Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Visite minhas fotos no Flickr

Ubatuba, seis da manhã.
Aqui na coluna à direita => você pode acessar esta e algumas outras fotos minhas selecionadas no link "Flickr: Ralph Antunes' photostream". Tem, entre outras, uma seleção fotos de pássaros livres na natureza. Dê uma conferida!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Passarinho japonês

Minha primeira tentativa com máscara líquida. Inspirado em gravuras japonesas.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Uma graça


Ela trabalhava quando se conheceram. Depois de casados, convenceu-a a deixar o emprego para que pudesse se dedicar mais às crianças. Quando as crianças cresceram, ela quis retomar os estudos e candidatar-se a uma bolsa de mestrado. “Bobagem, para que você precisa de mestrado? O que eu ganho é mais que suficiente para nós.” Quando ela emitia um comentário em uma festa de família, ele sempre desqualificava sua opinião. Achava bobagem ela gastar dinheiro em salão de beleza, pintar os cabelos em casa era tão mais barato. Além do mais, roupas da moda e bijuterias eram coisas de mulheres inseguras, ele a amava do jeitinho simples que ela sempre fora.

Quando, depois de dezessete anos de casamento, ele saiu de casa, recomendou ao jardineiro que não deixasse de regá-la a cada dois dias. E que, a cada primavera, a desenvasasse e podasse suas raízes. Hoje ela tem cinquenta e dois anos de idade e trinta e sete centímetros de altura. Uma graça de mulher-bonsai. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Dedo de Deus

Dedo de Deus, Parque Nacional da Serra dos Órgãos, RJ. Fiquei bem feliz com o resultado. Sinal que as aulas com mestre Alarcão estão produzindo frutos. Ajudou muito o pincel de pelo de esquilo, que eu estava estreando. Ele absorve muita tinta ao mesmo tempo que tem a ponta muito fina e delicada. Bom investimento.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Eu, eu mesmo e Antunes

Existem férias com casa cheia, na praia ou na serra. Fila no posto e no mercado, cerveja, churrasco com a galera e música alta. Existem também férias com viagem, aeroporto, faz e desfaz mala, muita andança, cada dia um roteiro a cumprir, cada dia um restaurante, uma paisagem, muitas atrações imperdíveis.

Eu, todo ano, me dou uns poucos dias de férias de tudo e de todos, menos de mim mesmo, alguns dias por ano sozinho aqui nessa roça, aqui nessa serra.  Fico bem só com minha própria companhia. A família? Só chega sexta feira. Tédio? Nem de longe.  Cuidado de não fazer planos demais e terminar sentindo que não se fez tudo que se queria fazer. Dias cheios, portanto. Agora à tarde estava tateando “Por una cabeza” no teclado quando ouvi uma piadeira do lado de fora. Senha para pegar correndo os binóculos e a Canon com tele. Lá por cima do sítio da Ana Maria, um bando de tucanos. De que espécie? Alguns clics revelam: bico preto e papo amarelo, Ramphastus vitelinus segundo me diz o “Aves Brasileiras”, do Dalgas Frisch. Com essa, já são 75 espécies diferentes de pássaros avistadas por aqui. Ganhei o dia.

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Ontem saí para uma caminhada. Vou até o mirante de Bananeiras, decido já no caminho. Se na estradinha de terra da vila já passa pouca gente, na estrada do mirante anda-se horas sem cruzar viva alma. Até há pouco tempo, motoristas com tração nas quatro e espírito de aventura podiam subir a serra desde Silva Jardim pela trilha de terra até aqui, mas a ponte de madeira, já do lado de cá da vertente, caiu de podre há uns quatro anos. Agora só se passa a pé, a cavalo ou de moto. Fico observando o vau do riacho por baixo do que restou da ponte: se tirar aquele tronco caído que está represando a água, se jogar umas pedras grandes no ponto mais fundo, se usar um pouco a enxada aqui e ali daria para passar com o jipe pela água, fico arquitetando. Sigo em frente. Mais adiante, um vulto cinza vai caminhando uns vinte metros na minha dianteira. Vou andando, ele vai andando. Acelero, ele acelera e tenta subir o barranco para o mato. Acelero mais e ele, gordo, escorrega de volta para a estrada. Dou uma corrida e ele sai voando magnífico para o lado contrário. Um macuco! Tinamus solitarius, como eu. Só tinha visto antes no pacote de manteiga, fora do qual ele andou perigando de extinção. Mas dizem que estão voltando a se multiplicar com a redução da caça. Acredito. Outro dia ganho. Espécie 76.

Logo depois, a vista magnífica da baixada de Silva Jardim, a lagoa ao fundo e o mar lá no horizonte. Vento úmido, trovoadas distantes, arapongas nem tanto, terrén, terrén, terrén. Acho que não vai chover tão cedo. Arrisco então descer a Serra do Mar para fazer reconhecimento da trilha. Aqui, dá para rolar essa pedra grande para fora do caminho, ali tem que cortar aquele tronco caído. Trazendo machado, enxada, alavanca de ferro e mais uns dois pares de braços, vai dar para passar de jipe, se vai!

Continuo descendo. Bananeiras e mais bananeiras, casal de passarinho preto e branco, perninhas vermelhas, nunca vi antes. A mata se abre em capoeiras e passo por duas porteiras. “Favor colocá a correnti”, num rabisco quase apagado, então obedeço. Nenhuma marca de pneu no chão, só casco de boi e ferradura. Nenhuma marca de sapato também. Passo pelo primeiro ranchinho: deserto. Já estou a meio caminho da baixada e ainda não vi ninguém. Melhor dar meia volta e subir antes que escureça. Vamos pernas, coragem, me levem para casa. Pausa para um gole d’água no regatinho de água fresca que vem cascateando esperto lá de cima e cruza a trilha. E sobe, e sobe, vamos pernas, um, dois, me levem para casa. A passagem para o lado de lá da serra aparece como um decote na mata da vertente. Chegando no alto, um suspiro e outra olhada demorada para a paisagem e para o silêncio.  Chego em casa no lusco-fusco. Bom trabalho, pernas, amanhã dou folga para vocês.

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Hoje fiz geléia de framboesa do mato. Botar um pouco menos de açúcar da próxima vez, mas ficou gostosa. Assisti o documentário The Blues, do Win Wenders, que Samara e Augustus me deram no aniversário. Nele descobri os pioneiros J. B. Lenoir, Skip James e Blind Willie Johnson. Não podia morrer sem antes saber quem foram eles. Agora à noite, enquanto escrevo, estou ouvindo meu I Pod ligado no som da sala, na altura que eu quero, direito que todo homem deveria ter pelo menos durante alguns dias no ano. Mutantes e Black Sabath, Tom Jobim e Sarah Vaughn, Credence Clearwater, Secos & Molhados, Adoniran e Django Reinhardt, tudo junto e misturado, muito bom.

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O toque sinistro foi que no meio da primeira noite acordei nem sei por quê e tinha uma coisa preta se mexendo em cima do meu peito. Morcego! #$%@&! Pulei da cama e fui buscar o tapete do banheiro para apanhar o bicho e jogar pela janela. Quando voltei o bastardinho tinha sumido. Revira coberta, levanta colchão, olha atrás do armário, dentro do sapato e nada. Vou até o espelho do banheiro e examino o pescoço, sabe lá? Depois vou dormir em outro quarto com a porta fechada.

No dia seguinte tomo providências que vinha adiando fazia tempo. Compro madeira, prego e um esquadro de marceneiro no armazém do Leir. Com ajuda do Batista, vedamos toda e cada fresta entre os caibros e as telhas do telhado em toda volta da casa. Sinto muito, morceguinhos, mas vocês ultrapassaram a fronteira da tolerância.

Via das dúvidas, prestem atenção quando eu passar na frente do espelho. E se eu parar de envelhecer ou um séquito de meninas adolescentes começar a andar atrás de mim, melhor munirem-se de gola alta, crucifixo e água benta quando estiverem comigo. Por enquanto, não estou dormindo de cabeça para baixo.

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E uma última notícia antes de encerrar esta edição: acabo de ver passar um gambá pela varanda. Tadinho, agora vai ter que dormir ao relento.

Alto da Serra do Mar


sábado, 14 de janeiro de 2012

É nós no Face!


(Pois é, já estamos íntimos assim, eu e o Facebook, nos tratando por apelidos.)

Em meados de 2010 um amigo que mora no exterior me avisou por e-mail, (essa ferramenta hoje quase extinta fora do ambiente corporativo) que tinha postado umas fotos no FB. Eu tinha conseguido passar incólume pelo falecido Orkut. Aquela coisa orkutiana de depoimento, dizem, acabou com muito relacionamento. Achei prudente manter distância. Mas eu queria ver as fotos do meu amigo, então fiz minha página naquele que, então, já era o maior site de relacionamentos do mundo, mas que ainda era novidade por aqui. O Orkut, que só emplacou no Brasil, reinava então absoluto nessas terras tupiniquins.

Agora estou tentando olhar essa febre com o distanciamento necessário para uma visão crítica. Tá bom, eu admito; hoje não passo um dia sem checar minha página inicial. Mas isso tem me gerado um certo incômodo. Fui bastante liberal em adicionar amigos com a segunda intenção de divulgar esse blog, admito.

Sem dúvida, o Face tem o lado bom. Localizei antigos amigos de quem não tinha notícias havia anos, muitos com os quais eu cruzaria na rua sem reconhecer. Cabelos de menos, barriga de mais nos homens; senhoras louras nos seus cinqüenta, algumas delas vovós orgulhosas. Mas tem sempre um registro meio desbotado dos velhos e bons tempos no álbum de fotos para tirar qualquer dúvida. Aliás, como as pessoas estão sempre bonitas na foto do perfil, não? Também acontece de descobrir afinidades insuspeitas com pessoas com as quais eu tinha ou tenho mínimo contato no mundo real, a ponto de fazer surgir algumas boas amizades. Tem também compartilhamentos de vídeos interessantíssimos, garimpados por pessoas de bom gosto.

Mas tem o lado sinistro. Primeira constatação: tem muita gente desocupada nesse mundo de Deus. Gente que posta sem parar e, venhamos e convenhamos, não existe tanta coisa interessante assim para ser compartilhada. Uma enxurrada de abobrinhas para as quais eu não tenho paciência. Tem quem alardeie o óbvio, tipo, “hoje é segunda feira, que chato”, ou “fim de semana com chuva, ninguém merece”. Tem quem poste diariamente uma foto nova do pimpolho bonitinho que nasceu há três meses. Convenhamos também, depois de três meses nem nosso primeiro filho continua sendo novidade, quanto mais filho dos outros. Têm aqueles que, na falta de uma opinião original, compartilham aqueles quadradinhos de filosofia barata como se fosse uma revelação divina. Têm os rancorosos, os ressentidos, os sarcásticos e os felizes demais. Têm os que sempre disparam o comentário inteligente mais comum nessas páginas: o onipresente kkkkkkkkkkk... Desses, ainda prefiro os sarcásticos: em geral são mais inteligentes que a média. Por algumas das razões acima, às vezes com incidência em diversos artigos desse código penal, já excluí diversos da minha lista de amigos. Por falar nisso, alguém realmente acredita que tenha duzentos ou quinhentos amigos?

Parece-me que algumas coisas estão na base do sucesso do FB e de todos os sites de relacionamento. O mais óbvio é a necessidade de interação com o outro. Uma interação meio asséptica, onde acreditamos estar filtrando muito do que realmente somos para só mostrar o lado legal, divertido, interessante e descolado. Doce ilusão. As pessoas acabam revelando muito mais de si do que imaginam, mesmo quando pensam estar sendo comedidas. Isso para não falar dos que, virtualmente, põem a bunda na janela. Fotos sem camisa, de biquíni, com copos de bebida na mão, fotos da intimidade da família toda, da patroa, do maridão, dos filhos, de amigos e de lugares que freqüentam escancarados para um mundo de gente desconhecida ou semidesconhecida, nem sempre bem intencionada. Nem todos tomam os cuidados recomendados pelos especialistas, de só permitir acesso a certas informações aos “amigos”. Mas se são quinhentos “amigos”, de que valem esses cuidados? A prudência quase sempre cede diante de outra característica marcante no FB: o narcisismo puro e simples, a busca inconsciente da fama. “Que legal! Cinqüenta e dois curtiram o que eu postei e vinte e cinco compartilharam aquela abobrinha de segunda mão. Eu sou popular, afinal!”

Mas pode ser que enquanto nós estamos aqui interagindo virtualmente, sua esposa ou marido tenha ido dormir sozinho ou seu filho tenha desistido de esperar você largar o computador para dividir aquela angústia que tanto o está incomodando. Ele deve estar agora fechado em seu quarto compartilhando o assunto com os “amigos” do Face.

É isso. Se curtiu, compartilhe, viu? Kkkkkkkkkkkkkk...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Araucárias no Planalto

Parece o planalto gaúcho, perto de Cambará do Sul

domingo, 1 de janeiro de 2012

Além do Country Club


Pois é. Aqui em Rio Bonito de Cima tem dessas ambivalências. A primeira vez que viemos, antes de comprarmos o sítio, ficamos hospedados na Cabritinha Vadia, improvável pub irlandês com meia dúzia de quartos por cima, encravado aqui nessa roça esquecida pelo diabo. Na época, ainda era do Ulf, o sueco, e da Regina, Deus a tenha. Depois do jantar,  um prato delicado e delicioso - frango ao molho de limão, filé ao molho de pimenta verde, goulasch ou outra delícia - sempre aparecia gente interessante para conversar e bebericar. “Tem três populações aqui”, ensinava o Ulf, “os passantes, os hóspedes e o country club, donos de sítios.” Na época, éramos da segunda categoria, e há nove anos somos da terceira.

Pois então, depois do jantar, lareira acesa, no aconchego de sofás de molas e de gravuras botânicas e do folclore sueco penduradas no madeirame rústico das colunas, o country club se revelou simpático e sofisticado. Parecia-me que eram todos habituées da Europa, muitos com períodos de residência no velho mundo. Eu, para não fazer feio, me esforçando na minha cultura geral de segunda mão para participar da conversa. Veja bem, não me pareceu que ninguém fosse esnobe, era cada um falando de suas experiências, não tinha cabimento omitir suas Londres, Paris e Vienas do assunto se eram essas suas vivências, enquanto as minhas praticamente se resumiam a Niterói e uma ida longínqua a Nova York. Se disserem que também estive em Assunção do Paraguai eu nego. Ano passado fomos pela primeira vez à Europa, França e Inglaterra, e na ocasião não me eximi de pensar: “Na próxima vou poder falar como chic e não ficar atrás”, vê se pode?

Só não me falaram que tem também a quarta categoria, a mais numerosa: são os da terra, nascidos e criados, os minhocas de Rio Bonito de Cima. Um Guerra e Paz completo de personagens, dramas e histórias, todos interligados por laços de parentesco. Só o Batista, nosso caseiro, tem mais dez irmãos, fora sobrinhos, tios, cunhados, primos e compadres, que abrangem quase toda a população do lugar, umas trezentas almas em busca da salvação, reunidas em torno da simpática igrejinha católica. Tem o Niltinho, que toca a venda na curva do rio, a Ângela, cozinheira e dona do restaurante de comidinha caseira nota dez. A Madalena, que tem o comércio misto de bar, venda e point da juventude local, que chega às noites de sábado a pé, de moto ou a cavalo para jogar sinuca, ouvir música sertaneja, ver e ser visto pelos solteiros do sexo oposto. Tem o Justino, motorista do caminhão da Prefeitura, o Dr. Armandinho, que resolveu a pendência de inventário de nosso sítio, o Leir, o Manezinho Bora, o Biscoitinho, o João Bobinho, a Magalona, o Zequinha, o Hercílio... Nosso sítio fica nas franjas do arraial e, ao contrário da maioria dos outros sitiantes, vamos a pé almoçar na Ângela e fazer compras no Niltinho ou na Madalena, o que nos proporciona muitos bons-dias e boas-tardes, um dedo de prosa aqui, outro acolá. Fora as consultas médicas em troca de muito-obrigado, dúzia de ovo caipira ou queijinho caseiro. Acaba que temos muito mais contato com esse Rio Bonito de Cima que com o outro. Já fomos até convidados para casamento da filha da Magalona com o filho do Justino, quanta honra, fora as comemorações de Nossa Senhora de Nazaré na igrejinha. Dois Rios Bonitos de Cima que pouco se misturam, bem Brasil.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Felicidade, essa bandida


Poucas coisas podem ser tão perniciosas quanto a felicidade. Eu, que tenho vivido sempre a perseguir essa quimera, agora, às vésperas de fechar o balanço de mais um ano, constato aliviado que grande parte daqueles votos de felicidade proclamados com maior ou menor sinceridade falhou miseravelmente. Que alívio!

Imagine alguém que enriqueça, ou, já sendo rico, que alcance toda a riqueza que tenha sido capaz de imaginar. Que tenha o amor e o corpo da mulher mais maravilhosa que possa ter desejado. Que seu time tenha sido campeão estadual, nacional e continental. Que não tenha sofrido nenhuma decepção, nenhuma ofensa, nenhuma dor física ou moral. Que tenha concretizado todos os seus sonhos e fantasias. Fosse eu o infeliz objeto de tanta felicidade, por certo não veria o alvorecer de 2012, pois antes do foguetório e do champanhe meteria uma bala nos miolos.

Pois que felicidade demais amolece o corpo e o caráter, e a insatisfação é a mãe de todas as artes. Imagine amanhecer a cada dia completamente feliz, sem qualquer inquietação, nenhum incômodo no corpo ou na alma. Quem se disporia a sair da cama? Que louco iria pôr a vontade, o engenho e os músculos a funcionar para tentar melhorar o que já é ideal?

Graças ao bom Deus, a Felicidade não me atingiu. Pequenas felicidades sim, algumas se demorando um pouco, outras ariscas como passarinho da mata. Posso me aproximar do ano novo pleno de insatisfações comigo próprio e com o mundo. Então, vou pegar no armário aquelas esperanças amarrotadas, rotas e verdesbotadas, amarrá-las no pescoço e sair na primeira chuva do ano abraçando e beijando meus semelhantes insatisfeitos, desejando um feliz 2012. Mas, no fundo, torcendo que não sejam tão felizes assim, deixando espaço para um 2013 melhor.

E vamos que vamos!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Absolutamente

Concessão inédita, publico no blog texto alheio. Vão entender o porquê: Marly Riva, quase oitenta, é talento sensível e arisco, alma de passarinho. Diz que não acredita na beleza de seus cantos. É minha colega nas tardes-noites da Oficina de Textos. Cantou este conto que estava escondido, mas que dou a público neste blog.


Absolutamente

Quando saímos, mãozinha gorducha apertada à mãozona confiável de papai, soprei um fio de voz: “E se eu tiver que deixar o colégio?”

Papai passou pro outro canto do beiço o cigarro que enrolara havia pouco, lacônico: “Absolutamente!”

Perdi-me, em meus nove anos, acostumada a tudo esperar da magnitude paterna. Insisti: “Ela vai brigar, reclamar ou ser boazinha?”

O pai: “É comigo.”

Que caminho longo, doído. Minha cabeça mexia aflita. Desconhecidas ruas, nem era longe, os outros me pareciam estranhos, todos alegres, sem medo do futuro.

Lembro esparsamente do diálogo entre meu pai e a dona do colégio. Ele curto, seco, quase superior: “Vou ficar atrasado com o pagamento, é a primeira vez, saldo quando puder. Problema?”

E ela: “Absolutamente!”

Saí confusa, mas confortada. “Pai, não terei que sair do colégio? Ela disse sim ou não?”

E ele: “Absolutamente!” E enrolou outro cigarro.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Aquarela


No início de 2011 comecei a freqüentar aulas de aquarela por sugestão de minha filha mais velha e, depois, meus dois outros filhos juntaram-se a nós. O professor é Renato Alarcão, ilustrador muito conhecido e respeitado entre seus pares e que mora aqui pertinho, em Niterói. Depois de anos sem tocar nos pincéis, era a oportunidade de tomar contato com a aquarela, um meio bem mais complicado que a pintura a óleo. Uma definição me escapou outro dia: pintura a óleo é como operar uma máquina, enquanto a aquarela é como conduzir um rebanho: os pigmentos diluídos em água têm vida e decisões próprias. O melhor que você pode fazer é conduzir a tinta e antecipar, com alguma expectativa de acerto, o que ela vai decidir fazer sobre o papel. E cada  pigmento tem seu próprio temperamento: transparência, permanência, capacidade de aglutinar ou fundir com o vizinho de outra cor e outras idiossincrasias.

Essa tem sido uma grande oportunidade de conhecer gente bacana e interessante, com cabeças e esforços voltados para os mais diferentes objetivos, como padronagens para tecidos, ilustração de livros infantis, vinhetas para vídeo e TV, história em quadrinhos e graphic novels. Conversar e conviver com pessoas de áreas tão diferentes é tão bom e interessante quanto aprender aquarela.

Cheguei pensando em fazer paisagens, mas não fiquei imune à convivência com os ilustradores. A gente como que se contagia. Decidi que já dá para mostrar alguma coisa. Então, dêem uma olhada aí embaixo.

Segue também o link do mestre e amigo Alarcão:
Kurazo e seu mascote

Dancing Queen

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Conjecturas a Partir do Occupy Wall Street


Interior da cabana onde viveu H. J. Thoreau. Não tinha HDTV.

(Eu realmente escrevi e enviei hoje a carta abaixo para um grande amigo real, que é economista. Queria compartilhar com ele, mas também com vocês, as minhas inquietações)

Meu querido amigo

Você é o meu único amigo economista. Você é um economista desvinculado de qualquer empresa, um economista acadêmico. Acima de tudo, você é uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conheço. Então, você seria a pessoa que poderia dar opiniões relevantes e responder algumas perguntas que me parecem urgentes e me têm afligido muito ultimamente. Eu já fiz essas perguntas a você, mas não tive resposta. Talvez a culpa seja minha, por não colocar as questões de forma clara.

Meu amigo, estou aflito sobre algumas coisas que me parecem da ordem do dia, e queria muito saber sua opinião. Vou tentar fazer as perguntas de forma objetiva, e depois colocá-las no contexto:

Qual será a opção ao atual modelo capitalista de crescimento econômico ininterrupto? O atual modelo centrado nas empresas, no lucro para os acionistas, importação de lucros e benefícios e exportação de lixo, poluição, rejeitos tóxicos, abusos trabalhistas, etc, etc, etc. me parece esgotado. Bateu de frente numa coisa óbvia, que irresponsavelmente o atual sistema foi empurrando com a barriga enquanto pôde: os recursos do planeta não são ilimitados.

Avançaremos cegamente no atual modelo até que ele cause um colapso (que, me parece, já está ocorrendo), ou seremos inteligentes o bastante para mudarmos de rumo antes do desastre?

O que virá depois?

Quais serão os novos paradigmas possíveis?

Hoje, por acaso, me lembrei do famoso livro de Henry James Thoreau que eu li e é uma referência para mim e para muitos: "Walden - A Vida nos Bosques". Você leu? Se não leu, certamente ouviu falar. Thoreau era o filho culto de um proprietário de uma fábrica de lápis em Massachussets na primeira metade do século XIX. A própria visão da indústria florescente, da recém chegada estrada de ferro, da ostentação e desperdício dos mais abastados já presentes naquela época o levaram a tomar refúgio por um par de anos em uma pequena cabana às margens do então selvagem lago Walden. Não viveu à custa do papai. Por uma ninharia, comprou pregos, madeira e duas janelas de demolição, um suporte de ferro para a panela sobre a lareira, etc. Só o estritamente básico. Então, construiu ele mesmo uma cabana às margens do lago. Plantava para subsistência e vendia o excedente. Coletava nos bosques, caçava, estocava para o inverno, etc. Enfim, simplificou ao máximo e tinha muito do que hoje já se entende como sendo a maior riqueza de um homem: tempo livre para pensar, conviver e criar. Buscou a essência da vida, para segundo ele, não chegar ao fim da vida e descobrir que não havia vivido. Não era um eremita. Lia, escrevia, conversava, recebia e visitava pessoas para trocar idéias. Não tinha tranca na porta e muito pouco tinha que merecesse ser roubado. Seus tesouros eram alguns livros e seus escritos, além da paisagem e da natureza quase intacta que o cercava e interagia com ele.

Essa simplificação é uma meta para mim e vem sendo buscada novamente por diversas pessoas individualmente ou em comunidades pelo mundo inteiro. Talvez seja a segunda onda do Flower Power. Talvez menos ingênua dessa vez. Se cada vez mais pessoas voluntariamente caminhasse nessa direção, o consumo diminuiria muito. Consumiríamos menos energia, geraríamos menos lixo, consumiríamos menos bens materiais.

As duas primeiras coisas (menos lixo, menos consumo de energia), todo mundo quer, é unanimidade. A última das três, menor consumo de bens materiais, deixa o capitalismo e os capitalista muito assustados e nervosos.

Os governantes de todos os países alegram-se quando podem anunciar que o consumo de energia elétrica aumentou, o número de automóveis vendidos aumentou, o consumo das famílias aumentou, o comércio vendeu mais, etc., etc.,.etc. E franzem o cenho quando o contrário acontece. Tudo bem, em países onde muitos não alcançaram um padrão de vida decente, no geral dados que traduzam aumento de consumo podem ser uma boa notícia. Os ricos estão cada vez mais ricos, é verdade, mas alguns mais talvez estejam conseguindo superar a linha da pobreza. Mas a redução do consumo também preocupa países como Suécia, Dinamarca, Alemanha, Japão, por exemplo, onde a pobreza é residual.

Parece-me então que a lógica dos governos é míope e está atrelada à lógica das grandes corporações. Crescer, crescer, crescer, consumir mais, mais e mais. Trabalhar mais, mais e mais para alcançar essa meta de acumulação e consumo, que promete a felicidade. Consequentemente há cada vez menos tempo para pensar, meditar os rumos que cada um está dando à sua vida e se ela está sendo encaminhada na direção do que efetivamente pode trazer alegria que não seja apenas temporária, como é a alegria gerada pelo consumo.

Claro, não estou sugerindo que as pessoas passem todas a viver de agricultura de subsistência. Vamos continuar quase todos vivendo em grandes cidades, vivendo de nossos empregos, com família para sustentar. Mas será que precisamos trabalhar tanto, suar tanto para pagar tantas prestações de tantas coisas? Precisamos realmente de todas essas coisas? Precisamos de um carro tão caro e tão novo? Precisamos de dois ou três carros? Precisamos de tantos aparelhos de TV? Precisamos adquirir tantas novidades eletrônicas das quais não sentíamos a menor falta há tão pouco tempo atrás? Precisamos de um relógio tão caro, de mais de um relógio e de tantas roupas e sapatos que mal conseguimos usar, a entulhar nossos armários? Precisamos jogar fora tanta coisa que funciona bem apenas porque surgiu uma mais moderna e mais na moda? Precisamos nos endividar tanto para termos essas coisas, dar tanto  de nosso tempo e trabalho para enriquecer os bancos pagando juros de financiamento?

Vou perguntar de novo. O que ocorreria com a macroeconomia se a maioria das pessoas de países com bom IDH, ou a parcela com bom IDH dos países emergentes, saísse dessa roda viva (samsara para os budistas) de consumo progressivamente maior e priorizasse melhores relações com as pessoas, auto-conhecimento, cultura, lazer, tempo livre, etc.? A economia e a civilização entrariam em colapso, como querem nos fazer crer, ou muito pelo contrário?

Por que esses valores aparentemente intangíveis não são considerados como riquezas pelas nações e pelos seus governos? (o governo do Butão tem, pelo menos no discurso, uma visão diferente.)

O que ocorreria se a maioria das pessoas acordasse dessa hipnose infligida pelas corporações de que "a felicidade é um crediário nas Casas Bahia", como sabiamente sintetizaram os mestres Mamonas?

Será que nós mesmos estamos despertos e atentos em relação a essas questões?

Não penso que o atual sistema deva ser "derrubado" de cima para baixo, de fora para dentro. Não acredito em revoluções impostas e violentas. Acredito apenas em revoluções que aconteçam voluntariamente, de dentro para fora em cada pessoa individual.

Grande amigo: espero uma resposta sua ditada pelo melhor de sua mente e seu espírito, talvez independente das opiniões acadêmicas que você tão bem estuda e conhece. Em outras palavras, medite na sua resposta, pô!

Aguardo com ansiedade sua opinião.

Grande abraço.

Pra quem quiser saber mais sobre "Walden" e Thoreau:

Trechos selecionados em inglês: http://xroads.virginia.edu/~hyper/walden/toc.html

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Upa, nenê


Só me resta essa bateria, então vou resumir o que vi. Cacoete do repórter que fui. Não sei por quanto tempo vou continuar tendo sorte. Os cães estão cada vez mais ferozes e atrevidos. Culpa da fome, acredito. Agora, no inverno, ficam piores. Mas ainda tenho esses mapas do metrô, que me permitem me deslocar pela ilha, pelos túneis que não foram inundados.

Quando eles ocuparam a praça, ninguém deu muita importância. Desocupados, disseram. Bichos-grilo pacifistas, sem-tetos e incompetentes para arrumar trabalho. Pegaram empréstimos para comprar mansões e não puderam arcar com as hipotecas. Vão cansar quando chegar o inverno. Quando chegou o inverno, eles realmente cansaram. De esperar. Um barril de pólvora esperando um fósforo. Aí, aquele negro cego, Josiah Baker, apareceu morto com um tiro na praça. A polícia apresentou um certo Feliciano Martinez como culpado, mas antes que ele pudesse ser ouvido, foi morto por um tiro a queima roupa. Uma tal de Felicity McMurdo, a loura gorda. Garçonete desempregada. Pai dos filhos dela, nunca deu pensão, justificou-se. Era o fósforo. Felicity e Feliciano: os branquelos de um lado, os latinos do outro. Houve gritaria dos moderados, mas não queriam moderação. Só se deram conta do tamanho da coisa quando alguns financistas decapitados foram jogados da ponte do Brooklyn. As cabeças ficaram meses espetadas nas grades da Trinity Church. Depois, os cachorros roeram.

Ela ainda estava lá, na época, a ponte. Upa, nenê. Na primavera de 2031 a esquadra brasileira, ancorada ao largo da foz do Hudson, disparou uns mísseis que a puseram abaixo. Era bonita. Mas os brasileiros não conseguiram resgatar o imperador. Barack III desapareceu sem deixar vestígio. Dizem que existe uma seita no Hawaii que aguarda o seu retorno. Caralhoporra. Sei não.

A China protestou. Com a envergadura moral de serem a maior democracia do mundo, não gostaram do que viram. Boicotaram a gente. Economicamente, quero dizer. Foi pior. A Segunda Guerra de Secessão, ao contrário da primeira, foi vitoriosa, e quiseram restaurar a escravidão. O último presidente, Gonzáles Urrútia, fugiu ninguém sabe para onde, Cuba, talvez. Latinos, negros, chinas, go home, eles disseram. Mas o Nordeste já estava tão decadente que eles nem se deram o trabalho de manter a ocupação. Abriram as portas do Zôo e partiram. Quem acabou jantando os antílopes e as girafas foram os lulus abandonados pelas madames. Upa, caralho.

Acabamos divididos em quatro. A Federação do Sul, a Federação do Sol do Pacífico, do jogo e da maconha, Os Estados Unidos da Chuva e os Territórios Selvagens do Nordeste, que não têm governo central, apesar de dois séculos de brigas e escaramuças. Ninguém quer nem invadir essa merda. Upa, upa.

Os do Sul reativaram os mísseis nucleares. A questão Israel – Palestina foi resolvida. Lá só tem árabe e judeu, os do Sul se deram conta. Bastou um míssel. Hoje não existe nem Israel nem Palestina. Nem Santo Sepulcro. Mas já construíram outro em Orlando. Cem paus pra entrar, duzentos para beijar a cruz. Barato, eu acho. Agora os mísseis estão apontados para o Brasil, a China e a Índia.

Estou ouvindo uns latidos vindos da direção da estação Canal Street. Upa, nenê, caralhoporra, upa upa. Continuo depois.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Onde Está a Liberdade?


Um entendimento fundamental que o budismo abriu para mim foi a possibilidade de novas inteligências. Olhar aquilo que sempre olhamos e ver possibilidades diferentes em todos os aspectos da vida. Nas relações com as pessoas em geral, com a família, com os filhos, a esposa ou marido e colegas de trabalho. Olhar a arrumação que fizemos em nossa vida e enxergar que a arrumação poderia ser completamente diferente.

Algumas pessoas conseguem olhar para a sala de casa e imaginar como um sofá novo , uma cortina nova, poderiam dar um novo aspecto à velha sala. Umas poucas ainda fazem uma simples mas completa mudança na disposição dos móveis para fazer uma sala "nova" sem gastar nada, apenas com o que já têm, talvez se livrando de um móvel grande e trambolhudo que impede que o ambiente fique mais arejado. Um número ainda menor de pessoas consegue fazer isso em suas vidas.

Essa rearrumação às vezes pode começar com uma crise: a perda de renda, uma mudança de cidade forçada por circunstâncias, uma separação conjugal são todas ótimas circuntâncias, nem sempre aproveitadas, para arrumarmos a vida de uma forma mais leve, inteligente e funcional.

O que dificilmente se enxerga é que temos a liberdade de remexermos tudo em nossa vida sem a necessidade de que uma crise, com toda a angústia que as crises costumam trazer, seja necessária. Há uma liberdade enorme em cada dia que amanhece, mas as pessoas se sentem acorrentadas às circunstâncias e incapazes de mudar qualquer coisa em suas rotinas, muitas vezes insatisfatórias e sufocantes. Os conflitos são recorreentes, sempre nas mesmas circunstâncias, e parecem imutáveis. Por que?

A única coisa que impede a mudança é a nossa maneira de ver, ou melhor, de não ver. Nada muda porque não vemos as possibilidades, não vemos as opções, não vemos que a porta da gaiola esteve e está aberta todo o tempo.

Então, a mudança necessária e suficiente é a mudança em nossa maneira de ver, de sentir, de reagir às circunstâncias. Mas isso está longe de ser simples se estamos agarrados às nossas certezas, essas mesmas certezas que estão nos levando, como sempre levaram e continuarão levando, a situações de conflito e sofrimento. Esperamos que as coisas se adaptem às nossas certezas para que tudo passe, finalmente, a funcionar como desejamos. Que burrice, não? Isso não aconteceu até agora e não vai acontecer no futuro. Mais inteligente seria adaptarmos nossas certezas à realidade das coisas e iniciarmos um mundo de novas possibilidades, de sincronicidades, de sinergias que farão a vida, finalmente, sair da inércia.

Então, o campo ilimitado de mudança está do lado de dentro, na mente. Se não mudarmos aquilo que está atrás de nossos olhos, que impede nossos olhos de ver com liberdade, nossa visão continuará estreita e limitada. Aí entra a meditação.

A prática da meditação é o exercício da liberdade. É livrar a mente dos limites imaginados. Aos poucos, a percepção da vacuidade de tudo que parece sólido, da luminosidade inerente a tudo e a todos, da inseparabilidade de tudo que parece bom e tudo que parece ruim vão se tornando claros. A vacuidade de tudo aquilo que defendemos com unhas e dentes como sendo nosso - nossas posses, nossas crenças, nossa honra, a imagem de respeitabilidade que se cultiva diante dos outros, seja uma pessoa comum diante dos vizinhos e colegas de trabalho, seja um grande empresário ou senador da república diante de seus pares - começa a se manifestar. A clareza de visão não desfaz as grades e os muros, mas nos faz perceber que as grades e os muros só existiam atrás dos olhos que os viam como reais. Eles nunca estiveram lá.

Essa mudança tão simples é percebida como simples quando é atingida, em maior ou menor grau. É o que eu entendo como iluminação. Depois de se tomar a canoa e atravessar o rio de ignorância e cegueira, a custo de remadas diligentes e vigorosas para atingirmos a outa margem, percebe-se que não havia canoa, não havia margem, não havia rio, diz o sábio ensinamento.

Então, pratiquemos essa liberdade preciosa, essa jóia de valor inestimável que chutamos todos os dias em nosso próprio quintal.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Minha Buenos Aires Querida

Alguns registros selecionados que fizemos em Buenos Aires há uma semana. Ênfase maior no astral da capital portenha que nos marcos turísticos. Muy rica, muy hermosa, muy hermana.
Obelisco na Av. 9 de Julho: doze pistas indo e mais doze voltando. E os icônicos táxis "falsa loura": amarelos em cima e pretos embaixo.


Puerto Madero e a Ponte de la Mujer, do arquiteto espanhol Calatrava. Só dá para ver o casal dançando tango, que inspirou o arquiteto, depois da segunda garrafa de vinho.

Os cafés são onipresentes. Esses dois senhores são, para mim, os portenhos típicos: meia idade, elegantes e grandes fumantes.

Casas feitas de restos de containers no Boca. Arquitetura gótica latina: goteiras e paredes de lata.

Cemitério da Recoleta: clima de cemitério mesmo, mas imperdível..

Paseadores de perros. É a profissão da moda e estão em todos os parques. Dizem que faturam R$ 2.500,00 por mês.

Os ônibus comuns são lindamente bregas. Eles não deixam a gente esquecer que, apesar da atmosfera parisiense, estamos en Latino América

O Café Tortoni é ponto de encontro há 150 anos. Divida a mesa com os espíritos de Borges e Garcia Lorca.

Ótimos músicos dão canja nas tardes da Calle Florida.

E
Equipamento adequado para bem dançar o tango é essencial.

O fileteado é o estilo gráfico do tango, e o Abasto tem os melhores.

Ainda se encontra antigos Citroen 2CV. O pai da Mafalda tinha um.

Tango não tem idade.

Era aniversário de 41 anos da feira de Santelmo, e os expositores da Plaza Dorrego estavam fantasiados. Essa foi minha campeã. Topas uma corrida?

O tango está nas ruas. A vontade de aprender é irresistível!

E, por fim, o encontro com uma amiga querida.

Occupy Wall Sreet: um olhar crítico


A crise atual me parece vir na esteira de duas coisas pontuais e uma mais ampla. As pontuais são duas irresponsabilidades: a irresponsabilidade fiscal de vários dos países mais ricos e a liberalidade irresponsável dos órgãos oficiais de fiscalização financeira dessas mesmas principais economias. A primeira me parece conseqüência de interesses eleitoreiros de curto prazo, e a segunda de uma fé irreal nas virtudes do liberalismo econômico. Em ambos os aspectos, parece que hoje o Brasil, com sua lei de responsabilidade fiscal e seus órgãos oficiais de fiscalização dos mercados, quem diria, tem muito a ensinar a boa parte da Europa. A Alemanha permanece como sinônimo de país sério navegando numa nau de insensatos, a União Européia.

A coisa mais ampla é a superpopulação do planeta e a percepção tardia de que o número de seres humanos e o crescimento econômico (pelo menos no modelo atual) necessário para lhes dar sustento decente têm limites impostos pela capacidade deste planetinha azul. Bem, antes tarde do que nunca. Essa é uma outra conversa.

Também acho que se as economias das nações ricas estivessem bem, não haveria este movimento. Penso, no entanto, que será dessas mesmas nações capitalistas e democráticas que virão as melhores idéias para reverter a situação. Protestos como esse na China, na Síria ou Cuba seriam impossíveis. Vivas à liberdade de expressão e ao incentivo à iniciativa individual.

Penso ainda que se este movimento não oferecer alternativas mais objetivas, em vez de protestar contra "tudo isso que está aí", vai se extinguir sem provocar nenhuma mudança. Precisam ser mais específicos e sugerir alternativas claras. Tem gente séria, inteligente e com idéias ali no meio. Mas também parece que muitos estão lá apenas para dizer: “Quero meu emprego e aquele imóvel acima de minhas posses, que eu não pude pagar a hipoteca, de volta”.

domingo, 30 de outubro de 2011

Um Corpo no Escuro


Conhecemo-nos na faculdade de medicina. Mário era filho de um fazendeiro de café no interior de São Paulo e, a princípio, seu modo caipira de pronunciar os erres me divertia muito.  Lembro-me de termos sido colocados diante do mesmo defunto recendendo a formol em nossa primeira aula prática de anatomia. Os risos nervosos e as piadas mal colocadas tentando atenuar o incômodo causado por aquelas peças – era assim que nos referíamos aos defuntos ou partes deles: peças – escancaradas, com suas vísceras impudicamente espalhadas sobre a mesa de aço.

Depois de poucas semanas estávamos bem mais à vontade naquelas aulas, alguns chegando a trazer os últimos bocados do lanche ou os últimos goles de refrigerante para a sala de dissecção.  Havia muitos colegas vindos do interior do estado, outros da cidade do Rio de Janeiro e ainda do Estado de São Paulo, estes em sua maioria descendentes de italianos. A lista de chamada era recheada de Zanovellis, Scarantos, Materassis, Polletis e outros oriundi, e Mário era mais um deles. Camaradagens se estabeleceram durante o curso de seis anos e algumas preciosas amizades persistem até hoje. O Mário é uma delas.

O fim do primeiro ano de matérias básicas chegava ao fim. Mário, que diversas vezes havia dito que me levaria um dia para conhecer sua família na distante São José do Rio Preto sem que eu o levasse o assunto muito a sério, decidiu que o feriadão de Finados, que se estenderia de sábado a terça feira, seria a oportunidade ideal. Feito o convite, levantei o dinheiro da passagem e embarcamos num ônibus noturno para a capital paulista, onde pegamos um segundo ônibus rumo ao nosso destino final.

Lá, esperava-nos na rodoviária um dos irmãos de meu colega com uma picape. Sérgio era seu nome, se bem me lembro. Depois de passarmos rapidamente pelo centro da cidade e para que se comprasse alguns mantimentos, pegamos novamente a estrada, primeiro pelo asfalto, depois por terra batida, atravessando canaviais e cafezais a perder de vista. Adentramos uma alameda de mulungus vermelhos, que nos levou ao terreiro da fazenda. O casarão antigo e imponente se estendia em dois andares e muitas janelas à direita e à esquerda de uma escadaria de pedra ladeada por duas palmeiras centenárias.  Enquanto ajudava na retirada da bagagem e dos outros volumes da caçamba, uma mulher que adivinhei ser a mãe de Mário desceu as escadas quase aos saltos para abraçá-lo, três meses que não via o filho. Tinha a pele muito clara e os olhos verdes como os de meu amigo, e reparei que seus prováveis quarenta e tantos anos tinham lhe poupado a maior parte da sua beleza. Cumprimentou-me afetuosamente, aquele amigo de quem o filho tanto lhe falava, e me guiou pela escada acima para conhecer a sede. Quando ergui os olhos, tive uma visão que me encheu de esperanças de que aquele seria um feriado para não esquecer. Quatro garotas me olhavam com curiosidade. Fui apresentado a Liliane e Teresa, as duas irmãs de Mário, pouco mais velhas do que ele, e mais duas primas, Marcela e Mônica, que também tinham vindo para o feriado. Não consegui decidir qual a mais interessante: todas de pele bem clara e rostos delicados, os cabelos variando de louro escuro ao castanho quase preto.

Ofereceram-me o “quarto da caixa d’água”, um cômodo pequeno no extremo do corredor à esquerda. A mobília resumia-se a uma pequena cômoda bem antiga, uma cadeira simples e uma cama de viúvo, ladeada por uma mesinha com um lampião a gás. Acima da cabeceira, junto ao teto, uma pequena porta dava acesso ao forro da casa e à caixa d’água, que se anunciava por um gotejar monótono.

Acomodadas as bagagens, e enquanto não era servido o almoço, fui levado a conhecer os demais cômodos do casarão, cada qual com sua história e móveis que remetiam a antepassados da família. Um dos quartos, o único com as janelas fechadas, era o “quarto da santa”. Ali, uma serena imagem de Santa Terezinha apoiava-se sobre uma cômoda, ladeada por uma jarra de copos de leite e uma vela votiva acesa, a cena naturalmente despertando um sentimento de contrição e fazendo descer um ponto a altura de todas as vozes.

A chegada do velho Mário, o pai, foi a senha para que fosse servido o almoço: pernil e costelinhas suínas acompanhados de polenta e precedidos por uma prova da pinga destilada ali mesmo. Só então se juntou a nós Dona Célia, mãe de Marcela e Mônica. Muito parecida com a irmã, inclusive na beleza, trazia um quê de tristeza nos olhos, que mais tarde soube ser por conta de uma viuvez recente, um acidente de carro na estrada. Via-se que se esforçava sem muito sucesso em participar da conversa. Fomos perguntados sobre as aulas de medicina e sobre Niterói e suas praias, assunto que interessou as quatro moças do interior e serviu para quebrar o gelo com elas, que até então conversavam entre si aos cochichos entrecortados por risadinhas. “Quem sabe um dia o Mário não leva vocês lá e eu lhes apresento Itacoatiara, minha praia favorita?”, arrisquei enquanto piscava suplicante para meu amigo, que me sorriu cúmplice.

Terminado o almoço, serviu-se café na varanda dos fundos, o que nos fez suar naquele calor de quase verão.

“Diz o rádio que vem chuva hoje ainda”, declarou o velho Mário.

“Finados sempre chove”, disse a empregada recolhendo o bule e as xícaras.

Meu amigo decretou: “Vamos agora arrear os cavalos para irmos até o açude. Se amanhã chove, não poderemos mais ir.”

Fomos vestir calções e biquínis por baixo das calças compridas, eu antecipando a visão de porções mais generosas da anatomia das garotas, e depois descemos para as baias, onde minha ignorância naquela função me deixou apenas observando a lida. Fiquei admirando a intimidade de Mário e seus três irmãos com os arreios, freios, selas e mantas, as fivelas sendo apertadas e os nós sendo dados nas tiras de couro. Distribuídas as montarias, coube-me um pangaré atarracado de nome Sabiá, que teimava em acompanhar o galope dos outros animais com um trote duro que me trouxe vivas lembranças da refeição recente e me fez motivo de chacota das meninas e de meu amigo:

“Na volta nós, trocamos”, consolou-me ele.

Chegando ao açude, pude conferir com deleite tudo o que vinha antecipando, e não me decepcionei. Nadamos, brincamos, inventamos disputas e rimos bastante. Depois, uma das primas tirou um cigarro de maconha da mochila, que foi aceso e passado de boca em boca em meio a risadas a princípio, e depois em silêncio.

Naquela noite, depois de anunciar-se com ventania e trovoadas, uma forte chuva caiu sobre a fazenda e a energia elétrica acabou no meio do jantar. Jogamos buraco à luz de velas e, por volta da meia noite, fomos todos dormir. Acendi o lampião e tentei ler um pouco do livro que havia levado, mas logo desisti e apaguei o lampião. O breu era total, e eu via ocasionalmente apenas alguma luz dos raios já distantes através das frestas das pesadas janelas de madeira. Fiquei imaginando no escuro qual das quatro garotas era a mais bonita e se alguma delas me havia dado atenção especial até adormecer ouvindo o pinga-pinga da caixa d’água.

Não sei quanto tempo depois acordei com o coração disparado e o sangue gelando nas veias: tinha ouvido passos no quarto. Arregalei em vão os olhos e agucei os ouvidos. Parecia haver alguém aos pés da cama.

“Quem está aí?”, perguntei. Ninguém respondeu. Ouvia-se apenas o som baixo de uma respiração rápida, quase ofegante. “É você, Mário?” O som de passos aproximou-se pelo lado esquerdo da cama e senti que o colchão cedia ao peso de um corpo a sentar-se. Tremi quando uma mão pousou sobre minha perna e instintivamente segurei-a. Era uma mão pequena, que num leve frêmito segurou também a minha. Dedos suaves e tateantes deslizaram pelo meu rosto e enfiaram-se por meus cabelos, descendo pela nuca e puxando-me para um beijo. Outros beijos seguiram-se num crescente de entrega e sofreguidão, enquanto eu tateava aquele corpo desconhecido vestido com uma camisola fina, buscando em vão sua identidade. Ela enfiou-se por debaixo das cobertas e passou a direcionar com segurança minhas mãos e meus beijos desajeitados por seus vales e por suas curvas. Entreguei-me submisso a seus comandos. Minha única preocupação era o ranger ritmado da velha cama.

Estava só quando acordei com os primeiros raios de sol que se infiltravam pelas frestas da janela. Um sonho, pensei a princípio. Mas minhas roupas perdidas sob as cobertas atestavam que tudo havia realmente acontecido. Instintivamente vesti apressado o pijama, como um criminoso que limpa o local de um crime. Depois, recuperando aos poucos a calma, fiquei mirando o teto, buscando em cada pedaço de meu corpo sentir de novo o contato daquele outro corpo desconhecido.

Quem seria? Não tinha a menor idéia. Sabia apenas tratar-se de alguém bem mais à vontade e experiente nas artes do amor do que eu. Fiquei tentando imaginar que, fosse quem fosse, se deixaria desmascarar quando cruzasse o olhar com o meu, encarando-me por um momento mais demorado ou desviando os olhos para não se deixar trair. Mas o café da manhã e o resto do dia transcorreram sem que qualquer das quatro moças transparecesse qualquer embaraço ou interesse especial quando se dirigiam a mim. Não podia tampouco contar o acontecido a meu amigo sem abrir-lhe a possibilidade de que tivesse sido uma de suas irmãs. Na véspera de voltarmos a Niterói, troquei alguns beijos furtivos com Marcela, a prima mais nova, que me deram a certeza de que não fora ela.

Até hoje repasso as lembranças daquela noite sem saber de quem era aquele corpo. Gostaria que aquelas lembranças tivessem um rosto, um nome. Mas, apesar de ainda intensas e vívidas, elas são apenas isso: um corpo de mulher, um corpo que se tem feito presente no corpo de todas as mulheres que amei desde então. Nunca contei essa história a ninguém. Pareceria a quem me ouvisse uma fantasia de um quase adolescente querendo contar vantagem. Faço-o agora, caro leitor, na confiança de que meus cabelos hoje grisalhos confiram-me alguma credibilidade. Talvez você tenha um palpite.