à porta de saída. Ele, descalço e de bermudas, chega do interior do apartamento:

“Vevê, você esqueceu a escova.”

“Qual escova, Fê?”

“A de dentes, você esqueceu a escova de dentes na pia do banheiro.”

“Ah, a de dentes. Pode deixar lá.”

“Leva a escova.”

“Pode deixar, eu comprei essa para deixar aqui.”

“Você não entendeu, Vê: eu não quero que você deixe a escova aqui”

“Qual é benzinho? Eu deixei o xampu no banheiro também.”

“O xampu, sem problema.”

“E deixei a calcinha pendurada no box.”

“Calcinha, na boa.”

“Eu não estou te entendendo, Felipe. Está implicando com a minha escova?”

“Olha, Verônica, está sendo difícil dizer isso para você, mas eu não quero que você deixe a escova. Você não acha que a gente deve ir devagar, sem atropelar as coisas? Vamos só deixar acontecer, ou não acontecer, sei lá.”

“Mas o que é que a escova tem a ver com isso?”

“É o valor simbólico da coisa, entende? A gente se conhece há menos de dois meses, acho que nós estamos indo bem, eu gosto de estar com você. Mas está muito cedo para esse lance de escova. Escova de dentes é coisa muito séria.”

“Mas é só uma escova! Você está fazendo esse drama por causa de uma escova de dentes? Eu não acredito que a gente vai estragar esse dia ótimo que nós passamos juntos por causa de uma droga de uma escova de dentes.”

“Mas não é a escova em si, não finge que não sabe do que eu estou falando. Ninguém fala em ‘juntar os pares de meia’ ou ‘juntar os travesseiros’. Escova é uma marcação de território, e eu, no momento, não estou querendo nenhum território marcado aqui em casa, vê se me entende."

"Olha, Felipe, sinceridade, eu estou tentando, mas está me parecendo um absurdo. Não tem essa de "território", é uma escova apenas, para eu não ter que ficar trazendo e levando, esquecendo de trazer."

"Verônica, meu amor: entenda esse gato escaldado. Escova é um pé na porta. Fica ali, sobre a pia, de dentes arreganhados, olhando para mim com aquela cara de cobrança, de exigência, não tem leveza que resista. E só o que cabe agora é leveza, chega de peso. A gente estava conseguindo essa leveza, então não estraga. Vamos viver um dia de cada vez, enquanto estiver bom viver assim, nada de território, por favor."

“Eu sou uma idiota, mesmo. Estava saindo daqui tão feliz, achando que a gente estava se entendendo bem, sei lá.”

“Mas nós estamos bem, só não quero delimitação, cobrança, será que é difícil de entender?"

“Eu acho que você não está querendo me ver mais, é isso, não é?”

“Claro que não é isso, você não está me entendendo.”

“Vou pensar se eu quero voltar a te ver, viu?”

“Para com isso Vê, chorar não vale, é apelação. Eu estou tentando conversar como duas pessoas racionais.”

Ato 2:
Mesa de café da manhã, Felipe lendo o caderno esportivo e Verônica lendo o caderno de decoração. Ela larga o jornal e dá um leve suspiro enquanto brinca com os farelos de pão sobre a toalha.

“Fê...”

“Hmmmmmm”

“Eu estava pensando...”

“Hmmpf”

“A gente tem dois filhos...”

“Sei.”

“A gente mora junto há oito anos.”

“Mora.”

“Mamãe já mora com a gente há dois.”

Ele baixa o jornal: “Você sabe que eu adoro sua mãe. Desembucha logo, vai”

“Pois é. Será que já não estava na hora de eu ter minha escova de dentes na pia?”

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Quatro reais

Laura, uma amiga que mora no Rio, nos liga num domingo e pede a indicação de um bom restaurante de frutos do mar em Niterói. Ela, uma amiga e o marido desta iam atravessar a ponte para um passeio nessa terra, minha e de Araribóia. Pergunto se eles se importariam em ter nossa companhia, seria um bom programa naquela clara manhã de outono. Tudo bem, ótima idéia, e ficamos aguardando que passassem em nossa casa para apresentarmos Jurujuba aos cariocas.

Uma hora mais tarde, chegam Laura, sua amiga Leninha com seu marido, o Fred, e, além dos três, a mãe de Leninha e a filha do casal, de uns dez anos de idade. Apresentações de praxe. Já conhecíamos Leninha da casa da Laura, moça simpática, jeito delicado. Fred pareceu-me econômico nos sorrisos e nas palavras, ar ligeiramente contrariado, ou então era minha imaginação fértil. Primeiras impressões podem ser enganosas, melhor não julgar e dar uma chance ao rapaz. Seguimos de carro pela orla de São Francisco e Charitas, as praias cheias tendo como fundo o Rio visto de longe, paisagem inédita para muitos cariocas. Chegamos ao bairro de pescadores, onde uma providencial vaga na sombra nos aguardava. Depois descobrimos tratar-se da sombra de um pé de jamelão carregado. Se você gosta do carro coberto de manchinhas roxas, tudo bem, nada que uma boa lavada não resolva.

Todos elogiaram a decoração rústica do restaurante, cheia de modelos de traineiras e motivos náuticos, e a vista para a enseada bucólica. Ordenamos uma entrada e as bebidas. Eu e minha mulher pedimos caipirinhas e Fred pediu um chope. Hora de deixar a conversa fluir e conhecermos melhor os amigos de nossa boa amiga. Logo o garçom, um senhor de óculos nos seus sessenta e poucos, traz as bebidas. Aqui, começa a história: Fred diz ao garçom que mudou de idéia, que não vai mais querer o chope, e sim uma cerveja. Uma luz amarela pisca na minha cabeça: aí vem coisa. O garçom, educado, explica o óbvio: poderia trazer a cerveja quando o freguês quisesse, mas o chope, uma vez tirado, não poderia ser devolvido. Fred insiste, deixando o pobre garçom constrangido, e talvez pensando: ”Essa é inédita.” Será que alguém ficou intrigado, ou teria sido só eu? Chegam os tira gosto de frutos do mar para nos distrair enquanto esperamos os pratos principais. Esforço-me em acompanhar a conversa, mas meus sentidos estão definitivamente voltados para o cara. Ele, então, pega um pedaço de limão e o espreme no chope. Lembro-me de que, quando as cervejas mexicanas chegaram ao Brasil, era comum enfiar um pedaço de limão gargalo abaixo naquelas garrafinhas transparentes, mas no chope? Para mim era novidade. Então, depois de um gole, nosso comensal chama o garçom: “Meu amigo, tem umas coisas estranhas no meu chope, acho que o copo estava mal lavado. Dá pra devolver e trazer aquela cerveja e outro copo?”

Não me lembro de mais uma única palavra dita naquela tarde. Minha mulher, que não tinha notado nada, ficou de boca aberta quando, mais tarde, lhe contei o acontecido. Não sei se alguém mais percebeu. Se perceberam, disfarçaram heroicamente, conseguindo impedir que aquela tarde fosse para o ralo. Fiquei com pena da Leninha e da filha dos dois. Não consegui deixar de pensar, de forma preconceituosa, que algumas mulheres, para não ficar a pé, pegam até ônibus errado. Fiquei imaginando o conceito que a sogra teria daquele genro, e na mala sem alça que Laura tinha que aturar de vez em quando para estar com a amiga.

Algumas pessoas me surpreendem, outras me surpreendem muito. Até hoje, quando penso nessa história, fico tentando imaginar as motivações daquele sujeito. Seria algum tipo de jogo que ele gosta de ganhar, algo do tipo “Agora Te Peguei, Seu FDP”, o prazer simples em humilhar alguém que ele nunca tinha visto antes, ou a motivação mesquinha de economizar a merreca do preço do chope, vai saber? Com certeza, uma estratégia bizarra que, ele acredita, vai deixá-lo mais próximo da felicidade. Quem tiver outras hipóteses, por favor, cartas para esta redação.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Olho de Evilásio


Jaciara, o amor de sua vida, prestes a se entregar a outro homem e ele ali, sobre a cômoda, assistindo tudo sem poder piscar.

Uma pedrada numa guerra de estilingues aos nove anos, e o olho esquerdo de Evilásio foi vazado e depois secou. Virou Evilásio, o Caolho. Só quase aos quarenta um oftalmologista o convenceu a usar prótese. Confeccionou-se uma, no mesmo belo tom entre o mel e o verde do olho direito. Sentiu sua confiança avultar-se. Tornou-se mais sociável, mais falante. Os encontros amorosos, até ali raros e frustrantes, tornaram-se mais freqüentes. Então conheceu Jaciara. Apaixonou-se e, contra suas próprias expectativas, foi correspondido pela jovem e bela viúva, apesar dos quase vinte anos que separavam suas idades. O casamento veio rápido, e os filhos, que não tinham vindo no primeiro casamento de Jaciara, também não vieram no segundo. Não pareciam lamentar, pois o amor que tinham um pelo outro como que exigia uma dedicação absoluta, que os dois, no fundo, não ansiavam em dividir com mais ninguém. Por doze anos viveram numa felicidade que parecia irreal.

Até que veio o câncer, que se abateu sobre Evilásio violento e rápido. No leito do hospital seguravam-se as mãos e olhavam-se nos olhos, nutrindo-se um com o olhar do outro, mal acreditando que os dele em breve se fechariam para sempre. Quando finalmente a hora chegou e os enfermeiros vieram com a maca fria buscar o corpo, ela, que chorava no desespero da súbita solidão, os deteve: “Quero o olho de vidro. Quero olhar o olho de meu marido pelo resto de minha vida.”

Assim, o olho de Evilásio foi colocado sobre a cômoda do quarto do casal, em um frasco de cristal cheio de soro fisiológico, que Jaciara trocava diariamente.

Quando chegou ao outro mundo e abriu os olhos para o infinito e a eternidade, Evilásio percebeu que voltara a enxergar com os dois, mas só o direito via as maravilhas do Paraíso: o esquerdo via seu antigo quarto, e, no quarto, via Jaciara. Via-a quando ela se vestia e quando ela se despia, via-a lançar para ele olhares longos, como que sabendo que era observada. Na penumbra da noite, Evilásio via Jaciara chorar baixinho, abraçada ao travesseiro que fora dele.

Mas o tempo tem o poder de aliviar as maiores dores. Num fim de tarde, Evilásio viu Jaciara enfeitar-se e perfumar-se como nunca mais fizera, e depois sair. Com a serenidade que a eternidade confere às almas que mereceram o Paraíso, ele entendeu e esforçou-se por aceitar que o corpo jovem e bem feito de sua viúva mais dia menos dia seria assediado pela ânsia de novos afagos e carícias. Com a alma partida, tentou conformar-se com o inevitável.

Uma noite, ela voltou acompanhada. Coração aos pulos, ele viu Jaciara ser despida e desejou poder fechar aquele olho que penava no mundo dos vivos. Mas então, por cima do abraço do outro, ela mirou fixa e demoradamente o olho do falecido. Depois, num arranco, rechaçou o avanço dos beijos em direção a seus lábios e Evilásio pode vê-la dizer: “Na boca, não!” Ela, então, colocou o despertador entre o frasco de cristal e a cama, obstruindo a visão do olho de Evilásio.

No dia seguinte ela percebeu que o frasco havia transbordado.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Joaquín Sorolla

Retornávamos, o mestre e eu, pela trilha que serpenteia de vertente em vertente das colinas de Peñalara, cada um carregando sua caixa de pintura. Fixado por fora de cada caixa, um apunte a óleo, fruto ainda fresco do trabalho da manhã. Clotilde e Concepción, alguns passos à frente, carregam o cesto de vime coberto com um xale verde bordado, contendo os restos do almoço: queijos, frutas frescas e secas, pão e duas garrafas de vinho tinto que esvaziáramos à sombra de uma oliveira.

O sol forte castiga a relva curta e seca naquele fim de verão, ofuscando a vista e fazendo-nos cerrar os olhos. Então, vindas do norte, lufadas de vento enfunam as saias brancas das mulheres, quase arrancam nossas boinas e levantam a poeira da trilha, exigindo que apertemos ainda mais os olhos. O vento cala os poucos pássaros e domina todos os sentidos. Primeiro quente e seco, depois fresco e úmido, prenunciando a tempestade a caminho.

O mestre então toca meu ombro, como quem diz “acorde!”, mas poderia também significar “sonhe!”. Volto-me para o norte, olhos quase fechados, e vejo um mar de sonho. Os planos de cor se dividem por linhas quase paralelas e horizontais: a relva seca é a praia, as colinas mais e menos distantes se tornam ondas do mar, a água em movimento, subindo e descendo com as sombras das nuvens que avançam pelos vales em nossa direção. A montanha distante que recortava o horizonte vê-se encoberta por vagas de violetas, azuis e cinzas vindas do mar além, como se uma extensão deste avançasse terra adentro.

O mestre então se senta no chão, abre sua caixa e, em vinte minutos, captura em um novo apunte o vento, a água, o sol, o mar, a praia, a relva, a vida toda em movimento. Levanta-se. Em seus olhos sombreados pela pala da boina e no sorriso quase oculto pela barba, vejo um mago satisfeito com seu truque. Apertamos o passo e alcançamos a carroça junto com as primeiras gotas de chuva. Os charutos terão que esperar.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Notícias da Serra

Tatá e Titi saindo para a night.
Acabo de voltar de uma semana na serra, no distrito de Rio Bonito de Cima em Nova Friburgo. Por desígnios do insondável, a região não sofreu nenhum dano durante o cataclismo que se abateu sobre outros distritos do município. Exceção para a falta de luz e de telefone por dez dias, e a conseqüente aflição dos habitantes de lá em relação aos seus amigos e parentes que moram nos bairros atingidos na cidade.

Voltei com aquela marca em forma de V no dorso de cada pé, feita a sol e sandálias Havaianas, atestado irrefutável de uma temporada de ócio. Dos sete dias, cinco foram desfrutados sozinho no sítio, período em que, tirando os "bons dias" e "boas tardes", não conversei com mais do que meia dúzia de pessoas: com a Ângela, dona do restaurante simples de comida caseira, daquele tipo com feijão e arroz que, como café com leite e pão com manteiga, você pode comer o ano inteiro sem enjoar; com o Niltinho, caixa e gerente do mercadinho, a pessoa mais indicada para a gente se inteirar dos acontecimentos recentes do lugar; com o Batista, nosso caseiro, e mais uns poucos vizinhos.

Batista é a pessoa que eu vou querer ter ao meu lado se um dia a civilização entrar em colapso, quando a energia elétrica, a internet, o sistema bancário, os SACs, os 0800, a telefonia e o abastecimento de bens industrializados pifarem. Batista está chegando aos 40 de idade e nasceu por ali mesmo, onde há menos de 10 anos atrás não havia luz elétrica, telefone, nem linha de ônibus. As estradas eram péssimas, e uma ida à cidade era uma odisséia. Dinheiro circulante era pouco ou nenhum. Sem eletricidade, não havia televisão, e o contato de mão única com o resto do mundo era via rádio de pilha. Não havia emprego e trabalho era só na roça de subsistência. Segundo ele, a vida era dura antes da chegada dos sitiantes da cidade grande, mas, apesar da pindaíba, ninguém passava fome. Comia-se angu, inhame, mandioca e alguma verdura pouca. Quando não havia um frango no ponto de ir para a panela, a carne era de caça: um tatu, um gambá, um lagarto, uma paca ou um jacu. Assim Batista aprendeu “com os antigos” a se virar na mata com o que ela oferecia e ainda oferece. Ele sabe dar nome aos paus da floresta e sabe a utilidade de cada um. Este aqui é bom para cabo de enxada, aquele para mourão de cerca. Sabe qual erva serve para cada mal do corpo e qual fruta ou raiz é comestível e qual não. Enxerga na floresta um supermercado e uma loja de materiais de construção.  Sabe fazer arapucas, armadilhas e outras engenhosidades simples e utilíssimas para a sobrevivência sem as facilidades da civilização. Talvez ele seja parte da última geração naquela região a deter estes conhecimentos. Suas filhas estudam no ginásio da cidade, sabem o que é internet e computador, sonham com um  iPod e têm TV e luz elétrica em casa. O pai delas tem salário certo e carteira assinada e o arraial agora tem médico de família duas vezes por semana e ônibus três vezes ao dia. A vida ficou bem mais fácil e mais parecida com a vida na cidade.

Apesar do passado de caçador, Batista é dos mais entusiasmados com a volta gradual dos bichos da mata aos arredores de Rio Bonito de Cima. Agora que quase ninguém mais caça e depois que o Ibama deu algumas duras em alguns caçadores recalcitrantes, sagüis, esquilos, iraras, tatus e passarinhos vários estão reaparecendo nos quintais e na borda da mata, que no nosso sítio, são a mesma coisa. Inteligente, ele adora assistir documentários sobre a vida selvagem e me pergunta com interesse sobre mudanças climáticas, aquecimento global, demografia e ecologia. Vem me avisar animado quando avista um bando de tucanos ou um casal de martim-pescadores na beira do rio. Um caçador convertido em ecologista.

Disse aí em cima que fiquei sozinho no sítio. Maneira de dizer apenas, pois lá nunca estou sozinho. Tem o tatu que se entoca embaixo da casa, os gambás que moram no forro, as andorinhas que fazem ninho sob o telhado, os morcegos (que já foram despejados da casa), as lagartixas nas paredes e os calangos pegando sol na varanda, fora os inúmeros insetos que diariamente entram em casa e nem sempre conseguem achar a saída. Tinha um gambá que, na nossa ausência, decidiu que o melhor lugar para fazer seu ninho de folhas secas era o espaço entre as telhas de vidro do telhado e vidro da clarabóia no teto da cozinha. Ficava ali o dia inteiro imóvel, curtindo o calorzinho do sol, mostrando suas patinhas, seu rabo pelado e seu focinho colados ao vidro. Só depois do por do sol dava sinais de vida: primeiro espreguiçava-se intermitentemente e mais tarde passava a se lamber, embelezando-se antes de cair na night. Lá pelas nove da noite saía de casa, mas nem sempre estava de volta pela manhã. Talvez dormisse na casa da namorada ou de um amigo, nunca soubemos. Ficávamos sempre preocupados quando ele não estava em sua cama de manhã. E o seu celular nunca estava ligado. Um belo dia ele cruzou a linha da boa vizinhança: fez xixi na cama. Decretou o fim da tolerância e sua expulsão do abrigo de nosso teto. Tentou voltar umas duas vezes, mas acabou por se convencer de que não era mais bem-vindo.

Parece, porém, que correu a notícia na comunidade gambazística de Rio Bonito de Cima: havia vagas disponíveis na casa. Acomodações novas, bem iluminadas, localizadas a meio caminho entre a mata e um pomar sortido, e a única exigência do senhorio era comportamento discreto. Pouco tempo depois daquele primeiro gambá ter sido despejado, diversos outros se candidataram para ocupar outros recantos não menos aprazíveis de nosso telhado. Houve um que ocupou o espaço sobre o forro de nosso quarto, outros dois o teto da sala junto à lareira, um completo abuso. Dispensamos a formalidade de um mandado judicial de despejo e convocamos o Batista e suas arapucas. Em duas semanas foram três gambás adultos, sendo uma mãe com sete filhotes. Batista afirma não ser apreciador de gambá guisado, que, dizem, sabendo tirar a bolsa de cheiro, é muito saboroso. Eu mesmo não tive ainda o prazer. Já o Justino, primo do Batista, adora a iguaria, e tem sido ele o beneficiado pelas recentes capturas. Restam ainda Tatá e Titi, os dois irmãos gêmeos que moram junto à lareira. Espertos, eles têm driblado as arapucas até onde se tem notícia. Até já posaram para fotografia. Fotogênicos os dois, não acham?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Irrelevâncias

O pequeno grupo de homo sapiens, no alto da colina, observa o rio mais abaixo, que desce a montanha alimentado pelo degelo naquele início da primavera. A cena se dá cerca de trinta mil anos atrás. Todos os olhos se dirigem ao macho líder daqueles quinze ou vinte seres humanos errantes nas planícies geladas da Europa, durante a última era glacial. É preciso decidir rápido. Parece haver mais caça na margem oposta do rio, porém, a correnteza talvez já esteja forte demais para os mais velhos e os mais fracos, sem falar das crianças. Por outro lado, com o avanço dos dias em direção ao verão, a correnteza se tornará mais e mais forte. Tentar a travessia agora ou fazer meia volta?

Cientistas concluíram recentemente que, em algumas épocas de secas ou temperaturas extremas, a humanidade quase desapareceu, ficando restrita a uns poucos milhares de seres humanos, que sobreviveram para se tornarem nossos avós. Alguns poucos grupos como aquele à margem do rio tomaram a decisão certa. Muitos tomaram a decisão errada e morreram de fome, de frio ou foram devorados por predadores. Devemos nossa existência às decisões acertadas tomadas em momentos cruciais por alguns machos (ou fêmeas) dominantes, heróis esquecidos da nossa pré-história. Pessoas que sabiam ler os sinais do clima, decifrar o comportamento da caça e dos predadores, descobrir onde encontrar alimento e abrigo das intempéries, aprendendo com experiências passadas para tomar melhores decisões no futuro. Questões de vida e de morte para toda uma espécie. Seleção natural em estado bruto.

Vivemos tempos bem diferentes. Nunca na história da espécie tanta gente teve acesso a saúde e alimento, tanto em termos absolutos como percentuais. A obesidade está se tornando um problema maior do que a fome na maioria dos países. Existem ainda guerras, mas nunca foram tão esparsas. Persistem as tiranias, mas a democracia e as liberdades individuais nunca foram tão fashion. Problemas novos, como poluição e esgotamento de recursos naturais são conseqüências justamente do florescimento populacional e da progressiva facilidade de acesso aos bens de consumo.

Um aspecto marcante de nosso tempo é a informação. Uma parcela crescente da humanidade está tendo acesso aos meios de comunicação, em especial à internet, essa ferramenta fantástica que coloca quase todo o conhecimento humano ao alcance de uns poucos clicks. Maravilhosa, sem dúvida. Porém, não têm faltado vozes para denunciar sentimentos de atordoamento, angústia, confusão e ansiedade causados por essa avalanche de informações. Há uma incômoda sensação de que se poderia saber quase tudo sobre quase tudo, que nos compele a consumir sem qualquer critério uma montoeira interminável de bobagens. Somos alvo de uma saraivada incessante de informações e notícias, incapazes de percebermos que elas são, em sua grande maioria, totalmente irrelevantes para o rumo que daremos às nossas vidas, individualmente ou em sociedade. Partindo-se do pressuposto de que, baseados em análises de acessos anteriores, os sites de notícias selecionam para exibição informações que têm perspectiva de maior número de novos acessos, as pessoas em geral estão gastando seu precioso tempo com irrelevâncias absolutas. Quem beijou quem na festa, quem mostrou a bunda na praia, quantos tiros o travesti desferiu no ex-namorado, minúcias escabrosas de violências e abusos sexuais... Isso é o tipo de coisa que hoje dá Ibope.

A vida é curta. Os tempos hoje podem ser amenos, mas amanhã podem não ser. Mesmo com vento a favor, vai na direção certa e vai mais longe quem conserva o instinto que permite distinguir os sinais essenciais em meio à cacofonia de nossos dias. Com certeza, no futuro, a humanidade irá reverenciar mais uma vez aqueles que hoje, assim como no passado, souberem ler os sinais relevantes para fazerem as escolhas certas, enquanto a maioria se distrai com irrelevãncias à beira do caminho.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Diários de Viagem II: Gustavo

“Nós havíamos decolado para Londres havia umas duas horas. Íamos eu, meu marido Gilberto e meu filho Gustavo. O Gustavo não estava bem desde que a Marina terminou o noivado com ele. Lésbica, doutor, imagine só. Faltando só duas semanas para o casamento. Gustavo ficou péssimo, trancou a faculdade, largou o estágio. Foi sério. Precisou de terapia, antidepressivos, uma barra, o senhor nem pode imaginar. Aos poucos foi melhorando, mas ainda não estava legal. Ficou traumatizado, o senhor entende, quem não ficaria? O Bebeto, quero dizer, meu marido Gilberto, sempre me disse que ela tinha alguma coisa errada. A Marina assistia futebol com eles no domingo, um, dois, três jogos seguidos, xingava muito o juiz, essas coisas. Mas enfim, o Gustavo ainda não estava bem. Foi quando eu propus que fizéssemos uma viagenzinha para Londres. A gente teve que insistir muito, mas ele acabou aceitando. Então, depois de servirem e recolherem o jantar a bordo, teve uma turbulenciazinha, aquele aviso de apertar os cintos, a gente já tinha até se acomodado para cochilar. O Gustavo pediu para ir ao banheiro, lá no fundo, atrás de onde nós estávamos. Fiquei atenta, que mãe não ficaria? O Gustavo já estava demorando,  não voltava nunca, e eu falei ‘Bebeto...’ (meu marido, Gilberto), ‘...Bebeto, o Gugu está demorando, vai lá ver se ele está bem’. Bebeto é muito descansado, doutor, já estava até cochilando. Aí já tinham passado uns dez minutos e o Gugu não voltava. Levantei e fui lá para trás. A porta do toalete estava trancada. Eu chamei baixinho: ‘Gustavo’. Ninguém respondeu. Chamei de novo: ‘Gustavo’. Nada. Aí, doutor, pensei um monte de besteira, que ele tinha tido uma recaída, sei lá. Comecei a bater na porta e gritar: ‘Gustavo! Gustavo, abre a porta!’, e nada, doutor. Entrei em pânico, comecei a esmurrar a porta do toalete e gritar pelo meu filho que nem uma doida. Veio um comissário, veio uma aeromoça, e o Bebeto lá, dormindo...”

xxxxx

“Eu sou médico, doutor. Cardiologista. Sabe como é, muitas pacientes velhinhas. Acho que elas me acham magro, pois vivem me dando docinhos, compotas, balinhas, essas coisas. Então, uma paciente, Dona Lourdes, tinha me dado um pote de doce de jenipapo, que ela tem um pé no quintal de casa. Eu nunca tinha comido doce de jenipapo. Licor eu já tinha ouvido falar, mas doce não. O senhor conhece? Não? O cheiro é bem ativo, minha mulher até achou o cheiro ruim, nem quis provar. Mas estava gostoso, o danado. Todo dia eu comia um pouquinho. Aí chegou o dia da viajem e ainda tinha uma boa quantidade do doce no pote. Almoçamos em casa mais cedo, antes de sairmos para o aeroporto. Como nós íamos ficar fora uns vinte dias, eu fiquei com pena de jogar o resto do doce fora, e comi tudo. Loucura, não é não, doutor? Tudo para dar errado. Já no aeroporto eu comecei a me sentir esquisito, mas achei que era ansiedade. Eu tenho um certo receio de avião, o senhor sabe como é. Cheguei a comentar com minha mulher: ‘Benhê, eu não estou legal’. Mas depois melhorei. Tanto que, já no avião, jantei bem. Me esqueci de tudo, tomei até vinho, só uma tacinha. Recolheram as coisas e a gente se acomodou para dormir. Acho que até peguei no sono. Aí veio a turbulência. Danou-se. Comecei a suar frio. Chamei minha mulher e falei: ‘Eu não estou bem’. Procurei aflito o saquinho no bolso da poltrona da frente e não tinha, nem na minha nem na dela. A coisa estava periclitante. No desespero, rasguei o saco plástico da manta, arranquei ela de dentro e foi a conta, doutor. Graças, pois não pingou nada fora. Minha mulher chamou a aeromoça, que trouxe correndo umas toalhinhas molhadas, mas aí a emergência já era mais ao sul, se é que o senhor me entende. Levantei-me rápido, que o passageiro do corredor a essa altura já estava de pé havia muito tempo, e corri para o toalete dos fundos, sem saber que extremidade do tubo digestivo eu iria por no vaso. Acabei sentando, e fiquei ali, quietinho, pensando que poderia ter sido bem pior. Falei comigo mesmo: ‘Só saio daqui quando estiver tudo em paz comigo’. Relaxei e comecei a ler aquelas plaquinhas todas, já treinando o meu inglês para quando chegássemos em Londres. Tem um monte delas no toalete, o senhor já reparou? Só quando a gente está sem pressa é que repara nelas todas, valem por um curso de inglês. Aí uma mulher louca começou a esmurrar a porta e a chamar um tal de Gustavo. Pensei: ‘Ela vai acabar vendo que ninguém abre a porta, ou então o Gustavo aparece, e aí ela desiste’. Mas ela não desistia, doutor, dava socos na porta, uma gritaria dos diabos lá fora. Então eu decidi abrir só uma frestinha e dizer para ela que eu não era o Gustavo, mas aí escancararam a porta e me pegaram sentado com as calças nos pés. Não tive a intenção, doutor, juro. Está aí fora o Gustavo, que não me deixa mentir. Aliás, gente finíssima, o rapaz.”

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Mão de Eurico

Eurico nasceu normal. Cresceu por igual até os vinte anos, quando quase parou de crescer. Quase, porque sua mão direita continuou crescendo. Tinha ambições políticas, mas abandonou-as por razões óbvias. Na solidão do banheiro, começou a achar seu pênis pequeno. Tinham medo de cumprimentá-lo. Passou a viver recluso. Numa crise de desespero, empunhou um machado para decepar a aberração, mas a mão esquerda sentiu-se insegura, e, reverente, negou-se a amputar a irmã maior. Ficou cinco dias sem comer, mas acabou sendo dominado pela conformação. Um dia, viu-se compelido a escrever sobre sua angústia. Descobriu-se escritor. Fez sucesso. Usava caneta Pilot grossa nos originais. Aos poucos, porém, percebeu que a mão escrevia idéias que não eram bem as suas. Mas ela escrevia tão bem...

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Serrote de Deus

Ele estava em Brasília, no aniversário de Sílvia, irmã de seu amigo Pedro Luiz. Havia viajado até o Planalto Central para passar a Semana Santa hospedado na casa deles. A festa ia comum e tranquila, até que, como que avisados por uma senha secreta, todos pararam de conversar e um culto improvisado começou na grande sala do apartamento na Asa Sul. Surgiu um violão, entoaram-se belos cânticos, muito bem ensaiados. Porque na igreja católica, que freqüentava no Rio, não se cantava tão bem assim? Depois que alguém deu graças por mais um ano de vida da moça e pelas bênçãos que continuamente caíam sobre aquela família e seus amigos, pediu-se que cada um dos presentes desse o seu testemunho. Que falassem de como Jesus havia entrado em suas vidas e as transformado profundamente. A palavra ia sendo dada a cada um daqueles jovens que, emocionados, às vezes em lágrimas, relatavam como a conversão havia mudado radicalmente seus rumos. Meu Deus, ele pensou, e teve medo por ter pensado aquilo: como pessoas tão jovens e aparentemente comuns poderiam ter vivido vidas tão cheias de tristezas até tão pouco tempo atrás? Que pecados inomináveis poderiam ter cometido? Que sofrimentos indizíveis poderiam ter atormentado suas almas mal saídas da infância? E, no entanto, todos se mostravam emocionados, muitos chegando a lágrimas que lhe pareceram sinceras. Que diria quando chegasse sua vez? Mentiria confessando uma conversão que não havia ocorrido, pelo menos não daquela forma drástica e espetacular? Diria que havia sido invadido pelo Espírito Santo ao se ajoelhar implorando a misericórdia divina?

Na verdade, ele bem havia tentado. O Evangelho que lhe havia sido dado por Pedro Luiz tinha passagens grifadas e numeradas, que dirigiam o leitor a se dar conta da grandeza do amor de Deus, que havia enviado Seu filho querido para que Este trouxesse sobre Si os pecados de toda a humanidade. Então, entregado-O para ser torturado e sacrificado, nos havia livrado do peso de uma culpa ancestral. Talvez valesse a pena tentar, pensara. Sua vida não era exatamente miserável, mas o longo e doloroso processo de separação de seus pais, diante do qual se vira impotente, as dificuldades financeiras que se seguiram, as agruras próprias da adolescência se somavam para configurar uma sensação de inadequação e incerteza. Então, uma noite, por trás da porta fechada de seu quarto, recitou as orações e os pedidos infalíveis que aquele Evangelho comentado lhe instruía a fazer, como quem se deixa fechar na caixa do mágico, só a cabeça de fora, permitindo-se ser serrado ao meio, sem ter certeza absoluta de tratar-se apenas de um truque. Não crendo, mas dando uma chance à credulidade, uma chance de sentir os dentes do serrote lhe abrindo a alma ao meio para que Jesus entrasse. A própria idéia de um truque mágico já o fazia temer que nada de fato ocorreria. Uma vez sentara-se diante de um hipnotizador, desejando sinceramente ser hipnotizado, porém duvidando muito de que algo pudesse ocorrer, como de fato não ocorreu. Vira várias pessoas se deixando hipnotizar, assim como vira uma vez em um templo evangélico mulheres e homens de aparência absolutamente séria e confiável sendo possuídos pelo Espírito Santo e falando línguas ininteligíveis. Seria tão mais fácil se viesse a se tornar um crente, um crédulo. Então ajoelhou-se, orou do mais fundo que pôde de sua alma. Apertou os olhos tentando espremer uma lágrima que teimava em não sair, buscou arrancar de dentro de si um sinal de entrega ao Todo Poderoso. Ficou ajoelhado por longos minutos esperando, não sem algum medo, que o serrote de Deus lhe abrisse a carne e o espírito.

Nada.

Aquele Nada o deixara abandonado na mais pura solidão, sem ninguém que lhe pegasse pela mão e o levasse pelos caminhos da virtude até o paraíso. Se, dali em diante, viesse a viver uma vida virtuosa, não seria por ter-se tornado um zumbi de algum deus. Se viesse a viver uma vida de enganos e mancadas, teria que arcar sozinho com a responsabilidade de seus atos, sem culpar qualquer satanás nem ninguém, deste ou de qualquer outro mundo.

De início, a solidão do Nada o deixara amedrontado e confuso. Aos poucos, no entanto, começou a sentir-se de alguma forma mais forte, mais capaz. Mais compadecido e solidário com outras solidões. Paradoxalmente menos só.

Quando finalmente lhe passaram a palavra, não teve coragem de mentir. Deu parabéns à aniversariante, disse como se sentia sinceramente feliz em estar na presença de amigos, e passou a palavra adiante. Não soube interpretar bem os olhares que lhe lançaram.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Não Deu na Coluna Social

Apertou os olhos, orientando com algum sucesso os dedos, “longos como os de uma pianista”, seu pai dizia, que seguravam agora o lápis delineador. Depois o rímel. Depois, ainda, o batom vermelho vivo, tão vivo que teimava em escapar além dos lábios finos. Penteou demoradamente os cabelos, que a tintura loura já falhava em dissimular o branco. Inclinando o frasco, arrancou um último spray do último Givenchy. Ajustou a echarpe cor de jade ao redor do pescoço longo e ainda elegante: Etevaldo a comprara e presenteara durante a última viagem que fizeram juntos, antes de ele decidir partir sozinho, tão antes dela. Uma pontada no abdome. O alfinete de fraldas, necessário para manter a calça ajustada à cintura mais esbelta do que já fora, teimava em abrir-se de vez em quando. Ficou ainda um momento diante da penteadeira, girando o rosto um pouco à esquerda, depois à direita, como fizera tantas vezes antes, desde que se mudaram, ela e Etevaldo Bittencourt, para aquele casarão na Gávea. Buzinaram. Olhou através das venezianas brancas descascadas: além da floreira cheia de mato viu o táxi que a aguardava. Pegou o casaco cor de creme e olhou-se uma vez mais no espelho. Elegante, e as manchas de gordura no casaco não se via daquela distância.

Do alto das escadarias que levavam ao hall de mármore branco e preto, fechou os olhos. Escutou o som das conversas, os risos discretos, o tilintar das taças, a emanação de perfumes, loções de barba e brilhantinas, o cintilar dos colares, das tiaras e dos solitários. Sentiu os olhares voltando-se para ela. Desceu devagar, menos pela artrose, mais para desfrutar ainda uma vez aquela sensação que tanto a agradava. Não via a sala vazia, nem os vazios nas paredes, onde antes havia alguns Volpi, uma Tarsila, um Portinari e até dois desenhos de Picasso, sacrificados na tentativa de equilibrar as finanças suas e dos filhos. Whisky, o velho cocker spaniel, estava deitado no sofá, imóvel, desde a véspera. Afagou uma vez mais a cabeça de seu último companheiro, meio branca, meio loura, como a sua. Dirigiu-se à grande porta, guarnecida de metais dourados, abriu-a e olhou para trás. Suspirou. Valera a pena cada festa, cada gota de champanhe, cada jantar, cada viagem. Saiu, deixando atrás de si a porta destrancada.

“Para o Copacabana Palace, por favor, via Delfim Moreira e Vieira Souto”. Pôs os óculos escuros e acompanhou a paisagem da Zona Sul, enquanto apertava o vidrinho que trazia no bolso, cheio de bolinhas cor de chumbo. Com sorte, cairia dentro da piscina.

domingo, 28 de novembro de 2010

Nossa Vitória Contra a Barbárie

O regime militar que se seguiu à revolução de 1964 deixou como herança uma compreensível aversão a tudo que pudesse ser identificado com o regime de exceção e seus desmandos. Depois, com a volta da democracia, foram aprovadas leis que, juntamente com a nova Constituição, visavam proteger a população em geral, e, especificamente os políticos, seus representantes, de cassações sumárias e de processos na justiça comum, garantindo a eles foro privilegiado. Paralelamente os governadores eleitos trataram de desaparelhar a polícia, vista como instrumento de repressão a serviço da ditadura. No Rio de Janeiro, na transição do Governo Chagas Freitas para o de Leonel Brizola, a ordem passou a ser a de respeitar os direitos humanos de qualquer cidadão, trabalhador ou bandido. Perfeito. Com certeza havia desmandos, mas o que se seguiu na prática foi uma severa restrição à ação da polícia e dos órgãos fiscalizadores do Estado, privilegiando-se de forma louvável a busca da integração das populações mais carentes e marginalizadas ao grosso da sociedade através da educação. Brizola ergueu centenas de CIEPs – Centros Integrados de Educação Pública - no Estado do Rio, quase sempre junto aos bairros mais carentes. Neles, os jovens estudariam em horário integral, afastando-se do ócio e da tentação do crime. Porém, lamentavelmente, paralisou-se a repressão policial a este mesmo crime, vista como uma agressão de um sistema elitista contra a s populações menos favorecidas. Fez-se vista grossa à proliferação de camelôs por todas as calçadas da cidade, ao transporte ilegal, ao jogo do bicho e a diversas outras atividades da contravenção e, na mesma esteira, da ilegalidade. Foi a senha para que o tráfico proliferasse sem medo nas comunidades mais carentes, sendo muito pouco incomodado.

No entanto, foi justamente a população das favelas a que mais sofreu as conseqüências dessa política tão bem intencionada quanto desastrosa para o Rio. A população “do asfalto”, quando é eventualmente agredida por bandidos, ganha as manchetes dos grandes jornais e organiza passeatas de domingo na orla da Zona Sul, num pedido justo e lícito de paz e repressão ao crime. Já a população das favelas passou a ver as quadrilhas que dominaram suas comunidades imporem diuturnamente o terror, aliciarem seus jovens para o crime, cobrar pedágio, monopolizarem a distribuição de gás, e motivarem ações pontuais e desordenadas do Estado, frequentemente com “perdas colaterais” que, no jargão da polícia, significa morte de inocentes. Pior, as favelas passaram a ser palco freqüente de guerras entre facções rivais por domínio de território para o crime.

Ainda na esteira do vazio da lei e da falta de presença do Estado, pequenos comerciantes, condomínios, bancos, boates, enfim, muitos setores que se viam desprotegidos passaram a contratar segurança particular, o chamado segundo turno dos policiais, que precisavam complementar os magros rendimentos pagos pelo Estado.

O resultado de tudo isso é o que se viu até então. Policiais mal remunerados, mal equipados, e mal vistos pela população entraram em contato pernicioso com o crime encastelado e pouco incomodado nas favelas, descambando inevitavelmente na corrupção policial. A “polícia paralela” que cresceu financiada pela própria sociedade para combater o crime onde o Estado não o fazia fugiu ao controle, instalando-se ela própria nas comunidades e impondo um regime de terror e opressão tão cruel quanto o dos bandidos. Na zona de proteção das assembléias legislativas e do Congresso Nacional, as milícias e o tráfico passaram a infiltrar seus representantes com o apoio ingênuo dos mais pobres; o judiciário passou a ser assediado com subornos polpudos, muitas vezes eficazes; candidatos a cargos executivos passaram a receber tentadores ofertas de donativos de campanha Criou-se para o crime um escudo de proteção eficiente nas esferas mais elevadas do próprio Estado.

Finalmente a Sociedade parece ter-se dado conta dos equívocos do passado recente. A virtual invulnerabilidade do legislativo e do judiciário passou a ser vista como um dispositivo exagerado e pernicioso. A Lei da Ficha Limpa foi aprovada com má vontade pelo Congresso por força do clamor popular, embora a sua aplicação imediata ainda dependa do voto do ocupante a ser escolhido para cadeira vaga no STJ.

Na improvável área da Cultura, o truculento, idealista e incorruptível Capitão Nascimento, personagem de cinema idealizado a partir de livro “A Elite da Tropa”, escrito por ex-policiais do BOPE e um antropólogo, ajudou a virar o jogo da opinião pública. Ao fim de cada sessão do primeiro e do segundo episódios da série Tropa de Elite a audiência invariavelmente aplaude de pé. Foi a senha para o resgate da auto-estima da porção ética e honesta da polícia.

Faltava a gota d’água, que veio justamente de uma ordem desastrada oriunda dos criminosos detidos em presídios de segurança máxima, que tentaram implantar o terror, contando com a covardia das autoridades para encurralar o Estado e a sociedade. O tiro saiu pela culatra, e a casa do crime organizado começou a cair.

Ordenou-se a invasão das comunidades de Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão na Zona da Leopoldina do Rio, de onde teriam partido as ações terroristas. Ressalte-se o papel da Imprensa, cuja cobertura implacável colocou a Sociedade como testemunha das ações, contribuindo para uma ação surpreendentemente civilizada, embora não menos dura, dos órgãos policiais e das forças armadas. Não houve chacina, e as “perdas colaterais” foram insignificantes diante da magnitude da batalha que se apresentava. Alguns, sedentos de sangue, podem ter ficado frustrados, mas o Brasil sinalizou para o mundo que somos um país civilizado.

Parece-me que a Queda do Complexo do Alemão é um dia histórico para o Rio e para o Brasil, talvez tão simbólico quanto a Queda da Bastilha foi para a França e a democracia como um todo. A Sociedade começa a entender que ninguém, pertencente a grupo reprimido no passado por questões de ideologia, política, religião ou raça, pode ter privilégios legais como forma de compensação arrependida. Na sociedade igualitária, todos devem receber oportunidades e tratamentos iguais. Da Lei inclusive.