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domingo, 30 de outubro de 2011

Um Corpo no Escuro


Conhecemo-nos na faculdade de medicina. Mário era filho de um fazendeiro de café no interior de São Paulo e, a princípio, seu modo caipira de pronunciar os erres me divertia muito.  Lembro-me de termos sido colocados diante do mesmo defunto recendendo a formol em nossa primeira aula prática de anatomia. Os risos nervosos e as piadas mal colocadas tentando atenuar o incômodo causado por aquelas peças – era assim que nos referíamos aos defuntos ou partes deles: peças – escancaradas, com suas vísceras impudicamente espalhadas sobre a mesa de aço.

Depois de poucas semanas estávamos bem mais à vontade naquelas aulas, alguns chegando a trazer os últimos bocados do lanche ou os últimos goles de refrigerante para a sala de dissecção.  Havia muitos colegas vindos do interior do estado, outros da cidade do Rio de Janeiro e ainda do Estado de São Paulo, estes em sua maioria descendentes de italianos. A lista de chamada era recheada de Zanovellis, Scarantos, Materassis, Polletis e outros oriundi, e Mário era mais um deles. Camaradagens se estabeleceram durante o curso de seis anos e algumas preciosas amizades persistem até hoje. O Mário é uma delas.

O fim do primeiro ano de matérias básicas chegava ao fim. Mário, que diversas vezes havia dito que me levaria um dia para conhecer sua família na distante São José do Rio Preto sem que eu o levasse o assunto muito a sério, decidiu que o feriadão de Finados, que se estenderia de sábado a terça feira, seria a oportunidade ideal. Feito o convite, levantei o dinheiro da passagem e embarcamos num ônibus noturno para a capital paulista, onde pegamos um segundo ônibus rumo ao nosso destino final.

Lá, esperava-nos na rodoviária um dos irmãos de meu colega com uma picape. Sérgio era seu nome, se bem me lembro. Depois de passarmos rapidamente pelo centro da cidade e para que se comprasse alguns mantimentos, pegamos novamente a estrada, primeiro pelo asfalto, depois por terra batida, atravessando canaviais e cafezais a perder de vista. Adentramos uma alameda de mulungus vermelhos, que nos levou ao terreiro da fazenda. O casarão antigo e imponente se estendia em dois andares e muitas janelas à direita e à esquerda de uma escadaria de pedra ladeada por duas palmeiras centenárias.  Enquanto ajudava na retirada da bagagem e dos outros volumes da caçamba, uma mulher que adivinhei ser a mãe de Mário desceu as escadas quase aos saltos para abraçá-lo, três meses que não via o filho. Tinha a pele muito clara e os olhos verdes como os de meu amigo, e reparei que seus prováveis quarenta e tantos anos tinham lhe poupado a maior parte da sua beleza. Cumprimentou-me afetuosamente, aquele amigo de quem o filho tanto lhe falava, e me guiou pela escada acima para conhecer a sede. Quando ergui os olhos, tive uma visão que me encheu de esperanças de que aquele seria um feriado para não esquecer. Quatro garotas me olhavam com curiosidade. Fui apresentado a Liliane e Teresa, as duas irmãs de Mário, pouco mais velhas do que ele, e mais duas primas, Marcela e Mônica, que também tinham vindo para o feriado. Não consegui decidir qual a mais interessante: todas de pele bem clara e rostos delicados, os cabelos variando de louro escuro ao castanho quase preto.

Ofereceram-me o “quarto da caixa d’água”, um cômodo pequeno no extremo do corredor à esquerda. A mobília resumia-se a uma pequena cômoda bem antiga, uma cadeira simples e uma cama de viúvo, ladeada por uma mesinha com um lampião a gás. Acima da cabeceira, junto ao teto, uma pequena porta dava acesso ao forro da casa e à caixa d’água, que se anunciava por um gotejar monótono.

Acomodadas as bagagens, e enquanto não era servido o almoço, fui levado a conhecer os demais cômodos do casarão, cada qual com sua história e móveis que remetiam a antepassados da família. Um dos quartos, o único com as janelas fechadas, era o “quarto da santa”. Ali, uma serena imagem de Santa Terezinha apoiava-se sobre uma cômoda, ladeada por uma jarra de copos de leite e uma vela votiva acesa, a cena naturalmente despertando um sentimento de contrição e fazendo descer um ponto a altura de todas as vozes.

A chegada do velho Mário, o pai, foi a senha para que fosse servido o almoço: pernil e costelinhas suínas acompanhados de polenta e precedidos por uma prova da pinga destilada ali mesmo. Só então se juntou a nós Dona Célia, mãe de Marcela e Mônica. Muito parecida com a irmã, inclusive na beleza, trazia um quê de tristeza nos olhos, que mais tarde soube ser por conta de uma viuvez recente, um acidente de carro na estrada. Via-se que se esforçava sem muito sucesso em participar da conversa. Fomos perguntados sobre as aulas de medicina e sobre Niterói e suas praias, assunto que interessou as quatro moças do interior e serviu para quebrar o gelo com elas, que até então conversavam entre si aos cochichos entrecortados por risadinhas. “Quem sabe um dia o Mário não leva vocês lá e eu lhes apresento Itacoatiara, minha praia favorita?”, arrisquei enquanto piscava suplicante para meu amigo, que me sorriu cúmplice.

Terminado o almoço, serviu-se café na varanda dos fundos, o que nos fez suar naquele calor de quase verão.

“Diz o rádio que vem chuva hoje ainda”, declarou o velho Mário.

“Finados sempre chove”, disse a empregada recolhendo o bule e as xícaras.

Meu amigo decretou: “Vamos agora arrear os cavalos para irmos até o açude. Se amanhã chove, não poderemos mais ir.”

Fomos vestir calções e biquínis por baixo das calças compridas, eu antecipando a visão de porções mais generosas da anatomia das garotas, e depois descemos para as baias, onde minha ignorância naquela função me deixou apenas observando a lida. Fiquei admirando a intimidade de Mário e seus três irmãos com os arreios, freios, selas e mantas, as fivelas sendo apertadas e os nós sendo dados nas tiras de couro. Distribuídas as montarias, coube-me um pangaré atarracado de nome Sabiá, que teimava em acompanhar o galope dos outros animais com um trote duro que me trouxe vivas lembranças da refeição recente e me fez motivo de chacota das meninas e de meu amigo:

“Na volta nós, trocamos”, consolou-me ele.

Chegando ao açude, pude conferir com deleite tudo o que vinha antecipando, e não me decepcionei. Nadamos, brincamos, inventamos disputas e rimos bastante. Depois, uma das primas tirou um cigarro de maconha da mochila, que foi aceso e passado de boca em boca em meio a risadas a princípio, e depois em silêncio.

Naquela noite, depois de anunciar-se com ventania e trovoadas, uma forte chuva caiu sobre a fazenda e a energia elétrica acabou no meio do jantar. Jogamos buraco à luz de velas e, por volta da meia noite, fomos todos dormir. Acendi o lampião e tentei ler um pouco do livro que havia levado, mas logo desisti e apaguei o lampião. O breu era total, e eu via ocasionalmente apenas alguma luz dos raios já distantes através das frestas das pesadas janelas de madeira. Fiquei imaginando no escuro qual das quatro garotas era a mais bonita e se alguma delas me havia dado atenção especial até adormecer ouvindo o pinga-pinga da caixa d’água.

Não sei quanto tempo depois acordei com o coração disparado e o sangue gelando nas veias: tinha ouvido passos no quarto. Arregalei em vão os olhos e agucei os ouvidos. Parecia haver alguém aos pés da cama.

“Quem está aí?”, perguntei. Ninguém respondeu. Ouvia-se apenas o som baixo de uma respiração rápida, quase ofegante. “É você, Mário?” O som de passos aproximou-se pelo lado esquerdo da cama e senti que o colchão cedia ao peso de um corpo a sentar-se. Tremi quando uma mão pousou sobre minha perna e instintivamente segurei-a. Era uma mão pequena, que num leve frêmito segurou também a minha. Dedos suaves e tateantes deslizaram pelo meu rosto e enfiaram-se por meus cabelos, descendo pela nuca e puxando-me para um beijo. Outros beijos seguiram-se num crescente de entrega e sofreguidão, enquanto eu tateava aquele corpo desconhecido vestido com uma camisola fina, buscando em vão sua identidade. Ela enfiou-se por debaixo das cobertas e passou a direcionar com segurança minhas mãos e meus beijos desajeitados por seus vales e por suas curvas. Entreguei-me submisso a seus comandos. Minha única preocupação era o ranger ritmado da velha cama.

Estava só quando acordei com os primeiros raios de sol que se infiltravam pelas frestas da janela. Um sonho, pensei a princípio. Mas minhas roupas perdidas sob as cobertas atestavam que tudo havia realmente acontecido. Instintivamente vesti apressado o pijama, como um criminoso que limpa o local de um crime. Depois, recuperando aos poucos a calma, fiquei mirando o teto, buscando em cada pedaço de meu corpo sentir de novo o contato daquele outro corpo desconhecido.

Quem seria? Não tinha a menor idéia. Sabia apenas tratar-se de alguém bem mais à vontade e experiente nas artes do amor do que eu. Fiquei tentando imaginar que, fosse quem fosse, se deixaria desmascarar quando cruzasse o olhar com o meu, encarando-me por um momento mais demorado ou desviando os olhos para não se deixar trair. Mas o café da manhã e o resto do dia transcorreram sem que qualquer das quatro moças transparecesse qualquer embaraço ou interesse especial quando se dirigiam a mim. Não podia tampouco contar o acontecido a meu amigo sem abrir-lhe a possibilidade de que tivesse sido uma de suas irmãs. Na véspera de voltarmos a Niterói, troquei alguns beijos furtivos com Marcela, a prima mais nova, que me deram a certeza de que não fora ela.

Até hoje repasso as lembranças daquela noite sem saber de quem era aquele corpo. Gostaria que aquelas lembranças tivessem um rosto, um nome. Mas, apesar de ainda intensas e vívidas, elas são apenas isso: um corpo de mulher, um corpo que se tem feito presente no corpo de todas as mulheres que amei desde então. Nunca contei essa história a ninguém. Pareceria a quem me ouvisse uma fantasia de um quase adolescente querendo contar vantagem. Faço-o agora, caro leitor, na confiança de que meus cabelos hoje grisalhos confiram-me alguma credibilidade. Talvez você tenha um palpite.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Até aqui penso assim


Dizem os cientistas que o afeto explica o porquê de lembrarmos de certas cenas em detalhes pelo resto de nossas vidas, enquanto nos esquecermos em pouco tempo de quase tudo que se passa conosco. Cenas carregadas de emoção e significado ficam tatuadas em nossa lembrança e acabam por moldar o rumo que damos a nossas vidas. Algumas passagens me vieram à mente hoje, como que encadeadas.

Eu devia ter uns quatorze ou quinze anos. Cresci em uma família sem nenhum engajamento religioso, mas numa noite, sozinho em meu quarto, me veio um questionamento, ou melhor, uma quase certeza: a de que amar o próximo como a mim mesmo seria uma noção fundamental. Pode parecer uma coisa banal para quem nasceu e cresceu em uma família religiosa, mas não era o meu caso. Aquilo me pareceu uma revelação. Eu, que tenho um pai que acredita até hoje que diferenças devem ser resolvidas através de confrontação, bravatas e  ameaças, vi naquela afirmação uma alternativa que poderia se encaixar melhor com meu temperamento pacífico e naturalmente conciliador. Talvez naquele momento fosse apenas isso, uma alternativa menos penosa. Pelo menos a princípio.

Por volta dos dezoito anos, iniciei uma grande amizade, que perdura até hoje, com alguém de uma família batista. Como é costume entre eles, o batismo se dá quando do ingresso na vida adulta, e esse meu amigo foi batizado um pouco depois de travarmos amizade. Nessa época, meus pais estavam atravessando o penoso processo de separação, e aquela família bem estruturada de meu amigo me recebeu de forma calorosa, compensando um pouco o vácuo criado pela desagregação da minha própria. O sentido religioso e a ética passaram a ser assunto freqüente nas conversas entre eu e este meu amigo, e a visão ética e cristã do mundo começou a orientar minhas tentativas de entender o que se passava à minha volta, uma tentativa de acender alguma luz que diminuísse minha perplexidade em relação ao que eu via ocorrer à minha volta. Meu amigo e sua família mudaram-se para Brasília, e eu acabei por me integrar a um grupo de jovens na igreja católica. Ali, onde fiz grandes amigos, continuei fazendo perguntas. Com o tempo percebi que nem todas as respostas me eram satisfatórias. Embora tivesse avaliado as respostas católicas com o coração aberto, nunca consegui concordar que um filho de Deus pudesse dizer que uma determinada religião, fosse ela qual fosse, tivesse o monopólio da verdade e a única chave da porta da salvação. Se é que foi realmente Jesus quem disse isso. Tenho minhas dúvidas.

Aos trinta e poucos, trazendo ainda muitos assombros e incertezas, buscava maneiras de lidar melhor com minhas emoções através da psicoterapia. Lembro-me bem de duas sessões em que consegui sintetizar quais eram minhas expectativas. Primeiro, que via todos no mundo, eu inclusive, como que em meio a um turbilhão, como se a vida fosse uma ressaca nos dando seguidas socas, sem que pudéssemos distinguir em que direção está a praia e se o céu está acima ou abaixo de nossas cabeças, todos se debatendo em total desorientação. “Quero por a cabeça acima das ondas e parar de me debater”, eu disse, “quero saber em que direção nadar.” Talvez pudesse ter dito: “Quero surfar essas ondas, e não morrer afogado me debatendo.” Num segundo momento, já bem mais tarde, disse que meu desejo maior era estar sinceramente aberto e sem reservas para as outras pessoas, superando minhas próprias defesas e desconfianças.

Hoje abandonei qualquer pretensão de vir a saber a razão de ser da vida. Só sei que ela é curta e preciosa. E vivo sem nenhuma expectativa de que ela venha a se estender depois de minha morte, pelo menos não como esta minha identidade individual. Recebi diversas coisas boas, outras nem tanto. Quero deixar para os que me sucederem mais coisas boas e menos coisas ruins, e nisso, apenas nisso, consistirá minha imortalidade.

Algumas coisas úteis eu aprendi. Se as coisas não vão bem, devo tentar fazer diferente. Se não deram certo até aqui agindo de uma determinada forma, elas vão continuar não dando certo se eu continuar agindo dessa mesma forma. Tenho sempre a liberdade de me reinventar nos aspectos que não estão funcionando. Afinal, não posso mudar os outros, só a mim mesmo. Aprendi e sei que eu e todos temos uma liberdade enorme e insuspeita de recriarmos nossa realidade. Tenho a liberdade de não me aborrecer cada vez que minhas expectativas são frustradas pelos outros ou pelas circunstâncias. Tenho a liberdade de tentar continuar em frente, mas também de mudar radicalmente de direção a qualquer momento. Tenho a liberdade de parar de arrastar noções inúteis como vitória, honra e prestígio e de tentar dominar minhas relações com os outros. Em vez de lutar, posso optar por entregar a vitória a quem hoje identifico como adversário, se passar a vê-lo de outra forma. Tenho a liberdade de abandonar aquilo que me acostumei ver como sendo minha identidade até aqui. A fé nessa liberdade tem me permitido ousar mudanças de rumo algumas vezes ao longo da vida. Arrasto ainda muitos pesos, mas tenho procurado aliviar a carga pelo caminho. Assim, mais leve, posso dançar mais e melhor enquanto me for permitido participar da festa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bianca e Sultão


Fabinho rompeu o noivado com Eveline quando ela tinha 28 anos e, desde então, ela nunca mais engrenou um relacionamento sério. Amigas a alertavam que a ânsia do matrimônio a lhe transbordar dos olhos e porejar da pele afugentava os namorados já nos primeiros encontros. Não conseguia deixar de imaginar como ficaria o rapaz de fraque lhe aguardando no primeiro degrau do altar. A custo admitiu para si mesma que a perspectiva da solidão e a condição de titia lhe assombravam os dias e as noites.

Aos poucos, o medo foi cedendo lugar à desesperança e à conformidade e, sem se dar conta, abdicou da vaidade. Os quilos se acumulavam, aos poucos deformando sua outrora sedutora silhueta, e os primeiros cabelos brancos chegavam sem merecer a vigilância de uma tintura. De mais a mais, seus cabelos passavam agora a maior parte do tempo presos por um descuidado elástico. Suas roupas, antes escolhidas com capricho, e os decotes que sempre eram assinalados por um pingente bem calculado foram aos poucos perdendo lugar para o que ela chamava de conforto, essa prioridade das mulheres que abdicam da própria graça. Tornou-se por fim uma cínica, passando a integrar o triste contingente das que repetem o mantra de que “homem é tudo igual”.

Numa das muitas noites insones em que ficava diante da tela do computador tendo por companhia apenas a caixa de bombons ou o pacote de biscoitos, foi arrastada pela curiosidade e entrou num site de encontros. Aos quarenta e poucos, já tinha perdido as esperanças de virar o jogo da solidão, mas tinha desenvolvido o prazer amargo de observar outras mulheres a se enredarem em relacionamentos que na sua maioria, segundo ela, terminariam em desgosto. Depois de duas semanas, decidiu incorporar uma heroína vingativa. Com o nick de Bianca Bandida, passou a lançar iscas virtuais que eram avidamente abocanhadas por diversos homens. Com a boca cheia de chocolate, comprazia-se em vê-los implorarem por um encontro, que ela adiava indefinidamente. A sensação de poder e o sabor agridoce da vingança lhe traziam, acreditava, consolo pelas desventuras passadas. Até que um dia calhou de teclar com um certo Sultão Carioca.

O Sultão, ao contrário dos demais, não parecia ter pressa em conhecê-la pessoalmente. Escrevia sem erros ortográficos, com elegância e graça. Em vez de alardear suas qualidades ou insistir em descrições físicas, parecia interessado em conhecer seus gostos e suas emoções. Era engraçado sem ser grosseiro. E aos poucos, Bianca, ou melhor, Eveline se viu ansiando por teclar com o Sultão a cada noite. Quando se deu conta, percebeu em si inequívocos sintomas da mais vulgar paixão. Lutou em vão contra esse sentimento que julgava ter sepultado em definitivo. E, como já temia e previa, o Sultão acabou por manifestar o desejo de conhecerem-se pessoalmente. Com o pânico e o desejo se digladiando em seu íntimo, fez-se de difícil sem, contudo, fechar questão para seu Sultão. Decidiu enfim que queria encontrá-lo, mas as providências teriam que ser tantas... Corte e tintura nos cabelos, compra de novas roupas, sapatos e depilação não constituíam maiores problemas. O peso sim, requeria tempo e esforço. Com a urgência dos apaixonados, procurou nutricionista e endocrinologista, matriculou-se em academia e divorciou-se de seus companheiros bombom e biscoito. Tentava equilibrar o tempo que a balança exigia com a impaciência do Sultão.

Três meses mais tarde e quinze quilos a menos, decidiu que era chegada a hora. Revelou-se Eveline para o Sultão Carioca que, na verdade, era o Wellington de Niterói. Combinaram de encontrarem-se num quiosque da Lagoa.

No dia e hora marcados, tremendo nas sandálias de saltos altos, ficou de longe observando. Viu a chegada de um homem vestido conforme a descrição combinada. Aparentando estar na casa dos quarenta, pareceu-lhe bem apessoado e interessante. Respirou fundo e caminhou em direção a ele: “Wellington?”

Conversaram por algumas horas e confirmaram as afinidades das conversas on line. Trocaram beijos, afinal, e despediram-se com promessas de novo encontro em alguns dias. Encontro esse ao qual ela nunca compareceu, alertada por uma mal disfarçada marca de sol no dedo anelar esquerdo de Wellington. Sofreu bastante, mas estava decidida a não ser a outra. Eveline, porém, já era outra. E um amor exclusivo e duradouro não tardou a lhe sorrir.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Fidelidades

Flávia só entrega o corpo a seu marido. Mas atormenta-se por sonhar luxúrias inconfessáveis com seu colega de trabalho. 


Alice aluga seu corpo de terça a domingo. Na segunda, oferece-se gratuita e apaixonada a seu amante, que já foi cliente. Depois, dorme serena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Intenções


Ofegante e excitada, subiu nos saltos agulha e conferiu-se no espelho. A saia inédita e a blusa decotada que se combinavam pela primeira vez. O tom perfeitamente moreno do colo e das coxas, que se exibiam torneadas a custo muito legpress e spinning, harmonizava com o dos cabelos compridos e lisos que, de manhã, haviam recebido investimento de algumas horas de salão e quatrocentos dinheiros. Aspirando o doce exótico do perfume que emanava do pescoço e dos seios, suspirou satisfeita. Naquela noite não correria nenhum risco de afeto. Só cobiça.

domingo, 11 de setembro de 2011

Fabulinhas Fabulosas: O Filósofo

Filosofia com humor (L. F. Veríssimo)

Havia, há não muito tempo atrás em um reino pouco, pouco distante, um filósofo. O dito filósofo, professor universitário, gozava de grande conceito entre seus pares e muito prestígio nas esferas mais intelectualizadas do reino. A tônica de seu discurso, ou leitmotif, como ele fazia questão de dizer, era a perplexidade do ser humano diante da existência, a sensação de desamparo diante da perspectiva da morte e de esmagamento frente à imensidão do universo, a falta de sentido da existência, a inutilidade do sofrimento, enfim, essas coisinhas que dão camisa e pagam o leitinho das crianças dos psiquiatras e psicoterapeutas e fazem a alegria dos acionistas da indústria farmacêutica. Dava palestras freqüentes e muito concorridas, de onde era impossível o cidadão não sair macambúzio e deprimido, mas aplaudindo a lucidez extraordinária do filósofo. Já dera entrevista para o “Prosa e Verso” e um de seus livros, um romance que se tornara um cult instantâneo, estava em negociação para virar roteiro de filme do González-Iñárritu. Enfim, seu papo deprê dava o maior ibope.

O filósofo não era um homem bonito: magro e pálido, usava os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo desajeitado. Fumava muito e bebia pacas: apenas destiladas, nutrindo um gosto especial pelo absinto. Apesar da aparência, tinha um séqüito de mulheres, algumas bem jeitosinhas e diversas exibindo com certo orgulho cicatrizes nos pulsos. Mas, claro, não se fixava em nenhuma. Tinha um rosário de casos curtos com mulheres tidas como as mais inteligentes do pedaço, inclusive uma famosa atriz da novela das nove.

Um dia, desmaiou em meio a uma palestra e foi levado às pressas a um hospital. Foi internado para esclarecimento diagnóstico, e o médico que o atendeu, profissional muito dedicado e da maior competência, virou-o do avesso. Além de gastrite moderada, anemia leve e um início de enfisema, descobriu-se que sofria de hemorróidas e amebíase. Tratada a amebíase e operadas as hemorróidas, teve alta com orientação de dieta, que se abstivesse por um tempo do álcool e parasse de fumar. O médico assistente prescreveu-lhe também um antidepressivo desses moderninhos, que não dão efeitos colaterais.

Contra todas as expectativas, o filósofo seguiu as instruções do doutor. Não sabendo bem se por fim do desconforto orificial, digamos assim, ou por efeito do antidepressivo, sentiu-se bem pela primeira vez na vida. Passou a se alimentar decentemente e não voltou a fumar. Tornou a beber, mas com moderação. Engordou um pouco e passou a exibir uma cor menos pálida, beirando o rosado. Viu-se, para a própria surpresa, rindo de bobagens. Um dia deu uma gargalhada e quase deslocou a mandíbula. Mas passou a ser olhado atravessado pelos antigos colegas de desespero. “Desertor!”, falaram dele pelas costas com desprezo. Nos meios intelectuais disseram que ele se havia vendido ao sistema e abandonado a luta sem causa. O tom de suas palestras ficou um pouco menos pesado, sendo inclusive, vejam só, acusado pelos antigos fãs de deixar entrever alguma esperança para o dilema da vida humana. Aos poucos as platéias passaram a ficar mais ralas e os convites escassearam.

Dizem as más línguas que ele se casou e tem dois filhos. Continua dando aulas na universidade, mas nunca mais escreveu nenhum livro. Foi visto domingo passado dando uma corridinha com a esposa no calçadão da praia. Ele ainda se aborrece um pouco com as vaias ocasionais que recebe, por isso tem evitado aparecer nos bares que costumava freqüentar. Parece que agora está planejando voltar a escrever. Está com idéias para um roteiro de teatro: uma comédia.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Gatão de Meia Idade - Parte 2


Pois bem: Rogério, nosso gatão sem ritmo de jogo, atende o convite da Lidinha para aquele “jantarzinho lá em casa na sexta”. Depois de dar uma conferida nos cabelos no espelho do elevador e desabotoar um botão na camisa, ele chega ao décimo andar. Suspiro, blim-blom. Tudo é expectativa. Então, meu querido leitor, hipoteticamente falando, imagine-se no lugar do Rogério:

1 - “Oííííííííí! Tudo boooooooooom?” Lídinha está de saia rosa, blusa rosa, sandália rosa e tasca duas bitocas em suas bochechas. Ou melhor: três, que ela é de São Paulo. No aparelho de som, Luan Santana ataca com “Meteoro da Paixão”. O Luan está também em um pôster autografado na parede, escoltado por Junior sem Sandy e Daniel. Na estante da sala tem a coleção completa do Paulo Coelho e, no sofá, alguns bichinhos de pelúcia te encaram de uma forma sinistra. Você:

(      ) Pensa que devia ter trazido um bichinho de pelúcia em vez de vinho;
(   ) Se prepara para dançar “Ilarilarilariê ôôô”, beber batida de morango com leite condensado e encara;
(     ) Sai correndo com medo do Conselho Tutelar.

2 – Lídia abre a porta toda vestida de couro preto, com uma corrente no pescoço e sorrindo só com um dos lados da boca. O heavy metal soa vários decibéis acima do tolerável. Você pensa no porquê de nunca ter reparado na enorme tatuagem de caveira que ela tem nas costas. Nem nas olheiras. Deve ser efeito da luz roxa, pensa. Você:

(    ) Se prepara para comer morcego à passarinho, despenteia o cabelo, pede desculpas por não ter trazido pó em vez de  vinho e encara;
(    ) Se pergunta se não vai ser você o jantar em um ritual satânico;
(    ) Na dúvida, sai correndo antes de descobrir.

3 – Lidinha abre a porta e um forte cheiro de incenso invade o corredor do prédio. Ela está descalça, veste uma saia indiana e uma bata colorida, sem sutiã. Fica na ponta dos pés, te dá um beijo na testa e te oferece um chá verde. Pede para você tirar os sapatos e aguardar um pouquinho enquanto ela põe a lasanha vegetariana no forno e traz uns biscoitinhos de soja com gergelim. Junto da janela tem um altar com a imagem de um sujeito com cabeça de elefante e várias fotos de outros caras de cabeça raspada e roupa laranja e vermelha. No outro canto, uma fonte, daquelas com bombinha de aquário, faz barulhinho de água. Você pensa ter visto um duende passar correndo no limite de seu campo visual. Por via das dúvidas, despeja o chá no vaso de planta. Você:

(     ) Fica em posição de lótus, começa a entoar ooooohhhhmmmm, e encara;
(    ) Procura na estante se tem livro de sexo tântrico ou Kama Sutra, para decidir se encara ou não;
(     ) Diz que sua igreja não permite esse tipo de coisa, pede desculpas e sai correndo.

4 – Lidinha abre a porta, te dá um longo beijo na boca. Depois te lança um olhar maroto e diz que tem uma amiga que adora o seu blog e está doidinha para te conhecer. “Você se importa se ela jantar com a gente?” Você gagueja qualquer coisa enquanto ela te puxa para a sala. “Luana, esse é o Rogério, Rogério, essa é a Luana Piovani.” Você:

(    ) Se ajoelha e agradece a Deus;
(    ) Faz cara feia para a Lidinha e diz que, “Puxa vida, pensei que ficaríamos só nós dois”;
(    ) Infarta;
(    ) Fica intimidado e sai correndo.

5 – Lidinha abre a porta, te dá um beijo e diz “Saudações tricolores!” Está vestida de shortinho branco e camiseta baby-look autografada pelo time inteiro do Fluminense. Tem um retrato autografado do Conca na estante e um pôster do campeão brasileiro de 2010 na parede. Pergunta se você não quer assistir o “Arena SporTV” enquanto a pizza Marguerita (tricolor) não fica pronta. Você:

(     ) Grita “Neeeeenseeeee!” e encara;
(     ) Sai correndo, que você não é tricolor;
(    ) Pensa em casamento e a convida para assistir Fluminense e Ceará no Engenhão no próximo sábado à noite.

6 – Lidinha abre a porta sorrindo e te dá um beijinho. Ela está com os cabelos soltos, levemente cacheados, emanando um cheirinho bom de xampu. O perfume é suave. O vestido estampado é leve e rodado, e ela calça sandálias de salto não muito alto. Do aparelho de som vem a voz do Djavan cantando “Flor de Liz”. Na estante, muitos livros, mas nenhum do Paulo Coelho. Tem também vários CDs de jazz, rock e MPB, e várias fotos de viagem com amigas, algumas na Europa. Ela é uma graça, você pensa. A conversa flui fácil, vocês riem muito e descobrem muitas afinidades. Aí, você:

(    ) Sai correndo, porque a mulherada está toda dando sopa e você não quer correr o risco de se amarrar assim, logo na primeira;
(     ) Suspira, lamenta pela mulherada, que vai ter que se virar sem você, e encara.

domingo, 4 de setembro de 2011

Gatão de Meia Idade Volta aos Gramados


Recém saído de um divórcio, Rogério estaciona o carro defronte ao prédio onde mora Lidinha, sua colega de trabalho. Lidinha, que já tinha um olho comprido para Rogério antes da separação, o havia convidado para um “jantarzinho lá em casa na sexta”. Rogério, sem prática há mais de dez anos, está apreensivo na sua volta à cancha:

 “Subo agora às nove em ponto ou espero mais um pouco? Se eu chegar na hora ela vai pensar que sou um chato, obsessivo com horário. E ela pode não estar pronta. Mulher nunca está pronta na hora. Mas se eu demorar demais ela pode achar que eu não estou com muita expectativa. Vou atrasar só um pouco, uns dez minutos. Não, dez minutos e nada dá no mesmo, uns vinte. E o vinho tinto? Levo ou não levo? E se ela preparou peixe? Bom, aí a gente guarda para quando eu fizer uma massa lá em casa. Preciso aprender a preparar uma massa. Será que ela vai achar que eu sou esnobe porque o vinho é francês? Será que ela sabe que este vinho custa só R$ 29,90 no supermercado? Será que eu tirei a etiqueta? Caramba, não tinha tirado! Ainda bem que lembrei. E se ela só gostar de cerveja? E se ela não bebe? Será que o perfume está forte demais? Será que Jean Paul Gautier é perfume de gay? Devia ter posto o Pólo. Não, Pólo é muito formal, coisa de velho. Devia ter posto uma lavandazinha, um cítrico levinho. Também não, isso é coisa de garotão e garotão eu já não sou há muito tempo. Mas devia ter vindo com a camisa pólo, com certeza. Essa listrada de manga comprida é que é de velho. E se eu chegar a tirar a camisa, será que ela gosta de peito cabeludo? Se não gostar, azar dela, que raspar eu não raspo. E ela sem a blusa, como será? De blusa promete, tamanho universal, bem jeitosinha. Será que usa calcinha grande ou cavadinha? Será que ela vai gostar da minha cueca? Ainda bem que não fiz a bobagem de botar a vermelha, onde eu estava com a cabeça de comprar cueca vermelha? Bom, eu sei onde eu estava com a cabeça. Mas a cinza, não tem erro. Será que ela ia gostar mais de  uma samba canção? Samba canção eu não gosto, tudo muito solto, só para dormir.  Será que eu vou dormir aqui já hoje? Será que vão roubar o carro? Se roubarem, tudo bem, seguro é para essas coisas. Eu devia ter cortado o cabelo semana passada. Mas ela só me chamou ontem, nem deu tempo. E cabelo cortado no dia fica todo arrepiado, melhor assim, grandinho. Vamos conversar sobre o quê? Qualquer coisa, do vinho, da comida, da decoração, da música, tranqüilo. Se tiver livros na estante, falamos de livros, sei lá. Desde que não seja sobre Paulo Coelho. Só não vai falar da ex, por favor, se liga, cara. E a música? Posso levar uns CDs de jazz aqui do carro. Mas ela pode não gostar de jazz. Aposto que ela vai botar um Djavanzinho básico, tem cara de quem gosta de Djavan. Flor de Liz é fatal. Se ela botar axé ou pagode eu saio correndo, e se ela trancar a porta eu pulo pela janela. E se tiver cachorrinho peludinho e ciumento, tomara que tenha tela na janela. Caso fique para dormir, vou tentar dormir de lado para ela não saber logo de cara que eu ronco. E tomara que ela não queira dormir abraçada. Até dez minutos a gente agüenta, mais que isso não dá. E se ela estiver no atraso, beber e me atacar antes da sobremesa? E se eu for a sobremesa? Ela me devora e bota os ossinhos no lixo. Ou dá para o cachorrinho peludinho. Tem mortes piores. Não gosto de mulher muito atirada, mas é melhor que mulher que faz doce. Mas se me chamou para a casa dela é que deve estar cheia de má intenção. Sempre gostei do jeitinho da Lidinha. Parece ser divertida, sem grilos. A voz é agradável e... Pára com isso, Rogério! A mulherada toda dando sopa e você já vai querer se enrabichar logo na primeira? Fica esperto! Nove e quinze, acho que já vou subir. Vai fundo, garotão, a noite vai ser boa, relaxa. É no 1003 ou no 1103? Boa noite, senhor, a dona Lídia é no 1003?”

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Eu e os Gays


Recentemente o governo federal tentou implantar uma cartilha contra a homofobia nas escolas do país. A iniciativa suscitou muitas críticas em relação ao conteúdo da dita cartilha, algumas procedentes e outras não, e ela acabou não sendo distribuída. Mas a ameaça de sua distribuição deixou muitos pais em polvorosa, acreditando que a simples discussão do assunto homossexualidade nas escolas, com ênfase na aceitação social de pessoas que se sentem atraídas afetiva e sexualmente por outras do mesmo gênero poderia induzir seus pimpolhos a fazer a “opção” homossexual. Para eles, esse assunto deveria ser deixado dentro do armário. Em meio ao pânico geral, onde um previsível deputado carioca foi o arauto do apocalipse, disseminaram-se campanhas na internet alegando que o governo só deveria preocupar-se com a homofobia depois que os professores passassem a ter salários justos, que não faltasse merenda de qualidade nas escolas, que a discriminação contra negros e o bullying contra os gordinhos fossem erradicados, etc., etc. Considero todas essas reivindicações justíssimas. Só não entendo porque elas têm que ser resolvidas antes de se abordar a questão da homofobia. E é completamente ridícula a idéia de uma parada do orgulho hétero.

Entendo que possam existir motivações atávicas e irracionais para a dificuldade em aceitar que alguém de sua prole seja homossexual. Afinal, do ponto de vista estritamente biológico, um filho homossexual é um fim de linha, um galho seco na árvore genealógica de nossa descendência. Também entendo que a descoberta de que um filho seja homossexual suscite angústias em relação às barreiras e dificuldades adicionais que ele ou ela encontrará na busca por sua felicidade, justamente pela discriminação que de fato existe na maior parte da sociedade, arrisco dizer. Mas, inversamente ao que costuma ocorrer, essa deveria ser justamente a razão para apoiar ainda mais esse filho em seu caminho na busca de uma posição digna dentro de uma sociedade que tende a lhe ser hostil.

Não existe nenhum consenso em relação às causas da homossexualidade. Um pai ausente e uma mãe superprotetora seria um fator facilitador, mas está longe de ser determinante: nossa sociedade é cheia de mães solteiras e mães abandonadas por maridos ou companheiros, que lutam com bravura para criar seus filhos sem ajuda. Desconheço pesquisa que prove que saiam mais filhos homossexuais de lares chefiados por mulheres. Não foi, até hoje, identificado nenhum “gen gay”. Tampouco foi encontrada qualquer diferença hormonal que possa diferenciar metabolicamente um homo de um heterossexual. É incorreta também a expressão “opção sexual”. Eu não me lembro de, em nenhum momento, ter sentado - no bom sentido (desculpem, meu lado politicamente incorreto deu um espirro) - para decidir se seria hétero ou homossexual. Tenho certeza de que a coisa se dá (atchim!) da mesma forma com os homossexuais. Um dia o menino ou a menina se descobrem atraídos pelo professor ou professora, pelo amigo ou amiga do mesmo gênero. O garoto se dá conta de que está mais interessado no corte da saia que nas coxas roliças da amiga. A menina se descobre excitada com as formas femininas da modelo quando vê anúncio de lingerie. Deve ser um momento assustador, difícil e solitário, e tem que ser muito macho para encarar de frente um impulso interior que contraria tudo aquilo que esperam de você e de seu posicionamento no mundo. É um completo absurdo que qualquer um, principalmente um pai ou uma mãe, deseje que uma pessoa passe toda uma vida fingindo sentir o que não sente e escondendo de todos o que realmente sente. Que seja forçado a enredar outras pessoas desavisadas em relacionamentos infelizes e em casamentos de fachada. Não se pode exigir de ninguém que passe uma vida inteira no armário. As igrejas conservadoras, em especial as evangélicas, contribuem muito para a discriminação e a infelicidade dos homossexuais e suas famílias, ao negar a inescapabilidade do anseio afetivo-sexual.

Na minha infância, dizia-se que um menino mais medroso ou tímido era um maricas. Um mariquinhas, para mim, era só isso: um garoto medroso ou tímido. Depois de ter cursado o primário em um Grupo Escolar (como eram chamados os colégios públicos primários na época) na zona sul de Niterói, fui estudar o ginásio e o científico no Liceu Nilo Peçanha, no centro da cidade. Lá passei pela primeira vez a dividir a sala de aula com alunos e alunas de todos os níveis sócio-econômicos: com negros, brancos e mulatos, com moradores dos morros e de mansões da zona sul, com filhos de juízes e de operários, todos misturados. Foi um grande aprendizado de tolerância para com as diferenças. Existia um catalisador para tudo isso: a bola. No colégio havia sete quadras de esporte, disputadas pelos garotos de todas as turmas no recreio, antes, depois e até durante as aulas. Eu, que até então era um rematado perna de pau, tive de aprender a jogar futebol com um mínimo de eficiência para me incluir no grupo. Havia, no entanto, alguns poucos garotos que não jogavam futebol: uns por serem nerds convictos, que na época eram chamados de CDF (cu de ferro), outros que talvez não quisessem se dar ao trabalho de enfrentar sua falta inata de talento para o esporte. E havia o André.

André, aos treze anos, já era uma bichinha pronta, acabada e convicta (na época era assim que se falava: bicha). Passava o tempo todo cercado de meninas, conversando conversa de menina. Era o queridinho das inspetoras, com quem, às vezes, passava o recreio inteiro conversando. E, surpreendentemente, não era incomodado pelos meninos. Parecia-me muito à vontade em sua diferença, tinha uma personalidade forte, era uma pessoa alegre, gentil e de fácil trato. Nós o aceitávamos como era. Implicávamos um pouco com ele, é verdade, mas muito raramente. Duvido que ele guarde qualquer lembrança de bullying daquela época.

Depois de André, conheci diversos homossexuais ao longo da vida. Havia, por exemplo, dois colegas de turma nas aulas de pintura a óleo com Roberto Paragó. Ambos educadíssimos, cultos, simpáticos, pessoas finas e agradáveis na conversa. Só um gay, no caso um deles, teria a iniciativa gentil de levar uma cesta de vime com pães sortidos, queijos, vinhos, taças e uma toalha xadrez para nosso deleite ao fim de uma aula de pintura ao plain-air. Tenho, ainda, um parente homossexual, pessoa excelente, das mais prestativas e compassivas da família. Ele vive uma relação estável com seu parceiro há já umas boas bodas de prata, enquanto eu mesmo já estou em meu segundo casamento. 

Admito, no entanto, que teria dificuldade em aceitar com naturalidade caso um filho ou filha se declarasse homossexual, pelo menos a princípio. Talvez lamentasse os netos que não viriam, talvez temesse pelas dificuldades que ele ou ela enfrentaria, talvez ficasse imaginando o que amigos e parentes iriam pensar. Mas nenhuma razão, egoísta ou não, justificaria qualquer reação que não fosse de respaldo e ajuda para que sua afetividade pudesse se manifestar com plenitude.  Tenho a certeza de que continuaria a amá-lo e apoiá-lo da mesma forma, talvez mais.

sábado, 20 de agosto de 2011

Incidente Internacional


Estava eu comendo uma cafta com arroz de lentilhas lá no Munir... Vocês conhecem o Beirute, lanchonete de comida árabe do Munir ali na galeria do Trade Center? Tem as melhores esfirras e pratos árabes de Niterói. A lojinha tem só uns dez metros quadrados, mas noutro dia eu contei, ali dentro, além das cinco funcionárias atrás do balcão, quatorze fregueses dentro da loja e mais uns dez comendo do lado de fora. Puseram agora duas mesinhas em frente à porta, mas nem precisava. Nem na própria Beirute original, nem em Damasco ou em Bagdá tem tanta gente comendo cafta, esfirra e quibe por metro quadrado.

Pois bem, estava eu almoçando de pé uma cafta com arroz de lentilhas com muita cebola crocante quando uma senhora entrou na loja e perguntou educadamente às balconistas e clientes se tinham achado um jornal que ela deixara sobre o balcão. Não, ninguém tinha visto. “Um jornal escrito em hebraico, com notícias de Israel, vocês não viram?” Não, não tinham visto. A senhora agradeceu a atenção, saiu da loja e falou com uma moça, provavelmente sua filha. A moça subiu nas tamancas da arrogância e entrou na loja pagando geral: “O jornal ficou aqui no balcão, era em hebraico, foi minha aluna que trouxe de Israel, alguém pegou!“. Nem que fosse em português com notícias do meu Ceará eu não pegava”, cochichou a Bia pra Do Carmo por detrás do balcão. “Vocês têm que ter visto, ficou aqui quando eu estava pagando os salgados”. A freguesia levantava os olhos, ocupada com o quibe ou a berinjela recheada, observando os acontecimentos e depois voltava a se concentrar na refeição. A moça saiu esbravejando e esculachando a mãe descuidada. Mas, depois, a pedido dela, resolveu dar uma conferida na sacola que trazia a tiracolo. O jornal estava lá. Ela fingiu que não tinha visto nada e saiu pela galeria pisando duro, a mãe atrás. “Nem para entrar na loja e pedir desculpas, puxa vida”, pensei entre uma garfada e outra. No jornal de Israel estava escrito qualquer coisa sobre um incompreensível novo ataque terrorista em Tel Aviv e os bombardeios israelenses de represália contra alvos na Faixa de Gaza. Ainda bem que estamos no Brasil.

Plágio Descarado

Neguinho é fogo. Não é que lá na Rede Globo pega- ram a foto do crime do banheiro, já antecipada por este humilde blog no mês passado, e usaram na morte do Léo no final da novela Insensato Coração? Vou correr atrás de meus direitos! Confere só aí embaixo...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barraco na Lapa (e outros poeminhas)


A cara esquerda da moça estala
sonora na mão aberta do amante.
A direita implora igual ventura:
“Cachorro!”

x.x.x.x.x.x

Um pé meu na raiz
obstruindo a formiga:
pica, não pica?
Um peteleco põe fim à pequena angústia.

x.x.x.x.x.x

A fumacinha do incenso
se enrola,
e sobe leve, fina.
E eu pedra
aqui no chão.

x.x.x.x.x.x

Outro bombom me puxa os dedos
e se joga doce na boca
derretendo meu regime.

sábado, 30 de julho de 2011

A Mão do Dono


“Oi, tudo bem?”, eles diriam, e ela ergueria os olhos surpresa, fingindo não ter-se afundado discretamente na cadeira do restaurante, naquela mesa do canto, de costas para a porta, os olhos escondidos na leitura desatenta do cardápio desde o momento em que percebera, com um calor incômodo nas orelhas, a entrada do casal de amigos, amigos dela, naquele restaurante pequeno e ridiculamente romântico. Ela se levantaria para a habitual troca de beijos, “Vocês conhecem o Afonso, não conhecem?”, o sorriso desconcertado imaginando a tragédia que seria se eles insinuassem repartir a mesa para saborear sua intimidade desnudada, rezando para que Afonso não sugerisse aquele constrangimento. Mas eles, educados e atentos ao embaraço da situação, certamente recusariam a oferta, sentariam a algumas mesas de distância, num ângulo que lhes permitisse observá-los, a ela e Afonso, com o canto dos olhos, ao mesmo tempo em que se deliciariam em comentários, talvez acusadores, dificilmente condescendentes, sem o perigo de serem ouvidos.
Afinal, tinha sido aquela a mesma amiga com quem se encontrara chorando convulsivamente depois de arrancá-la do trabalho, “Conta uma mentira ao chefe, um acidente com o seu filho na escola”, sugeriu. Mais tarde, dentro do carro, derramando-se ridícula, como se não soubesse antes, talvez até a amiga soubesse. Um telefonema do marido da amante de Afonso, “Estamos sendo traídos”, e não era mais possível fingir que não sabia. Não poderia mais esconder de si mesma as cartas agora atiradas todas na mesa, a ferida escancarada, a hemorragia não mais estancada a empapar o lençol, o tapete da sala, a toalha da mesa. Os soluços, admitia agora, eram mais por vergonha pela aceitação velada que pela raiva que sentira. A perspectiva do vazio, da solidão, das providências práticas a serem tomadas, da rearrumação financeira, o fim das viagens a dois e das com os filhos. E os filhos, como eles reagiriam? Viriam a se alinhar automaticamente com ela, afinal são meninos ainda, quase rapazes, Édipo ainda deve prevalecer, ou com o pai, ao perceberem, quem sabe, todos aqueles anos de conivência dela? Talvez já soubessem, “Como mamãe pode ser tão cega, meu Deus?” E, depois, o ano e meio sozinha, a terapia para tentar entender sua cumplicidade naquilo tudo, o curvar-se e o fechar dos olhos para não se ver levada a uma situação de decisão que ela vinha conseguindo driblar com sucesso todos aqueles anos. E, então, aquele maldito telefonema, a palidez, o sangue fugindo-lhe do cérebro, não se lembrava do que dissera nem se dissera alguma coisa. A vida dividindo-se em duas, o medo, o vazio, a incerteza do depois.
As poucas tentativas desajeitadas de novos encontros, no esforço de contrariar as estatísticas impiedosas que apontavam todas para a solidão irrevogável, afinal uma mulher de quarenta e poucos com dois filhos. Mais pelos empurrões dos amigos que por desejo. E ela sempre travada, sempre fora travada, Afonso acusava. O horror daquelas outras mãos tentando segurar as suas, que suavam. O desconforto incontornável daquelas situações a que se forçava, o alívio de chegar em casa e descer daqueles saltos e daquela maquiagem ridículos, uma personagem na qual ela não cabia mais.

 Os contatos protocolares um fim de semana sim, outro não, a que horas ele iria passar para pegar os garotos, a que horas viria trazê-los no domingo à tarde tão cedo, por certo ainda a tempo de sair com a outra à noite. O desprazer de vê-los de longe no shopping com os filhos que eram seus e não dela, que direito eles tinham de desfilar assim em público como se fossem uma família que não eram, e a fuga precipitada para o estacionamento com o nó estrangulando-lhe a garganta. E aí, meses depois, os telefonemas dele confessando o fracasso da convivência diária, “Pensa que o dia-a-dia é qualquer relação que resiste?, ele que se dane!”, diria mentindo à amiga, o coração aos pulos, não de vingança, mas de esperança envergonhada, cachorra espancada e maltratada pronta para lamber a mão do dono, como se fosse ela a responsável pelos desejos vagabundos de Afonso. Invejou a mãe que sofrera calada tantos anos, o marido advogado, sapatos sempre pretos, engraxados diariamente pela manhã, English Lavander que permanecia no hall do elevador quando ele saía a cada manhã para o escritório. A mãe e suas amigas, solidárias no amor que sentiam por seus maridos soltos no mundo enquanto elas ali, presas, mas livres de qualquer cobrança social, justificadas pelo álibi da dependência financeira, vítimas olhadas com pena e respeito. Sabiam dar-se o respeito, não desciam ao nível daquelazinhas que quase sempre eram inferiores. Manicures, balconistas, suburbanas sem escolaridade, sem sobrenome, que precisavam trabalhar enquanto sua mãe não: tinha marido que a sustentasse, que a levasse às claras às festas de família e às recepções de trabalho. Já ela não tinha à disposição aquele álibi, aquela desculpa social e financeira tão conveniente.
E quando Afonso apareceu para deixar o cheque da pensão que ele até então depositava de forma asséptica na conta bancária, o olhar dele se demorando na porta, causando uma mistura de desconforto, raiva, excitação e alegria em doses desiguais se agitando dentro dela, eu não presto mesmo, não tenho vergonha na cara. Deixando para traz qualquer respeito próprio, os amigos diriam. Que se danem todos, a vida é minha. “Você não quer um café?”

sábado, 16 de julho de 2011

A Roda

“Prezado Sr.

Gostaria de relatar-vos recentes ocorrências observadas ao fim da análise dos registros dos sensores de pensamentos do Setor W 37. No exercício de minha função de Supervisor, percebi algumas leves variações de freqüências mentais que, ocasionalmente, fugiam da freqüência padrão, que é sempre caótica. Com efeito, nos últimos ciclos de tempo, observei diversos, embora breves, períodos harmônicos no sub-setor W 37-D. Levei em conta a possibilidade de tratar-se de um artefato no registro dos sensores e então repassei diversas vezes os dados. Pude constatar de forma inequívoca que essas harmonizações obedecem a um padrão que, uma vez compreendido, permitiu-me antecipar com surpreendente confiabilidade novas ocorrências.

Essa observação me causou alarme. Muito embora, como oficial de média patente, meu conhecimento sobre a totalidade do Sistema seja bastante restrita, tenho a nítida compreensão de que uma possível disseminação da harmonização das ondas mentais entre os seres humanos teria conseqüências nefastas para a segurança do mesmo.

Parece-me que a ameaça é ainda mais grave, lamento dizer. Após essas constatações no setor W37, procedi a uma revisão sistemática dos registros de freqüência de todos os demais setores sob minha responsabilidade. Detectei padrões semelhantes, embora ainda bastante sutis, nos Setor W 35, contíguo ao W 37, mas também no W 83 que, como o senhor bem sabe, não guarda nenhuma relação de contigüidade geográfica com os outros dois. Temo que a coisa toda possa vir a fugir do controle.

Em face da inequívoca gravidade dos fatos que ora relato, informo que não dei ciência dos mesmos a nenhum de meus colegas supervisores. Encaminho cópia dos dados compilados para que se proceda a uma reanálise que, certamente, se fará necessária. Entendo que o Controle de Segurança deva dar máxima prioridade à avaliação dessa questão e que providências cabíveis sejam tomadas com a necessária urgência.

Aguardando instruções,

Assinado: Capitão Bzourg
Supervisor dos Setores W, Ala impar.”

O Coronel Panthiakos terminou a exposição em voz alta do relatório, baixando-o em seguida sobre a mesa do General. Retirou lentamente os óculos de leitura da ponta do nariz e dobrou-os, guardando-os em seguida no bolso interno do paletó do uniforme. Tentou adivinhar a impressão que aquelas informações causariam por detrás da face pétrea de seu superior.

O General Paguris lentamente inclinou-se para trás, juntando a ponta dos dedos de ambas as mãos sobre seus lábios finos, os cotovelos apoiados nos braços da poltrona e os olhos estreitos e azuis cravados em algum ponto da parede às costas do Coronel. Após alguns longos segundos de silêncio, piscou duas vezes e ergueu o olhar para seu interlocutor:

“Coronel”, disse em voz grave e pausada, “como Supervisor Geral, o Sr. talvez possa vagamente alcançar o risco que esta merda, que teima em acontecer de tempos em tempos, pode causar ao Sistema como um todo. Na verdade, já estávamos cientes dessas ocorrências no Setor W. Já tivemos ocorrências semelhantes em épocas passadas nas Zonas 17, 41 e 79, mais conhecidas na Terra como Índia, Israel e Tibet. Desde então, aprendemos a valorizar os mais leves indícios de fatos que possam vir a pôr A Roda em perigo. Naqueles episódios, nossa reação foi tardia e levamos séculos terrestres para restabelecer o ciclo ideal d'A Roda, que correu considerável risco de parar de girar permanentemente. Aqueles lamentáveis episódios nos ensinaram a valorizar os menores indícios de oscilação, procedentes ou não, pois sabemos que um em cada quatrocentos episódios pode ser efetivamente perigoso para A Roda. Ao longo do tempo, no entanto, desenvolvemos estratégias que têm se mostrado eficazes em neutralizar essas oscilações. Essas ocorrências mais recentes atingiram nível 2B de alarme. Devemos, pois, aplicar o Protocolo Laranja, aprovado recentemente pelo Conselho.”

O Coronel Panthiakos ouvia e mal disfarçava a excitação e o prazer, antecipando alguma ação, afinal. Depois de tantos anos de treinamento para uma emergência, ele receava que uma situação assim nunca viesse a ocorrer antes que fosse deslocado para a Reserva. Sentiu o coração acelerar-se e o sangue correr mais rápido em suas veias e artérias com a perspectiva.

“Vejamos, Coronel” continuou o General, “quais são nossas metas, estratégias e providências:

Primeiro, devemos oferecer mais recompensas de curtíssimo prazo para aqueles que mais se empenharem nos Ciclotrons. Sabemos que, assim, quase todos os humanos abrem mão de praticar a geração de freqüências harmônicas, pois estarão sempre cansados demais ao fim de cada turno, embora ávidos para voltarem aos Ciclotrons no turno seguinte, e no outro, e no outro, até o fim de suas vidinhas miseráveis, só para conseguirem acumular mais quinquilharias inúteis.

Devemos restringir os contatos interpessoais profundos, oferecendo cada vez mais facilidades para a multiplicação de contatos superficiais e despersonalizados. Estes, sendo assépticos e menos emocionais, são facilmente controláveis via rede Ilusionik. Sabemos dos riscos que a multiplicação de contatos dérmicos e emocionais pode trazer à estabilidade do Sistema. Redobraremos ainda a vigilância para que não venham a ocorrer ajuntamentos de humanos em ambiente de silêncio. Reuniões de multidões, como o Sr. certamente deve ter aprendido na Escola de Oficiais Superiores, não trazem em si nenhum problema intrínseco e podem até ser muito úteis aos nossos objetivos, desde que haja níveis elevados de som e ruídos escolhidos por nós, que provoquem sempre a geração de ondas mentais de padrão desarmônico ou caótico. Assim procedendo, aliviamos as eventuais tensões inquisitivas. O questionamento daquela realidade que criamos para eles é o perigo maior. Poderiam vir a descobrir que não estão em estado parasitário com seus Ciclotrons e que nada os impede, na realidade, de levantarem-se e saírem andando por suas próprias pernas que, embora atrofiadas pelo desuso, poderiam levá-los aonde quisessem. Isso caso seus cérebros subjugados pudessem redescobrir a capacidade de observar seus próprios pensamentos cativos e então decidir pela liberdade de escolher o que pensar. Sabemos o caos que uma situação assim, de pensamentos expontâneos e não previsíveis, fora do padrão circular, poderia trazer. Haveria sérios riscos para a continuidade da geração da energia tão fundamental para a sobrevivência de nossa civilização superior.

O Ministério da Propaganda vem, como sempre, trabalhando duro na manutenção de nossa linha de convencimento sutil e é assim que desejamos resolver o problema. Em último caso, temos os focos harmônicos bem identificados e não teríamos maiores dificuldades em esmagá-los, se necessário. Essa, porém, seria uma estratégia de exceção. Devemos, porém, estar atentos a um perigo potencial: a última coisa de que precisamos são mártires. No passado uma estratégia desastrada aplicada em Jerusalém nos trouxe problemas graves, que levaram milênios para serem neutralizados, como o Sr. bem sabe.”

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cilada: Fui à Passeata

(Essa história eu escrevi em 2006, logo depois de estourar o escândalo do mensalão. O fogo da fervura estava quente na época, depois esfriou. Até hoje não entendo porque as denúncias contra Collor e PC Farias, que eram fichinha perto do que fizeram o PT e Marcos Valério, geraram os caras pintadas e o Impeachment, enquanto o mensalão até hoje não deu em nada.)

Nos meus tempos de estudante, nunca participei de atos públicos nem saí em passeata. Não fui do Diretório, pois achava que ser do Diretório era incompatível com estudar Medicina e que todos do Diretório eram comunistas, maconheiros ou pouco chegados ao estudo, que preferiam dedicar-se às ciências do ping-pong e do totó. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Há pouco tempo, recebi por e-mail um convite para participar de um ato público e passeata de repúdio à corrupção e à impunidade. Já trazia meu protesto solitário no vidro traseiro do carro há alguns meses, e, embora pouco à vontade, senti que não seria coerente se não participasse. Lá fomos nós, eu e minha mulher, domingo à tarde, para a grande manifestação que deveria acontecer na Cinelândia. Parei o carro à distância de alguns quarteirões e seguimos a pé, vestindo preto, como pedia a convocação. De longe avistamos o carro de som, e, em volta, uma multidão de cerca de doze pessoas. Deu vontade de voltar, mas já estávamos ali, fomos ver de perto como as coisas iriam ou não iriam se desenrolar.

Aos poucos percebemos mais pessoas de preto a distâncias variáveis, certamente esperando para decidir se se aproximavam ou não. Cerca de trinta policiais observavam de longe, tranqüilos de que não teriam muito o que fazer. O líder do movimento, um homem de cerca de quarenta anos, cara de pequeno empresário pintada de verde e amarelo, se apresentou e deu as boas vindas. Apresentou alguns dos outros gatos pingados, todos protestadores profissionais, pedindo pela punição dos assassinos de uma adolescente, pelo banimento da raça pitbull e outras causas mais ou menos nobres. Depois ele mandou o carro de som mandar ver. Atacaram com "Eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco azul anil" (que roubada!)

 "Meu amigo, essa não", protestei, "isso é hino da ditadura, essa aí não pode não!"

Não é possível que não soubessem. Mas meu protesto deu certo, não tocaram mais essa.

Um grupo estendeu uma bela faixa com a bandeira do Império, pedindo o fim da República e a restauração da Monarquia. Outros estenderam no chão um rolo de plástico de dois metros de largura por muitos de comprimento, estampado com muitas bandeiras do Brasil (era época de Copa do Mundo). Uma velha senhora trouxe um balde, que enchera de água no Amarelinho, algumas vassouras e uma caixa de sabão em pó. Alguns começaram a enxaguar o Brasil, para alegria da Imprensa, que a essa altura já se fazia presente e disparou as suas câmeras.  Algumas pessoas de preto deixaram as escadas do Municipal e as mesas do Amarelinho e se animaram a participar. Distribuíram adesivos com a palavra "Basta", narizes de palhaço e apitos, que começamos soprar furiosamente.

Apareceram as musas Lúcia Veríssimo e Christiane Torloni, que subiram no carro de som e fizeram discursos. "Parece que colocaram ecstasy no Guandu, ninguém protesta!" Concordei e achei que colocaram também nas Águas de Niterói.

Uma mulher, que se apresentou como empresária em dificuldades, pegou o microfone e disse saber de fonte segura que estava prestes a ser votado no Congresso um Projeto de Lei que estabelecia o confisco de qualquer ganho mensal individual superior a R$ 4.000,00. Alguns crédulos do Apocalipse Now arregalaram o olho. Vão pedir a volta dos Militares, pensei. Roubada!

Agitou-se uma enorme bandeira do Brasil e, depois, aquela pequena e heterogênea multidão, já cerca de quinhentas pessoas, saiu em passeata. A Lúcia Veríssimo acompanhou a pé até o fim, a Christiane eu não vi mais. Contornamos o Passeio e a Praça Paris, congraçando neo-monarquistas, neo-totalitaristas, P-Solistas, pequenos empresários endividados, jovens estudantes de coração puro e revoltados de primeira viagem (nós dois). Até que foi bonito. Viva a liberdade de expressão, esse valor tão caro!

Fomos para casa e ficamos assistindo o Fantástico para ver a repercussão, afinal a Globo também estava lá. Cid Moreira registrou o fato em cerca de sete segundos, uma frase. A Christiane Torloni apareceu em off no alto do carro de som.

Não me arrependo de nada!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Adeus, Dona Stella

Dona Stella no aniversário de cem anos
Dona Stella já tinha 94 anos de idade quando a conheci. Acompanhada de sua filha, adentrou o consultório com passos firmes, os cabelos brancos bem penteados em ondas suaves, que emolduravam um sorriso simpático e firme num rosto maquiado com elegância. Como sempre acontece quando atendo nonagenários, foi uma consulta de mão dupla: busco sempre desvendar os segredos da longevidade saudável. Não é novidade que as pessoas que chegam com saúde aos oitenta dificilmente vão necessitar de internação hospitalar nos anos que ainda têm pela frente. A predisposição genética é importante, mas, no caso de Dona Stella, acrescentava-se a ingestão diárias de várias porções de frutas, intercaladas com visitas freqüentes ao restaurante de comida mineira próximo de sua casa. Rabada, cozido, costela de porco, pastéis e bobó de camarão listavam entre seus quitutes favoritos. O mais significativo, porém, era sua leveza interior e a persistente curiosidade pela vida. Assistia novelas, mas também o noticiário. Tinha opiniões sobre os mais recentes fatos políticos nacionais e internacionais, que ela acompanhava na imprensa escrita e nos telejornais.  Não tinha qualquer queixa da velhice, nem física nem emocional. Ao fim daquela consulta, fiz o que sempre faço com esses veteranos da existência: dei-lhe um beijo onde se misturavam reverência e esperança nada científica de ser contaminado com o vírus da longevidade.

Aos 98, Dona Stella sofreu um AVC logo após o Natal, o que lhe restringiu gravemente os movimentos do lado direito do corpo. Nem isso, porém, lhe abateu o espírito. Continuou alerta, jovial e bem humorada. Uma vez, quando ela andava com dificuldade amparada por uma cuidadora, gingando o corpo para fazer avançar a perna preguiçosa, alguém começou a cantar “Na Boquinha da Garrafa”. A filha gravou a cena na câmara do celular. Dona Stella adorou o filme e pediu que fosse enviado para toda a família e amigos pela internet.

Tive a honra de ser convidado para a festa de seu centésimo aniversário. Na ocasião, os familiares se cotizaram para uma bela celebração com direito a bufê, garçons e discurso da estrela da noite. Guardo com carinho a fotografia em que eu e minha mulher estamos a seu lado – ela, como sempre, sorrindo com elegância. Brinquei na ocasião que, se tivesse sido avisado com antecedência, bancaria a festa, desde que ela usasse uma camiseta com os dizeres “manutenção feita pelo Dr. Ralph”.

Acompanhei a saúde de Dona Stella por treze anos desde aquela primeira consulta, passando a atendê-la em sua residência após o AVC. Sua figura nunca me suscitou pena. Mais que a fragilidade de seu corpo, sobressaía a força serena e altiva de seu espírito, que se conservava firme e jovial. Em todo esse tempo, ela nunca deixou de passar pelo menos uma temporada por ano na casa de sua juventude em Barra do Furado. Teve uma única passagem por hospital quando, durante uma temporada de férias, sofreu dores no peito, o que se revelou depois ser um alarme falso. Nessa internação, quando uma enfermeira lhe pediu que tirasse a dentadura ela protestou: “Que dentadura, minha filha? Estes dentes são meus!”.

Dona Stella tinha um único medo: que um de seus filhos partisse antes dela. Os temores tinham fundamento, pois, afinal, seus filhos aproximavam-se dos oitenta, e nem todos tinham boa saúde.

Então, veio uma gripe forte da qual ela custava a recuperar-se. Chamou a filha com quem morava e, muito séria, pediu o telefone: queria falar com o filho que mora no interior. “Lá vem você com bobagem”, pressentiu a filha. E ela séria: “Você vai me trazer o telefone ou não?” Falou então ao filho mais velho que sabia que sua hora estava próxima, fazendo ele prometer que não deixaria a irmã, que é solteira, desamparada. Que estava serena, sem qualquer medo da passagem que ela sabia próxima.

O quadro clínico, dessa vez, não evoluía bem, e insisti que fosse levada ao hospital. Uma vez internada, ela melhorou um pouco. Numa manhã, convidou a filha para cantarem juntas “lata d’água na cabeça, lá vai Maria...”. Riu um bocado, almoçou bem, pediu sobremesa e depois sorriu demoradamente. Então fechou os olhos e, serena, partiu.

Adeus Dona Stella. Foi um privilégio conhecê-la e conviver com a senhora. Se o céu existe, a senhora está lá.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Politicamente Correto e o Direito de Opinião

Freedom of Speech, por Norman Rckwell
Vejo nos dias de hoje um exagero perigoso do PC - Politicamente Correto. Existe enorme apetite da mídia em divulgar frases infelizes. A exposição ingênua (para não dizer exibicionismo puro e simples) dos anônimos em geral e das celebridades da hora, via Twitter, Facebook, Blogs e outras ferramentas de nossos tempos multiconectados facilita muito o trabalho. Não é à toa: seções tipo "entre aspas" das revistas semanais fazem enorme sucesso.

A bem da verdade,  todos dizemos umas asneiras de vez em quando (embora alguns sejam campeões). Coisas que nos envergonhariam se fossem publicadas: opiniões preconceituosas, frases infelizes, julgamentos tendenciosos ou equivocados. Lementavelmente, asneiras são muito mais fáceis de se ouvir do que frases inteligentes e opiniões relevantes. 

Nesta matéria, existe uma oposição entre dois conceitos de difícil convivência: a liberdade de expressão de um lado, e o combate ao chamado hate speech do outro, a incitação por meios de comunicação do ódio ou da violência contra qualquer grupo racial, étnico, religioso, político ou sexual. Em quase todos os  países, o hate speech é crime. Porém, nos Estados Unidos, a defesa da liberdade de expressão (freedom of speech) é tido como um valor maior do que o combate ao hate speech. A liberdade de expressão é um direito previsto não apenas na constituição norte-americana, mas também na Declaração Universal dos Direitos do Homem, elaborada na ONU e ratificada por quase todos os países (pelo menos no plano teórico). Porém, em muitos lugares e épocas, o livre pensar é só pensar, como disse Millor Fernandes. Mesmo nos Estados Unidos, a guerra fria fez o Macartismo parecer aceitável para a maioria dos americanos, assim como o Onze de Setembro pareceu legitimar a violação da privacidade de cidadãos de origem muçulmana em tempos recentes.

No plano doméstico, por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro ou qualquer outro cidadão brasileiro tem todo o direito de ser contra a união estável entre homossexuais, embora não tenha direito a incitar o ódio ou a discriminação contra homossexuais. Publicar no Twitter "faça um favor a São Paulo: afogue um nordestino no Tietê", como fez uma estudante de direito recentemente, é crime. Mas alguém dizer para seu vizinho "eu não gosta de pretos" (ou negros, ou, na linguagem PC, afro-descendentes) seria crime ou direito sagrado de opinião?

Há o risco do Politicamente Correto ser utilizado para restringir a liberdade de opinar, de questionar e de se manifestar contra o Sistema vigente, seja ele qual for. Citando Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Mais que burra, a unanimidade é a receita infalível para a estagnação e o atraso a longo prazo. Tanto faz se a unanimidade é imposta ou fruto de conformidade espontânea de um povo bovino. Os jovens atuais, que não viveram o regime de exceção, não têm a menor idéia do perigo que isso representa. Há, no Brasil de hoje, um relaxamento natural que pode ser (vem sendo?) utilizado pelo Sistema vigente para abafar qualquer idéia dissonante.

Se devemos nos indignar contra a prisão do Prêmio Nobel da paz Liu Xiaobo e o cerceamento da liberdade do artista plástico Ai Weiwei pelo governo chinês, devemos também defender com ardor o direito de Jair Bolsonaro ser contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo, independente de concordarmos ou não com ele. Vale reler 1984, de Orwell. E já na antiguidade, o poeta romano Juvenal se preocupava: afinal, quem vigia os vigilantes?