Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu Nazista?

O que aconteceu na Alemanha, ou melhor, com os alemães durante o Terceiro Reich é algo que me assombra e me faz pensar. Não o que Hitler e os demais líderes nazistas fizeram, mas como o povo alemão, ou mais especificamente, com cada alemão individual agiu diante das circunstâncias. Não me passa pela cabeça, e espero que não passe pela sua, que os alemães eram ou são um povo mau. Não, não eram e não são. Um povo como outro qualquer, pessoas como eu ou você, brasileiro, norte-americano, israelense, japonês, angolano ou neo-zelandês. Jovens que amavam suas namoradas, mães zelosas, pais decentes e trabalhadores, avós que, apesar da artrose, faziam doces para seus netos, professoras de jardim de infância, operários comuns, funcionários públicos. Que, no entanto, diante de determinadas circunstâncias, deixaram-se levar por líderes maus, agiram de forma bestial e desumana ou foram coniventes com os que agiam desta forma.

Não vou me deter muito nas circunstâncias. Não sou cientista político nem historiador. Entendo que a Alemanha vivia circunstâncias peculiares: derrotada na Primeira Grande Guerra, foi submetida a sanções terríveis a título de indenização às nações vencedoras daquele conflito. Amargava desemprego, hiperinflação, corrupção generalizada e desesperança. Faz-me lembrar as circunstâncias de alguns países da América Latina, um deles bem grande, começando com B, em passado bem recente. Até aí, nada de novo: a chocadeira perfeita para o ovo da serpente, o caldo de onde surgem e prosperam demagogos manipuladores com hábil oratória; onde se está predisposto a acredita no primeiro que aponte um culpado externo, um bode expiatório a ser sacrificado aos deuses para que estes voltem a sorrir para um povo castigado e sofrido. Algo assim com faz a torcida de um grande clube quando seu time está na zona de rebaixamento: espanca-se um ou dois torcedores do time rival ou da própria torcida, crucifica-se o goleiro que não interceptou um cruzamento e permitiu o gol da vitória adversária, queima-se o técnico em praça pública, picha-se os muros da sede do clube, e parece que fizemos tudo o que era necessário para resolver o problema.

Obrigo-me a me perguntar de vez em quando: e se eu fosse alemão e adulto naqueles anos sombrios? Apoiaria o Partido Nazista? Assistiria, entre extasiado e esperançoso, os discursos do Führer? Seguiria o líder que levaria a mim e a todo o meu povo, escolhido por suas qualidades especiais e superiores, à posição mais elevada entre as nações da Terra (agora fiquei com a impressão de já ter ouvido algo parecido em algum templo religioso)? Será que eu assistiria calado quando meus bons vizinhos, pai, mãe, as crianças que ainda ontem brincavam com meus filhos, fossem expulsos de casa e levados por homens fardados para não sei onde porque que, sim, agora me lembro, acho que eles não comemoram o Natal? Será que eu denunciaria meu colega que disputa meu posto na empresa porque o nome dele termina com Stein? Ou aquele outro vizinho de quem eu não gosto, que compra diariamente o dobro da quantidade de pães necessária à sua família e parece que tem hóspedes no sótão? Prefiro acreditar que eu não estaria imune a fazer tudo isso. Que eu provavelmente não iria por em risco minha família escondendo um amigo pertencente “àquele povo que matou Jesus” no meu porão. Que estaria sujeito, mesmo que não agisse erradamente, a lavar as mãos e assistir a tudo calado. Essas coisas já aconteceram muitas vezes ao longo da História, e, mesmo hoje, continuam acontecendo: tribos africanas, indistinguíveis aos nossos olhos, massacrando-se e mutilando-se mutuamente; hindus e muçulmanos atacando-se, unicamente porque são hindus ou muçulmanos; homens bomba explodindo-se em ônibus cheios de crianças; o próprio Estado judeu negando cidadania e confinando o povo palestino em guetos não muito diferentes do de Varsóvia. Não, a humanidade ainda não aprendeu. E eu, como membro da humanidade, preciso estar atento e desconfiado de mim mesmo todo o tempo. Nunca se sabe. Quando meus princípios são postos à prova, meus interesses querem sempre falar mais alto.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


Diários de Viagem I: Mildred e Suas Coleguinhas

Depois de quatro dias em Londres, havíamos planejado um giro pela região de Cotswold, onde nasceu William Shakespeare. Tínhamos esperanças vagas de encontrar Mr Darcy e as irmãs Bronté, pelo menos nos sonhos. Reserváramos um automóvel na locadora, e eu estava disposto e confiante para encarar o desafio de inverter meus neurônios e dirigir pelo lado esquerdo da estrada. Já havia buscado saber se a disposição das marchas, que seriam trocadas com a mão esquerda, eram invertidas ou não. Não, não são invertidas, e os pedais também não. Menos mal. Nossa intenção era alugar um GPS para aliviar o stress adicional de tentarmos nos orientar usando mapas, mas o simpático recepcionista somali da locadora nos disse que não havia nenhum disponível. Isso não chegava a ser uma desvantagem, confidenciou-nos, uma vez que o custo do aluguel seria 60% do valor de um aparelho novo, e, sim, a poucas quadras dali eu poderia achar um à venda. Partimos céleres pela Oxford Sreet até uma loja de eletrônicos, estilo muvuca, gerida por paquistaneses muito prestativos. De volta à locadora, instruções rápidas para o uso do GPS, e partimos, não antes de orarmos um terço para São Cristóvão.

Começamos a tentar nos entender com nosso brinquedinho afixado no vidro acima do painel. Uma voz feminina, com perfeita dicção inglesa nos orientava: “In two hundred yards, turn right, then turn left”. Eu, sem nenhuma noção de onde era o limite à esquerda de meu novo corpo de aço, sentia-me como o protagonista de Avatar estreando seu corpo de Na’vi, afora minha incapacidade inata para saber automaticamente onde é esquerda e onde é a direita sem ter que parar para pensar. Diga-se de passagem, os motoristas de Londres foram muito pacientes e gentis, só raramente me incentivaram com suas buzinas e algumas palavras de estímulo. Depois de entrar em algumas ruas erradas, exclusivamente por minhas dificuldades, nunca por incorreção das orientações de Mildred, chegamos à A 40, auto-estrada que nos levaria a Oxford, onde naquela mesma tarde eu viria a ser multado pela Transit Authority local por estacionamento irregular. Mas essa é uma outra história. A multa eu já paguei pela internet, não sem certo orgulho.

Depois que Mildred me tranqüilizou na A 40 com um “Drive forty two miles, then exit left”, relaxei. Quem é Mildred? Mildred é a voz feminina na opção British English do GPS, a nos orientar pelo infinito de estradas estrangeiras. Muito fina, a Mildred: dicção inglesa perfeita: “Enter roundabout than take second exit”. Um misto de segurança, compreensão e incentivo que realmente nos reconforta e estimula. Um pouco profissional demais no desempenho de suas funções, se me permitem um comentário, mas debaixo daqueles óculos, se soltasse aqueles cabelos louros, sei não. Minha mulher, como que percebendo suaves e imaginárias mudulações na voz de Midred, buscou em vão no menu a opção “voz masculina”, mas achou opções para praticamente todas as línguas vivas do planeta. Acho que tem até uma versão em latim.

Tentamos o Português – Brasil. Entra em cena a Claudinha. Voz doce, algo sussurrada, uma ligeira dificuldade na dicção dos S. Tem a Svetlana, 1,80 de altura, rosto lindo. Não entendi nada do que ela me dizia, a jovem camponesa de mãos calejadas e corpo de modelo. Consuelo, voz quente como a brisa da Catalunha, suaves nuanças a azeite. Gemma, me dando opções à destra e à sinistra. Mudamos ainda para “Português de Portugal”. Entra em campo Maria da Conceição. Voz um pouco grossa, um ligeiro buço, nada que me impedisse de sentir um arrepio quando ela me disse impositiva “Entre na rotunda”. Não deixei de reparar que Maria da Conceição, ao contrário de Mildred, me orientava a, depois de entrar na rotunda (hmmmm), pegar a segunda à direita. Ora, todas as saídas da rotunda são à direita. Fiquei imaginando um patrício, quem sabe um infeliz tio da Conceição, que, confuso, ficou esperando uma saída da rotunda à esquerda, sendo resgatado meio morto de sede e vertigens quinze horas depois, quando finalmente acabou o gasóleo. Então, o que abunda não prejudica.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Amigos e amigas

Compartilhando uma alegria: Fiquei eufórico quando cheguei de viagem e fui avisado pelo Mário - Kentucky Fried Chiken Mário - e pelo Alexadre Schott que meu conto "O Rival" está entre os 10 selecionados no concurso Contos do Rio para publicação no caderno Prosa e Verso de O Globo. Agradeço àqueles que me incentivam a escrever, em especial à fessora Fabiana Esteves. Valeu! Agora é pedir a torcida de vcs para que ele fique entre os três premiados.

Abraços

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Vou Viajar

Caros amigos

Vou ali e já volto, só duas semanas. Espero trazer boas fotos e impressões de viagem para vocês. Inté!

A Onça e o Ócio

É preciso que eu me habitue aos sons. Estou sozinho à noite, em Rio Bonito de Cima, e o tempo parece que vai virar. O vento balança os gerânios da varanda, que vejo logo atrás do vidro, iluminados pela luz do abajur da sala. Ouço o agitar-se das folhas e ramos, e um ramo partido que bate contra a clarabóia. Uma grande mariposa se debate contra a janela, farfalhando a intervalos. Nunca entendi porque insetos noturnos, tendo a vastidão do breu para exercitarem seus instintos em liberdade, pelejam a noite toda contra uma vidraça ou ao redor de uma lâmpada, seduzidos por um falso sol noturno. Os sapos, mais pragmáticos, ajuntam-se sob as lâmpadas e enchem a barriga com os anjos decaídos.

Ouço o vento como ondas que se aproximam, e depois falam de perto nas árvores em torno da casa. Deixo as cortinas abertas, e, através do vidro, a escuridão me vê. Penso na possibilidade da onça que, dizem, arrastou para a mata algumas ovelhas do Lizardo, o vizinho. Não acredito que tenha sido onça, mas gosto da idéia de uma onça rondando a casa, meu tio Iuaretê olhando-me com olhos de onça de dentro da escuridão. Apago todas as luzes e fico sentado imóvel na varanda, vendo o vento e imaginando a onça.

O fim do inverno é seco e traz ventos mornos que antecedem a volta das chuvas. A horta está em seu apogeu, os brócolis, a mostarda e a cebolinha lançam seus pendões floridos, anunciando o fim de seu ciclo. A salsa, o manjericão e a hortelã estão uns viços, melhores que nunca. As chuvas ainda não vieram, mas, depois de despirem-se para o frio, os caquizeiros revestiram-se de verde. A jabuticabeira que nasceu à sombra de um “pé de madeira” (como diz o Batista), cresce agora furiosa, depois que infligimos violenta poda na vizinha que lhe sombreava. E, pela primeira vez, seus troncos estão recobertos com florzinhas brancas, promessas de bolotas pretas. Hoje comi nêsperas doces de enjoar, que adiaram a fome do almoço por mais de hora.

Retiro de silêncio, a companhia do vento e dos insetos batendo no vidro. Ninguém com quem conversar. Um Porto, Henry Miller falando de seu Big Sur. Longas e deliciosas páginas sobre a luz e a incapacidade de enquadrar a luz em aquarelas. E sobre pessoas, todas as gradações entre o encontro com a simplicidade sincera e a busca tateante e angustiada por esta mesma simplicidade por almas imaturas para o encontro. Colocar-se no lugar perfeito, algum paraíso na Terra, ou colocar-se diante da mulher perfeita, e descobrir-se indigno e despreparado para paz e para o amor. Aborrecer-se com o silêncio, com os insetos, com o vento, com a falta de vento, com o frio e com o calor, com a solidão e com a companhia. Ou ver a perfeita sabedoria em todos os ciclos, estações do ano, nossos próprios ciclos. No engarrafamento, no escritório, em Big Sur ou em Rio Bonito de Cima.

Que venha a onça e me devore. Definitivamente, vai chover antes de o dia clarear.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Casa Dela

Na casa dela, havia uma lareira. No inverno, acendia-se a lareira umas poucas vezes, deixando as cortinas, os tapetes e as paredes suavemente defumados. No verão, o aroma permanecia lá, ou talvez permanecesse apenas na minha imaginação.

Na casa dela, o Natal era mais Natal que nas outras casas, ou, pelo menos, mais parecido com o que eu imaginava que deveria ser o Natal. A mãe, filha de alemães, cozinhava pinhões e fazia biscoitos amanteigados em forma de árvores, passarinhos, estrelas, meninos e meninas, e eles tinham gosto de amêndoas, limão, canela e erva doce. O pinheiro era de verdade, e era grande, decorado com centenas de pequenos enfeites muito antigos. Havia um misto de austeridade e alegria, e era bom sentir assim.

Na casa dela havia nas paredes aquarelas e quadros a óleo, um deles retratando um altar. Havia móveis bonitos e antigos, entalhados a mão pelo avô dela, artesão e artista talentoso que eu queria ter conhecido. O grande móvel da sala abria-se em muitas partes, e dentro dele abriam-se ainda outras menores, revelando espelhos, portinhas, pequenas gavetas e prateleiras de puxar. Tinha entalhes de frutas, coelhos e pássaros, por dentro e por fora.

Na casa dela havia um grande relógio de pé, o pêndulo oscilando em movimentos dourados, o tique e taque lento prenunciando o carrilhão solene e grave. Da sala, ouvia-se o murmúrio do rio que passava atrás da casa.

Na casa dela faziam-se geléias, torta de amora, purê de maçã, e o bule e a leiteira vestiam-se com gorros de lã no inverno.

Na casa dela tinha o irmão menor, que eu, a princípio, aturava por causa dela, mas que é meu amigo até hoje.

Na casa dela vivia ela, clara, sardenta, riso fácil, olhos verdes e tristes, a pele branca que só fazia ficar vermelha ao sol. Ela, que nunca me permitiu ir além da amizade, mas que acabou casando-se com um Ralph. Não com um Ricardo, um José ou um Fernando, mas um Ralph. O Ralph errado.

Meu coração freqüentou aquela casa por muitos anos, e, quando eu saía, ele ainda ficava. Uma parte dele ainda está lá até hoje e, de lá, nunca vai sair de todo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Palavras náufragas (Capítulo 27)

Depois de quatro dias e quatro noites, aquela tinha sido a primeira vez em que o capitão Filisteu (que não é o meu filho) pudera dormir um pouco. Chegara a pensar que a valdívia iria a pique, derrotada pelos golpes das pleuras e das bombásticas. Do interior da cabine, adivinhou que o dia amanhecera esquálido. Abriu a pústula e pôde ver o sol brilhando, enfim.

Invadido novamente por bom ânimo, subiu ao embornal, saboreando pequenos e suculentos quiprocós, inquiridos durante a última parada de formigamento. Sentiu-se deveras bem naquela manhã. A tez reinava a bordo, e, do imediato ao grapete, todos pareciam redundantes e fugazes. Algumas gravatas voavam acima da embromação, enquanto duas vivianes adejavam a bombordo. “Sinal de terra próxima”, pensou o capitão.

Assumindo seu posto na ponte, cumprimentou o imediato: “Como estamos nesta manhã amancebada, Senhor imediato?”

“Muito bem, Senhor capitão. Poucos danos, mantendo a patroa firme apontada para o pungente.”

“Abra as glutonas. Vamos tirar proveito desta elisa favorável.”

“Sim senhor, capitão". "Soltem as canjeranas! Abram as glutonas!”, berrou o imediato. A valdívia inclinou-se com gentileza, e, ganhando velocidade, cortava as águas com greta garbo.

Então, lá do alto do incesto da gáspea, o grapete gritou: “Terra à vista! A estibordo, capitão!”

Não houve tempo para comentários. De púlpito, tudo se transformou. Um açafrão tremendo sacudiu a valdívia, lançando todos no embornal. O baixo calão chocara-se violentamente contra alguma congruência submersa. Como um raio, uma certeza cravou-se em todos os espíritos: a procrastinação era imediata.

“Soltem as cecílias! Desfaleçam as falenas! Lancem as clarabóias!”

Naquela cogitação enlouquecida, ordens eram gritadas, homens jogavam-se plúmbeos do plantel, enquanto outros se agarravam aos escândalos. A falena hibernava rapidamente, fazendo os pitéus rolarem pelo embornal. Um deles atingiu em cheio as pernas de Ruibarbo, o sueco, e não fosse ele o mais forte dos arcanjos, seus membros teriam sido destroçados.

Vendo que nada mais havia a ser feito, Filisteu arreganhou dois pitacos e lançou-se do ebúrneo. Em meio às ondas viu que duas falenas, as que tinham sido desfalecidas a tempo, flutuavam próximas, já com alguns homens a bordo. Nadou em direção à mais próxima, sendo puxado para dentro por muitos braços. Ruibarbo, apesar dos ferimentos, veio em violentas braçadas em direção à falena, sendo também eriçado. Ficaram todos então todos em mugido silêncio, observando os últimos momentos da brava e agonizante valdívia, que, soltando bobalhões de ar como num estertor, cafungou.

Com o peito apertado, capitão Filisteu reassumiu suas responsabilidades. Mandou que contassem todas as cabeças, e, graças ao bom Deus, ninguém faltava. Ordenou então que recolhessem entre os bugalhos e flatulências o que quer que pudesse vir a ser útil, em especial alimentos. Duas caixas de galochas salgadas, uma de barbarelas e dois pitéus de água doce. Mandou então que remassem em direção à ilha recém avistada. A ilha, afinal, era um golpe de sorte em meio a toda aquela linhaça. A princípio, os homens seguiam calados. Mas logo Tristão animava a todos com piadas e canções indecentes. Em duas horas atingiram a avacalhação, que era violenta. Uma das falenas foi avacalhada, lançando seus homens ao mar. Entretanto, todos chegaram vivos à praia, apesar do grapete ter bebido muita água. Mesmo exaustos, muitos se ajoelharam e lançaram troças aos céus.

Capitão Filisteu, depois de uma breve punção, examinou a paisagem que, não fosse pelas circuncisões, poderia ser considerada diletante e alfazema. Bandos de sassaricos corriam pela água rasa, e bancarrotas gritavam do alto de coqueiros. Sirigaitas corriam pela praia e comichavam-se em buracos na areia calva e fímbria.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Elisa

É rude o riso que ris
desta minha rasa rima
com que, ridículo, rasgo
o peito e clamo de ti
em pleito vão cálido beijo.

És lisa e fria pedra
em que derrapa o sizo
e desliza infenso aos rogos da razão
rumo à impudica nudez
desta paixão.

Elide a esperança.
Destroça o anseio
deste louco afogado em meio
às vagas da ilusão.

Já que de ti, Elisa,
a ventura é imprecisa, vem,
arrepia com tua fria brisa
o que me resta de calor no coração.

domingo, 18 de julho de 2010

Saci 2

Seis e quinze da manhã, mês de julho. O despertador toca sobre a cômoda, fora do meu alcance. É um truque maligno que utilizo contra mim mesmo, e que me obriga a pensar com muita solenidade na hora de programar o despertador. Sem opção, levanto-me e escuto, em meio à escuridão, os pingos de uma chuva fininha descendo pela calha do telhado. Depois de escovar os dentes, sento-me na cama, acendo o abajur, e pego o Manual do Messias. Na verdade, uma fotocópia que Richard me deu, tirada do caderninho espiral original de Donald Shimoda, o Messias. Tem até as manchas e digitais de graxa. Digitais de Richard, claro; o original estava imaculado quando ele o ganhou de Donald. Abro aleatoriamente o caderno, e leio:

“Fé é uma coisa que você precisa carregar enquanto suas convicções dizem uma coisa e as emoções dizem outra. Quando elas se entenderem, a fé é peso morto: jogue-a no lixo.”

Tenho fé que vou me arrepender se não sair para caminhar. Visto-me, calço os tênis e saio na garoa fria. Atravesso o bairro ainda silencioso até o início da subida para o Parque da Cidade, a cabeça girando entre as várias pendências de minha agenda mental. Começo a subida, e a respiração vai ficando mais profunda e rápida, ritmada pelas passadas vigorosas morro acima. A parte alta do Morro da Viração está imersa em névoa, e, depois da última curva, depois da última casa, eu também penetro nas nuvens: primeiro a cabeça, depois os pés. Um forte cheiro de eucalipto, intensificado pela umidade, me acaricia os brônquios. Em meio a um silêncio de catedral, pássaros cantam: cambaxirras rasteiras, sabiás ensaiando para a primavera, dois inhambus conversando com seus pios lúgubres, um gavião que passa gritando lá no alto, e outros pios que eu não identifico. O escuro mantém acesa a iluminação dos postes, formando halos amarelos em volta de cada lâmpada. Umas pererecas se animam a esticar o expediente, e piam escondidas na folhagem. Em meio à névoa, as árvores mais distantes parecem fantasmas que me observam enquanto se dissolvem em tons de cinza degradée. Gostaria de ter trazido a máquina fotográfica. Lembro-me que quando eu tinha uns dezoito anos, fotografei uma vez em preto e branco os eucaliptos em meio à névoa em Friburgo, com a velha Canonet que meu avô Newton me deu. Aspiro lentamente a névoa, o silêncio, os eucaliptos, os pios dos pássaros e das pererecas. Perto do topo, uma rolinha sai voando assustada na beira da estrada, enquanto um saci some pulando no meio do mato molhado.

Pra Ver Saci


A existência ou não existência de saci é assunto, para muitos, controverso. Os que afirmam a inexistência baseiam sua convicção no frágil argumento de nunca terem posto os olhos em um. Ora, se pensarmos um pouquinho só, vamos reparar que quase todos os que não acreditam são pessoas da cidade, daquelas que nunca passaram uma noite numa fazenda ou numa casa de roça. Ou, se passaram, ficaram o tempo todo reclamando justamente daquilo que a gente, que mora aqui, mais gosta e aprecia: o silêncio, o ar limpinho, a falta de pressa. Ficam contando as aranhas no teto, imaginando se de noite elas vão descer penduradas por um fio bem na cara deles. Dão pulos na cama com qualquer barulhinho de morcego no forro ou de gambá andando no telhado. Até de barulho de vento eles têm medo. Vêm pra roça de salto alto, com lapitopis e vinhos estrangeiros. Tá na cara que essas pessoas não vão ver nunca um saci. Por que qualquer um na roça sabe que pra ver um saci a gente não pode estar apressado nem nervoso.


Agora se, mesmo vindo da cidade, que é lugar onde saci não põe o pé de jeito nenhum, o sujeito chega na roça e consegue se aquietar, aí pode ser que um saci apareça para esse sujeito. Tem que acordar cedo, assim que a saracura começa a gritar na beira do rio, levantar, tomar um golezinho de café com rapadura e descer para o curral ver tirar o leite das vacas, sem medo de pisar em bosta. Depois de prosear com os campeiros encostado na cerca, subir pra cozinha pra comer um angu com leite ou uma broa com manteiga. Mais tarde, talvez, ir até o ribeirão pescar um bagrezinho ou um piau pra fazer pro almoço. Antes do almoço, tomar uma cachacinha, que saci adora o cheiro de uma cachacinha. Cheiro de vinho ele estranha, que vinho é coisa que ele não tá acostumado, e diante de coisa estranha ele não dá as caras, que o bichinho é arisco como ele só. Mas importante mesmo pro sujeito ter chance de ver um saci é tirar um ronquinho depois do almoço. Mas também não pode acabar de comer e já correr pra cama ou pra rede, que isso, além de não ser bom pra digestão, é de muita má educação. Depois do almoço tem que comer um docinho de goiaba ou um docinho de mamão verde, ou um pouquinho dos dois, pra não fazer desfeita pra dona da casa, e sem faltar o queijinho, que é de lei. Depois tomar um café e prosear com o dono da casa, contar e ouvir uns causos. Só depois ir botar o bucho pro alto. Ajuda também um bicho de pé. Não tem coisa melhor pra gente ver um saci que ficar coçando aquela coceirinha gostosa no dedo do pé. Aí o sujeito tá no ponto.


Agora mesmo, que eu estou aqui nessa rede falando essas instruções pra vocês, se vocês não fizerem barulho e olharem com o rabo do olho pros lados do terreiro, vão ver que ali, perto do galinheiro, junto do pé de limão galego, tem um rebuliçozinho de folhas rodando. Aquilo, não tem erro, é saci na certa. As galinhas ainda não estão arreliadas por que ainda não perceberam o danadinho. E ali do outro lado, no bambuzal junto da porteira, escuta só, tão ouvindo? É isso mesmo, esse tec tec tec, que o caboclo desavisado pode pensar que o bambu grosso está rangendo por causa da brisa. Mas quem conhece sabe que isso que ‘cês tão ouvindo são os sacizinhos que, pra quem não sabe, nascem nos ocos dos paus e dos bambus, e já estão crescidinhos e no ponto de sair de noite pra ganhar o mundo, passando por uns furinhos que eles fazem, que depois, quem quiser eu levo vocês lá pra mostrar.


Então, vocês que já estão aí mais ambientados, já viram que saci é coisa que não falta por aqui. Agora, faça-me o favor, vem um sujeito da cidade dizer que saci não existe? E ainda dizem que a gente aqui é que é bobo e acredita em tolice. A gente pode até ter cara de bobo, mas bobos são eles, que se acham muito espertos, mas não sabem o nome de um pé de árvore, não sabem reconhecer o canto de um passarinho nem um pé de couve na horta. O sujeito não sabe nada disso e ainda acha que pode saber se saci existe ou não existe. Tenha a santa paciência!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Fim




Este conto foi escrito para o concurso “Contos de Rio” de O Globo, agora em 2010. Foi baseado neta foto de Marcelo Carnaval que era, até então, a mais votada pelos leitores para servir de base para os contos. Só que uma outra foto, de uma grande nuvem redonda sobre o Largo da Carioca, acabou sendo a mais votada, e tive que escrever outro conto.

Da janela de seu pequeno apartamento alugado no Catete, Margaret via a multidão caminhando em direção ao Centro, com velas acesas nas mãos e entoando cânticos. Muitas outras pessoas andavam a esmo, enquanto carros da polícia e ambulâncias tentavam abrir caminho com as sirenes ligadas.

Não se sabe ao certo como tudo começou. Dizem que foi um spam, desses que surgem e morrem periodicamente na rede. Contribuiu o fato de o América ter se sagrado bicampeão carioca, e o Flamengo estar há dois anos encalhado na terceira divisão. Ou talvez porque, desde o Natal, chovia diariamente no Rio de Janeiro, e já estávamos em fins de abril. O certo é que, aos poucos, todos foram se convencendo de que O Fim estava próximo. Na verdade, muito próximo. Não se sabia ao certo como seria, se pela água ou pelo fogo, se viria de cima ou de baixo, mas o mundo ia se acabar em 23 de abril, conforme cálculos seguros baseados no calendário maia. O que começou como motivo de piada passou a gerar risinhos amarelos e nervosos. Depois foi o caos e o pânico. Dívidas pararam de ser pagas, funcionários não compareciam mais a seus empregos, fornecedores só aceitavam pagamento à vista, e a economia parou. Os bares encheram-se de gente, mas a cerveja já havia se esgotado completamente em 19 de abril. Coincidência ou não, naquela mesma noite do dia 19, pessoas premidas pelo terror começaram a se jogar das janelas, se esborrachando nas calçadas como goiabas maduras. Na Nossa Sra. de Copacabana e na Rio Branco, ninguém se arriscava além da proteção das marquises. Disseram que uma civilização mais avançada, ou talvez o Messias em pessoa, viria resgatar uns poucos eleitos. Então, no dia 22, multidões se dirigiram a pé para a Central do Brasil, o Santos Dumont, o Galeão, a Catedral Metropolitana e o Sambódromo, iniciando uma vigília nos possíveis pontos de embarque, assunção ou abdução, conforme a crença de cada um nas diversas versões circulantes.

Já Margaret não tinha conseguido embarcar para Governador Valadares. Viu-se só, mais só do que nunca, se isso era possível. Não soube bem por que, mas achou, então, que era importante arrumar o apartamento. Encerou o chão, arrumou as gavetas e a estante, acertou o extrato bancário. Depois tomou banho, maquiou-se, perfumou-se, vestiu seu melhor vestido e sentou-se no sofá novo, na pequena sala do conjugado. Pagara a última prestação do sofá em março, e esta lembrança deixou-a estranhamente em paz. Suspirou de leve e ficou olhando para o bico dos sapatos por uns dez minutos. Pensou na solidão dos últimos anos. Pensou no namoro desmanchado na cidade natal, na tia que a criara depois da morte dos pais. Pensou no colega de trabalho que lhe era tão simpático, mas que ela repeliu quando ele a convidou para um cinema.

Então a campainha tocou. Pelo olho mágico, ela viu um homem desconhecido, forte e elegante, vestindo uma camisa justa de malha. Margaret pensou um pouco e decidiu que era hora de deixar para trás seus medos e escrúpulos. Resolveu abrir a porta, apesar do leve brilho azulado que aquele estranho emanava.

domingo, 27 de junho de 2010

João Saldanha e os Crioulos

Nestes tempos politicamente corretos, sentimos falta de pessoas diretas, sinceras, transparentes, que, como fazia sempre João Saldanha, digam o que pensam e realmente pensem o que dizem. Veja a entrevista no link lá embaixo, sobre a opinião do João sobre cabeleira black power no futebol. Tanto o João era sincero que, depois de classificar o Brasil para a Copa de 70 com a melhor campanha do Brasil em todas as eliminatórias, foi detonado pela ditadura porque recusou-se a obedecer um "palpite" do General Médici para a convocação do Dadá Maravilha. Na época, se um general dava um palpite, era prudente acatá-lo. Zagallo foi mais prudente e mais político, manteve a base das "Feras do Saldanha" e convocou o Dadá, que não tinha nada a ver com a história e nem jogou na Copa. E no fim, a "cassação" do João acabou ficando mais coerente com sua biografia.

Naquela época, Pelé era tudo: rei, gênio, crioulo, só não era afrodescendente. Aliás, este é um termo cientificamente equivocado, pois nós, chineses, suecos, zulus ou guatemaltecos, somos todos afrodescendentes, com muito orguuuulhooo, com muito amoooo-or.. Uns saíram mais cedo do nosso berço comum africano, outros mais tarde. Na boca do João, falar negão ou crioulo era carinhoso. Hoje ele seria atacado pelo patrulhamento. Pois, claro, até afrodescendente, dependendo do contexto e do preconceito de quem fala, pode ser pejorativo, e um negão de responsa ou de tirar o chapéu são termos claramente elogiosos. Temos que mudar o contexto e as mentes. Patrulhar as palavras só leva ao entrincheiramento. Meu filho tem um amigo, o Anderson, que é preto, crioulo, afrodescendente, negro, enfim, tem bastante melanina na pele e é um sujeito grande e forte, e estes são são os motivos pelos quais ele atende por Anderson Negão, ou simplesmente Negão. Seria sinal de preconceito se a turma de amigos deixasse de chamá-lo de Negão para serem politicamente corretos e imbecis.

Então, vamos deixar de frescura!

http://www.youtube.com/watch?v=fRzMKb7JvEg&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=c6VLhobB3mk&feature=related

sábado, 26 de junho de 2010

Dormir, acordar

Acordei. Abri os olhos, só um pouco: uma pálida luz além das cortinas. Decidi que era ainda muito cedo para levantar-me e fechei os olhos novamente. Pensei que dormiria de imediato, mas não foi o que ocorreu. Permaneci desperto por trás das pálpebras fechadas, mas, embora acordado, nenhum pensamento passou por minha mente, chamando minha atenção para correr por campos, examinar estratos bancários ou admirar um belo corpo imaginário de mulher. Minha atenção era como alguém de pé no ponto de ônibus à beira de uma rua deserta, em que não passa nada nem ninguém, esperando uma condução que nunca chega.

Abri os olhos. Busquei o habitual som dos bem-te-vis e sabiás madrugadores, mas pareceu-me que eles haviam deixado para acordar mais tarde. Decidi levantar-me. Coloquei meus pés nos chinelos e virei-me em direção a Isabel. Seu corpo inflava e desinflava-se suavemente sob o lençol, de costas para mim. No outro quarto, as crianças ressonavam baixinho. Paz. Um forte cheiro de terra, como o que recende aos primeiros pingos de chuva, permeava os cômodos da casa, espesso como creme de leite.

Fui até o banheiro, mas não senti nenhuma vontade de urinar. Lavei, então, o rosto e comecei o ritual de barbear-me. Molhei o pincel e espalhei o creme em lentos movimentos circulares, fazendo surgir aos poucos a espuma grossa e agradável. Achei por bem começar a deslizar o barbeador primeiro pelo lado esquerdo do rosto. Dei-me conta de que sempre, até então, começara a barbear-me pelo lado direito. Intrigou-me a idéia de nunca até então, havia-me permitido, ou melhor, havia sequer cogitado a possibilidade de exercer a liberdade de começar a barbear-me primeiro pelo lado esquerdo.

Enxagüei o rosto, lavei o pincel e o aparelho e espalhei a loção no rosto. Senti a sensação de frescor na pele, mas não consegui sentir o perfume, só o cheiro de terra. Dei-me conta então que, apesar do lusco-fusco no banheiro, havia-me barbeado com perfeição sem sequer cogitar em acender a lâmpada sobre o espelho. Mirei meu rosto refletido. Ultimamente vinha reparando, a cada manhã, o surgimento de uma pequena mancha aqui, o aprofundamento de um sulco ali, a bolsa sob os olhos a cada dia mais visível, um novo pelo nascendo da orelha... Hoje não. Hoje me via diferente. Parecia ver no espelho meu verdadeiro rosto, nem jovem nem velho, nem ingênuo nem desiludido, nem alegre nem triste. Fiquei fitando meu próprio olhar por longos momentos. Fui despertado por uma sensação fria e úmida em minha coxa esquerda, seguida por um hálito quente e um resfolegar familiar. Olhei para baixo e agachei-me para acariciar e abraçar Argos, meu pastor alemão. Quanta saudade e alegria! Seu pelo estava perfumado e sedoso como nunca. Abracei-o com ternura, com não fazia havia trinta e poucos anos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Trem

Na Nova Friburgo de minha infância, o trem era a alma, o horário, a maior personalidade da cidade. Tudo parava para ver e escutar. E ele desfilava pela avenida e por sobre a calçada da praça, lento, majestoso, como uma escola de samba completa, chamando aplausos e brilhos dos olhares infantis, meus e outros. O trem não passa mais. Passava para Bandeira, Villa Lobos, Goulart, Milton Nascimento.
Ao trem e àqueles que paravam para vê-lo passar.

Todo dia de manhã
café com pão,
café com pão,
café com pão,
café com pão.
Que trem é esse?
Pra onde vai
tão pontual, tão sempre igual?
Sem cancela que atrapalhe,
sem saudade que acelere
ou tristeza que lhe pare?
Da montanha, vai pro mar,
sobe serra, desce serra,
vê passar moça bonita,
o sol subir, o sol descer,
pára nunca pra pensar,
pra sentir ou para amar.
Só existe pra chegar.
E tá chegando,
vem chegando,
e chegando,
chegando,
ando,
dó.
Ufa... Parou.
Olha pra trás.
Todo mundo já desceu.
Volta? Não tem.
Trilho? Mais não tem.
Só silêncio...
Só silêncio...
Só silêncio...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobe?

Uma possível maneira de se contar a história da civilização seria através da história das profissões. Umas surgem, têm seu apogeu, duradouro ou fugaz, e depois declinam. Outras se mantêm firmes, sempre renovadas e necessárias, incluindo-se aí a mais antiga de todas. Passeador de cães e técnico de informática a domicílio são exemplos de profissionais surgidos recentemente que hoje se tornaram indispensáveis. Por outro lado, o comprador de garrafas de vidro, este pioneiro da reciclagem, desapareceu. Nunca mais vamos “saber quem tem mais garrafa vazia pra vender”, e a expressão vai talvez se extinguir junto com a profissão. Hoje vi um profissional que se encontra seriamente ameaçado: um amolador de facas. Talvez a profissão que mais vá deixar saudades, em especial nas esposas de maridos infiéis. Ainda mais uma vez ele me alegrou, exibindo seus dotes musicais e tirando melodias da lâmina de aço curvada com destreza contra a pedra de amolar - apesar de hino do Flamengo fazer parte de seu repertório.

Outra que parece encaminhar-se para existir apenas na lembrança dos mais velhos é a de ascensorista, essa profissão empolgante, feita de histórias cabeludas sem final e de piadas engraçadíssimas sem princípio. No prédio em que trabalho já suprimiram quase todos. Em alguns prédios, já se digita o andar antes mesmo de se entrar na fila do elevador. Nada de pigarrear na fila e empostar a voz para que “décimo terceiro” soe claro e másculo. Alguns elevadores falam com você, pedem para você liberar a porta, dão bom dia, mas a figura amiga do ascensorista vai deixar saudades. Muito embora sua presença nunca tenha sido suficiente para acalmar alguns radicais da claustrofobia. Conheço um senhor de 60 anos que vai ao cardiologista (eu, no caso) subindo 14 andares de escada. Semana passada ele me perguntou por que eu nunca lhe pedi um eletrocardiograma de esforço. Muitas de minhas pacientes idosas passaram a se sentir inseguras no transporte vertical sem a presença do ascensorista. Algumas me confidenciam que se sentiriam mais seguras na companhia tranqüilizadora deles em caso de pane entre dois andares, “apesar de ser mais um para consumir oxigênio”, ponderou uma. Sem falar no medo que sentem da porta automática. Estas, hoje, são deslizantes, mas já foram sanfonadas, algumas impecavelmente douradas e polidas com Silvo ou Kaol. Eram um terror! Amputaram muitos dedos distraídos, alguns narizes proeminentes e desencorajavam sexo no elevador.

Agora, me distraio vendo os passageiros tentando imaginar a que altura fica o sensor de presença que impede que a porta avance sobre seus ombros. As opiniões divergem. Meia altura? Na altura das orelhas? Toda a altura da porta? Aquele suave piiiii que soa baixinho quando estamos no limbo do elevador não transmite qualquer segurança à maioria dos passageiros, quando estes percebem a inquietante ausência do piloto no espaço defronte aos botões. Então, muitos deles tomam de assalto aquele cubo como um bando de sem terras invadindo um latifúndio, muitas vezes, sem esperar que os que estão dentro saiam primeiro. Tenho algumas teorias que explicam este comportamento aparentemente pouco civilizado:
Os ouvidos idosos não conseguem perceber o apito de altíssima freqüência do sensor, e, portanto, nem desconfiam da existência de um sensor;
Alguns passageiros sofrem de bursite aguda, que doeria de maneira inimaginável ao menor toque, e eles não estão dispostos a escorar uma porta de aço com o ombro;
Outros imaginam que serão triturados, cortados ao meio, ou pior, capturados vivos e arrastados prédio acima, deixando um membro ou uma víscera em cada andar;
Ou então é falta de educação pura e simples.

Percebi ainda que este comportamento nunca ocorre na presença do ascensorista. Então, vamos render nossas homenagens a este bravo profissional, nosso companheiro nos altos e baixos, depositário discreto das indiscrições humanas, exemplo de simpatia e da capacidade de se manter alerta em qualquer situação, que vai aos poucos nos deixando. Sua voz educada, que nos atualiza sobre os resultados da última rodada e nos alerta gentilmente “Olha o degrau!”, em breve não será mais ouvida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Toy Story III

Toy Story III – 1


Toy Story III, independente de ser um ótimo filme de animação, é uma grande história, porque aborda com sensibilidade e humor grandes temas humanos: lealdade, morte, o fim da infância, a chegada à idade adulta e a saída da casa dos pais, onde desfazer-se dos brinquedos é o rito de passagem.

Uma outra leitura: além dos brinquedos, também os pais são tomados por sentimentos de obsolescência quando os filhos vão para a universidade e deixam a casa paterna, o que na cultura americana são coisas quase sempre simultâneas. Assim como os brinquedos, os pais sentem-se abandonados e desnecessários, pelo menos após pagarem as últimas mensalidades da universidade. Para nós, pais, é um momento de passagem. Nossa função inata de transmitir o código genético herdado e aperfeiçoado desde o início da vida sobre o planeta, e de cuidar dos filhos até que eles mesmos estejam em condições de passá-lo adiante, está cumprida. Do ponto de vista estritamente biológico, tornamo-nos tão descartáveis quanto brinquedos velhos. Somos então confrontados com questões menos atávicas e mais subjetivas: que valores temos como seres humanos? Que diferença fazemos para a sociedade como um todo? Somos ainda úteis ou não acrescentaremos mais nada permanecendo vivos no mundo?

Assim como para os brinquedos, estas questões podem nos ser perturbadoras se então nos avaliarmos como inúteis. Pode ser, porém, um momento de libertação. Desincumbidos de nossa missão biológica, poderemos fazer, enfim, o que bem entendermos de nossas vidas. Assim como quando éramos solteiros, só que com menos hormônios, mais rugas e, se tivermos tido sorte e sucesso, mais dinheiro e a mesma quantidade de cabelos. Ou então, se não tivermos nada mais criativo para fazermos, temos a saída de emergência de fingir que estamos começando tudo de novo e nos fazermos indispensáveis para nossos netos. Então, assim como os brinquedos do filme, vamos recomeçar tudo com uma nova geração de crianças. Penso que pode ser uma ótima opção se for realmente uma opção, e não a única e desesperada saída para escaparmos de nossa imagem no espelho.

Toy Story III – 2

No momento mais hilário de Toy Story III, Buzz Lightyear, depois de resgatado das forças do mal, é acidentalmente “reiniciado” em sua pré-programação latina. Surge uma versão galante do bravo astronauta, cavalheiresco e sedutor, a exibir-se para a cowgirl Jessie. Indo além (ou para o infinito e além) das óbvias intenções mercadológicas para o público latino, os americanos parecem estar se dando conta de que perderam alguma coisa importante quando empurraram os mexicanos para o sul do Rio Grande.

Antes mesmo de se tornarem independentes, eles já haviam empurrado os franceses para o norte do São Lourenço. Inúmeros filmes, depois da segunda guerra mundial, tentaram mostrar os europeus, e em especial os franceses, como esnobes arruinados tentando manter a pose diante de americanos endinheirados, simpáticos e modernos, porém sem pedigree, mal disfarçando o complexo de vira-latas. Algo como as emergentes da Barra diante das tradicionais e dilapidadas socialites do Rio de Janeiro.

Os mexicanos vão, por seu lado, silenciosamente retomando o território que vergonhosamente lhes foi amputado na Guerra Mexicano-Americana, e avançando além. A vigilância, as cercas e até os muros erguidos recentemente na fronteira com o México não têm impedido a entrada de hordas de vizinhos do sul (nem de drogas ilícitas). Cidades como Los Angeles, Las Vegas, Sacramento e San Francisco, que mantiveram seus nomes originais como que esperando serem reconquistadas, vão sendo mais e mais ocupadas por falantes do espanhol.

Depois de incorporarem judeus, italianos, irlandeses e muitos outros imigrantes, e de admiti-los como parte do cerne de sua sociedade e da sua cultura (os negros parecem compor uma outra nação dentro da nação), agora são os cucarachos que contribuem com suas cores e temperos para o grande caldo cultural norte-americano. Quando Richard Gere achou que a vida andava sem graça, foi para Jeniffer López que ele disse: “Baila Comigo”. Na gelada e fictícia South Park, Colorado, Cartman, Kyle, Stan e Kenny, discutem, durante a semana latina da escola, se devem pronunciar “djéniffer” ou “réniffer” López. Antonio Banderas faz o charmoso e heróico gato de botas em Schreck II. Salsa, mambo, temperos, quadris curvilíneos e malemolentes, devoção a santos e sexo destituído de culpa, todos vão inexoravelmente avançando de braços dados para latitudes mais altas, liderados por divisões de blindados armadillos*. Quem sabe, um dia, antas e capivaras atravessarão a ponte do Brooklyn e desfilarão em triunfo por uma Manhattan subjugada?



* O armadillo é nosso velho e conhecido tatu. Até recentemente, viviam exclusivamente nas Américas Central e do Sul. No século passado, iniciaram uma expansão de seu território em direção ao norte, e hoje já fazem parte da fauna de diversos estados norte-americanos. Não, eles ainda não estão esburacando os jardins da Casa Branca.